A farda que protege o algoz: aposentadoria gorda decreta a falência moral da Polícia Militar de São Paulo, com a cumplicidade silenciosa da PGE… Ou: por que a ROTA não mata oficial matador de praça? 2

Há episódios que não exigem adjetivos para chocar ;  bastam os fatos, expostos em sua crueza administrativa.

Em 18 de fevereiro de 2026, a soldado Gisele Alves Santana, 32 anos, foi encontrada morta com um tiro na cabeça no apartamento onde vivia, no Brás, região central de São Paulo.

O marido, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, tentou vender a narrativa do suicídio.

Delegado de Polícia – o Doutor Lucas de Souza Lopes – com fundamento em depoimentos testemunhais ,  laudos periciais e mensagens trocadas pelo casal desmontaram essa versão em poucas semanas.

A  prova pericial é muita clara :  a posição do disparo — encostado na têmpora, em trajetória incompatível com autoagressão — marcas de imobilização no rosto e no pescoço da vítima.

Em 18 de março, a Justiça comum  – depois  de batalha travada pela comarquinha mais cara do mundo para ser reconhecida como a “competente” para julgar o oficial PM – recebeu a denúncia do Ministério Público e Geraldo Neto tornou-se réu por feminicídio e fraude processual ;   esta última pela manipulação da cena do crime para simular o que nunca ocorreu.

Em abril, o Superior Tribunal de Justiça confirmou que ele será julgado pelo Tribunal do Júri, afastando a tese de crime militar.

No Júri os “advogados militares “ bem  demonstrarão para que servem: desqualificar a Polícia Civil e , talvez, chamar a vítima material do crime de indigna , aproveitadora , infiel ; etc.  

Absurdamente , enquanto a engrenagem de apuração criminal  seguia seu curso normal, outra engrenagem — silenciosa, protocolar, quase burocrática em sua indiferença — trabalhava em sentido oposto.

No mesmo mês de abril, a Polícia Militar de São Paulo publicou a portaria que transferiu Geraldo Neto para a reserva remunerada, com direito a vencimentos integrais equivalentes ao salário que recebia na ativa, algo em torno de R$ 20 mil a R$ 21 mil mensais .

Em junho, a corporação deu um passo além: publicou o decreto que oficializa definitivamente essa aposentadoria, transferindo o pagamento da remuneração para a SPPrev, o instituto de previdência estadual ;  um ato que consolida, com a força da inércia protetiva da Administração  “para escolhidos” , aquilo que deveria ter sido, no mínimo, suspenso enquanto pende sobre o oficial um processo por assassinato da própria esposa.

O argumento corporativista protetivo da marginalidade interna

A defesa institucional é conhecida e, tecnicamente, não é falsa: Geraldo Neto tem mais de 30 anos de corporação, preenche os requisitos etários e temporais, e o pedido de inatividade é, segundo a própria Secretaria de Segurança Pública, “um direito” assegurado pelo regulamento da PM.

O próprio governador Tarcísio de Freitas confirmou que a decisão “segue o regulamento da corporação”, ainda que tenha declarado, em tom que soa mais a desabafo político do que a compromisso de Estado, que espera que o oficial “apodreça o resto da vida na cadeia”.

Apodreça às custas do povo , né?

É exatamente aqui que  se deve refletir para recusar a complacência da forma.

Que a norma permita a aposentadoria não significa que a Administração estivesse desprovida de instrumentos — e de dever — para conter seus efeitos morais e financeiros enquanto pende sobre o beneficiário uma imputação de feminicídio com fraude processual, ou seja, um crime cometido e depois encoberto com o aparato corporativista de quem acreditava saber como funciona uma investigação policial feita pela PM.

Não há direitos absolutos , especialmente direitos previdenciários para quem matou outro policial militar!

Aliás, cadê a ROTA para o tenente-coronel ?

Ah, só é valente na periferia !

A legalidade estrita, aplicada sem qualquer juízo de proporcionalidade ou cautela administrativa, transforma-se em proteção mafiosa .

O Direito Administrativo brasileiro não é um sistema de execução automática de normas: ele convive, há décadas, com os princípios da moralidade, da razoabilidade e da supremacia do interesse público, exatamente os vetores que deveriam ter orientado a PM e a Procuradoria Geral do Estado a, no mínimo, sobrestar o processo de inativação até a conclusão do processo criminal e do tal  Conselho de Justificação ;  o procedimento disciplinar interno, ainda  em curso, que pode culminar na perda da patente.

A própria advocacia da família de Gisele apontou o ponto mais sensível do caso: não é a aposentadoria em si que revolta, é a celeridade seletiva com que ela foi processada, em contraste com a lentidão crônica que caracteriza os procedimentos disciplinares e penais que tramitam contra o mesmo oficial. “O que nos causa espécie é a celeridade com que foi concedida essa aposentadoria antes do procedimento demissionário”, registrou o advogado da família em entrevista à imprensa .

E a isso – há décadas – denominamos : corporativismo mafioso!

O preço simbólico de manter o salário de quem mata

Há uma dimensão que nenhum argumento técnico-previdenciário consegue neutralizar: o pai de Gisele resumiu, com a precisão que só a dor permite, o que está em jogo. “Acha justo a população pagar salário para um monstro desse?”, questionou, em entrevista concedida dias após a publicação da portaria de inatividade.

A pergunta não é retórica esquerdista : é o contribuinte paulista — o mesmo que financia o orçamento de segurança pública, que paga a filha de sete anos de Gisele com uma pensão pela morte da mãe — quem também sustenta, mês a mês, o padrão de vida de quem responde por tê-la matado e por ter fraudado a cena do crime para escapar da responsabilidade.

Isso não é um detalhe orçamentário menor.

É a materialização, em nota de pagamento, de uma hierarquia de valores em que a estabilidade financeira do algoz antecede — cronologicamente e institucionalmente — a dignidade da vítima.

Enquanto a filha de Gisele recebe pensão ínfima por orfandade, o suposto autor da morte da mãe recebe, com pontualidade e sem qualquer condicionante judicial, seus vencimentos integrais.

A simetria é pornográfica  e deveria ser insuportável para qualquer corporação que se pretenda comprometida com o enfrentamento à violência em geral e a de gênero em especial ;  ainda mais uma corporação policial, cuja missão constitucional é exatamente a proteção da vida e da integridade das pessoas, a começar pelas próprias integrantes.

PGE e PM: onde estava o dever de cautela?

Cabe às duas instituições que aparecem — direta ou indiretamente — na engrenagem do benefício uma explicação que ainda não foi dada à sociedade paulista.

À Procuradoria Geral do Estado, órgão que assessora juridicamente a Administração e cuja missão inclui zelar pela legalidade e pela moralidade dos atos que produzem efeitos patrimoniais contra o erário, pergunta-se: houve qualquer manifestação técnica sobre a possibilidade de sobrestar o benefício?

A resposta oficial, até aqui, tem sido a repetição de que “a aposentadoria é um direito” e que “não interfere no processo de expulsão”. Trata-se de uma resposta juridicamente indefensável e moralmente indigente .

O Estado de São Paulo tem instrumentos — sobrestamento cautelar, condicionamento do benefício ao trânsito em julgado ou à conclusão do procedimento disciplinar, bloqueio judicial de valores em caso de eventual condenação por indignidade ;  que não foram sequer publicamente discutidos antes da concessão do benefício.

A omissão não está na letra da lei, que existe e permite a inativação; está na ausência de qualquer esforço institucional para conter seus efeitos antes que se tornassem irreversíveis.

E mais grave: onde está a ação regressiva do Estado?

