A mexicanização de São Paulo 46

26/10/2012-11h35

A julgar pelas aparências, o Brasil ou, ao menos, o Estado de São Paulo caminha para “mexicanizar-se” em termos de violência.

O que a Folha chamou, adequadamente, de “explosão de assassinatos” ocorrida em setembro tem como uma das explicações “o acirramento do confronto entre policiais e criminosos”, sempre segundo a Folha.

É a explicação que o governo mexicano sempre dá quando cobrado sobre a violência no sexênio de Felipe Calderón, prestes a se encerrar: das 55 mil mortes ocorridas no país, 80% pelo menos se deveriam ou a confrontos com as forças repressivas ou a ajuste de contas entre os carteis do narcotráfico.

O subtexto dessa explicação é sinistro: o cidadão comum, que nem veste farda nem é bandido, não tem porque ter medo porque suas chances de ser vítima são reduzidas. Tolice pura. O medo se instalou no México, como em São Paulo, porque a violência é parte indissociável do cotidiano.

Aliás, o número de vítimas de homicídio dolosos e de latrocínio no Estado de São Paulo, de janeiro a setembro, dá 3.826. Se se pudesse extrapolar para um período de seis anos, teríamos 30 mil vítimas só em um Estado, quando, no México inteiro, foram 55 mil – o que torna os dados desgraçadamente comparáveis.

Quando se transformam os números brutos em assassinatos por 100 mil habitantes, dá um infernal empate entre México e São Paulo (10 por 100 mil, com a diferença apenas depois da vírgula). Se se tomar o Brasil inteiro, piora para o Brasil: dados do Banco Mundial para 2011 apontavam, no Brasil, 26 mortes/100 mil habitantes, contra 11/100 mil no México.

Em ambos os casos, trata-se de uma epidemia ou de uma guerra civil não declarada que precisa ser enfrentada de outra maneira.

É impossível discordar da avaliação que Martim de Almeida Sampaio, presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB, fez para a Folha: “São números [os de setembro] assustadores. Revelam a face clara e contundente da falência da política de segurança pública. O governo tem razão em dizer que nunca se prendeu tanto, que nunca houve uma política igual para construção de presídios e que nunca se investiu como agora. Mas esses números revelam que nada disso funcionou”.

O que fazer, então? Chamar o Exército, como o México o fez, com resultados controvertidos? Não sei, mas é um tema que precisa entrar no debate público. Afinal, o Rio parece sentir-se melhor agora que algumas (poucas) favelas foram “pacificadas” (o termo, por si só, indica que há uma guerra). E a “pacificação” mais midiática, a do favela do Alemão, só foi possível porque as Forças Armadas deram apoio à polícia.

O que definitivamente não resolve nada é a Secretaria de Segurança Pública dizer que houve “pequena alta” no número de homicídios. O que precisa haver é uma “grande queda”. Qualquer outra coisa é fracasso. Ponto.

Clóvis Rossi é repórter especial e membro do Conselho Editorial da Folha, ganhador dos prêmios Maria Moors Cabot (EUA) e da Fundación por un Nuevo Periodismo Iberoamericano. Assina coluna às terças, quintas e domingos no caderno “Mundo”. É autor, entre outras obras, de “Enviado Especial: 25 Anos ao Redor do Mundo” e “O Que é Jornalismo”. Escreve às terças, quintas e domingos na versão impressa do caderno “Mundo” e às sextas no site.

fonte: Folha de São Paulo

“É a imprensa que fica criando pânico na população, sem apurar nem confirmar os fatos” 32

Sábado, 27 de outubro de 2012 – 07h51

Toque de recolher

Em noite violenta. 15 pessoas são mortas na Grande São Paulo

Agência Estado

Depois de mais 15 mortes em menos de 24 horas na Grande São Paulo, boatos de toque de recolher e medo de represálias de criminosos fizeram comerciantes fecharem as portas mais cedo nesta sexta-feira em áreas da capital e de Osasco. Empresas também liberaram funcionários antes do fim do expediente e pelo menos uma instituição de ensino cancelou as aulas.
O coronel Marcos Chaves, do Comando de Policiamento da Capital, disse que os boatos se intensificaram durante a tarde. “Ficou um pandemônio”, disse. Até no bairro onde ele mora houve boato de toque de recolher. “Mandamos as viaturas checarem, mas nenhum caso era verídico”, garantiu o oficial.

Créditos: Folhapress

Viatura da Polícia Militar com perfurações provocadas por tiros na Lapa (SP)

De acordo com o coronel, a partir da semana que vem a polícia vai desencadear uma série de operações contra crimes como tráfico de drogas, roubo e homicídio. “Estamos fazendo um planejamento diferenciado para colocar em prática depois das eleições”, informou.
Antes, a polícia havia atribuído o pânico a boatos da imprensa. “É a imprensa que fica criando pânico na população, sem apurar nem confirmar os fatos”, disse o capitão Rodrigo Cabral, da assessoria de comunicação da Polícia Militar, por volta das 18h.
No mesmo horário, comerciantes da Avenida dos Remédios, na zona oeste paulistana, fechavam os estabelecimentos uma hora antes do normal. “Os seguranças da rua vieram pedir para as funcionárias fecharem a loja porque ficaram sabendo do boato. E elas fecharam assim como as lojas vizinhas”, relata Lucélia Muniz, dona de um café no local. Segundo ela, a movimentação nos arredores estava normal, mas o trânsito de helicópteros chamava a atenção.
Estatísticas divulgadas anteontem pelo governo mostram que o número de homicídios na capital cresceu 96% em setembro deste ano, em comparação com o mesmo período de 2011. No Estado, a alta foi de 26,6% comparando os mesmos meses. Os casos de latrocínio (roubo seguido de morte) também dispararam – houve 225% mais casos na capital neste ano.

