“In Vitro, In utero”…Rape Me ( ou Aborte-me )
“Não, ela não foi lá para interromper uma gestação. Foi lá para ‘congelar’ o futuro. Ainda assim, foi abortado: o projeto de vida que a sustentou foi interrompido por um sistema que vende esperança em protocolo e chama tudo de ‘risco aceito’.”
Ela veio de longe. Do Rio Grande do Sul a Mogi das Cruzes, quase sete horas, um salto na rotina de juíza, na lógica de um corpo que, em teoria, já estava no controle: juíza, jovem, forte, dona de um futuro brilhante administrando sistemas , protocolos , prazos e sentenças estéreis .
Sim , sentenças sem vida , sem criação e sem comprometimento com o resultado para as partes.
Mas, quando se trata de útero, a verdadeira mãe criadora , a “natureza” de deus , o Estado apenas assiste.
O mercado, sim, decide o que fazer com ele.
Ela não foi lá para desmanchar um filho, mas para “congelar” o tempo.
In vitro, no útero, no futuro.
Quem orienta uma mulher de 34 anos a atravessar o país para doar seu sangue, sua dor e sua anatomia em troca de um diferimento da procriação !
Diferir , ou seja , adiar por conta própria sem o deferimento da natureza …
Ou sem o consentimento de Deus , como alguns dirão!
Uma clínica que promete “segurança”, um médico que calcula taxas de sucesso, um sistema que vende esperança como se fosse um plano de saúde para o útero.
Ela entrou sedada, como se fosse um obséquio voluntário ao próprio corpo: “vou preservar minha fertilidade”.
Não entrei lá – ela diria numa petição – para correr risco de vida, mas para cumprir uma sentença que me foi emitida por uma sociedade que sussurra que, depois dos 35, tudo desmorona.
A clínica virou um tribunal de tubos de ensaio, onde a carne é ré, mas o processo é pago e “legítimo”.
O que se chama de “complicação rara” para a estatística foi , para ela, morte.
Qual o quê!
A promessa de um óvulo preservado em nitrogênio líquido não compensa as artérias uterinas rompidas, o sangue que não para o corpo que se nega a obedecer à ordem de “futuro seguro”. In vitro virou, de fato, em valor: um corpo virou gelo antes das cinzas , um desfecho virou manchete.
Uma juíza morreu buscando assegurar a maternidade !
Quem lucra com isso?
A indústria que vende a possibilidade de atrasar o relógio biológico, que transforma a ansiedade da gravidez em pacote de tratamento, que faz com que as mulheres como ela sintam que, se não congelarem agora, serão “falhas” amanhã.
Um crime!
Não é um crime de um profissional isolado, é um crime de um modelo que vende sonhos muito , estimulados por protocolos de falsa medicina , consentimentos em papel, procedimentos em clínicas “obscuras” …
E depois a tudo isso se chama de “risco aceito”.
Não é preciso suspeitar que ela tenha ido lá para abortar para entender que foi violada.
A violência não é apenas um instrumento, é o sistema inteiro que a convenceu de que o corpo dela era matéria‑prima para um projeto de futuro que não lhe pertence de verdade.
A clínica, o marketing, o discurso de “autonomia”, o silêncio sobre mortes raras demais para preocupar as igrejas , os políticos conservadores e todos que faturam bilhões .
Isso é o que merece o nome sujo de aborto institucional.
Rape Me, nesse caso, não é um grito de compaixão à violência sexual, mas um espelho de como uma mulher, em nome de um futuro prometido, foi autorizado a entregar seu corpo a um procedimento que, ao mínimo, está cheio de arrogância “científica“!
E a sociedade, mais uma vez, olha para o cadáver e diz: “mas ela quis, ela assinou , ela pagou”.
Ela quis, sim, continuar viva. Quis ter tempo. Quis escolher em que útero, com quem, quando, sob quais condições, um filho surgiria.
Mas a máquina que vende essa escolha não se submete a ela, submete ela a si.
E aí , o título gritante, duro e sem concessão:
In Vitro,
In Utero…
Rape Me…In Paz!
Ao corpo, mas nunca à indústria que se autoriza, em nome da ciência e da autonomia, a levar as mulheres ao limite entre o projeto de vida e o fim prematuro.
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Advertência : o texto é uma crônica manifesto, em duas vozes , sem densidade teórica e na tonalidade peculiar do Flit .
O que se tenta fazer aqui é colocar a morte da juíza no centro de um processo maior : o corpo feminino como fronteira entre natureza, tecnologia e mercado, onde o “Rape Me” é um berro de dor.
Trilha sonora: Nirvana