Santa Catarina precisa ser investigada de fora para dentro …Melhor o pé no capim do que o pé na cova …Nóis vai descer …vais descer…vai descer : prá vala no finalzinho de ano! 11

Florianópolis, janeiro de 2026. A “ilha da magia” cavou mais um buraco na terra e enfiou dentro quatro rapazes que vieram de Minas e São Paulo em busca de trabalho e um gole de futuro barato.

Foi recebê-los com execução e inumação em  vala clandestina e um recado muito claro: aqui quem manda é a facção;  e quem finge mandar veste farda, terno ou toga e diz que está “apurando os fatos”.

O roteiro é velho, mas em Santa Catarina ganha uma estética própria: o estado que se acha Europa tropical, loiro de catálogo, com bandeira hasteada no poste e olhar torto para quem vem de fora : nordestino, mineiro, paulista preto, pobres em geral ou apenas inconveniente.

A elite branca de condomínio e a malandragem uniformizada, engravatada e togada compartilham o mesmo incômodo: esse Brasil mestiço, barulhento e inconveniente que insiste em atravessar a ponte e pisar na areia que eles imaginam privada.

Os quatro meninos desapareceram numa quinta-feira qualquer, depois de um bar qualquer, porque o Brasil é isso: a linha que separa “sair para beber” de “sumir do mapa” é o primeiro beco sem câmera e o primeiro camburão que resolve olhar para o lado errado.

Em Florianópolis, o lado errado costuma ter CEP de periferia e sotaque de fora; em Minas eles eram filhos, amigos, trabalhadores de promessa miúda; aqui viraram “elementos”, “suspeitos”, “possíveis envolvidos com facção”, aquele carimbo mágico que autoriza a indiferença.

A versão oficial, por enquanto, é a mais cômoda: facção local, PGC, cemitério do crime, revanchismo com facção rival.

É a narrativa perfeita importada do governo Paulista : atribui tudo ao “crime organizado”, esse espantalho conveniente que esconde a promiscuidade estrutural entre Estado, polícia e mercado ilegal ;  como se cemitério clandestino brotasse sem vista grossa, sem controle territorial frouxo, sem conivência de quem diz “não sabia” enquanto passa de viatura a menos de uma quadra. 

E quem garante que não seja o cemitério clandestino da PM catarina?

Muito mais grave, quando um estado inteiro se acha “diferente do Brasil”, o passo seguinte é tratar brasileiro  mestiço de fora – salvo o Neymar – como invasor.

Racismo aqui não é só cor da pele, é também CPF de origem, sotaque  e a  roupa fora do padrão da tribo local.

A polícia catarinense já produziu seu desfile de casos de racismo explícito, a ponto de MP e Judiciário terem de impor medidas cautelares contra PM da reserva por vomitar ódio racial em vídeo , mas o discurso dominante segue o mesmo: “casos isolados”, “não representa a instituição”, “exagero da mídia”.

Enquanto isso, quatro corpos amarrados, mutilados, enterrados em Biguaçu, esperam identificação completa e laudo, enquanto as famílias em Minas e São Paulo sobem o calvário burocrático de reconhecer cabeça, fragmento, dente, qualquer coisa que prove que o filho agora é mais uma na estatística.

A morte em série, no Brasil, é processada em cartório, em planilha, em nota oficial de três linhas; o sofrimento é artesanal, feito à mão, de mãe em mãe, de pai em pai.

E aí entra o ponto que ninguém gosta de encarar: num caso desses, não basta “deixar a polícia trabalhar”.

Quando a polícia faz parte do problema – por ação, omissão ou promiscuidade – “deixar trabalhar” pode significar exatamente isso: garantir que não se chegue nos verdadeiros mandantes, nem nos elos incômodos da cadeia de comando, públicos e privados.

A mesma estrutura que finge se horrorizar com a vala é aquela que, na prática, negocia território, horários, favores e silêncio.

Ora…ora , onde não há drogas e putas a rodo não há turismo lucrativo!  

A Polícia Federal, quando não está capturada por ministro oportunista e diretor carimbador de despacho, já mostrou que sabe mexer em colmeia sem pedir benção a coronel local nem a cacique estadual.

É justamente por isso que incomoda: porque, em tese, tem fôlego e estrutura para chegar aonde a polícia “da casa” tropeça, desvia o olhar ou recebe uma “orientação” de cima: “deixa quieto” , coloca na conta do PCC.  

Num caso em que vítimas são migrantes internos, há suspeita de motivação discriminatória difusa, atuação de facção interestadual e histórico de racismo institucional, pedir federalização não é exagero; é instinto de sobrevivência democrática.

Santa Catarina precisa ser investigada de fora para dentro.

Não só o buraco na terra em Biguaçu, mas o buraco moral que transforma parte da população em hóspede indesejado no próprio país.

O separatismo não é só fantasia de rede social com bandeira confederada de fundo; está nas abordagens, nos xingamentos, nos “aqui não é lugar para vocês”, nas decisões administrativas que punem quem denuncia racismo e protegem quem pratica.

Os quatro rapazes mortos são o Brasil colidindo com o sonho europeu catarinense: um conflito que termina, claro, com os de sempre enterrados e os de sempre dando entrevista em frente a painel personalizado com brasão do Estado e do órgão policial.

Vão prometer “rigor”, “investigação imparcial”, “integração das forças”, enquanto nos bastidores combinam a narrativa aceitável, ajustam termos técnicos e distribuem culpas que não respingam em gente importante.

Neste palco, o mínimo aceitável é tirar o inquérito da mão da confraria local e jogar no colo de quem, ao menos em tese, não depende do churrasco de domingo com político da região nem da indicação para cargo em comissão no governo estadual. Federalizar não é panaceia; é só uma forma de dizer aos donos do pedaço que, desta vez, talvez não dê para empurrar tudo para o PCC de praxe e o PGC da vez, lavando a honra das instituições na água suja da vala comum.

Florianópolis gosta de vender a imagem de ilha da magia. A magia está aí: transformar quatro garotos em inimigos invisíveis, em alvos legítimos, em corpos descartáveis ;  sem que ninguém de farda ou caneta se sinta realmente responsável.

Enquanto não vier alguém de fora abrir essas covas simbólicas e institucionais, a única magia garantida será essa: fazer desaparecer, junto com os rapazes, qualquer esperança de que a vida de quem vem de longe valha alguma coisa na república branca da praia gelada.

ESTADO TORTO – O Delegado Geral de Santa Catarina age como cãozinho de estimação da extrema-direita fascista 9

Há menos de um mês , quatro jovens trabalhadores – migrantes pobres vindos de outros estados em busca de oportunidade – foram sequestrados, executados e jogados numa vala clandestina em Santa Catarina, num crime que escancara o desprezo local pela vida de quem chega “de fora” para servir ao turismo e à construção civil. Seus nomes mal circularam na imprensa, não viraram hashtag, não suscitaram correntes de oração nem mobilizações emocionadas de artistas, empresários e influenciadores. Já a morte do cão comunitário Orelha, embora brutal e juridicamente relevante, ganhou contornos de catarse coletiva: vigílias, campanhas, promessas de “justiça exemplar” e uma súbita sensibilidade animalista que parece inexistir quando as vítimas são rapazes pardos, pobres e sem sobrenome ilustre. Esse contraste obsceno – luto público por um cachorro e indiferença por quatro trabalhadores enterrados como lixo – é a chave para entender a escala de empatia invertida que estrutura o imaginário catarinense e condiciona a própria atuação policial.

Florianópolis voltou ao noticiário, desta vez não apenas pela morte brutal do cão comunitário Orelha, mas pela forma como o delegado‑geral da Polícia Civil resolveu transformar o caso em palanque ideológico e vitrine pessoal. 

Enquanto o inquérito sobre as mortes dos quatro rapazes migrantes era enterrado numa gaveta de repartição , empurrados para a conta genérica das facções e da “violência urbana”, o chefe de polícia preferiu latir nas redes sociais em defesa de um suposto “estado de direita” ofendido pela esquerda, como se o papel institucional de sua cadeira fosse agradar a plateia fascistóide da vez.

O caso Orelha e o delegado‑influencer 

A morte de Orelha, espancado e arrastado por adolescentes na Praia Brava, comoveu o país e virou símbolo da barbárie cotidiana que costuma ficar restrita às periferias.  Era a chance de a Polícia Civil catarinense demonstrar profissionalismo, transparência e empatia, investigando maus‑tratos contra animal com a mesma seriedade que deveria dispensar a qualquer crime violento.