Há, porém, uma segunda omissão, ainda mais grave do que a passividade diante da aposentadoria, e que a PGE não pode continuar evitando discutir publicamente: por que, até hoje, o Estado de São Paulo não ajuizou ação de ressarcimento contra Geraldo Leite Rosa Neto pelos custos que a própria Administração suportou em razão da conduta que lhe é imputada?

A lista de gastos públicos diretamente vinculados ao crime é conhecida e documentada.

O socorro a Gisele mobilizou o Corpo de Bombeiros e, na sequência, o Helicóptero Águia do Grupamento Aéreo da Polícia Militar — recurso de altíssimo custo operacional, reservado a ocorrências de gravidade extrema, que a transportou ainda com pulso ao Hospital das Clínicas, onde o óbito foi constatado horas depois.

Depoimento prestado em maio por um capitão da PM, testemunha da ocorrência, agrava o quadro: segundo ele, o próprio tenente-coronel não tentou, em nenhum momento, reanimar a esposa antes da chegada do socorro;  circunstância que, se confirmada, apenas reforça a tese de que os recursos públicos de emergência foram mobilizados para socorrer a consequência de um ato que o próprio autor não quis reverter.

A esse custo somam-se os gastos médico-hospitalares no Hospital das Clínicas, a integralidade dos recursos humanos e periciais empregados pela Polícia Civil e pela Corregedoria da PM ao longo de meses de investigação, e — o item mais permanente de todos :  a pensão  –  ainda que medíocre – que o Estado, por meio da SPPrev, já paga e continuará pagando à filha de sete anos de Gisele até a maioridade, em razão da orfandade provocada pelo próprio réu.

O ordenamento jurídico brasileiro não deixa margem de dúvida quanto à viabilidade dessa cobrança.

A Advocacia-Geral da União já consolidou, em teses reiteradas por tribunais regionais federais, o entendimento de que o autor de feminicídio deve ressarcir o INSS pelos valores pagos a título de pensão aos filhos da vítima, justamente porque o Estado, ao cumprir seu dever constitucional de proteção social, adianta um custo que a conduta ilícita do agressor gerou e que a ele, e não à sociedade, deve ser definitivamente imputado.

Se essa lógica já é aplicada ao regime geral de previdência, não há razão jurídica para que o mesmo raciocínio não alcance a SPPrev e o próprio erário paulista: o dever de ressarcimento ao ente público que socorre, trata, investiga e sustenta financeiramente os dependentes da vítima é uma decorrência direta da responsabilidade civil do agressor, sem prejuízo — como já assentou a jurisprudência administrativa — do dever primário do Estado de prestar essa proteção independentemente de qualquer ressarcimento futuro.

A própria ação penal já reconhece essa lógica reparatória, ainda que em escala insuficiente: o Ministério Público pediu R$ 100 mil de indenização à família de Gisele na denúncia que tornou Geraldo Neto réu.

Mas essa cifra, fixada no âmbito criminal, não substitui nem esgota a ação regressiva cível que caberia à PGE ajuizar em nome do Estado :  abrangendo os custos operacionais do resgate por helicóptero, os gastos médicos, o dispêndio investigativo e, sobretudo, o valor presente das pensões que a SPPrev pagará à filha da vítima ao longo de cerca de mais de quinze anos.  

Sem essa ação na esfera cível , o Estado paulista assume integralmente, e de forma definitiva, o papel de segurador gratuito de um crime cuja autoria já é comprovada por laudo necroscópico, reprodução simulada, testemunhas e denúncia formal do Ministério Público ;  enquanto o patrimônio pessoal do próprio réu, incluindo os proventos integrais que ele passou a receber, permanece intocado.

Há, ainda, uma perda que nenhuma ação de ressarcimento patrimonial é capaz de recompor, mas que a PGE e o Estado têm o dever de nomear publicamente como dano à coletividade: a perda de Gisele Alves Santana como policial, como profissional formada e mantida às custas do erário, e como pessoa.

O elemento humano — a vida, a capacidade de trabalho, a experiência acumulada em anos de serviço — não tem preço de reposição em qualquer orçamento público, e é precisamente por isso que a inação da PGE em buscar todas as formas de responsabilização patrimonial disponíveis soa como uma segunda negligência, sobreposta à primeira.

E aqui cabe uma pergunta incômoda, que a corporação certamente preferiria não ver formulada, mas que a opinião pública já formula em surdina: por que a Rota não fez, no caso de Geraldo Leite Rosa Neto, o que fez  no atentado contra o tenente Ronickson Pimentel dos Santos?

Em 27 de junho de 2026, Pimentel — irmão de Eloá Pimentel, morta em 2008 — foi baleado na nuca ao sair de uma academia em São Caetano do Sul, vítima de uma execução premeditada e monitorada por meses.

Na resposta a esse ataque contra um dos “suspeitos “ , a Rota matou  poucas horas dias após o crime sete  homens  em supostas buscas pelos responsáveis ;  sendo que,  nenhum dos executados ,  tinham qualquer indício de ligação comprovada com o crime , salvo aquela conhecida justificação : “ a ROTA nunca erra” !

A covardia da corporação  salta aos olhos quando posta lado a lado com o silêncio letárgico que envolveu o caso Gisele: nenhuma unidade de elite foi mobilizada, nenhuma cifra de recompensa multimilionária, nenhuma resposta corporativa correspondente à gravidade do crime cometido dentro de casa, por um oficial, contra uma soldada da própria corporação.

Um leitor identificado como policial militar comentou, em reação a texto publicado neste espaço, uma frase que resume com brutal honestidade a lógica hierárquica em jogo: “a Rota ou qualquer unidade de polícia de verdade não é justiceira, mas vai atrás para proteger os que trabalham no mesmo local. Quando o jogador reclama veementemente da arbitragem não é para aquele, talvez, cometido, mas para o próximo jogo.”

A frase, dita para justificar a corporação, na verdade a incrimina: revela que a resposta armada da tropa de elite não é acionada pela gravidade abstrata do crime, mas pelo cálculo de que o alvo pertencia ao “time” que precisa ser protegido para o próximo jogo.

Gisele também vestia a farda.

Também era “do time”.

E, ainda assim, sua morte não produziu nenhuma mobilização equivalente ;  porque, ao que tudo indica, o inimigo, nesse caso, usava a mesma farda que ela , a diferença  fica por conta das “decorações”.  

O custo para a imagem da corporação e para a segurança pública

Toda corporação policial vive de credibilidade. É essa credibilidade que autoriza o uso da força, que legitima a hierarquia e a disciplina, que sustenta o pacto social pelo qual a sociedade delega à polícia o monopólio da coerção legítima. Cada episódio em que essa mesma corporação parece proteger um dos seus membros corrói, de forma acumulativa e silenciosa, a autoridade moral de toda a instituição.

O caso de Geraldo Leite Rosa Neto não é isolado da conjuntura mais ampla que envolve a corporação que , rotineiramente , absolve contra todas as provas policiais autores de crimes abjetos ; até sob fundamentos jocosos como: “ é impossível praticar estupro no banco traseiro de viatura “ !   

É um padrão, não um incidente.

E padrões de conduta abusiva que avançam por anos dentro de uma corporação — sem barreiras disciplinares efetivas, sem punição exemplar em tempo hábil — não nascem prontos: são cultivados pela sensação de impunidade, pela certeza de que a estrutura hierárquica protegerá antes de responsabilizar.

Felizmente , aqui,   depois da repercussão pela imprensa ,  a sociedade viu  uma resposta penal robusta, fruto do trabalho técnico da Polícia Civil, correndo em paralelo com uma resposta administrativo-financeira que blindou  o acusado a toque de caixa !

Se dependesse da corregedoria e da justiça militar ele já estaria em liberdade!

O que resta exigir

Não se trata de presumir a culpa de Geraldo Leite Rosa Neto fora do devido processo legal: ele teve  direito à ampla defesa e à presunção de inocência, valores que  defendemos sem hesitação, inclusive para os que a inteligência mediana já julgou.

