A explosão causada
no Jaguaré foi consequência direta de uma obra da Sabesp que perfurou uma tubulação de gás da Comgás, caso típico em que falhas técnicas e de supervisão matam pessoas e destroem casas no contexto de uma empresa recém‑privatizada, pressionada por custo e prazo.
O episódio ocorreu na Comunidade Nossa Senhora das Virtudes II, no Jaguaré, Zona Oeste de São Paulo, na tarde de 11 de maio, por volta de 16h10. Uma equipe da Sabesp executava obra de remanejamento de tubulação de água quando atingiu uma rede de gás encanado da Comgás, provocando vazamento e, em seguida, uma explosão que atingiu dezenas de imóveis.
O saldo imediato foi trágico: um homem de 45 anos morto, outras pessoas feridas, inclusive em estado grave, e dezenas de casas e comércios interditados pela Defesa Civil, deixando mais de uma centena de moradores subitamente sem teto, bens e segurança.
A própria Sabesp, em nota oficial, admitiu que suas equipes perfuraram a tubulação de gás momentos antes da explosão, alegando que paralisa a obra e aciona a concessionária de gás assim que identifica o dano. Sabesp e Comgás anunciaram o pagamento de um valor emergencial por família, hospedagem em hotéis para os desalojados, promessa de ressarcimento de prejuízos materiais e oferta de assistência social e psicológica.
O governo do Estado, por sua vez, declarou que haverá apuração das responsabilidades, inclusive criminais e administrativas, e garantiu que os danos patrimoniais serão indenizados.
O quadro fático, porém, aponta para algo bem mais grave do que um “acidente” inevitável.
Havia rede de gás mapeada na região, e, ainda assim, a perfuração atingiu o duto em uma área densamente habitada.
Em termos técnicos, isso é compatível com, no mínimo, imperícia e negligência na execução e na supervisão da obra, o que remete à responsabilidade de engenheiros, responsáveis técnicos, supervisores e de toda a cadeia de comando que aprovou projeto, sondagens, plano de risco e procedimentos de interface com a rede de gás.
Não se trata de um episódio isolado: já houve outros casos em São Paulo de obras da Sabesp – muitas vezes realizadas por terceirizadas – perfurando dutos da Comgás e provocando vazamentos, incêndios, evacuações e condenações judiciais para indenizar famílias.
À luz da responsabilidade civil, estamos diante de uma típica atividade de risco, em que o prestador de serviço público responde objetivamente pelos danos causados, independentemente de culpa.
Isso abre caminho para ações civis públicas, ações individuais por danos materiais e morais e, em tese, também para imputações criminais por culpa grave, além de responsabilização administrativa.
A discussão jurídica não pode ignorar o contexto político‑econômico em que tudo isso acontece: uma Sabesp recentemente privatizada, expandindo obras e contratos em ritmo acelerado, submetida a metas de redução de custos e aumento de rentabilidade, com denúncia de enxugamento de quadros próprios e dependência crescente de terceirizações.
Entidades de trabalhadores já vinham alertando que a combinação de terceirização intensa, cronogramas apertados e redução de pessoal experiente eleva a probabilidade de falhas de projeto, de sondagem prévia e de supervisão de campo. É exatamente esse tipo de cadeia de erros que resulta em perfurar um duto de gás em meio a uma comunidade popular, com casas coladas umas às outras.
A explosão no Jaguaré evidencia, de forma brutal, o que significa aplicar a lógica da “eficiência financeira” a serviços de altíssimo risco técnico em áreas urbanas: o risco é empurrado para a população mais vulnerável, que não participou das decisões de privatização, não se beneficia dos lucros e, no entanto, paga com a própria vida, com a perda da moradia e com o trauma.
Sob o ponto de vista político, o caso desmonta a retórica de que privatizar é sinônimo de modernizar e tornar mais eficiente.
O que se vê, na prática, é a externalização de riscos e custos sociais: enquanto a empresa privada persegue dividendos, moradores do Jaguaré se organizam para tentar reconstruir suas vidas com um auxílio emergencial irrisório e promessas de indenização futura.
A explosão causada por operários da Sabesp que perfuraram tubulação de gás por imperícia e negligência de supervisão não é um ponto fora da curva, mas um sintoma de um modelo que precariza serviços, desvaloriza a experiência técnica e trata obras de alto risco como linha de custo a ser comprimida em planilha.
No fim, o saldo da privatização é este: lucros privatizados, risco socializado e tragédias anunciadas como as que vimos no Jaguaré.
A maior responsabilidade é de quem inconsequentemente votou em alguém suspeito de fraudar , logo de cara , o próprio domicílio eleitoral…
Um bem feito !