Em vez disso, o delegado‑geral Ulisses Gabriel resolveu usar o microfone institucional para atacar “a esquerda”, acusá‑la de hipocrisia e sugerir que as críticas à condução do caso seriam parte de um complô ideológico contra o “estado de direita” de Santa Catarina, como noticiado por diversos veículos.

Não se viu um gestor republicano, cioso da impessoalidade e da moderação que seu cargo exige; viu‑se um militante digital fantasiado de autoridade policial, reproduzindo o linguajar das bolhas bolsonaristas: quem critica a polícia é “esquerdista”, “defensor de bandido” e, por tabela, inimigo da ordem. 

Quando a chefia de polícia compra essa narrativa e a repete de gravata e brasão ao fundo, a mensagem é cristalina: a corporação tem lado, e não é o da Constituição.

O paralelo incômodo: um cão e quatro rapazes na vala 

Poucos dias antes, quatro trabalhadores – vindos de Minas e São Paulo em busca de emprego – haviam sido sequestrados, executados e enterrados em cemitério clandestino em Biguaçu, num enredo que mistura disputa de facção, racismo territorial e a velha promiscuidade entre crime e Estado que há anos corrói Santa Catarina. 

No texto já publicado neste blog, lembrou‑se que o estado que se imagina “Europa tropical” trata o migrante interno como invasor, suspeito por sotaque, CEP e cor de pele, empurrado para a vala comum física e simbólica.

A reação institucional às duas tragédias revela um traço perturbador do espírito público catarinense. Para os quatro rapazes, a narrativa pronta: “coisa de facção”, “cemitério do crime”, “revanchismo”; uma explicação confortável que dispensa a pergunta mais óbvia :  quem controla o território, quem permitiu que o cemitério clandestino brotasse ali, quem faz vista grossa? 

Já para o cão comunitário, a comoção foi instantânea, a mobilização policial exemplar, coletiva, midiática; operações rápidas, entrevistas, reconstruções em vídeo, promessas de rigor extremo.

Não se trata de diminuir a gravidade da crueldade contra Orelha – crime grave, que merece rechaço e punição.  O problema é outro: a escala de empatia torcida, na qual quatro jovens trabalhadores valem menos que um cão, e onde a polícia se mostra muito mais à vontade para afirmar sua autoridade quando a vítima é um animal que não questiona privilégio nem revela a estrutura racista e classista da “Europa catarinense”.

O cãozinho da extrema-direita 

Nesse cenário, o delegado‑geral comporta‑se como cãozinho de estimação da extrema‑direita: fareja o vento das redes, abana o rabo para a manada bolsonarista, late contra “a esquerda” e, no fim, deita-se aos pés de quem realmente manda no pedaço :  a aliança informal entre elite branca, política profissional e “empreendedores” do crime organizado. 

Ao reduzir a crítica legítima à atuação policial a uma suposta conspiração ideológica, ele presta o serviço perfeito ao fascismo tropical: transforma qualquer cobrança por investigação séria, por controle externo ou por responsabilização de agentes públicos em prova de “marxismo cultural” e “ataque ao estado de direito”.

A lógica é simples e funcional. Quando o alvo é o adolescente que torturou o cachorro, vale a teatralidade punitivista: mandados, coletivas, vídeos, frases de efeito. 

Para inglês ver!

Com um cuidado incomum com a preservação da identidade e imagem do “animais racionais” !

Quando o assunto é vala clandestina com cadáver de migrante, promiscuidade entre facção e Estado ou racismo institucional da polícia, aí a palavra de ordem volta a ser “prudência”, “não politizar”, “deixar a polícia trabalhar”. 

O delegado‑geral assume, assim, o papel de mascote ideológico: serve de voz dócil para o projeto que quer polícia forte para pobres e dócil para poderosos.

Um Estado que escolhe quem merece luto 

O contraste entre a reação à morte de Orelha e o silêncio burocrático em torno dos quatro rapazes diz mais sobre Santa Catarina do que qualquer propaganda turística com mar azul e gente loira de olho claro. 

Ali, parte expressiva da sociedade chora um cão, mas normaliza a execução de trabalhadores migrantes; exige punição exemplar – sem prisão e exposição – para jovens que maltratam animais, mas relativiza a responsabilidade de quem permite cemitério clandestino, quem lucra com a exploração turística e quem alimenta um separatismo envergonhado, travestido de “orgulho catarinense”.

Quando o chefe da Polícia Civil prefere agradar esse público – chamando de “estado de direita” um território que empurra brasileiros mestiços para a vala e trata migrante interno como intruso – ele não apenas viola princípios constitucionais de impessoalidade e moralidade. 

Ele legitima um projeto de país em que vidas humanas têm cotação variável: valem mais quanto mais parecidas com o retrato idealizado do catarinense padrão e valem menos quanto mais se aproximam do Brasil real que a elite local prefere manter à distância.

Investigação de fora para dentro 

Frente a esse quadro – vala clandestina, racismo institucional, delegados‑influencers ajoelhados diante da extrema‑direita – insistir apenas em “deixar a polícia trabalhar” é ingenuidade ou má-fé. 

Como já se defendeu aqui, Santa Catarina precisa ser investigada de fora para dentro: federalizar casos emblemáticos, submeter a polícia local a controles externos efetivos, romper a confraria que protege fardas, togas e cargos de confiança enquanto corpos desaparecem nos fundos de Biguaçu.

O caso Orelha e a morte dos quatro trabalhadores expõem o mesmo buraco moral: um Estado que escolhe quem merece luto e quem merece vala; uma polícia que, na boca de seu delegado‑geral, se assume “de direita” e se oferece como cão de guarda da extrema‑direita fascista; e uma sociedade que parece sentir mais dor por um cão do que pelos brasileiros que ousam cruzar a ponte rumo à “ilha da magia”.

O arquiteto dos Beatles: Brian Epstein, judeu, gay e humanista, o verdadeiro quinto Beatle … “I feel fine” 2

Brian Epstein foi aquilo que a provincianice inglesa mais detestava: judeu, homossexual, elegante e genial . Em outras palavras, tudo o que um “Beatlemaníaco comuna”, um “Einstein piadeiro” de segunda chamada e, ainda por cima, intoxicado por Espinosa,   aprenderia a admirar.

Se os Beatles foram o maior terremoto musical e comportamental do século XX, é justo perguntar: quem foi o arquiteto invisível desse abalo?

Brian Samuel Epstein nasceu em Liverpool em 1934, justamente em Yom Kippur, filho de judeus de origem leste‑europeia que construíram uma vida respeitável como comerciantes.

Cresceu em ambiente judaico, frequentou escolas judaicas, conviveu com a sinagoga e foi sepultado segundo o rito judaico, em cemitério judeu, sob as rezas de um rabino.

Enquanto o garoto aprendia em casa a liturgia severa do Dia da Expiação, a cidade lhe ensinava a outra liturgia: a da piada sobre nariz, dinheiro e diferença, o lugar marcado para o imigrante bem‑sucedido que não deve esquecer “quem realmente manda”.

Era o judeu admitido na sala de visitas britânica, desde que soubesse entrar de cabeça baixa.

A isso somou‑se o outro “crime” imperdoável para a Inglaterra pós II guerra: Brian era gay.

Em uma época em que a homossexualidade masculina era crime, ele conheceu de perto polícia, tribunais, chantagistas e brutamontes.

Foi detido por “assédio homossexual”, alvo de extorsão e violência física.

Em um dos episódios mais reveladores de seu caráter, ainda sob a sombra da lei penal, decidiu não se esconder: denunciou o agressor, depôs em juízo, obrigou o tribunal a encarar, ainda que a contragosto, a existência concreta de um homem judeu e homossexual vitimado pela brutalidade.

Numa sociedade que esperava dele vergonha e silêncio, respondeu com um misto de dignidade e teimosia civilizada.

Esse contexto – antissemitismo difuso, homofobia legal e social, hipocrisia vitoriana tardia – torna ainda mais impressionante a compostura com que Epstein conduziu a própria vida pública.

Ele poderia ter escolhido o cinismo ou o ressentimento.

Em vez disso, escolheu o trabalho bem‑feito, a elegância, a organização do caos alheio.

