O MASSACRE DO CARANDIRU: A HISTÓRIA ESTAVA ESCRITA NAS PAREDES…( Aguardem o próximo texto do Dr. Negrini sobre o laudo; exclusivamente para os leitores do Flit ) 32

O MASSACRE DO CARANDIRU: A HISTÓRIA ESTAVA ESCRITA NAS PAREDES

2 de outubro de 1992: pode parecer incrível, mas o maior crime, em número de mortos, já cometido no Estado de São Paulo continua, 20 anos depois, insolúvel. Sabe-se o que aconteceu com detalhes, pelos laudos periciais que foram feitos pelo IC e IML, mas ainda não se sabe quem foram seus autores. Ora, dirão, foi a PM. Mas a PM é uma instituição do Estado, logo, foi o Estado o autor do Massacre da Detenção? A verdade é que não houve, até agora, a individualização de autoria.

Relatos de muitos presos sobreviventes apontando autores foram desconsiderados. Mas os presos, no caso, eram vítimas do Estado e testemunhas presenciais dos fatos. Nem a CPI da Assembleia Legislativa, na época, conseguiu avançar neste aspecto, não obstante a combatividade de vários deputados – da situação e da oposição – que se interessaram pela verdade.

Mas não é só: também não foram realizados exames balísticos comparativos – prova que poderia identificar pelo menos algumas armas utilizadas -, sob a justificativa de que “demandariam décadas de trabalho”. Pergunta-se: se tivessem começado naquela época os exames, quantos autores já teriam sido descobertos? Pelas contas feitas acima, é bem possível que pelo menos uma boa parte dos autores já estaria identificada. E certamente teriam muito que contar. Não fica claro porque não se deu início aos exames na época. Hoje, é quase certo que tal perícia esteja tecnicamente inviabilizada em decorrência da deterioração das armas, projéteis e estojos (cápsulas, na linguagem popular). Aliás, estojos eram poucos, certamente houve uma “varredura fina” após o evento para recolhê-los. Ainda que o material restante tenha sido armazenado com todas as cautelas, a ação natural do tempo sobre os metais provavelmente os tornou inservíveis para a perícia.

Mais um detalhe: espalhou-se aos quatro cantos, na época – e até hoje muitos ainda acreditam – que os presos do Pavilhão Nove eram perigosíssimos: assassinos frios, estupradores, matadores de policiais, de criancinhas, canibais, traficantes assassinos, etc. Esta versão ganhou as ruas, grande parte da população a adotou e alçaram os policiais a heróis. A verdade é bom outra: no Pavilhão Nove, na época, só entravam presos de primeira condenação – ou seja, primários -, por qualquer crime: furto simples, roubo, tráfico, estelionato, tentativa de homicídio, pensão alimentícia, homicídio e outros – que não tinham direito a prisão especial. Naquele tempo era difícil para um condenado comum, sem posses, conseguir Habeas Corpus – aí está uma das razões dos presos passarem a se associar em grandes grupos organizados (na época, “Serpentes Negras”, embrião do “PCC”).  Tudo indica que esta organização criminosa teve início neste episódio do massacre.

A perícia comprovou que nas paredes de várias celas existiam vestígios de tiros a partir da soleira da porta, rajadas de metralhadora dirigidas para o chão, como se apontassem para presos ajoelhados ou acuados. Era a história que estava escrita nas paredes. Era a história sendo contada pelos vestígios. Outro fato que impressiona é que, vendo a morte de perto, os presos tentaram se defender desesperadamente, seja ocultando-se em celas distantes ou se escondendo debaixo de cadáveres dos executados. Este foi o relato de vários sobreviventes.

Homicídios cometidos contra os presos desarmados, confinados nos cubículos de suas celas, metralhados por policiais, agora são só uma triste lembrança de um episódio que apesar de extremamente lamentável, mudou a PM para melhor. Hoje, se alguns combatem os métodos de atuação da Polícia Militar, nem imaginam como era na época. Somente o Instituto de Criminalística atendia cerca de 220 casos de perícias de mortes em confrontos entre a PM e suspeitos somente na Capital por mês, casos denominados como “resistência seguida de morte”. Depois do laudo da Detenção, este número caiu em dois meses para menos de 30, e até hoje se mantém em patamares que, se não são ideais, pelo menos são bem mais razoáveis. Basta estudar as estatísticas para se comprovar isso. Ao menos para este propósito serviram as investigações.