O que se questiona não é o processo penal, que segue seu rito no Tribunal do Júri.

O que se questiona é a escolha institucional de tramitar, com rapidez injustificável, um benefício financeiro que — independentemente do desfecho penal — projeta à sociedade a imagem de que a corporação prioriza a proteção patrimonial de seus quadros superiores sobre qualquer sinal de comprometimento com a dignidade das vítimas de violência doméstica, sobretudo quando essa vítima também vestia a mesma farda.

E cabe à imprensa e à sociedade civil manter viva a pressão que já produziu, segundo a própria defesa da família de Gisele, a abertura de processo administrativo para que o homicida perda a sua patente e que a sua aposentadoria seja cassada .

Que ele depois  – de cumprir sua provável condenação  – busque seus direitos – cumpridos os requisitos legais – junto ao regime geral de previdência .  

Ou como disse o governador  Tarcísio de Freitas : que apodreça na cadeia  até a morte !

Gisele Alves Santana morreu com um tiro na cabeça e teve a cena do próprio assassinato manipulada por quem deveria ser o primeiro a protegê-la.

O mínimo que se pode exigir de um Estado que se apresenta como firme no combate à violência contra a mulher é que não recompense  o autor desse crime.

Enquanto isso não muda, a Polícia Militar de São Paulo continuará devendo à sociedade paulista, e sobretudo à memória de Gisele, uma resposta que a tal “legalidade seletiva ” , por si só, é incapaz de oferecer.

Fabio Caipira, delações, áudios e a tentação da desforra 16

Quando delator vira oráculo, áudio vira sentença e manchete vira pena perpétua, o resultado não é justiça: é entretenimento com cadáver reputacional em horário nobre.

De uns tempos pra cá, ligar a TV ou abrir portal de notícias virou experiência paranormal: qualquer assunto, de inflação a previsão do tempo, acaba caindo no delegado Fábio Caipira.
Chove em São Paulo?
Manchete: “Entenda a ligação com o delegado do DEIC citado em delações.”
Faltou luz?
Manchete: “Áudio exclusivo revela bastidores da corrupção na Polícia Civil”.

O homem – desde o Camaro que não era amarelo, mas despertava atenção – virou rodapé de tudo.
É tipo aqueles personagens de novela que aparecem em todas as tramas ao mesmo tempo.
Vale dizer: da notinha $u$$urrada pelo plantonista aos mensalinhos de titulares e divisionários, é tudo para o Caipira!
Só falta o narrador dizer: “Este programa tem o patrocínio da sua indignação seletiva”.

Funciona assim:
aparece um áudio com meia frase e três palavrões;
um delator fala em tom de guru arrependido;
alguém vaza um trecho de decisão judicial.

Pronto: entra vinheta, sobe trilha dramática, o apresentador respira fundo e anuncia: “Novo capítulo da polêmica envolvendo o delegado…”.
Capítulo de quê?
Ninguém sabe, mas a série precisa continuar.

Prova robusta, contexto, corroboração?
Coisas menores.
A moda agora é soltar episódio semanal, sempre com suspense – e o final ninguém garante.
Até porque final mesmo, só processo com trânsito em julgado, e isso não dá ibope.

Enquanto isso, o contraditório vira figurante: uma linha no penúltimo parágrafo – “a defesa nega” – e vamos em frente.
É o equivalente jornalístico daquele “bom dia” que você dá sem olhar na cara: serve só pra constar.

E a perseguição vai se fazendo sem ninguém admitir que é perseguição.
“Estamos apenas informando”, dizem, enquanto repetem o mesmo nome, o mesmo rosto, a mesma narrativa, dia sim e o outro também.
Se falarem mais duas semanas seguidas em Caipira, o algoritmo passa a reconhecê-lo como sobrenome da República.

Não se trata de canonizar delegado, nem de absolver de ofício quem quer que seja.
É só constatar o óbvio: quando delator vira oráculo, áudio vira sentença e manchete vira pena perpétua, não é justiça; é entretenimento com cadáver reputacional.

Nesse circo, o público aplaude, a imprensa finge que é neutra, e o personagem da vez apanha em praça midiática.
Hoje é o Caipira.
Amanhã pode ser qualquer um que sirva para mais uma temporada da série “Operação Fulano – A verdade que você não viu”.

Chamam isso de jornalismo.
Mas, aparentemente, é roteiro de linchamento vendido como reportagem séria.

Ex-Secretários e Ex-governador Promotor ladrão, sempre roubaram o meu pão…Agora um Procurador que “não consegue pagar as contas” …( Será as do Cassino ou do Puteiro ? ) 19

O procurador que “não consegue pagar as contas” e o pão que o Ministério Público sempre tomou da mesa da polícia

“Meu nome vai parar no SPC”, lamenta o procurador de Justiça Luiz Roberto Cicogna Faggioni, depois de receber R$ 147 mil líquidos em abril.

O mesmo país em que delegado de polícia, investigador e escrivão contavam centavos para fechar o mês, décadas a fio, vê agora um membro do topo da cadeia remuneratória do Estado posar de vítima de injustiça porque o STF ousou limitar penduricalhos a 35% do teto constitucional.

Se isso não é a síntese do Brasil escravocrata , não sei o que é.

Não é de hoje que o Ministério Público faz de tudo para se colocar alguns degraus acima – salarialmente, simbolicamente e politicamente – de quem trabalha na ponta da linha da persecução penal.

O histórico de resistência à isonomia com delegados é conhecido: toda vez que se fala em alinhar carreiras jurídicas, o MP reage como se o simples fato de reconhecer dignidade remuneratória à polícia fosse uma ameaça existencial à sua “autonomia”.

Quando é para puxar o teto para cima, o MP estende a mão; quando é para dividir o pão com quem está no chão da delegacia, a conversa muda.

Por isso a cena atual tem um sabor amargo para quem foi delegado: por décadas, o “promotor de justiça” lutou para garantir o seu teto exclusivo, seus penduricalhos próprios, sua blindagem institucional, enquanto a polícia civil era mantida a pão e água, sem estrutura, sem isonomia, sem reconhecimento efetivo de carreira jurídica.

Foi uma escolha política: o MP se afirmou como casta distinta, não como parceiro de sistema de justiça. Agora, quando o Supremo traça um limite – tímido, transitório – nos extras, essa mesma casta grita “roubaram meu pão.

A ironia é inevitável: para quem viveu na pele a defasagem salarial, o sucateamento de delegacias, o desprezo velado à função policial, soa escandaloso ouvir um procurador com anos de contracheques turbinados afirmar que está “há três meses sem salário” só porque não recebe mais o que vinha recebendo há vinte anos.

O pão que ele diz ter sido “roubado” nunca chegou à mesa de quem chefiava  plantão noturno, equipe reduzida, viatura quebrada e inquérito amontoado.

Quando Faggioni escreve “ministro ladrão, roubou meu pão”,  covardemente , sem citar nomes, ele revela mais sobre si e sobre o ambiente em que se formou do que sobre o STF.

É o grito de quem sempre viu o orçamento público como extensão do próprio padrão de vida.

A escolha da palavra “ladrão” é sintomática: para uma camada da elite estatal, qualquer limitação a privilégios é percebida como roubo.

Enquanto isso, o verdadeiro furto histórico foi o boicote sistemático à isonomia, à valorização das carreiras policiais e ao reconhecimento de que a segurança pública também é função jurídica essencial, ainda que o Supremo, recentemente, insista em dizer o contrário.

Durante anos, delegados ouviram que não podiam ser equiparados à magistratura ou ao Ministério Público porque “a Constituição não permite”, “a natureza do cargo é outra”, “não há espaço para subteto próprio”.