A resposta de Brian ao mundo que o empurrava para o armário e para a margem foi profundamente judaica e, por que não, espinosana: não gritar, mas compreender; não destruir, mas ordenar; não devolver o ódio na mesma moeda, e sim transformá‑lo em música, em forma, em civilização.

É nesse ponto que ele encontra o seu destino com quatro rapazes barulhentos de Liverpool.

Quando Brian desce ao porão úmido do Cavern Club, em 1961, não encontra ainda “os Beatles”, mas uma incendiária e malcomportada banda de rock de porto: jaquetas de couro, cigarro, cerveja,  anfetaminas , piada interna, um talento bruto que ninguém tinha sabido traduzir.

O judeu, treinado desde cedo a ler o mundo pela fresta, enxerga ali um produto mundial que a Inglaterra “esclarecida” desprezava.

Em poucas semanas, oferece‑se para ser empresário, impõe disciplina de ensaios, organiza agendas, melhora cachês, escreve cartas, acerta entrevistas.

Troca o couro por bem cortados terninhos sem gola  Pierre  Cardin ,  inventa a imagem coesa do grupo, enquadra o improviso da rodinha de amigos na moldura de um espetáculo exportável.

Ao mesmo tempo, enfrenta a arrogância e a miopia da indústria fonográfica de Londres.

Gravadora nenhuma queria apostar numa banda de Liverpool; Brian insiste, argumenta, volta, incomoda, até arrancar um contrato que permitiria a Lennon, McCartney, Harrison e Ringo existirem como fenômeno mundial.

Mais importante: ao contrário do empresário-tirano , corrupto e ladrão , típico do show business, não tentou controlar o conteúdo artístico dos Beatles.

Administrou com mão firme a carreira, mas devolveu a eles a liberdade criativa.

Não é pouco: sem esse raro equilíbrio entre organização e respeito ao talento, talvez as canções que mudaram o século jamais tivessem passado de curiosidade regional.

Quando hoje falamos em “Beatlemania”, costumamos ver apenas o brilho dos quatro no palco.

O que quase nunca aparece é o judeu homossexual nos bastidores, segurando telefonemas, domando agendas impossíveis, negociando com empresários hostis, aparando crises de ego, respondendo a jornalistas, calculando o tempo entre um voo e outro, protegendo seus rapazes de armadilhas contratuais.

A maior revolução musical e comportamental do século XX teve, no comando invisível, um filho de imigrantes, vítima de preconceito, que acreditava na força da forma, do contrato, da palavra dada.

Se alguém merece, com justiça, o título de quinto Beatle, não é um produtor e músico coadjuvante: é Brian Samuel Epstein.

A forma como ele viveu essa condição engrandece o judaísmo.

Não porque tenha sido “modelo de piedade” no sentido estrito .

Brian não era um religioso devocional, não virou rabino, não se fechou numa ortodoxia defensiva.

Sua grandeza judaica estava em outro lugar: na crença de que se responde à exclusão com trabalho sério, que se enfrenta o estigma com profissionalismo, que se honra o próprio povo e a própria história não pela exibição de símbolos, mas pela construção silenciosa de algo que melhora o mundo.

Em plena era da caricatura antissemita do “agiota ganancioso” ou do “manipulador da mídia”, o  arquiteto judeu da história dos Beatles aparece exatamente como o contrário: um homem que protegeu a autonomia artística de seus clientes, honrou contratos, recusou explorar seus artistas como gado, pagou o preço de colocar o talento alheio à frente do próprio narcisismo.

Também aí há algo de familiar para qualquer “Beatlemaníaco comuna” que cedo lia Baruch Espinoza  que tenha aprendido cedo a apanhar por ser diferente.

A adolescência passada ouvindo discos dos Beatles, sem saber que por trás daquela avalanche sonora havia a mão firme de um judeu gay, ganha outra cor quando descobrimos a biografia de Brian.

O garoto chamado de Einstein piadeiro porque só tirava 10 na segunda chamada, o militante suspeito de “comuna” por gostar de guitarras e de questionar autoridades ( professores ) , encontra em Epstein um irmão mais velho invisível: alguém que, décadas antes, já combinara minoria, estigma e trabalho obstinado para civilizar um ambiente hostil.

A morte precoce de Brian, aos 32 anos, por abuso de medicamentos e exaustão, tem algo de epílogo trágico e previsível.

É como se o corpo finalmente não aguentasse o esforço de conciliar todas as contradições que a sociedade lhe atirou: ser judeu em país que nunca deixou de medir narizes, ser gay num sistema penal que o criminalizava, ser sensível num meio de tubarões, ser civilizado num universo que lucrava com a histeria.

No funeral, um rabino preferiu gastar tempo condenando a homossexualidade do morto a reconhecer o que aquele homem tinha feito pelo nome judeu no século XX.

Foi, talvez, o gesto menos judaico de toda a cerimônia.

Décadas depois, porém, a história, que corrige provas em regime de segunda época em pleno verão , vai reescrevendo o boletim escolar .

Biografias sérias, filmes, reportagens e memórias de músicos devolvem a Brian o lugar que lhe havia sido negado: não o do escândalo, mas o da grandeza discreta.

Ele passa a ser lembrado como o quinto Beatle, o Beatle judeu, o homem que fez a ponte entre quatro garotos de Liverpool e o resto do planeta.

Para um prematuro e inculto espinosista que era ridicularizado como Beatlemaníaco comuna e Einstein piadeiro é um certo consolo ver a razão histórica, por uma vez, tentar derrotar o preconceito :  ainda que, como sempre, seja preciso esperar a segunda chamada.

Em tempos que associam o nome ‘Epstein’ ao escândalo e à depravação, revisitar Brian Samuel Epstein é um antídoto necessário.

Ele nos lembra – e nos representa – que uma linhagem não se define por seu pior exemplo, mas por aqueles que, mesmo sob os mesmos estigmas, escolhem construir pontes em vez de abismos, e cuja herança é a cultura, não a corrupção.

Roberto Conde Guerra

As Praças da PM levaram mais um cangalha…O PLC 135/2023 das Balzaquianas 8

A Lei Complementar paulista 1.438/2026 nasceu da promessa de corrigir a injustiça previdenciária sofrida pelos policiais militares que já traziam anos de contribuição no INSS antes de ingressar na corporação, sobretudo aqueles que entram na PM por volta dos 30 anos, vindos de empregos humildes desde a adolescência. Na prática, porém, o governo sancionou uma versão mutilada do antigo PLC 135/2023: manteve ajustes internos de tempo de serviço e regras de transição, mas vetou justamente o dispositivo que reconheceria o tempo de regime geral como tempo de natureza militar. O resultado é uma lei marcada por vício de iniciativa, conflito com normas gerais federais e uso claramente eleitoral ; serviu para fazer propaganda de “valorização da tropa”, enquanto os principais interessados, as praças balzaquianas, continuaram com o mesmo nada de sempre.

Dizem por aí que São Paulo vive sob o comando do “melhor governador da história” para o oficialato da Polícia Militar.

E, olhando de cima da sacada do Barro Branco, deve ser mesmo uma beleza: nada de grandes sobressaltos, nenhum trauma previdenciário relevante, carreira inteira dentro da casquinha dourada da farda, com o bônus eterno de nunca ter precisado bater ponto na vida civil antes da academia.

Já para as praças temporãs, aquelas criaturas exóticas que ousam ingressar na PM perto dos 30 – os tais balzaquianos – o conto de fadas acaba na página do Diário Oficial.

É ali que o “melhor da história” mostra que sabe exatamente para quem governa.

O roteiro é simples.

Primeiro, vende‑se o sonho:

“Companheiros, vamos reconhecer o tempo de INSS de vocês, essa vida pregressa de quem ralou na iniciativa privada, vigilante, balconista, segurança, motoboy, porteiro, operador de máquina…

Ninguém será prejudicado!

O Estado é grato ao seu sacrifício!”

A tropa compra a narrativa, claro.

Quem já perto dos 30 e resolveu vestir a farda agarra qualquer promessa previdenciária como náufrago em isopor.

Com anos de contribuição no RGPS nas costas, era a chance de encurtar o caminho da reserva.

Afinal, dizem, “a lei vai reconhecer esse tempo, é só ter paciência, o governador é sensível, é técnico, é quase um economista do amor”.

A Assembleia entra em cena, aprova o projeto por unanimidade, discursos inflamados, vídeos emocionados, dancinha, carreata.