Por outro lado, não se pode comparar a ação no Pavilhão Nove da Casa de Detenção, contra presos desarmados e sob a guarda do Estado, com os confrontos de rua, contra bandidos armados e dispostos a matar ou morrer. Hoje a PM é uma instituição digna de reconhecimento pela população e está em constante evolução para acolher a filosofia moderna dos direitos humanos.

O que se pode lembrar, passados 20 anos, é que graças a alguns parlamentares que lutaram decisivamente contra a tentativa de “pizza” – e graças também (e principalmente) ao próprio Secretário recém-empossado na época, Michel Temer – houve esforços decisivos para que pelo menos a história do Massacre fosse desvendada e descrita com toda a transparência, inclusive com a exibição de fotos chocantes, como a pilha de mortos no Pavilhão Nove. Pessoalmente, considero que o apoio do Secretário – e, por extensão, do Governador Fleury – na ocasião foi determinante para que o laudo pericial do local repercutisse em toda a imprensa; caso contrário, terminaria em alguma gaveta como vários outros documentos sobre o fato.

Muitos relatos e livros apareceram contando as mais variadas histórias sobre o Massacre. Mas só quem esteve lá dentro e viu as pilhas de cadáveres no saguão do Primeiro Pavimento e a cachoeira de sangue nas escadas, pode entender o terror que representa uma cena como essas, que desperta sentimentos que nem o mais perfeito escritor ou diretor de cinema é capaz de transmitir. Muitos policiais militares, que não participaram do massacre, lamentaram profundamente o incidente e inclusive auxiliaram a perícia, fornecendo fontes de iluminação, luvas e máscaras.

Difícil de entender é que os supostos autores do massacre não foram ainda julgados, o que só deverá acontecer no início de 2013, mais de vinte anos passados. E o único que foi a júri, o Cel. Ubiratã, na verdade não chegou a participar diretamente, pois foi socorrido logo no início da invasão do Pavilhão Nove, por ter sido ferido pela explosão de um aparelho de TV ainda no pavimento térreo. Ele foi condenado pelo júri e sentenciado a mais de 600 anos de cadeia, mas teve sua pena anulada pela Justiça, mesmo depois da brilhante atuação da acusação do Ministério Público em plenário e de todas as provas apresentadas. Ele respondeu pelo fato de que estava no comando da tropa e, portanto, teria pleno conhecimento da ação e de seu planejamento.

Osvaldo Negrini Neto

 Perito Criminal aposentado, autor do laudo do Massacre da Detenção.

Osvaldo Negrini Neto: “Nunca vi algo tão desumano”, conta perito ao lembrar Massacre do Carandiru 29

01/10/201211h42

“Nunca vi algo tão desumano”, conta perito ao lembrar Massacre do Carandiru

Elaine Patricia Cruz
Da Agência Brasil, em São Paulo Sergio Andrade/Folhapress

Naquele 2 de outubro de 1992, uma sexta-feira, quando foi chamado para fazer a perícia no Pavilhão 9, na Casa de Detenção de São Paulo, mais conhecida como Carandiru, o perito Osvaldo Negrini Neto achou que se tratava de um evento de resistência seguida de morte, ou seja, que os detentos haviam morrido em decorrência de confronto com a Polícia Militar, mas logo mudou de ideia.

“Depois percebi que foi um massacre seguido de muitas mortes”, disse o ex-perito, em entrevista à “Agência Brasil”. Na época, contou, era perito de uma seção especial do Instituto de Criminalística de São Paulo que analisava exatamente os casos de resistência seguida de morte. Após o episódio, chegou a sofrer ameaças.

Vinte anos do massacre do Carandiru

O que o levou a classificar o episódio como um massacre estava, segundo ele, “escrito nas paredes” do Pavilhão 9. “Todas as celas que eu examinei tinham muito poucos tiros nos corredores. No corredor, eu contava dois ou três buracos de balas. Mais de 90% dos tiros estavam dentro das celas. E sempre da porta para o fundo, ou seja, impossível que tenha sido algum tiro dado pelos presos em direção aos policiais militares. E, realmente, não tinha nenhum policial ferido por balas.”