Hoje, um procurador paulista, que surfou como poucos na onda de vantagens e adicionais, sente-se lesado porque terá de viver com “apenas” aquilo que o texto constitucional e a própria realidade social deveriam impor desde sempre.

O pão que faltou nas mesas da polícia, da saúde, da educação, virou farinha fina no pacote dos penduricalhos.

Agora que a padaria fechou um pouco mais cedo, a choradeira é geral.

É aqui que entra o ponto pessoal, que só quem veio da delegacia entende: enquanto promotor reclamava da iluminação do gabinete, da falta de maquina xerox , delegado fazia audiência de custódia informal no balcão da delegacia, sem estrutura, sem segurança e sem salário minimamente compatível com a responsabilidade de decidir, na prática, a liberdade de pessoas.

E ainda suportando as cusparadas de oficias da PM e de deslumbrados do MP!

O “pão” da família de muitos delegados foi minguado em nome de uma suposta hierarquia entre carreiras, que sempre colocou o MP num pedestal.

Ver hoje esse pedestal espernear por causa de corte em penduricalhos é mais do que revoltante : é pedagógico.

Não é preciso chamar ninguém de ladrão para perceber que, durante muito tempo, o jogo foi jogado de forma a garantir que o pão ficasse sempre na mesma mesa.

A verdadeira apropriação indevida foi simbólica e política: a apropriação da condição de “única carreira vocacionada” para defender a sociedade, enquanto se mantinham, por omissão ou ação, as demais carreiras do sistema de justiça em posição subalterna e mal paga.

O resultado está aí: um procurador que nunca sentiu a angústia real de quem vive com salário de delegado – aqui digo por mim – defasado acredita, sinceramente, que está em situação de penúria.

Se há alguma justiça poética nessa história, ela está na palavra que tanto incomoda Faggioni: limite.

( Falta de … )

O mesmo sistema que sempre esbarrou em limites para reconhecer isonomia aos delegados, agora impõe limite aos penduricalhos que alimentavam a sensação de intocabilidade do Ministério Público.

O pão que nunca chegou à polícia e à base do serviço público talvez, pela primeira vez, deixe de ser totalmente devorado antes de sair do forno.

Dizer que não consegue pagar as contas com o que recebe é, no mínimo, um deboche cruel com quem sobrevive de salário mínimo.

Quando alguém com esse nível de renda se declara em “penúria”, o mínimo que se pode dizer é que foi perverso com o Brasil real ao transformar privilégio em vitimização oficial.

Faça-se, porém, a distinção necessária: o Flit Paralisante guarda grande respeito pela imensa maioria dos promotores de piso, aqueles do velho parquet , do chão de taco do fórum, que não compartilham desse tipo de pensamento e sabem o que é trabalhar pesado sem penduricalho de cúpula.

Numa sociedade como a nossa, a imaginação popular, inevitavelmente maliciosa, corre para hipóteses de vícios caros, mesa de jogo, luxos inconfessáveis.

Eu não preciso afirmar em que exatamente ele torra o dinheiro; basta registrar que, se o problema não é o valor da remuneração, só pode ser a forma como ela é queimada.

Cada leitor que decida, em silêncio, se as contas que ele diz não conseguir pagar são as da casa… ou as de algum cassino ou puteiro bem frequentado.

E, já que o procurador gosta de distribuir o adjetivo “ladrão” para ministro do STF em abstrato, talvez fosse mais honesto mirar sua indignação na promiscuidade entre bancos sob investigação e contratos milionários com escritórios de familiares de egressos do Ministério Público paulista.

Não faltam notícias, documentos e delações envolvendo Banqueiro Vorcaro, Banco Master e acordos de honorários de dezenas de milhões com o escritório da esposa de um certo ministro ; mas, curiosamente, esse tipo de “pão” nunca desperta a fúria moral de Faggioni.

A MURALHA – Abelhas Parasitas atacam outra vez…Uma oportunidade de negócio para quem? 6

Quando a inteligência policial acaba virando caso de polícia

O Governo de São Paulo ergueu uma muralha.

Não daquelas de tijolo e cimento, visíveis ao cidadão comum, mas uma muralha de pixels, algoritmos e, principalmente, de dinheiro.

Batizada de Muralha Paulista, a iniciativa foi vendida ao público com a pompa habitual dos salvacionismos tecnológicos: integração de câmeras, inteligência artificial, controle da mobilidade criminal. A embalagem, como sempre, é impecável.

O conteúdo, quando começa a ser aberto pelos órgãos de controle, exala aquele aroma inconfundível que mistura pressa, opacidade e um caminho tortuoso até o erário.

Na linguagem policial : MARACUTAIA!

Primeiro, anuncia-se a maravilha eletrônica.

Depois, descobre-se a engenharia contratual.

E a história recente do Brasil nos ensina uma máxima quase acadêmica: grandes contratos na área de inteligência da segurança pública raramente terminam bem.

Terminam, quase invariavelmente, como “caso de polícia” a cargo do Ministério Público.

A cortina retórica e o preço do espetáculo

O programa Muralha Paulista foi apresentado pelo Governo de São Paulo como símbolo de modernização da segurança pública, com a promessa de integrar câmeras públicas e privadas, ampliar a capacidade de monitoramento e reforçar o chamado controle da mobilidade criminal.

No papel, trata-se de uma política de inteligência.

Na prática, o que começa a emergir é outra imagem: a de uma engrenagem contratual obscura, assentada em contratação sem licitação, triangulação por estatal e favorecimento potencialmente direcionado a uma empresa privada sem trajetória pública consolidada.

Direcionamento!

Como quase sempre ocorre quando o poder público se encanta demais com a tecnologia, a publicidade institucional vem antes da transparência.

Primeiro se vende a maravilha eletrônica; depois, quando os órgãos de controle resolvem abrir a caixa-preta, aparece o detalhe desagradável: a maravilha custa centenas de milhões, foi estruturada por um caminho excepcional e desemboca em empresa ligada a jurisdições conhecidas pela baixa transparência societária

Instituído em setembro de 2024, o programa promete o cruzamento de dados, a leitura de placas e a integração dos olhos eletrônicos do Estado com os da iniciativa privada.

Nada disso é juridicamente escandaloso.

O problema, como quase sempre, está na distância entre o PowerPoint bonitinho e o papel timbrado do contrato ordinário.

Sempre ratificado pela estante das procuradorias !

Segurança pública, no Brasil, tem a estranha vocação de transformar qualquer cifra obscena em despesa patriótica.

Basta invocar o crime organizado e a inovação digital, e questionar o preço passa a soar quase como um ato de deslealdade institucional.

É o velho truque: enquanto você se distrai com o clarão dos holofotes tecnológicos, a verdadeira ação se passa nos bastidores sem licitação.

No caso da Muralha Paulista, a vitrine esconde um contrato de R$ 475,8 milhões, com vigência de 60 meses, firmado mediante dispensa de licitação.

O orçamento total do programa para 2026, considerando correções e aditamentos , segundo o TCE-SP, chega a R$ 674 milhões.

Não se trata de um software auxiliar do tipo que embalaram – em passado recente – dezenas de licitações fraudulentas no âmbito da Polícia Civil , mas de um eixo central da política de segurança que compromete o orçamento estadual por anos.

A ponte estatal e o destino em Delaware

O desenho contratual é uma pequena obra-prima de triangulação: a Secretaria da Segurança Pública contratou diretamente a Prodesp, a empresa estatal de tecnologia, para expandir o sistema.

A Prodesp, por sua vez, já havia firmado uma “parceria em oportunidade de negócio” com a Paladium Corp, empresa privada que forneceria as câmeras.

A cronometria é poesia burocrática: em março, a estatal assina a parceria com a Paladium; em abril, o Estado contrata a estatal.