As praças balzaquianas fazem contas:

“Se aproveitarem meus oito anos de carteira assinada, mais os doze de PM, mais esse remendo de transição, acho que consigo sair com o joelho inteiro e a coluna ainda funcionando.”

Pois bem.

Chega a hora da verdade.

O texto, depois de vagar por gavetas estratégicas, aterrissa no gabinete do “melhor governador da história” – pelo menos segundo o clube do oficialato.

Eis que, num passe de mágica, a caneta oficial transforma o sonho previdenciário das praças temporãs em piada de mau gosto.

Sanciona‑se a lei, mas arranca‑se, com precisão cirúrgica, o trecho que fazia diferença: aquele que permitia contar o tempo de INSS como tempo de natureza militar.

É a versão jurídica do “pode deixar que eu resolvo” seguida de um “mas não pra você”.

Para o oficial, aquele menino aplicado que saiu do segundo grau direto para o Barro Branco, sem nunca ter batido ponto no chão de fábrica, nada muda para pior.

Ele não tem passado previdenciário a reivindicar; a vida dele é PM desde o primeiro fardamento.

Quando escuta falar em “tempo de INSS”, provavelmente pensa que é alguma sigla de curso interno.

Já o soldado balzaquiano, que chegou com 10, 12, 15 anos de contribuição na CLT, descobre que a vida pregressa dele vale tanto quanto promessa de campanha em período eleitoral.

Trabalhou, contribuiu, acreditou – mas na hora de converter suor em tempo de serviço, o Estado olha para ele com aquele ar de burocrata bem alimentado:

“Desculpe, meu filho, esse seu esforço todo é de outro mundo. Aqui dentro, só conta o que começou depois da farda.”

É curioso notar como o discurso de “justiça previdenciária” sempre cai como uma luva… no tamanho certo do oficialato.

Eles entram jovens, com o joelho novo, sem passado contributivo , sobem a escadinha hierárquica sem ter que explicar buraco na carteira.

Se a regra aperta, aperta para a base; se alivia, alivia, estrategicamente, um degrau acima.

Pro oficial médio, o arranjo é perfeito:

Não perde tempo de INSS, porque nunca teve.

Não vê o sonho azedar, porque o sonho dele nunca dependeu de tempo anterior.

E ainda posa de defensor da “modernização previdenciária”, porque não é o dele que está sendo cozido em banho‑maria.

Enquanto isso, a Praça temporã é tratada como erro de projeto do Universo.

A lógica implícita parece ser:

“Quer virar PM  aos 30?

Problema seu.

Quem mandou viver como civil antes da farda?

Vida pregressa é luxo, meu amigo, não direito.”

O mais irônico é que o marketing do governo insiste na imagem do gestor moderno, técnico, preocupado com meritocracia e com “correção de distorções históricas”.

Mas, quando olhamos quem efetivamente foi protegido e quem foi jogado na vala do ‘arruma aí na base da fé’, a distorção é cristalina:

O  oficialato – nascido nobre – sai praticamente ileso, e as praças balzaquianas pagam a conta.

O “melhor governador da história” para o oficialato é, ao mesmo tempo, o especialista em azedar o plano de vida de quem chegou depois, vindo da labuta civil, acreditando que o Estado trataria tempo de contribuição como algo mais sério que um slogan de campanha.

No fim, a mensagem é simples e pedagógica: se você sonhava em ver respeitados aqueles anos de INSS antes da farda, errou de século, de governo e, principalmente, de lugar na hierarquia.

Para alguns, o futuro é planejado com cálculos atuariais; para outros, com fé, anti‑inflamatório e um boletim interno mandando “aguardar novas orientações”.

O Barro Branco continua sorrindo.

O problema é o resto da tropa,  especialmente aquela que foi obrigada a trabalhar antes de vestir farda.

A pergunta que deve ser feita: por que ainda não foi expulso da Polícia Civil? – O Santos F.C. caminha para ser uma SAC – Sociedade Anônima do Crime ? 9

Como alguém expulso do Santos realiza festa no salão nobre do clube?

Por Paulinho janeiro 25, 2026

Ontem, o maçom e policial Orlando Rollo promoveu uma festança no salão nobre do Santos, apesar de ter sido expulso do clube há alguns anos — evidentemente, não por ações nobres.

Estiveram presentes conselheiros alvinegros, políticos locais e personagens habituais do entorno do cartola.

Rollo foi preso recentemente sob acusação de extorsão contra traficantes internacionais, tendo sido libertado apenas porque a operação policial utilizou um grampo não autorizado pela Justiça.

É a ausência absoluta de vergonha.

Especialmente por parte do presidente Marcelo Teixeira, que aparenta dever favores ao amigo, a ponto de, dias atrás, ter permitido que Rollo chefiasse a delegação de jogadores — o que, por óbvio, configura uma temeridade.

O futuro do Santos segue obstado por um passado triste e obscuro do qual o clube parece não conseguir se livrar.

A Comarquinha mais cara do mundo, cada vez mais cara e improdutiva 11

Enquanto o país conta moedas para financiar saúde básica, escola sem banheiro e viatura sem gasolina, há uma ilhazinha togada onde dezembro vira estação de caça bem armada ao erário, com salários líquidos que fariam corar banqueiro do Master e traficante internacional.

Trata‑se de uma Justiça de nicho, autointitulada especial ou especializada , com jurisdição restrita e clientela cativa – oficiais e praças da caserna – mas mantida como se fosse um grande tribunal de massa.

Um Tribunal para cerca de 80.000 jurisdicionados , concluindo nada mais do que 150 miseráveis processos por mês.

Questões rotineiras e sem nenhuma complexidade!

Poucos processos, muitos cargos de confiança , orçamento gordo, supersalários recheados de vantagens “eventuais” e retroativos: a conta não fecha na lógica republicana, mas fecha com folga na matemática dos penduricalhos.

É a “Comarquinha” que se comporta como corte imperial, com guarda de honra, banda marcial e direito adquirido ao décimo terceiro luxo.

O contrassenso maior está na assimetria: no fórum comum, juízes atolados  – ainda que bem remunerados – oficiam em dezenas de milhares de feitos, grande parcela intrincados e de interesses qualificados , servidores adoecidos pagando pedágio para aposentadoria , prédios, em determinadas Comarcas , caindo aos pedaços. Na Justiça Militar estadual, plenário envernizado, agenda folgada, decisões que raramente tocam a vida do povo miúdo.

Toca sim , para absolver policiais militares – estupradores, inclusive – transformando a vida das vítimas para muito pior !

Já que acabam vilipendiadas , executadas e  agredidas : duas vezes!

A desigualdade aqui não é um conceito sociológico, é um método de gestão de privilégios: quanto menor o alcance social da jurisdição, maior o conforto da estrutura, mais generosa a folha.

E, como toda máscara mal colocada, a da “Comarquinha” também escorrega. Basta um dezembro mais exibido, um vazamento de contracheques beirando a pornografia , para que se veja o que sempre esteve por baixo da toga engomada: a crença de que o dinheiro público existe para preservar castas e não para atender direitos.

O discurso da “excepcionalidade” das verbas apenas refina o cinismo: o que é eventual para o magistrado é permanente para o contribuinte, que paga todo mês a conta do luxo alheio.

Por contrassensos da desigualdade entende-se  quando tal sistema judicial desce com fúria sobre o pequeno e sobe em marcha lenta diante do poderoso.

Aqui o roteiro se repete, porém com trilha sonora marcial: a mesma mão que assina sentenças muito mais em nome da disciplina e da hierarquia ; muito menos em nome da defesa da coletividade , não vê nenhum problema em rasgar o espírito do teto constitucional e de todo o ordenamento jurídico na hora de encher o próprio bolso.

A tropa que marcha em fila, por soldo minguado, olha de baixo para uma cúpula, a maioria oficiais da própria PM ,  que engorda em silêncio.

Afinal , a Polícia Militar é o único órgão estadual – ainda que apenas em três Estados da Federação – que propicia a possibilidade de membros do oficialato “natu nobilis” ( marca de uma pinga nacional vendida como whisky ) , ou seja , oficiais do Barro Branco filhos e netos de oficiais de nomeada , poder sonhar em serem transformados em juízes e até Desembargadores .

E tal   simbolismo e possibilidade , ainda que remota , alimenta as vaidades e a autoestima.