Negrini Neto foi o autor do principal laudo sobre a morte dos presos no Carandiru. Aposentado desde 2010, ele conversou com a Agência Brasil por telefone.

“Colhi material das paredes e vi que, em muitos casos, não era bala de revólver, mas de metralhadora. Os tiros seguiam uma sequência quase na mesma linha. Uma pistola e um revólver não fazem isso. Colhi material daquilo para saber se tinha cobre presente no buraco, porque o cobre caracteriza que a bala é encamisada, ou enjaquetada [revestida com metal, a exemplo de cobre, para aumentar a penetração no alvo], como a de metralhadora.”

O perito descreve a situação de um dos andares mais atingidos: “No terceiro, a coisa estava bárbara. Na primeira cela em que entrei, tinha mais de 20 buracos de bala. Na outra, 15, na outra, dez. Fui contando e havia mais de 450 buracos de bala na parede. Em alguns, tinha [marca] no chão como se tivesse matado gente que estivesse sentada ou ajoelhada”, descreveu.

Negrini Neto só conseguiu entrar na Casa de Detenção por volta das 21h30 daquele dia. “Tive que entrar escondido, junto com meu fotógrafo, na viatura do delegado, abaixados no banco de trás, porque a Polícia Militar tinha dado ordem de que não queria perícia lá dentro”, relatou.

Quando finalmente chegaram ao Pavilhão 9, o prédio encontrava-se interditado. “Tinha havido um incêndio no térreo”, contou. Ele pediu então ao oficial que estava tomando conta do local para poder entrar no pavilhão e fazer as fotos e um relato sobre o que ocorreu. “Depois de muito relutar, ele permitiu que entrássemos no pátio ou térreo. Ali tinha barbearia, lavanderia, cozinha, dependências de convivência entre os presos e a parte de administração do Pavilhão 9, onde estavam todos os arquivos dos presos dali”. Como houve o incêndio, a energia elétrica foi cortada e o trabalho precisou ser feito todo com lanternas, até que a polícia fornecesse alguns holofotes.

No local, os policiais lhe contaram que uma TV explodiu perto de onde se encontrava o então comandante da Polícia Militar, o coronel Ubiratan Guimarães, que precisou deixar o local para ser atendido.

“Fiz [registro de] toda essa parte de baixo, analisei o incêndio, e vi, pela escada do canto que subia para o primeiro pavimento, uma gosma escura descendo que parecia óleo queimado. Uma cachoeirinha. Achei meio intrigante aquele fenômeno ali e fui mais perto para olhar. Como já tinha bastante experiência nisso, vi que era sangue misturado com uma série de outras sujidades”, contou.

Com a ajuda dos holofotes, ele subiu então para o primeiro pavimento. “Quando cheguei à borda do primeiro pavimento, vi uma cena dantesca, algo que nunca tinha visto na minha vida. Um monte de cadáveres empilhados, um por cima do outro, todos completamente destroçados, com buracos de balas aos montes”, disse.

Foi então que ele começou a contar os cadáveres que estavam empilhados. “Só havia um espaço para pisar no Pavilhão 9, entre a parede e a primeira pilha de cadáveres, e que não chegava a 40 centímetros. Fomos indo por aquela borda, até onde os holofotes conseguiram chegar, e eu pude contar 90 cadáveres. Contei errado naquele dia. Na realidade, eram 89”, falou.

Depois disso, teve início o trabalho de retirada dos corpos. “Para isso, eles precisaram encostar quatro ou cinco caminhões-baú do presídio e os próprios presos foram obrigados a pegar os cadáveres, um por um, no primeiro pavimento, e trazer, de dois em dois, para botar no caminhão. Aí, vi que todos os presos estavam completamente nus”, descreveu.

Segundo o ex-perito, os sobreviventes do Pavilhão 9, que eram mais de 1,8 mil na época, estavam todos sentados no pátio, nus, ajoelhados, cercados por policiais. “Nunca vi algo tão desumano na minha vida”, disse o perito. Os corpos precisaram ser levados para vários institutos médico-legais de São Paulo e da região metropolitana.

