LIBERTE-SE DO PASSADO E DOS LIVROS – A Incoerência de Boteco – Espinosa, Krishnamurti e Lemmy no Mesmo Balcão de Puteiro Resposta

Aos vinte anos, quando nasci em Gotham City , joguei um livro de Krishnamurti no chão.

Ele tinha acabado de me dizer:

“Não acredite em nada que alguém lhe diz, eu inclusive.”

Pensei: “Pra que continuar lendo então?”

Junto a “bíblia” …

O repositório da escravidão intelectual …

O reservatório de todos que nos escravizam!

Quarenta e cinco anos depois, entendo que aquele gesto — metade rebeldia, metade sacação filosófica — foi mais “krishnamurtiano” do  que terminar o livro reverentemente numa estante de autoajuda.

Naquela época virei  macrobiótico, bebia chá verde – melhor seria fumar um verde – , e provavelmente acreditava que carne vermelha atrapalhava a iluminação.

Meu tempo intempestivo de Love Devotion Surrender do Carlos Santana & John McLaughlin…

Puta música chata do caralho” …( O Titio Artrite faria melhor ! )

Época que durou poucos meses!

Desde sempre  prefiro churrasco, uísque, e conversas de boteco – ou de bocas – que só fazem sentido depois da terceira ou quarta  dose.

Alguns diriam que regredi.

Eu digo que finalmente entendi Espinosa.

O filósofo  judeu português- holandês — excomungado por judeus, odiado por cristãos, e incompreendido por quase todo mundo — tinha uma ideia simples e perigosa: a virtude não está em negar a natureza humana, mas em compreendê-la.

O Judeu que depois de Jesus faz diferença para a humanidade…

Os demais , que me desculpem!

Não os considero judeus!  

Sem perder o foco , eu sempre perco , não existe pecado cósmico em gostar de cerveja, mulheres ou guitarra distorcida.

E sem machismo , existo pela minha mãe e pelas mulheres que gostaram de mim e me protegeram até hoje!   

No assunto ,  problema é viver mecanicamente, repetindo padrões por medo, culpa ou obediência cega a algum guru (religioso, político ou nutricional).

Krishnamurti dizia exatamente isso, só que com vocabulário oriental.

Ele passava horas explicando que deveríamos nos libertar do passado ;  não no sentido de perder a memória como um personagem de novela, mas de parar de viver prisioneiro das experiências acumuladas.

O “eu” que você acha que é  só uma construção mental.

Você  ( nós ) não precisa carregar esse personagem pela vida inteira como quem arrasta um cadáver.

Aí entra Lemmy Kilmister, baixista do Motörhead, bebedor profissional de Jack Daniels, e filósofo acidental do rock’n’roll.

Lemmy tinha uma regra simples: “I don’t do regrets.”

Ele não perdia tempo remoendo o passado nem planejando futuros utópicos.

Tocava alto, bebia pesado, transava quando dava – mentia muito –  e morreu fazendo exatamente o que gostava ; sem culpa, sem desculpas, sem teatro existencial.

Salvo o Jacomi mais de mil …risos

Espinosa chamaria isso de viver segundo a própria natureza.

Krishnamurti diria que é liberdade do condicionamento psicológico.

Lemmy só ligava o amplificador no 11 e tocava “Ace of Spades”.

Letra meio esquisita tipo British Steel …

Melhor deixar pra lá , já que hoje é crime falar sobre tais coisas …

Tipo criticar no Brasil o tal sionismo…

Afinal , que porra é essa de sionismo à brasileira?   

A filosofia do boteco

Eu digo , tem algo profundamente filosófico nas conversas de boteco às três da manhã.

Ali, longe da pose acadêmica e da solenidade dos seminários, as pessoas falam o que realmente pensam.

Não há plateia para impressionar, nem currículo Lattes para engordar. Só gente bêbada o suficiente para ser honesta e sóbria o suficiente para ainda articular ideias.

Depois das cinco da manhã …Só merda!

Espinosa dizia que o conhecimento verdadeiro vem da razão livre, não da autoridade. Krishnamurti insistia que a verdade não pode ser encontrada em livros, mas na investigação direta da própria mente.

E Lemmy?

Lemmy simplesmente vivia sem pedir permissão a nenhum manual de conduta.

Eu aprendi a rejeitar dogmas — todos, sem exceção — salvo aqueles que consigo fundamentar racionalmente: direitos naturais,  como a vida , a liberdade individual, dignidade humana em todos os aspectos .

O resto é teatro social. Moral de rebanho.

Gente,  repetindo o que ouviu de alguém que ouviu de outro alguém que leu num livro escrito por quem nunca viveu o que pregava.

Absurdamente , convivi com doutores que negam a existência de um direito vindo na natureza humana …

Eles preferem afirmar que são meros instintos e que o direito é simples norma imposta pelo Estado …

Pode ser!

Tanto que não me sinto obrigado a cumprir e respeitar uma grande parte dessas normas de conduta …

E com jeitinho a gente aprende a burlar para o bem ou para o mal…

Até a suposta leis de Deus!

O paradoxo da memória

Claro, tem o paradoxo: como me libertar do passado se ainda lembro dos livros que li? Krishnamurti distinguia entre memória funcional (lembrar onde você mora, como dirigir) e memória psicológica (aquela que transforma experiências em identidade fixa, mágoa permanente, script que você repete automaticamente).

Eu lembro que tentei ser macrobiótico idiotia .

Orientalista…

Um VEGAN0, como se autodeclaram atualmente…

Mas não sou – nunca fui –  aquilo.

Lembro que joguei o livro de Krishnamurti no chão.

Mas não vivo definido por aquele gesto.

A memória existe, mas não me controla  como um arquivo que você consulta quando necessário…

Não como uma prisão onde você mora.

Espinosa diria que isso é liberdade: compreender as causas que te determinam sem ser escravo delas. Quanto mais você entende por que age de certa forma, menos age por puro automatismo.

Gosto de cerveja, churrasco e rock pesado (contra o moralismo teísta e o vegano-macrobiótico).

Mas , ainda,   me mantenho o apaixonado por  Espinosa,  por teoria do delito  e debates filosóficos (contra o Anti-intelectualismo rasteiro).

Curto Motörhead e garotas ( delas apenas lembro ) , alguma leitura sem método ou falsa pretensão erudita…

Nunca soube escrever análises profundas sobre nada …

Apenas sobre mim mesmo!

Escrevo ,  talvez bem , contra a boçalidade de detergente!

Não vejo contradição nisso.

Espinosa foi perseguido justamente por dizer que a virtude não está em negar a natureza, mas em vivê-la racionalmente.

Krishnamurti foi marginalizado por dizer que a verdade não vem de autoridades externas, mas da percepção direta.

E Lemmy?

Lemmy foi Lemmy ; e isso, filosoficamente, é impecável.

Conclusão (que não é conclusão)

Se Espinosa, Krishnamurti e Lemmy estivessem no mesmo boteco às três da manhã, aposto que concordariam numa coisa: viva autenticamente, sem imitar modelos externos.

Questione tudo (inclusive a si mesmo).

Não carregue o passado como fardo.

E, pelo amor de Deus (ou da Natureza, ou do Nada), não seja chato.

Cuidado com os “dogmas dos pais” …

Eu joguei o livro no chão.

Parei de beber chá.

Voltei a comer carne.

E nunca estive tão filosoficamente coerente.

Porque coerência não é repetir o que você disse ontem.

É ter coragem de mudar quando a vida — e não algum  “Livro” ou Sacerdote   — te mostra que é hora.

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