A Comarquinha mais cara do mundo, agora mais cara e improdutiva , é a metáfora perfeita de um estado que se acostumou a blindar ilhas de abundância em meio a um arquipélago de carências.

Não é apenas um problema contábil, é um símbolo político: enquanto a Justiça Militar estadual for esse oásis de privilégios blindado da crítica e da reforma, a desigualdade seguirá não como anomalia, mas como projeto ;  e o contrassenso deixará de ser exceção para se tornar rotina.

Enfim , além da vaidade institucional , as consequências reais são a blindagem e o favorecimento corporativista .

Essa estrutura não é apenas cara; é seletiva.

E toca sim na vida do “povo miúdo” : para pior.

A Dezembrada na Comarquinha mais Cara do Mundo 7

SP: bônus eleva ganho de dez magistrados militares a R$ 300 mil em dezembro


Bruno Luiz e Luccas Lucena
Do UOL, em São Paulo
24/01/2026 05h30
Atualizada em
24/01/2026 05h30


TJM-SP (Tribunal de Justiça Militar de São Paulo) aumentou os salários líquidos dos magistrados com vantagens eventuais

Imagem: Divulgação/CNJ
Ler resumo da notícia:

Dez juízes e desembargadores do TJM-SP (Tribunal de Justiça Militar de São Paulo) ganharam mais de R$ 300 mil por causa de um penduricalho pago em dezembro de 2025.
O que aconteceu
Média do ganho líquido dos 16 magistrados do tribunal em dezembro subiu 619% ao longo de três anos. O valor passou de R$ 32.489 em dezembro de 2022 para R$ 233.597 no último mês do ano passado. A corte é formada por nove juízes e sete desembargadores.
Aumento foi puxado por penduricalho chamado vantagens eventuais. A média do bônus pago aos integrantes do tribunal em dezembro cresceu mais de 14.000% comparando 2022 a 2025.

Dados são de levantamento feito pelo UOL a partir de dados públicos fornecidos pelo tribunal. A reportagem usou tabelas de remuneração de dezembro de cada ano — quando os ganhos costumam ser maiores por conta de bônus de fim de ano, como gratificações natalinas, além de 13º salário e férias.


Vantagens eventuais representaram 80% do salário líquido recebido pelos magistrados em dezembro do ano passado. No último mês, o TJM-SP desembolsou mais de R$ 3,1 milhão em vantagens eventuais, o que equivalente a 2,7% do orçamento total da Corte Militar em 2025, de R$ 114,9 milhões.


Contracheques de magistrados não detalham que vantagens são essas. Informações do próprio tribunal apontam que trata-se de verbas como “abono constitucional de 1/3 de férias, antecipação de férias, gratificação natalina, serviço extraordinário, antecipação de gratificação natalina, substituição e pagamentos retroativos”. Não se sabe, no entanto, quanto exatamente cada um ganhou com cada vantagem.


Com os adicionais, dez dos 16 integrantes do TJM-SP receberam mais de R$ 300 mil em dezembro de 2025. Veja os valores recebidos:


Juiz Dalton Abranches Safi
: R$ 318.528,40 (R$ 285.318,62 em vantagens eventuais)
Desembargador Enio Luiz Rossetto: R$ 318.727,43 (R$ 274.785,31 em vantagens eventuais)
Desembargador Fernando Pereira: R$ 318.727,43 (R$ 274.785,31 em vantagens eventuais)
Juiz José Alvaro Machado Marques: R$ 317.873,23 (R$ 274.297,08 em vantagens eventuais)
Juiz Lauro Ribeiro Escobar Junior: R$ 318.765,96 (R$ 284.897,93 em vantagens eventuais)
Juiz Luiz Alberto Moro Cavalcante: R$ 317.925,35 (R$ 274.297,07 em vantagens eventuais)
Juiz Marcos F. Theodoro Pinheiro: R$ 318.618,20 (R$ 286.223,02 em vantagens eventuais)
Desembargador e vice-presidente Orlando Eduardo Geraldi: R$ 318.675,30 (R$ 274.785,31 em vantagens eventuais)
Desembargador Paulo Adib Casseb: R$ 318.945,89 (R$ 280.364,70 em vantagens eventuais)
Desembargador Silvio Hiroshi Oyama: R$ 308.452,10 (R$ 274.255,96 em vantagens eventuais)

Fonte: https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2026/01/24/tribunal-de-justica-militar-sao-paulo-penduricalho-juizes-desembargadores.htm

Narcoestado da toga milionária : a decisão que desgraça uma jovem delegada em estágio probatório esquece de promotores que negociam acordos opacos com advogados egressos do MP e de magistrados cuja atuação seletiva faz parecer que sentenças e habeas corpus têm preço. …Com um pequena ajuda contratual em família 21

Eis aqui o que eles fazem, eis por que não são atingidos“.

“Se não é narcoestado, estamos a poucos passos”, afirmou o juiz Paulo Fernando Deroma De Mello, da 2ª Vara de Crimes Tributários, Organização Criminosa e Lavagem de Bens e Valores da capital; assim determinando a prisão – e desgraça social – da delegada Layla Lima Ayub após informações superficiais indicando suposto envolvimento da moça com o PCC.

Narcoestado , paradoxalmente, com a magistratura mais bem paga do Universo!

A decisão que desgraça uma delegada pobre – advogada , do Norte , ex- PM – em estágio probatório

Na sentença , que atendeu a representação do delegado Kleber de Oliveira Granja, da Divisão de Crimes Funcionais da Corregedoria da Polícia Civil de São Paulo, o magistrado vocifera que a contaminação do crime organizado no país já classifica o Brasil como um “narcoestado”.

Obviamente, fala em conformidade com o discurso da extrema-direita endinheirada que governa o Estado de São Paulo .

Perfeitamente alinhada ao governo!

Mas esquecendo de um sistema em que absolvições e “habeas corpus”, na prática, parecem circular como mercadoria em feira de “Corpus Christi”.

Fala-se , neste ponto , apenas de alguns poucos juízes , desembargadores e ministros distribuídos isonomicamente por todos os tribunais do Brasil.

A ordem de prisão contra a delegada Layla – nos termos das passagens vazadas para a imprensa , em regra alimentada de órgãos de persecução penal – é um exemplo acabado de como a retórica do “narcoestado” serve mais para produzir espetáculo do que para fundamentar, com serenidade, uma medida extrema contra uma servidora em início de carreira.

Ao falar em Brasil “a poucos passos de se tornar um narcoestado” e tratar a hipótese acusatória como se fosse prova de captura institucional, o juiz abandona a linguagem técnica e assume um tom político-apocalíptico incompatível com a imparcialidade que se espera da jurisdição.

Em vez de se ater a fatos demonstrados, a decisão se apoia em um mosaico de postagens em redes sociais , relações pessoais e ilações sobre “infiltração”, convertendo investigação em sentença moral antecipada.

Nesse proceder, abre espaço para todos os preconceitos que já rondavam o caso – misoginia, racismo e xenofobia regional – e contribui para desgraçar biograficamente uma jovem delegada antes que qualquer prova seja validada no devido processo legal.

Se o Juiz conhecesse um pouco da história deveria ter dito que o PCC – e o narcotráfico organizado – é uma criação Paulista , sempre com Secretários de Segurança , de Justiça e Assuntos Penitenciários escolhidos a dedo entre Desembargadores , Procuradores de Justiça e , um ou outro , Coronel da PM,

Um narcoestado que tem sido muito benéfico para alguns, não é Sr. Juiz de Garantias ?

O Crime da Delegada Layla- Não ser casada com figurão e nem advogar para banqueiros da Faria Lima-PCC 13

A exploração midiática e a fama do Ministério Público como paladino da moralidade caminham hoje lado a lado, alimentadas por vazamentos seletivos, investigações espetacularizadas e um sistemático desprezo pelo princípio da presunção de inocência. 

A personagem do “delegado corrupto ligado ao PCC” rende manchetes fáceis, mobiliza afetos morais na opinião pública e oferece ao Ministério Público o protagonismo simbólico de instituição purificadora do sistema, ainda que o processo real esteja longe de qualquer conclusão.

Presunção de inocência como ornamento retórico

Na narrativa oficial, a presunção de inocência continua escrita na Constituição, citada em decisões e repetida em discursos institucionais, mas na prática foi rebaixada a mero ornamento retórico. 