No sábado, começaram os telefonemas à sua casa, com ameaças. “Na época, felizmente não tinha celular. Eles diziam: ‘Olha, vê lá o que você vai escrever’. Foram [telefonemas] de colegas, delegados, mas ninguém sabia ainda exatamente o que tinha acontecido na Casa de Detenção, sabiam que tinha morrido muita gente, mas ninguém sabia quantos tinham morrido”, lembrou. As ameaças, segundo ele, terminaram quando o laudo foi finalmente divulgado, nos primeiros dias de novembro daquele mesmo ano.

“No domingo [logo após o massacre], seria dia de eleição [municipal] e havia uma necessidade enorme de não se divulgar nada, pelo menos até lá. E, de fato, só foi divulgado que o número de mortos era maior que 90 no final da tarde, quando se fecharam as eleições”, disse ele.

Arquivos de facção criminosa chegam a ‘chefes’ na prisão por pen drive 14

01/10/2012-05h00

ROGÉRIO PAGNAN AFONSO BENITES DE SÃO PAULO JOSMAR JOZINO DO “AGORA”

Editoria de arte/Folhapress

PEN DRIVE

Os arquivos apreendidos eram destinados aos chefes da organização como uma forma de prestar contas. Os documentos são salvos em pen drives ou chips de celular e entregues semanalmente por motoboys nas principais prisões do Estado, onde entram clandestinamente.

“Referente às planilhas, toda semana devem mandar para o 4º, 6º PV [pavilhões da penitenciária Presidente Venceslau], as listas de empréstimos e a lista de dívidas gerais”, afirma trecho do relatório assinado por um “diretor” que se identifica como Judeu, o responsável pela área financeira.

Nos arquivos constam ainda informações sobre parte do patrimônio do grupo: 13 imóveis, 88 fuzis, 63 pistolas, 11 revólveres, oito dinamites, 67 carros (sendo três blindados), sete motos e um caminhão. Nessa relação não estão os bens dos bandidos, como armas e carros pessoais.

O armamento que está nas planilhas fica sob a responsabilidade de alguns integrantes. Por exemplo, quando é necessário cometer um roubo, um criminoso pega um fuzil emprestado para o crime e depois o devolve. Se perder a arma, contrai uma dívida com a facção no valor do equipamento perdido.

Em março do ano passado, um criminoso identificado como XT foi preso pela Rota sob suspeita de planejar a morte de um policial. Dias depois, na casa dele a polícia apreendeu um fuzil. Como a arma era do PCC, consta em uma das planilhas que ele contraiu uma dívida de R$ 35 mil com a facção.

Editoria de arte/Folhapress

400 documentos a que a Folha teve acesso 7

Para disfarçar, maconha vira morango nos relatos da facção

DE SÃO PAULO

DO “AGORA”

Pera, figo e morango são frutas, certo?

Não para o PCC. Para tentar enganar as autoridades, os criminosos usam os nomes dessas frutas para denominar as drogas que vende em suas bocas de fumo.

Maconha vira morango, pedra (de crack) é pera e farinha (gíria para cocaína), figo.

A cebola é um falso nome para mensalidade. Tem essa denominação porque a pessoa “chora” para pagar.

Em parte dos 400 documentos a que a Folha teve acesso, estão ainda outros nomes que são usados como forma de disfarce.

Os bandidos chamam os advogados de gravatas, os veículos são os pés de borracha, o dinheiro é arame, as armas são ferramentas, os recados repassados a outros comparsas são as pipas, as informações enviadas a toda a facção ou a grupos específicos são os salves, os imóveis do bando chamam-se tijolos.

As funções ocupadas por membros do grupo criminoso também têm apelidos. O vapor é quem vende a droga. O campana é o olheiro da boca-de-fumo. O toca é aquele que esconde a droga em sua casa. Além disso, tem o sintonia (uma espécie de chefe e contato de determinado setor da facção) e os torres (os que mandam em presídios ou em alas de penitenciárias).

(RP, AB E JJ)

Saiba mais

Documentos já apontaram ações em outros países

DE SÃO PAULO

Desde a década passada policiais têm apreendido documentos contábeis do PCC. Até o momento, contudo, nenhum dos arquivos retidos continha detalhes como os dos obtidos pela Folha.