Prazos idênticos.

Objeto idêntico.

A Prodesp, que em tese deveria ser a executora, atua na prática como um elegante balcão de transferência de recursos.

A Lei 13.303/2016 admite que estatais atuem no mercado, mas o TCU vem limitando o uso dessa dispensa quando a estatal é mera intermediária e não executa diretamente o serviço.

A pergunta central é inevitável: a Prodesp foi contratada por sua capacidade técnica singular ou porque oferecia o atalho jurídico mais conveniente para dispensar a concorrência?

O Flit responde: por “oportunidade e conveniência” !

Do outro lado da ponte está a beneficiária final: uma empresa constituída em julho de 2024, que em menos de um ano se projetou para o centro de um negócio bilionário de vigilância.

Para dar um toque internacional ao enredo, sua estrutura societária aponta para Delaware, nos EUA, e Nassau, nas Bahamas.

( Por que não em São Vicente? )

Não é prova de crime, claro.

Mas em contratações de altíssimo valor e sensibilidade estratégica, o uso de jurisdições conhecidas pela baixa transparência é, no mínimo, um sinal de que a diligência da administração deveria ter sido levada mais a sério.

A ironia final: o fiscal pede licença

O Tribunal de Contas do Estado já acendeu o alerta e cobra explicações.

Suspeita-se que a estatal tenha sido usada para contornar a exigência constitucional de licitação.

A essa altura, o enredo se torna dolorosamente familiar: uma muralha bilionária erguida com dinheiro público, sustentada por discurso salvacionista, mas cercada por perguntas básicas ainda sem resposta convincente.

Quando o controle externo precisa perguntar o óbvio — quem define o preço, quem executa e quem se esconde atrás do CNPJ — é porque o problema já deixou a seara administrativa e entrou no território policial.

A julgar pelos precedentes da segurança pública brasileira, a única inteligência que falta nesse sistema é a contratual.

A Muralha Paulista é a cara do Estado paulista no século XXI: por fora, um painel brilhante de tecnologia, integração de câmeras, leitura automática de placas, algoritmos de “mobilidade criminal”; por dentro, a mesma polícia de sempre, com o mesmo apetite por contratos, o mesmo amor por sigilo e a mesma vocação para transformar TI em teologia e caixa‑preta.

O marketing oficial garante que agora tudo é “inteligente”: cidade inteligente, segurança inteligente, câmera inteligente – só continuam burros, curiosamente, o atendimento ao cidadão, a transparência dos contratos e a prestação de contas de quem aperta o botão da vigilância.

E não é a primeira vez que vendem informática policial como se fosse epifania.

Lá atrás, no velho DIPOL, o milagre prometido atendia por outro nome e outra logomarca: Black Bee, o software xing‑ling com parque industrial fantasma em São Vicente, contratos milionários, discursos pomposos sobre “revolução tecnológica” e uma prática muito simples – transformar licitação em evangelho e o erário em colmeia de mel para poucos.

Enquanto os cardeais da Polícia Civil se encantavam com o brilho das abelhas digitais, o que se via, na prática, era mais do mesmo: sistemas instáveis, servidores desmotivados, polícia no papel e dinheiro público escorrendo por buracos que nunca têm culpado.

A Muralha Paulista entra na mesma tradição, só que em 4K.

Em vez de colmeia digital, agora temos o panóptico paulista: milhares de câmeras públicas e privadas plugadas num cérebro eletrônico que tudo vê, tudo grava e, segundo a propaganda, tudo resolve.

O que não aparece na peça publicitária é o bastidor que o FLIT conhece bem: a sanha por contratos de manutenção, as integrações “estratégicas” com empresas amigas, os convênios nebulosos com prefeituras e comerciantes, a eterna dificuldade em dizer, em linguagem de gente, quanto custa essa brincadeira, quem audita, quem acessa os dados e por quanto tempo se guarda a vida alheia em HD.

Ontem o negócio era software “de ponta” rodando em galpão vazio; hoje é câmera em cada esquina alimentando o grande estômago de dados do Estado.

Enquanto vendem a Muralha como escudo da população, o que se ergue, na prática, é uma muralha de assimetria: o cidadão filmado em cada esquina, rastreado por placa e por rosto, convocado por mensagem para se explicar sobre celular, carro, trajeto; a corporação, por sua vez, segue atrás de vidro fumê, com sua cultura de plantão, seus balcões de negócios e suas investigações seletivas.

A tecnologia, nesses termos, não corrige a polícia – apenas amplifica o alcance da mesma polícia que já conhecemos.

E se lá no DIPOL a abelha digital serviu para adoçar contratos, aqui a muralha eletrônica corre o risco de servir para azedar de vez o pouco que restava de privacidade, sob o aplauso de quem ganha com a obra e posa de moderno em coletiva de imprensa.

O resto, como sempre, acaba virando mais um caso de polícia civil para o Ministério Público.

Lula falou tá falado : Delegacia não é balcão de achados e perdidos… 10

“Lula falou o óbvio: pobre foge de distrito. O escândalo não é a frase, é a corporação fingir surpresa.”

O presidente Lula, na 7ª reunião do chamado “Conselhão”, resolveu dizer em voz alta o que qualquer cidadão comum, e qualquer delegado minimamente honesto, sabe há décadas: gente de baixa renda tem medo de delegacia, não confia no “tipo de delegado” ou “tipo de policial” que vai encontrar e, por isso mesmo, evita ao máximo entrar num distrito – mesmo que seja para fazer a coisa certa.

A fala veio no contexto do plano de enviar mensagens para milhões de celulares cadastrados como roubados ou furtados, alertando os atuais usuários a devolver o aparelho.

Lula cogitou, primeiro, a devolução em delegacias, com ameaça de indiciamento por receptação ou desobediência, mas recuou e passou a defender que a entrega seja feita nos Correios, justamente porque o caminho da delegacia é percebido como hostil, burocrático e arriscado.

O ponto é que, nesse episódio, a corporação policial reagiu exatamente como o cidadão comum esperava: com ofensa, vitimismo e zero autocrítica.

Lula apenas verbalizou o óbvio – que pobre tem medo de delegacia e não sabe que tipo de policial vai encontrar –, e imediatamente brotou nota chorosa de candidatos sindicatos e associações , como se a grande injustiça brasileira fosse falar mal da Polícia Civil.

Diga-se,  associações e entidades que em passado recente foram comparadas a “escritório de crimes” .

Enquanto isso, a experiência real do balcão é outra: plantão saturado de papel, investigador exaurido e mal pago que desconta frustração em quem aparece, delegado que acha que “cidadão” é estorvo, e um ambiente em que qualquer um que atravesse a porta já entra sob suspeita.

A ideia de mandar gente devolver celular em distrito só escancara a disfunção: transformar delegacia em balcão de achados e perdidos é condenar o usuário a horas de espera, humilhação implícita e o risco permanente de sair de lá menos cidadão e mais suspeito de receptação.

Quando alguns Delegados candidatos com viés bolsonarista e um sindicato de investigadores diz que Lula “generaliza” e “mancha a credibilidade” dos policiais, o que está defendendo não é a realidade da base, mas a ficção institucional de uma polícia acolhedora que só existe em discurso de solenidade.

A corporação não se pergunta por que a população evita delegacia como se fosse repartição inimiga; prefere posar de vítima de “ataques à honra” enquanto mantém um modelo de atendimento que trata pobre como potencial receptador e vítima como estorvo que atrapalha o “café”.

Ora, plantão policial no Brasil é aquela coisa que todo mundo finge não saber, mas todo mundo conhece: virou balcão da PM e, em muita delegacia, balcão de negócios.

Na porta, quem manda é um morcego que  decide quem entra, quem espera até desistir e quem nem chega a ser atendido, conforme a cara, o endereço  e o tamanho  do problema.