No plano da comunicação, o que vale é a imagem do “inimigo interno” já condenado pela manchete e pelo release acusatório, pouco importando se a investigação será arquivada ou terminará em absolvição anos depois, quando ninguém mais se interessar pela correção do dano.

Novos delegados , não façam aos seus investigados aquilo que fazem –  e farão – com vocês!

Ou seja, não naturalizem o direito penal do inimigo aplicado a pobres, pretos e periféricos, pois o mesmo modelo já está sendo testado contra vocês.

O caso recente da delegada recém‑empossada, vinculada midiaticamente ao PCC antes mesmo de completar o curso de formação, ilustra com precisão esse fenômeno: imputações são noticiadas como verdades consolidadas, relações pessoais são tratadas como provas, e qualquer nuance fática é varrida do debate em nome da “luta contra o crime organizado”. 

Em lugar de “há suspeitas, sob apuração”, o que se divulga é “delegada do PCC”, como se a fase instrutória e o contraditório fossem formalidades dispensáveis diante da necessidade de alimentar a narrativa de Estado forte contra facção criminosa.

O viés acusatório e a construção do “delegado inimigo”

No centro desse processo está um viés acusatório que se consolidou dentro de certos núcleos  de ”juristas” ; em especial  Juízes Criminais e os grupos de combate ao crime organizado, acostumados a enxergar a estrutura policial não como parceira institucional, mas como território inimigo a ser vasculhado em busca de “serpentes”.

Na prática – desde a antiga doutrina de que prisão preventiva de policiais civis seria sempre necessária e imprescindível por se tratar de  agentes armados com potencial de intimidar testemunhas e destruir provas  –   muitos membros desses grupos passaram a tratar o delegado de polícia – e policiais civis em geral – como suspeito presumido: se atua na ponta,  ganhando pouco , se lida com facção, então “deve ter algo a mais ”; e, a partir daí, todo fato é selecionado e interpretado para confirmar o preconceito inato.  

Esse é o mecanismo clássico do viés de confirmação: parte‑se da crença de que há corrupção e a realidade é  moldada para caber dentro da crença. 

Relações pretéritas de advocacia criminal, contatos inevitáveis em audiência de custódia, circunstâncias profissionais típicas da área penal – tudo pode ser ressignificado como indício de infiltração, desde que sirva para reforçar o enredo desejado. 

O resultado é um ambiente institucional de desconfiança permanente, no qual o delegado deixa de ser um agente de Estado com atribuições próprias e passa a personagem suspeita, útil para o teatro moral da “limpeza institucional”.

Manchetes, espetáculo e a economia do escândalo

A imprensa encontra nesse cenário um prato cheio: delegado, crime organizado, suposta infiltração, romance com criminoso, tudo isso rende cliques, audiência e sensação de drama moral. 

Ao mesmo tempo, o órgão acusador aparece como protagonista heroico, “desmascarando” o inimigo interno e salvando a sociedade da degeneração do aparelho repressivo, numa narrativa que combina elementos de novela policial e sermão cívico.

Não é por acaso que delegados envolvidos em escândalos – ainda que apenas investigados – produzem manchetes mais chamativas do que decisões técnicas, silenciosas e bem fundamentadas. 

Acusações e prisões cautelares oferecem fotos, imagens de condução, falas indignadas de autoridades e frases de efeito que se encaixam perfeitamente na lógica das redes sociais e dos portais de notícias. 

Já o desfecho processual, quando chega, não rende a mesma visibilidade: absolvições, trancamentos de ações penais, prescrições e arquivamentos raramente vêm acompanhados de coletiva de imprensa, cenário montado e discursos inflamados.

Nessa economia simbólica do escândalo, o Ministério Público colhe dividendos importantes: projeta‑se como instituição vigilante, incorruptível, tecnicamente superior às demais, especialmente à Polícia Civil, apresentada ao público como corporação permanentemente sob suspeita.

A assimetria narrativa é completa: o delegado é personagem de escândalo; o promotor, personagem de redenção. 

E, enquanto isso, o princípio da presunção de inocência – que deveria proteger qualquer pessoa, inclusive agentes públicos – vai sendo corroído na prática, substituído por um sistema de julgamento antecipado na praça pública.

Concursos em massa, filtros frágeis e culpa governamental

Há, sim, um problema estrutural sério no modelo recente de concursos para delegados: turmas gigantescas, com mais de quinhentos aprovados de diversos estados, curso de formação encurtado e pouco investimento em investigação de vida pregressa e formação ética profunda. 

Isso tudo em nome da pressa política em preencher vagas e “mostrar resultados”, espalhando novos delegados por todo o estado – em ano eleitoral – sem o amadurecimento institucional necessário.

Entretanto, é preciso separar o diagnóstico estrutural da culpabilização automática do indivíduo. 

O fato de o modelo facilitar o ingresso de perfis inadequados ou vulneráveis não autoriza que cada delegado recém‑empossado seja tratado como potencial infiltrado, nem que sua biografia seja pulverizada porque se encaixa num tipo ideal conveniente para a narrativa acusatória. 

A crítica deve mirar as escolhas administrativas e de governo – concursos em massa, cursos de formação apressados, ausência de rotinas periódicas de seleção mais refinada – e não servir como justificativa para transformar qualquer suspeita em condenação informal imediata.

Uma carreira de Estado que lide com crime organizado, corrupção e violência estrutural precisa de filtros rigorosos e cursos de formação sólidos, mas também precisa de um regime de garantias mínimas para seus membros. 

Se o delegado passa a ser descartável na arena midiática ao primeiro sinal de escândalo, a mensagem institucional é clara: o sistema não protege seus próprios agentes das distorções político‑midiáticas, nem respeita sua humanidade básica.

Entre a apuração necessária e o “amor bandido” como espetáculo

Nada disso significa blindar ninguém contra apuração séria.  Se há indícios consistentes de que uma autoridade policial se envolveu com organização criminosa – seja por vínculo afetivo, seja por interesse econômico, seja por associação ideológica – a investigação deve ser firme, técnica e, quando for o caso, exemplar na aplicação de sanções. 

O problema é quando a hipótese investigativa vira condenação moral instantânea, e a história pessoal passa a ser explorada como peça de entretenimento punitivo.

O rótulo “amor bandido” é sintomático desse processo: converte eventual vínculo afetivo em senha para a desumanização completa da pessoa, reduzida a personagem de roteiro policialesco. 

Em vez de se discutir serenamente os limites éticos da atuação de advogados e delegados, as incompatibilidades funcionais, a necessidade de separar vida pessoal e exercício da autoridade, a discussão é capturada pelo sensacionalismo.

O que interessa não é compreender, mas exibir uma advogada de porta de cadeia que, aparentemente, mantém um relacionamento afetivo com um suposto membro do PCC, como infiltrada . 

Será que utilizariam  esse mesmo raciocínio para alguém casado ou casada com Magistrado , Promotor , etc. ?  

Afinal , receber honorários estratosféricos de banqueiro bandido não é ainda pior do que advogar para chineleiros?

Por um outro padrão de responsabilização

Se o jornalismo que se pretende crítico não romper esse padrão – manchetes que condenam, textos que reforçam o viés acusatório, silêncio sobre garantias e presunção de inocência – acabará funcionando apenas como correia de transmissão do espetáculo moral produzido por órgãos de persecução penal. 

Em vez disso, é possível – e necessário – construir outro padrão:

Noticiar investigações sem transformar suspeitos em culpados antecipadamente. 

Expor o perigo do viés de confirmação presente em operações espetaculares. 

Questionar a seletividade dos vazamentos e das coletivas. 

Lembrar que a presunção de inocência também vale para delegados de polícia.

Apesar de grande parte deles não a respeitarem quando se trata de outrem!

Quando envolvidos em escândalos deixam de ser tratados como personagens descartáveis e passam a ser enxergados como sujeitos de direitos – inclusive o direito de responder às acusações sem linchamento prévio – algo se desloca no regime de poder simbólico vigente. 

O Ministério Público continuará a cumprir seu papel acusatório, mas a fama fácil de paladino moral perderá parte do brilho, porque terá de conviver com um jornalismo que não aceita mais confundir denúncia com sentença, nem manchete com verdade.

Absurdamente sentenciou o procurador-geral de Justiça de São Paulo, Paulo Sérgio de Oliveira e Costa ao  afirmar que o caso evidencia a tentativa de infiltração do crime organizado em estruturas do Estado.