Em 24 horas, 20 pessoas são mortas em SP; Osasco tem toque de recolher 79

Colaboração para a Folha.com Do Agora

Um dia após anunciar o aumento de homicídios no Estado e depois de uma noite sangrenta na capital e na Grande São Paulo, o secretário da Segurança Pública, Antonio Ferreira Pinto, disse que a alta da violência é uma “onda”.

Em menos de 24 horas, foram registrados ao menos 20 assassinatos na cidade e na Grande São Paulo (incluindo suspeitos em confrontos com a PM) na região –mais que o triplo da média diária de seis assassinatos registrada neste ano.

“O índice de crimes varia como uma onda. A estratégia do governo não está errada, ela está corretíssima. Vários autores de homicídios foram presos e vão nos dizer qual a motivação do crime. O combate feito pelos policiais é efetivo e temos certeza de que vamos reverter esse quadro.”

Ferreira Pinto respondia aos repórteres, em evento no Palácio dos Bandeirantes, sobre os mais recentes números relativos à criminalidade.

Dados divulgados ontem pela secretaria apontaram uma explosão dos homicídios dolosos (intencionais) em setembro, na comparação com o mesmo período do ano passado. Em todo o Estado o crescimento foi de 27% –na capital, quase dobrou: 96%.

Editoria de Arte/Folhapress

O secretário criticou a imprensa, que fez a comparação dos números com o mesmo período do ano anterior. Para ele, o correto seria comparar setembro com agosto.

“Se você comparar com o mês passado, houve um aumento de 3%. Mas, se pega um número maior, que dá mais repercussão, como do ano passado pra cá, aí aumentou significativamente.”

Essa comparação aconselhada por Ferreira Pinto não é correta até por questões sazonais, segundo recomendação feita pela própria secretaria no site oficial da pasta.

No documento “Estatística da Criminalidade – Manual de Interpretação”, elaborado pela Coordenadoria de Análise e Planejamento, a “recomendação é que comparem, sempre que possível, períodos equivalentes de tempo” –ou seja, setembro com setembro e não setembro com agosto.

NOITE SANGRENTA

As mortes de ontem e desta sexta-feira aconteceram em diversas regiões. Entre elas estão um PM assassinado na Vila Curuçá (zona leste) -o 88° policial morto este ano por criminosos- e supostos ladrões que roubaram um taxista e um banco.

Eduardo Anizelli/Folhapress
Policial pericía moto de PM morto a tiros na Vila Nova Curuçá, zona leste de SP, na noite de quinta-feira (25)
Policial pericía moto de PM morto a tiros na Vila Nova Curuçá, zona leste de SP, na noite de quinta-feira (25)

Policial pericía moto de PM morto a tiros na Vila Nova Curuçá, zona leste de SP, na noite de quinta-feira (25)

Após a morte do PM, que trabalhava na Rocam (ronda com motos), três pessoas foram mortas a tiros na mesma Vila Curuçá. Questionado se os crimes tinham relação entre si, o delegado-geral de Polícia Civil, Marcos Carneiro Lima, disse que era cedo para estabelecer esse elo.

Segundo o delegado, as mortes podem ter ocorrido por disputas por pontos de tráfico, retaliações de criminosos ou brigas de vizinhos.

Apesar de o secretário dizer que os suspeitos estão sendo presos, nenhum dos assassinos nos crimes das últimas 24 horas foi detido.

Em Osasco, o comércio no centro e em mais quatro bairros baixou as portas por temor de violência, após informações sobre toque de recolher determinado por criminosos. Para o governo, foram boatos sem fundamento.

MORTES

25/10/12 18h50 – Motoboy é morto a tiros na rua Avonquaro, em Guaianazes, zona leste 20h10- PM é morto a tiros na avenida Flamingo, Vila Nova Curuçá, zona leste 21h – Homem é morto a tiros na avenida Engenheiro Antônio Eiras Garcia, Jardim Esmeralda, zona oeste 22h – Um homem e morto e dois são feridos em troca de tiros com a PM na rua José Fugulin, em Campo Grande, zona sul 23h – Um homem e uma mulher são mortos a tiros na Estrada do Embiruss, em Carapicuíba (Grande SP) 23h30 – Homem é morto a tiros na avenida do Cursino, na Saúde, zona sul 23h39 – Um homem é morto a tiros e outro ferido em bar na rua Jiparaná, na Parada XV de Novembro, zona leste

26/10/12 0h34 – Ajudante é morto a tiros na rua Pau Brasil, Jardim Pinheirinho, em Embu das Artes (Grande SP) 1h – Homem é morto a tiros na rua Santo Dias, em São Bernardo do Campo (Grande SP) 1h53 – Homem é morto a tiros na rua Isarael Ferreira Ferro, no Jardim Carumbé, zona norte 7h52 – Homem é morto com tiro na nuca na rua Charles Lampe, no Jardim Maristela, zona sul 12h50 – Dois corpos são encontrados em um carro em Parelheiros, zona sul 14h12 – Dois homens são mortos após tiroteio com a PM na Vila Andrade, zona oeste 16h30 – Dois homens são mortos a tiros e um ferido na avenida dos Igarapés, Vila Curuçá, zona norte

17h – Dois homens são mortos em troca de tiros com a PM na avenida Maria Cândida Pereira, Vila Endres, em Guarulhos (Grande SP)