Lá dentro, o que deveria ser serviço público virou feira livre de prioridades: BO que anda, BO que morre, inquérito que respira por aparelhos e investigação que só sai da gaveta quando interessa a alguém.

Quem entra achando que vai encontrar o Estado de Direito, encontra o Estado de Jeito …O jeito de cada um, conforme a patente, o humor e, não raro, o negócio em curso.

Se a categoria estivesse realmente interessada em credibilidade, teria aproveitado a fala do presidente para admitir:

  • “Sim, o povo tem medo de nós  e com justo motivo.  Vamos mudar a forma como atendemos, simplificar procedimentos, garantir que ninguém seja tratado como bandido só porque veio fazer a coisa certa.”

Em vez disso, reage com a arrogância de sempre: somos injustiçados, somos heróis incompreendidos, o problema é o discurso do político, não a prática da instituição.

No fim, o recado é cruel, mas verdadeiro: se o caminho mais racional para devolver um celular roubado é uma agência dos Correios e não uma delegacia, não é o Correio que está errado.

É a polícia que é tão pouco confiável para o cidadão comum que o próprio Estado prefere terceirizar o contato.

Lula, talvez sem ter plena consciência do que dizia, apenas puxou a cortina; quem ficou nu foi a corporação.

No fim das contas, a única correção que este blog se permite fazer ao presidente é de roteiro:

  • já que o cidadão morre de medo da delegacia de bairro – e com bons motivos –, que se recomende, em campanha nacional, a entrega dos celulares diretamente nas sedes da Polícia Federal ou nas mãos ungidas dos membros do Ministério Público.

Afinal, esses são sempre de confiança, incorruptíveis por decreto, imunes à vaidade, à política miúda e a qualquer tentação de espetáculo.

  • Nada mais justo que transformar a PF e o MP no grande balcão moral da República: que recebam os aparelhos, os pecados, as culpas e, se possível, também a fila, o calor, o mau humor e o risco diário de ser confundido com bandido.

Talvez, só assim, descubram o que é viver no país em que recomendam que a gente tenha fé.

Heróis de Lama e Fatos “Isolados” – Luta Livre no PEPC : Felício versus Monteiro 26



As manchetes falam em “policiais envolvidos com o PCC trocam socos na prisão”.

A frase é tão surreal que podia sair da pena de um comediógrafo.

Mas é real, contundente, vulcânica.

Não se trata de um caso isolado; é a fotografia instantânea de uma corporação que há décadas aceita dançar a valsa do crime organizado, desde que o cachê seja bom.

A diferença é que, desta vez, o baile foi transferido para dentro do presídio.

E o baile, como sabemos, sempre acaba em pancadaria.

A polícia brasileira é uma grande família.

Uma família trágica.

Uma dessas famílias em que irmão mata irmão , a sogra se acoberta o genro, a prima se acoberta com o cunhado ; e todos se reúnem no almoço de domingo para comentar o crime com lágrimas nos olhos e bifes no prato.

Pois bem: no caso Gritzbach, a família policial descobriu que alguns primos estavam mais íntimos do PCC do que do próprio Código Penal.

Foram presos.

E agora, no presídio da Polícia Civil, os primos brigam entre si, como herdeiros de um testamento macabro.


No Brasil, santo de plantão morre na calçada do desembarque, empurrando carrinho de bagagem e segredo demais.

Tinha delator, PCC e, claro, policiais.

Policiais tão puros que, se fossem colírio, cegariam até exame de consciência.

Puros e muito ricos !

A coluna do Josmar Josino pôs o dedo na ferida: anos depois, os mesmos valentes de coldre na cintura foram parar no presídio da Polícia Civil, acusados de servir à facção que juravam combater.

Não bastou trancafiar. Faltava a liturgia da vergonha: trocaram socos entre si, atrás das grades, como se o inferno abrisse arquibancada para jogo de várzea.

O presídio especial virou um teatro decadente.
Palco: corredor mofado, azulejo estatal, cheiro de carreira que azedou.
Elenco: delegado em queda livre, investigador que já posou de terror de periferia e hoje treme como ladrão de galinha.


Na plateia, o coro hipócrita das corporações entoa o mesmo mantra de missa fúnebre: “fato isolado”, “caso pontual”, “falha de caráter de berço”.

A instituição, coitada, seria sempre uma virgem ilibada traída por seus próprios filhos.

É assim há décadas: toda execuçãozinha errada, todo flagrante arrumado, todo vínculo com PCC e milícia é imediatamente carimbado como “desvio pessoal”. A Polícia nunca erra em conjunto, em estrutura, em doutrina; erra no CPF alheio. Quando o escândalo estoura, sobe um coronel de powerpoint ou um delegado de coletivinha e recita a ladainha: “Não representa a maioria”. A maioria, pelo visto, é sempre santa – só não aparece nas filmagens.

Enquanto isso, para “subir na vida” na polícia paulista, existe a cartilha não escrita:
Arrume uma ou mais empresas de segurança privada;
De preferência com nome brega e brasão paramilitar no logotipo;
Ofereça transporte de valores para comércios suspeitos e igrejas ainda mais suspeitas;
Anuncie vigilância armada, escolta VIP e, para os íntimos, pacotes especiais de “blindagem espiritual” com recibo carimbado.
É a meritocracia à brasileira: quem se mata no plantão honesto morre anônimo; quem abre CNPJ de fachada vira “referência na área de segurança”.

No caso Gritzbach, a caricatura virou autorretrato.

Policiais acusados de mamar no cofre do PCC, de proteger gente que deveriam investigar, agora se engalfinham dentro do presídio da própria corporação.

Não foi o crime que entrou na polícia; foi a polícia que aprendeu a tabela do crime, com juros, correção monetária e contrato social em três vias.

O PCC não corrompeu as Instituições , foram as Instituições do Estado que exigiram sociedade !

Do lado de fora, a narrativa oficial segue olímpica:


É sempre “episódio isolado”;


É sempre “traição aos valores da instituição”;


É sempre “má formação familiar”.


Nunca é curso de formação que ensina a obedecer ao chefe corrupto.

Nunca é equipe montada para fortalecer o  esquema.

Nunca é promoção a peso de favores.

O problema, garante-se, nasceu no berço :  e não nas delegacias e batalhões.  

O delator executado no aeroporto é o grande fantasma dessa ópera bufa.

Falou demais, puxou fios que ligavam facção, polícia e negócios, e virou cadáver ilustrativo.

No entanto, quem continua em cartaz é a retórica do “caso isolado” e da “falha individual”.

Se meia dúzia de delegados ou oficiais da PM abrirem igreja de fachada, empresa de segurança, firma de consultoria, tudo simultaneamente, ainda assim será “empreendedorismo”.

Só se descobrirem o cofre é que vira “desvio de conduta”.

Dentro do presídio especial da PC e do Romão Gomes , a lógica da facção segue firme: hierarquia, disciplina, rixa, território.

Fora dele, a lógica da corporação é mais perversa: preservar o brasão e as estrelas de lata , custe o que custar.

Se for preciso sacrificar mais alguns “indivíduos de mau caráter”, sacrifica-se.

A instituição, essa entidade abstrata, permanece imaculada no discurso:  mesmo quando a prática fede a decomposição.

Moral provisória da história: quando o Estado se deita com o crime, nasce um filho híbrido:  o policial-empresário de segurança, devoto de igreja suspeita, que jura combater o PCC enquanto negocia em sigilo com o caixa da facção.

Quando esse filho é acidentalmente  preso, não vira exemplo; vira mais um “caso isolado” perdido na estatística.

Ah , deu azar …

Ah, estava fora de controle …Melhor para todos !

Vamos dar uma força para que não abram a boca!

E nós, aqui fora, assistimos.