“Além da economia formal, o crime organizado tem também se infiltrado em carreiras públicas e estruturas de Estado. Mas em São Paulo, graças aos setores de inteligência, isso tem sido coibido.”

Com efeito,  quando a autoridade máxima do órgão acusador fala apenas em “infiltração” e “atuação do crime organizado no Estado”, sem ressalvas claras ao status jurídico da investigada, contribui para consolidar a culpa antecipada e legitimar o linchamento midiático.

Transforma um inquérito ainda em curso em prova de uma tese política ampla, como se a culpa individual já estivesse definida.

Essa extrapolação é problemática porque usa um caso específico – ainda não julgado – como vitrine para um discurso institucional de firmeza, o que pressiona simbolicamente o Judiciário e contamina a opinião pública com a ideia de que já se trata de uma infiltração comprovada.

Em nenhum trecho destacado nas matérias o chefe do MP enfatiza que a delegada é investigada, não condenada, e que todas as imputações precisam ser demonstradas em juízo, com contraditório e ampla defesa.

Autoelogio institucional

O Procurador-Geral afirma que o crime organizado tenta se inserir em cargos públicos e que isso tem sido “coibido graças aos setores de inteligência” – diga-se serviço feito pela PM – o que funciona como autoelogio do próprio Ministério Público e dos grupos especiais que coordena.

​Não há, porém, qualquer reflexão sobre erros, excessos, vazamentos seletivos ou sobre o risco de viés de confirmação nas apurações ;  como se o MP fosse imune a falhas humanas e institucionais e só a Polícia Civil fosse vulnerável à corrupção.

E reforça a imagem da polícia como campo contaminado, a ser “higienizado” pelo MP, que se coloca como instância moral superior.

Aqui se cumpre o juramento de justiça ao contrário : ser indulgente com os fortes e implacável com os mais fracos !

Enfim , o destino da delegada – que fatalmente será desligada do curso e exonerada “a toque de caixa” – certamente seria outro no caso de casada com um figurão e advogada de banqueiros.

Ao Doutor Itagiba Vieira Franco – Manual de defesa no Júri para os membros do PCC acusados de executar Ruy Fontes e Manual de inquérito policial para os novos delegados inteligentes e independentes 3

No tribunal do futuro próximo – aquele onde os cronistas chegam antes dos julgadores – já se comenta, em surdina, a grande profecia: para absolver os acusados, bastará arrolar como testemunhas de defesa a própria cúpula da investigação.

A delegada do DHPP ( departamento de homicídios e de proteção à pessoa ) , o titular do DEIC ( departamento de investigações gerais e organizações criminosas ) , o chefe  do DENARC ( departamento antinarcóticos ) e o onipresente Secretário de Segurança , Dr. Nico , entrarão no plenário não como arautos da culpa, mas como personagens de um roteiro que se auto desmonta, frase por frase, coletiva por coletiva.

O inquérito que se incrimina

O caso nasce embalado em narrativa perfeita para manchete: PCC vingativo, promessa de morte desde 2005, ladrões de banco magoados com o delegado “linha-dura” e, coroando, uma execução digna de Michael Mann, com direito a referência tácita a “Fogo Contra Fogo”.

A história é boa demais para ser estragada por detalhes como prova, coerência lógica ou parcimônia comunicacional.

Para pior: a linguagem de alguns é tosca!

A delegada do DHPP menciona explicitamente um Logan “NP”…

A sociedade sabe o que é um veículo NP , ou seja , objeto de busca e apreensão administrativa ou judicial por falta de pagamento : NÃO PAGADO?

Na ânsia de mostrar serviço, a investigação se apresenta ao país numa vitrine de certeza moral: os investigados são velhos conhecidos, “faccionados antigos”, “topo” do comando local, gente de “sintonia restrita” – portanto, não precisam apenas ser investigados; precisam encaixar no papel de mandantes que a opinião pública exige, sob pena de parecer que o Estado perdeu o fio da narrativa.

A presunção de inocência não existe ; em seu lugar o “princípios do direcionamento e da confirmação” .

A bala que volta pela boca

É aí que entra a Teoria da Perspectiva, de Daniel Kahneman e Amos Tversky, sem que ninguém a convide: valorizamos mais evitar perdas do que obter ganhos equivalentes.

No cálculo institucional, a perda de um ex-delegado-geral é gigantesca, mas a perda do cargo ou do favor político é mais imediata e aterradora.

A aversão a esta perda – a pessoal, a burocrática – atua como combustível definitivo para decisões apressadas, declarações categóricas e o enquadramento da narrativa aos ventos do poder.

A investigação se alinha não à lógica dos fatos, mas à da autopreservação.

O crime é moldado como “promessa antiga” de vingança; o passado de 2005 vira atalho mental para explicar tudo o que não se sabe em 2025–2026.

Mas quanto mais a delegada do DHPP fala, mais munição entrega à futura defesa: admite investigação em curso, perícias pendentes, “última pecinha” não encontrada, incerteza sobre a existência de mandante superior – e, ainda assim, sustenta, em tom de convicção, um enredo fechado de vingança pura, sem “rolagem de grana”, quase um acerto de contas romântico entre o “roubo a banco raiz” e o PCC senil

Em linguagem de júri, isso significa algo simples: o próprio Estado reconhece, em público, que falou mais do que sabia. E tudo gravado, editado, compartilhado, indexado – na era digital, a verborragia não prescreve.

A contradição do crime “fácil” em modo blockbuster

Um dos momentos antológicos vem quando a autoridade insiste que a rotina da vítima tornava tudo muito fácil: andar de moto, circular à beira-mar, por vezes desarmado, vulnerável, acessível, quase um alvo didático.

Se era assim, perguntará a defesa, por que diabos o crime foi executado com coreografia de filme, em avenida, com colisão, rajadas, feridos colaterais, câmeras captando metade da sequência?

A narrativa oficial constrói o cenário da facilidade e, com isso, destrói a lógica do modus operandi escolhido.

Se havia mil chances discretas, o espetáculo armado em via pública passa a exigir outra explicação: recado público?

Disputa interna?

Outro interesse eclipsado pelo mantra “vingança de 2005”?

Quando o Ministério Público tiver de responder a isso, a defesa já terá em mãos a melhor peça de marketing a seu favor: a gravação da própria delegada descrevendo um alvo fácil e um crime desnecessariamente barulhento.

O milagre dos “Azuis” multiplicados

A cereja do bolo está na confusão das alcunhas: Azul colorido, Azul careca, Azul de um inquérito, Azul de outro.

O erro é admitido, relativizado, quase tratado como acidente de digitação, quando, na verdade, revela falhas estruturais de checagem em um caso de enorme repercussão.

No plenário, a pergunta será irresistível: se a polícia errou no “Azul”, quantos outros detalhes foram sacrificados na corrida pela coletiva perfeita?

E mais: se as autoridades não conseguem distinguir homônimos de apelido, como garantir que a imputação de mando não é produto de viés, pressão e “narrativa pronta” em busca de personagens?

A resposta, qualquer que seja, interessará muito mais à defesa do que à acusação.

Testemunhas da defesa, em traje de acusação

É nesse ponto que a profecia se escreve sozinha.

O advogado se levanta, terninho surrado, olhar cansado de quem conhece mais as sombras do que sol, e anuncia: 

Excelência, a defesa requer, com especial deferência, a oitiva das seguintes testemunhas: diretora do DHPP, delegado do DEIC, delegado do DENARC e o Secretário de Segurança… 

O promotor arregala os olhos. O juiz consulta o relógio.

O júri não entende nada. Mas o processo entende.

Porque, ao deporem, essas autoridades terão de explicar cada contradição, cada excesso retórico, cada certeza antecipada; terão de repetir, sob contraditório, que “a investigação não estava concluída”, que “não se sabia se havia mandante acima”, que “foi possível confundir Azul com Azul” e que “a vítima oferecia facilidade, mas foi morta em modo “sucesso de bilheteria” .

A linha de defesa estará pronta: não se trata de negar a gravidade do crime, mas de demonstrar que a narrativa estatal é psicologicamente enviesada, juridicamente imprudente e logicamente inconsistente.

Em linhas gerais , a própria cúpula Polícia Civil sob pressão do governo do Estado se encarregou de plantar dúvidas mais do que  razoáveis : aquelas que absolvem.