Com base em documentações anteriores, policiais concluíram que a facção criminosa estabelece contatos com traficantes no Paraguai e na Bolívia e já fez parcerias com o grupo criminoso Comando Vermelho, do Rio.

Esses documentos mostraram também a compra de fuzis e que a facção usa contas bancárias de “laranjas” para movimentar dinheiro.

O PCC foi criado em 31 de agosto 1993 por oito criminosos que estavam presos na Casa de Custódia de Taubaté (a 130 km de São Paulo). Entre 1998 e 2001, algumas das lideranças foram transferidas para presídios do Paraná, do Mato Grosso do Sul, do Distrito Federal e do Rio de Janeiro.

Em maio de 2006, depois do isolamento de 755 presos da facção da Penitenciária 2 de Presidente Venceslau, o PCC fez uma megarrebelião, atingindo 74 dos 144 presídios de São Paulo, e atacando forças de segurança. Na ocasião, 47 assassinatos foram atribuídos ao grupo criminoso.

PCC é lenda urbana, diz Antonio F.P. – ( Os arquivos foram fornecidos ao MARIO CESAR CARVALHO, né?) 34

Arquivos chegam à prisão por pen drive

Documentos obtidos pela Folha eram destinados aos chefes da organização como forma de prestação de contas

Grupo, que se instalou até em cidades com menos de 5.000 habitantes, arrecada por mês cerca de R$ 6 mi

Victor Moriyama/Folhapress
Base móvel da PM na rua Helvétia, no centro; patrulha foi reforçada por causa dos recentes ataques contra policiais
Base móvel da PM na rua Helvétia, no centro; patrulha foi reforçada por causa dos recentes ataques contra policiais

ROGÉRIO PAGNAN AFONSO BENITES DE SÃO PAULO JOSMAR JOZINO DO “AGORA”

Cerca de 400 documentos apreendidos em operações policiais obtidos pela Folha revelam que a organização criminosa PCC possui ramificações em 123 das 645 cidades do Estado e tem nas ruas um total de 1.343 bandidos.

Esse número equivale ao contingente de dois batalhões da Polícia Militar e é quase o dobro do número de homens da Rota -considerada a tropa de elite da polícia paulista.

A facção, que está espalhada por todas as regiões do Estado, é hoje a principal suspeita de cometer uma série de ataques contra as forças policiais do Estado. Até ontem, desde o começo do ano, 73 PMs foram assassinados.

Conforme a vasta documentação que está em um banco de dados do Ministério Público, cada um dos 1.343 criminosos é obrigado a pagar à organização uma mensalidade de R$ 600, o que dá uma renda mínima de R$ 805 mil para o PCC.

Em troca da mensalidade, o criminoso obtém benefícios no caso de ser preso (advogado, ajuda financeira para a família) e o direito de se identificar entre criminosos como integrante do PCC.

A organização conta ainda com o lucro obtido com a venda de drogas, cigarros contrabandeados para os presídios e assaltos. Segundo é possível aferir nos documentos, o PCC arrecada por mês cerca de R$ 6 milhões.

Os arquivos, elaborados pelos próprios bandidos, foram apreendidos em três grandes operações policiais, já embasaram o Ministério Público em duas denúncias judiciais e norteiam a polícia na desarticulação da facção.

Nas acusações formais, promotores de Santos pediram a prisão de 16 suspeitos de tráfico de drogas e de formação de quadrilha.

Essa documentação mostra que os criminosos se instalaram até em cidades pequenas, como Rifaina (na região de Ribeirão Preto), que tem 3.400 habitantes.

A capital paulista é o principal reduto do grupo, com 689 integrantes. As regiões de Campinas, com 230 membros, e de Santos, com 136, são outras em que o PCC tem um grande contingente.

Os arquivos revelam ainda o controle empresarial da facção, que cobra metas até na venda de drogas. Há dezenas de funcionários que embalam os entorpecentes, e uma série de “diretores” que são responsáveis por gerenciar a contratação dos advogados, a comercialização de rifas e a venda dos produtos ilícitos.

PEN DRIVE

Os arquivos apreendidos eram destinados aos chefes da organização como uma forma de prestar contas. Os documentos são salvos em pen drives ou chips de celular e entregues semanalmente por motoboys nas principais prisões do Estado, onde entram clandestinamente.