Uns com indignação verdadeira, outros com cinismo, muitos com aquela resignação bovina que é a maior instituição nacional.

A coluna do Josmar traz o fato nu e cru; o Flit Paralisante o lê como aquilo que é: uma parábola sinistra sobre a polícia que se tornou caricatura de si mesma, espancando o próprio reflexo no espelho rachado do presídio.

Se existe moral para essa história, ela é simples e brutal: quando o Estado se deita com o crime, o filho que nasce é esse : um policial que, preso por servir à facção, continua a agir como facção dentro da prisão.

E quando esse filho cresce, ele não apenas bate nos outros; ele bate, sobretudo, no último fiapo de confiança que o cidadão ainda tinha na palavra “polícia”.

https://noticias.uol.com.br/colunas/josmar-jozino/2026/06/05/caso-gritzbach-policiais-civis-envolvidos-com-o-pcc-trocam-socos-na-prisao.htm

MATANDO E MENTINDO SEM PARAR – Segundo Capitão da Corregedoria da PM o Agente Rafael Moura cometeu suicídio 10

O relatório da Corregedoria da Polícia Militar sobre a morte do policial civil Rafael Moura escondeu a verdade do caso

A apuração disciplinar tentará requalificá-la para absolver antecipadamente o homicida  e, de quebra, transferir para a vítima a culpa pela própria morte.

Coisa típica de  órgãos violentos e fraudulentos: a culpa é sempre da vítima!

Certamente a PM foi intoxicada pelos manuais de procedimento de  contrainformação israelenses.  

O ponto mais escandaloso do documento é chamar de “injusto” o comportamento do policial civil por empunhar uma arma em serviço, em operação real, em área sensível , como se isso fosse equivalente a ameaçar dolosamente um policial militar fardado.

De se ver pela matéria da jornalista Milena Vogado do Metrópoles :

“Ainda que o agente de telecomunicações estivesse devidamente identificado como policial, é injusto ele apontar uma arma carregada na direção de um policial militar devidamente fardado e de serviço que nada de errado estava fazendo”, afirmou o capitão Conrad Rodrigues no relatório final da Corregedoria, apresentado à Justiça em dezembro do ano passado.

Injusto, na verdade, é um policial civil no exercício da função ser executado em uma viela por um sargento da Rota que corria armado, sem abordagem progressiva, sem voz de parada clara e trazendo a chave do portão usado pelos traficantes na comunidade.

Sim, o sargento tinha a chave da “atividade”!

A encontrou no chão da casa do  Caralho …O Caralho!

Injusto é a vítima morrer alvejada sem possibilidade de defesa , no exercício do trabalho  e, depois, ser responsabilizada  –  póstuma e subjacentemente – por não usar colete balístico e por portar uma arma de fogo .

Ora, o Capitão Conrad Rodrigues poderia ter sido mais corajoso e ter ido além afirmando que: agente de telecomunicações não é policial operacional de campo e morreu por culpa do governo do Estado que autoriza desvios de funções na Polícia Civil.  

Mas querer coragem intelectual de oficial da PM é querer demais…

Se houver , talvez do Corpo de Bombeiros que , para muitos da PM , não são policiais de verdade.

Ainda bem !

O sofisma central da Corregedoria

O relatório administrativo tenta transformar duas coisas profundamente diferentes em um só: empunhar uma arma no contexto operacional e apontar especificamente uma arma para matar ou afrontar um policial militar.

Essa (con) fusão retórica contorcionista é o coração do sofisma, porque apaga a dinâmica real dos fatos e simplifica a cena para fazer caber, à força, a tese de defesa legítima.

As imagens das bodycams e a denúncia do Ministério Público caminham em direção oposta.

O que aparece é uma ocorrência instantânea, malconduzida, sem verbalização inequívoca e com disparos quase imediatos, no contexto em que os policiais civis também estavam armados para estarem em missão oficial.

Nada disso autorizava a conclusão automática de que Rafael Moura “apontou” arma de forma injusta; menos ainda autoriza dizer que a culpa por sua morte foi dele próprio.

O Sargento ingressou na viela com sangue nos olhos , ou seja , para matar , pois tinha informações e domínio do local .

A inversão moral: a vítima vira culpada

Caso o agente de telecomunicações estivesse identificado como policial civil, certamente o 3º Sgt PM Mendes não teria atirado na sua direção. E, se Rafael estivesse com colete de proteção balística, nenhum dos 3 tiros que atingiram seu tórax teriam penetrado o corpo e ele estaria vivo”, diz trecho do relatório do Excelentíssimo Doutor Capitão Conrad

Ao sustentar que Rafael estaria vivo se estivesse de colete e “devidamente identificado”, a Corregedoria pratica uma dupla inversão moral: minimizar a conduta dos atiradores e deslocamento o foco da ação letal para supostas falhas da vítima.​

Esse raciocínio equivale a dizer que o problema principal não foi o PM disparar contra um colega de outra corporação sem abordagem técnica suficiente, mas sim o fato de o policial civil não ter se protegido do erro alheio.

Isso é inaceitável em qualquer leitura minimamente séria do caso.

Se um agente público é morto por outro agente estatal durante atividade funcional, a pergunta central deve ser: por que o autor dos disparos atirou sem confirmar o alvo, sem abordagem gradual e em situações tão confusas?

Substituir essa pergunta por outra — “por que a vítima não estava de colete?” — é uma estratégia clássica de autodefesa esfarrapada .

Vergonhoso é um órgão fazer defesa de um assassino por blindagem institucional .  

A chave do portão e a sombra sobre a narrativa oficial

Há um dado especialmente grave, ressaltado nas matérias  anteriores e no próprio Flit Paralisante: o sargento da Rota portava a chave do portão instalada – segundo a própria versão dos policiais militares – pelo tráfico de drogas na área de ocorrência.​

Esse elemento desmonta a pose asséptica do policial “que nada de errado fazia”, expressão usada no relatório correcional para reforçar a imagem de um agente surpreendido por agressão ilegítima.​

Um policial militar que ingressa em uma viela supostamente controlada pelo crime organizado , com a chave do portão da comunidade, não está em um cenário neutro nem pode ser protegido por fórmulas burocráticas de autoabsolvição.

​Ao contrário, esse detalhe exige apuração rigorosa sobre vínculos com criminosos , autorizada circulação no território e grau de conhecimento prévio da área ; exatamente em franca oposição ao fechamento do apressado relatório disciplinar produzido pela Corregedoria PM.

E sem esquecer ,  tratava-se de um policial novato na ROTA sob a pressão de ser filho de um policial homicida e estuprador que se encontra no Romão Gomes.

O Verbo Empunhar não é grego

Esse ponto precisa ser aqui esclarecido de forma simples e inequívoca: empunhar arma em serviço não é a mesma coisa que apontar de modo injusto para um policial militar “devidamente fardado” .

Observem , segundo o Capitão Conrad, não é nem pecado apontar arma e matar gente civil , mas é injusto passível de pronta reação apontar arma para um PM fardado !

Policiais civis em incursão armada não caminham com as mãos vazias; caminhamos armados porque a função, o terreno e o risco assim impõem.

A própria descrição das imagens mostra Rafael com as mãos na altura do abdômen e arma empunhada, isso, por si só,  resolve a questão jurídica sobre ameaça concreta, direção do cano, tempo de reação , eventual identificação e possibilidade real de comando verbal prévio.

Com efeito , as imagens comprovam acima de quaisquer dúvidas : Rafael não apontou sua arma para o Sargento da Rota…

Nem tempo teve!

Rafael foi assassinado pelo PM.