Flit, por enquanto, paralisante

No palco do Flit Paralisante, essa história já se desenrola como crônica de costumes de uma segurança pública guiada mais por roteiros de Netflix  eleitoral do que por método; muito  mais por aversão à perda de prestígio do que por rigor probatório.

A tragédia é real, o morto é real, o PCC é real ;  mas a narrativa que se pretende definitiva nasce contaminada por pressa, vaidade coletiva e a velha crença de que falar com ares de autoridade em coletiva é sinônimo de “resposta do Estado”.

A ironia final é simples e cruel: quando o processo chegar à sua hora decisiva, talvez não sejam os acusados que precisem se explicar.

Bastará chamar à tribuna as autoridades do “nós temos certeza”, agora sob juramento, e deixar que, em silêncio entre uma resposta e outra, elas revelem o que sempre tentei ensinar : o inquérito, mal feito e mal contado, na maioria das vezes , é o melhor álibi.

Este texto é, ao fim e ao cabo, uma homenagem póstuma ao delegado Itagiba Vieira Franco, falecido no último dia 8, cuja trajetória firme e silenciosa contrasta dolorosamente com a verborragia insegura de certos protagonistas de hoje.

Nele se celebra a figura do policial que não precisava de holofotes para exercer autoridade, que conhecia o peso das palavras em investigação sensível e que, justamente por isso, faz ainda mais falta quando se vê a cúpula da Polícia Civil deste Estado tropeçar na própria narrativa por incultura , por incompetência e por medo de desagradar o governo!

“Tarcinismo: austeridade para o funcionalismo trabalhador , pernas abertas para as castas , para concessionárias e grileiros”…Tudo em acordo com a advocacia pública estadual 15

O governo Tarcísio de Freitas transformou a exceção em regra ao privilegiar soluções extrajudiciais generosas quando os beneficiados são grandes grupos econômicos.

Nas concessões de rodovias, a ARTESP reconheceu administrativamente mais de dois bilhões de reais em “reequilíbrios” pós‑pandemia, sem que as concessionárias precisassem bater às portas do Judiciário ou comprovar cabalmente suas perdas.

Ao mesmo tempo, o governo paulista aprovou o PL 410/2025 e outras normas que permitem a venda de até 720 mil hectares de terras devolutas – ocupadas irregularmente por grileiros há décadas – com descontos de até 90% sobre o valor de mercado, legalizando a preço de capim seco propriedades avaliadas em bilhões.

Escancarando  a  lógica perversa da direita torta: nega sistematicamente direitos líquidos e certos de contribuintes , de hipossuficientes e  de servidores públicos; especialmente os de segurança pública “sem-estrelas” , empurrando cidadãos e funcionários de baixo escalão para calvários judiciais, enquanto –  “graciosamente “ – abre a torneira do Erário e as pernas – para concessões bilionárias em favor de grandes grupos privados em plena temporada eleitoral.

Meu nariz defeituoso sente  fedor de corrupção administrativa !

Um peso , duas medidas…

A mensagem política é cristalina: para quem veste avental , colete ou farda sem estrelas , anos de espera, perícias, e mais perícias, apelações , agravos e embargos; para quem controla praças de pedágio, basta uma “canetada técnica” de um parecerista de prateleira torta da biblioteca para transformar alegações discutíveis de “desequilíbrio” em crédito gordo a ser pago com dinheiro público. 

A crueldade institucionalizada contra os policiais

Policiais estaduais convivem com uma rotina de judicialização para obter o óbvio: férias , licenças-prêmio , adicionais, promoções, pagamentos de diárias incorporação de gratificações e aposentadorias na respectiva classe no momento do cumprimento dos requisitos constitucionais .  

A Fazenda, amparada por pareceres de ocasião, recusa administrativamente direitos evidentes, força a propositura de ações, recorre de sentenças favoráveis aos autores , posterga precatórios e transfere integralmente para o servidor o custo emocional e financeiro da litigância. 

O recado institucional é devastador: o Estado que exige honestidade , disciplina, risco de vida e disponibilidade integral é o mesmo que se esconde atrás de filigranas para não cumprir a própria lei quando se trata de remunerar com justiça quem o sustenta nas ruas. 

Enquanto policiais são obrigados a percorrer anos de litigância para receber direitos cristalinos, fazendeiros condenados por desmatamento e grandes latifundiários obtêm títulos de propriedade praticamente de graça, numa reforma agrária às avessas que drena patrimônio público para quem menos precisa e menos contribui.

O “privilégio” das concessionárias  e das castas de grileiros de terras públicas

Quando o assunto são concessionárias de rodovias, a postura se inverte: aquilo que, para o policial, exige trânsito em julgado, para grandes empresas vira “direito adquirido” reconhecido sem burocracia, sem o contraditório real da sociedade. 

Em nome de um alegado “reequilíbrio econômico‑financeiro” supostamente causado pela pandemia, o governo se dispõe a reconhecer mais de dois bilhões de reais em favor de grupos que exploram pedágios caros, contratos recheados de garantias e retornos acima da média. 

Não há fila de precatórios, não há anos de espera nem ansiedade para saber se “o judiciário vai confirmar”; há notas técnicas benevolentes, reuniões fechadas, termos aditivos e a pressa típica de quem sabe que ano eleitoral é a janela perfeita para premiar aliados econômicos. 

E para grileiro de terra pública , quando não indeniza pelas benfeitorias , vende a terra a preço de lama.

A engenharia retórica dos advogados do governo 

Os mesmos advogados públicos e pareceristas que tratam pleitos de policiais como “tese controvertida” ou “impacto fiscal excessivo” são pródigos em criatividade para fabricar fundamentos a favor de concessionárias e outros grupos de poder e seus apadrinhados. 

Para o servidor sem dinheiro no banco e sem parentes importantes , invoca-se o a legalidade , o interesse público acima do particular , “rigor orçamentário”, a “necessidade de respeito ao teto de gastos”, a “impossibilidade de reconhecimento administrativo sem trânsito em julgado”, mesmo diante de direitos que saltam aos olhos da mais básica hermenêutica. 

Para as empresas, o discurso muda: a pandemia vira cláusula mágica para justificar “perdas” que nunca são cotejadas com a redução de custos e de investimentos; a “segurança jurídica” passa a ser escudo para blindar lucros; o “equilíbrio contratual” serve como passaporte para extrair bilhões do Tesouro. 

O Tarcinismo da oportunidade eleitoral 

O tempo  das compensações não é detalhe técnico: concentrar reconhecimento de créditos bilionários às vésperas de eleição revela prioridade política, não apenas “gestão de contratos”. 

Para não dizer coisa pior !

Enquanto policiais seguem atolados em ações individuais e coletivas, contando centavos para pagar advogados, peritos e custear recursos, o governo organiza um pacote robusto de benesses a conglomerados que há décadas drenam renda de usuários de rodovias. 

Em pleno debate sobre custo de vida, desigualdade e falta de investimento em serviços essenciais, o governo escolhe premiar setores que jamais experimentaram o desamparo que atinge as bases da sociedade.

É uma escolha imoral, antes de tudo. 

Captura do Estado e desprezo pelo cidadão paulista

Quando o governo é duro com contribuintes , com servidores  , com policiais e generoso com concessionárias, não se está diante de mera “opção técnica”, mas de um desenho de poder: o Estado capturado por interesses privados sofisticados, que dispõem de bancadas, lobbies e escritórios influentes, contra uma base de servidores fragmentada e vulnerável. 

A advocacia pública, em vez de atuar como defensora impessoal do interesse público, degrada-se em filtro seletivo: implacável com o pequeno, complacente com o grande; formalista com o servidor público da administração direta ,  mas empática e criativa com os grupos de poder , como as empresas que exploram as nossas estradas.

O resultado é devastador para a legitimidade das instituições: policiais aprendem que o direito escrito nada vale sem poder de lobby ou do repasse de propina  ; a população percebe que paga, em pedágio e impostos, pela combinação perfeita entre insensibilidade social e submissão a grupos econômicos. 

Esse contraste – cidadão e servidor  na fila do Fórum  para ter o básico, esbulhadores , empreiteiros e concessionárias no tapete vermelho para receber bilhões em ano eleitoral – é a síntese de um governo que usa a austeridade como chicote para a base e a “técnica” como disfarce para a transferência de riqueza ao topo.