“Referente às planilhas, toda semana devem mandar para o 4º, 6º PV [pavilhões da penitenciária Presidente Venceslau], as listas de empréstimos e a lista de dívidas gerais”, afirma trecho do relatório assinado por um “diretor” que se identifica como Judeu, o responsável pela área financeira.

Nos arquivos constam ainda informações sobre parte do patrimônio do grupo: 13 imóveis, 88 fuzis, 63 pistolas, 11 revólveres, oito dinamites, 67 carros (sendo três blindados), sete motos e um caminhão. Nessa relação não estão os bens dos bandidos, como armas e carros pessoais.

O armamento que está nas planilhas fica sob a responsabilidade de alguns integrantes. Por exemplo, quando é necessário cometer um roubo, um criminoso pega um fuzil emprestado para o crime e depois o devolve. Se perder a arma, contrai uma dívida com a facção no valor do equipamento perdido.

Em março do ano passado, um criminoso identificado como XT foi preso pela Rota sob suspeita de planejar a morte de um policial. Dias depois, na casa dele a polícia apreendeu um fuzil. Como a arma era do PCC, consta em uma das planilhas que ele contraiu uma dívida de R$ 35 mil com a facção.

NECESSIDADE

Para o procurador Márcio Sérgio Christino (especialista em crime organizado), embora haja o risco de apreensão por parte da polícia, o registro e controle de informações por parte dos criminosos do PCC é uma necessidade até para a subsistência da facção criminosa.

“Não é questão de vaidade ou outra coisa. Eles precisam disso para manter o controle. O líder que está preso hoje busca o controle total do que acontece do lado de fora. Para isso, ele precisa necessariamente de uma forma de comunicação. Quanto maior a organização, maior a necessidade de informação. A comunicação é uma necessidade e, ao mesmo tempo, o ponto fraco das organizações criminosas”, disse Christino.

Bando lamenta prejuízos por ações da polícia

DE SÃO PAULO DO “AGORA”

Os arquivos da facção criminosa PCC revelam que os criminosos têm relatado dificuldades financeiras por conta das ações das polícias Civil e Militar.

“É fato que vivemos momentos de esforço da parte do governo, que usa tudo o que pode para nos atrasar”, diz trecho do documento obtido pela Folha, de outubro passado.

Nas duas mais exitosas operações, os policiais apreenderam mais de uma tonelada de droga e prenderam um traficante que é considerado pelo secretário da Segurança Pública, Antonio Ferreira Pinto, um dos maiores de São Paulo.

Em março, a delegacia de narcóticos apreendeu 1.200 kg de cocaína em um sítio em Jarinu (na região de Campinas) e em mais seis casas em São Paulo.

Conforme o delegado Newton Fugita, que atuou na ação, a perda é estimada em R$ 25 milhões.

No último dia 10, foi preso Cláudio Marcos de Almeida, 41, o Django. Ele controlava 50% do volume de cocaína traficado pela facção, estima a polícia.

Segundo o secretário Ferreira Pinto, o suspeito ofereceu R$ 1 milhão aos policiais para escapar da detenção, o que foi recusado.

EXAGERO DA MÍDIA

Ao ser questionado sobre a atuação do PCC, Ferreira Pinto é categórico: “a influência do PCC é exagerada pela mídia”. “Não é questão de minimizar o PCC. O que eles têm são 30, 40 pessoas que controlam o tráfico em larga escala.”

É por essa razão, segundo ele, que a facção criminosa elegeu como alvo prioritário a Rota. Para Ferreira Pinto, as prisões de traficantes feitas pela tropa da PM minam as finanças do PCC. Vem daí as mortes de policiais aparentemente ordenadas pela facção.

A prova de que as prisões passam por um “momento tranquilo”, segundo ele, é que a polícia não entra numa prisão para conter rebeliões há cinco anos.

A pergunta é se essa tranquilidade não seria um sintoma de que está tudo controlado pelo PCC, e que não há interesse em confrontos, que atrapalham os negócios. Ferreira Pinto inclui essa hipótese na categoria das lendas.

(RP, AB, JJ E MARIO CESAR CARVALHO)

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Os arquivos foram fornecidos ao MARIO CESAR CARVALHO, né?