A Corregedoria policial militar  salta por cima dessas nuances e decreta,  com toda a sua conhecida isenção e conhecimento técnico-jurídico , a “injustiça” da conduta da vítima como se deu diante de prova plena e incontroversa, quando o próprio Ministério Público denunciou o sargento por homicídio qualificado e o Poder Judiciário recebeu a denúncia.

Certamente , o Tribunal do Juri  virou o picadeiro dos “advogados militares” e provavelmente o sargento acabará absolvido e a vítima com seus familiares mais uma vez ultrajadas .  

Com a contribuição desonesta da Corregedoria da PM , que em vez de reconhecer que houve falha operacional grave, ausência de abordagem técnica e ambiguidade relevante nas imagens e nos áudios, a Corregedoria preferiu uma conclusão peremptória, conveniente e funcional: o sargento agiu em defesa legítima e a vítima, no fundo, contribuiu para morrer.

Não é relatório esclarecedor; é enredo fraudulento para auxiliar a defesa do “parceiro” de farda!

O abismo entre a Corregedoria e o Ministério Público

A denúncia do Ministério Público sustenta que a conduta do sargento afastou a alegação de legalidade, inclusive porque ele teria continuado a atirar mesmo após alerta de que as vítimas eram policiais.

Já a Corregedoria adota como eixo argumentativo a suposta agressão injusta do policial civil e a imagem de um PM fardado reagindo a perigo iminente.​

Esse abismo mostra que o relatório correcional não apura o caso; ao contrário, revela disputa institucional aberta sobre o sentido jurídico dos mesmos fatos.

Quando uma instância administrativa trata como praticamente lícita uma morte que o Ministério Público enquadra como homicídio qualificado, o problema já não é apenas probatório: é também político, corporativo e moral.

Não foi fatalidade; foi a gramática da impunidade

O relatório da Corregedoria reproduz a velha cartilha da impunidade policial: matar, alegar percepção de risco, reduzir a vítima a um erro operacional de si mesma e converter tudo em defesa legítima burocraticamente homologada.

Essa  cartilha é ainda mais perversa quando a vítima é um policial civil negro, em serviço, que passa a ser tratado como se houvesse produzido a própria execução por não portar o equipamento ideal ou por estar armado em missão.

Injusto não foi Rafael Moura empunhar sua arma.

A injustiça foi ser assassinado por um PM da Rota e depois ouvir de “uma autoridade corregedora ” do Estado que talvez estivesse vivo se tivesse se preparado melhor para sobreviver ao erro — ou à violência — de outro agente estatal.

Injusto é o corporativismo mafioso enraizado nas instituições de Estado !

E nesse sentido o Excelentíssimo Capitão Conrad Rodrigues conseguiu um feito raro na lógica: transformar um policial civil em serviço, armado em área de risco, numa espécie de suicida jurídico que “provoca” a própria morte ao empunhar o instrumento de trabalho, tudo isso enquanto absolve, em linguagem engomada, o sargento da Rota que entrou em via secundária correndo, com a chave do portão do tráfico no bolso, sem abordagem técnica, sem verbalização clara e atirando para para matar e só depois pensar: ​ou melhor, para depois mentir !

Injusto, enfim, é  roubar , matar e mentir sem parar.



Por analogia : certamente o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto seria , de plano , absolvido do assassinato da soldado Gisele .

Afinal , ela cometeu uma injustiça ao rejeitar o marido – provedor das contas – que apenas exercia o seu legítimo direito de estuprar a esposa!

MPSP vê ligação entre “chave do tráfico” e PM que matou policial civil

Denúncia do MPSP contra sargento da Rota destaca que o militar tinha acesso prévio a uma chave de portão instalado por traficantes

Milena Vogado do Metrópoles

15/05/2026 02:15, atualizado 15/05/2026 06:55

Chave usada para abrir portão de biqueira
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Uma chave que abre um portão instalado por traficantes na comunidade Fogaréu, no Capão Redondo, zona sul de São Paulo, não foi esquecida pelo Ministério Público do Estado (MPSP) em denúncia contra o sargento das Rondas Ostensivas Tobias Aguiar (Rota) Marcus Augusto Costa Mendes. O militar matou a tiros o policial civil Rafael Moura, em julho do ano passado.

Marcus foi formalmente denunciado pela promotoria por homicídio qualificado contra um agente do Estado com recurso que dificultou a defesa da vítima, além de ter ferido outro policial civil por erro na execução do disparo.

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Pedido de doação para o policial Rafael Moura

Rafael Moura tinha 38 anos

Na denúncia, o promotor Rogério Leão Zagallo apontou que a comunidade onde os policiais estavam era repleta de pontos de vendas de drogas. Para dificultar a ação das forças de segurança e preservar o tráfico no local, criminosos instalaram diversos portões metálicos pelo território, fechados a chave.

O sargento da Rota tinha uma dessas chaves em mãos. Por isso, ele conseguiu abrir um dos portões e acessar uma viela erma, onde Rafael estava em incursão enquanto investigava uma tentativa de latrocínio ocorrida dias antes.

Zagallo destaca que os portões bloqueavam “os locais mais críticos da traficância”, aos quais “somente pessoas certas e determinadas teriam acesso”.

“O sargento tinha em seu poder uma chave que liberava um desses portões que foram instalados pelos traficantes, sendo que, no dia dos fatos, em razão dessa posse estratégica, Marcus Augusto e Robson, por conta da determinação dada pelo denunciado, adentraram em uma viela controlada pelos traficantes e nela passaram a incursionar, sem qualquer estratégia, em desabalada carreira e em desrespeito aos procedimentos operacionais preconizados pela Polícia Militar, eis que deixaram de adotar manobras preventivas esperadas em situações como essa, tais como avanço tático, realização de varredura, de tomada de ângulo, de identificação positiva de risco e ameaça”, considerou o promotor.

PM diz que encontrou chave por acaso

A versão dos PMs é de que a chave teria sido encontrada em uma escadaria próximo ao portão. Em interrogatório no dia 26 de agosto, o delegado afirmou que a equipe de investigação teria tido acesso a outras imagens, anteriores às divulgadas, em que os PMs aparecem na rua de trás. Segundo Antônio Giovanni, em nenhum momento, é possível ver o sargento encontrando a chave.

“A gente tem a bodycam e a gente tem filmagens do percurso de vocês, de vocês chegando antes. E essa chave em nenhum momento foi encontrada. Pelas filmagens que a gente tem, dá para ver que vocês já tinham posse, pelo menos o sargento Marcos já tinha posse dessa chave”, afirmou o delegado, de acordo com a transcrição do interrogatório anexada ao processo.

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Um cabo da Rota envolvido na ação insiste na versão de que o objeto teria sido achado na escadaria. “Não, não tínhamos posse [da chave], doutor. Os outros membros inclusive da viatura também não sabiam da existência da chave.”

O advogado do PM, Wanderley Alves, que estava presente durante o interrogatório, pediu, então, para ter acesso às novas imagens. Questionado pelo Metrópoles, ele disse que o vídeo não capta o local em que a chave teria sido achada.

“Clara intenção letal”

Segundo a denúncia, o sargento da Rota tinha “clara intenção” de matar quando passou a disparar sua arma de fogo contra os policiais civis. Rafael foi atingido no tórax e morreu cinco dias depois. O outro agente ficou ferido.

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Para Zagallo, a conduta de Marcus “afasta qualquer alegação de legalidade”. O promotor apontou que o militar continuou atirando mesmo após ser alertado de que as vítimas eram policiais – fato que é debatido entre o MPSP, a Corregedoria da PM e a Polícia Civil com base nas imagens das câmeras corporais. Tudo acontece muito rápido.

A promotoria pediu que seja fixada uma indenização em favor da família de Rafael, em valor não inferior a R$ 200 mil, e também em favor do outro policial civil ferido na ocasião, o investigador Marcos Santos de Souza, em valor não inferior a R$ 50 mil.