
As manchetes falam em “policiais envolvidos com o PCC trocam socos na prisão”.
A frase é tão surreal que podia sair da pena de um comediógrafo.
Mas é real, contundente, vulcânica.
Não se trata de um caso isolado; é a fotografia instantânea de uma corporação que há décadas aceita dançar a valsa do crime organizado, desde que o cachê seja bom.
A diferença é que, desta vez, o baile foi transferido para dentro do presídio.
E o baile, como sabemos, sempre acaba em pancadaria.
A polícia brasileira é uma grande família.
Uma família trágica.
Uma dessas famílias em que irmão mata irmão , a sogra se acoberta o genro, a prima se acoberta com o cunhado ; e todos se reúnem no almoço de domingo para comentar o crime com lágrimas nos olhos e bifes no prato.
Pois bem: no caso Gritzbach, a família policial descobriu que alguns primos estavam mais íntimos do PCC do que do próprio Código Penal.
Foram presos.
E agora, no presídio da Polícia Civil, os primos brigam entre si, como herdeiros de um testamento macabro.
No Brasil, santo de plantão morre na calçada do desembarque, empurrando carrinho de bagagem e segredo demais.
Tinha delator, PCC e, claro, policiais.
Policiais tão puros que, se fossem colírio, cegariam até exame de consciência.
Puros e muito ricos !
A coluna do Josmar Josino pôs o dedo na ferida: anos depois, os mesmos valentes de coldre na cintura foram parar no presídio da Polícia Civil, acusados de servir à facção que juravam combater.
Não bastou trancafiar. Faltava a liturgia da vergonha: trocaram socos entre si, atrás das grades, como se o inferno abrisse arquibancada para jogo de várzea.
O presídio especial virou um teatro decadente.
Palco: corredor mofado, azulejo estatal, cheiro de carreira que azedou.
Elenco: delegado em queda livre, investigador que já posou de terror de periferia e hoje treme como ladrão de galinha.
Na plateia, o coro hipócrita das corporações entoa o mesmo mantra de missa fúnebre: “fato isolado”, “caso pontual”, “falha de caráter de berço”.
A instituição, coitada, seria sempre uma virgem ilibada traída por seus próprios filhos.
É assim há décadas: toda execuçãozinha errada, todo flagrante arrumado, todo vínculo com PCC e milícia é imediatamente carimbado como “desvio pessoal”. A Polícia nunca erra em conjunto, em estrutura, em doutrina; erra no CPF alheio. Quando o escândalo estoura, sobe um coronel de powerpoint ou um delegado de coletivinha e recita a ladainha: “Não representa a maioria”. A maioria, pelo visto, é sempre santa – só não aparece nas filmagens.
Enquanto isso, para “subir na vida” na polícia paulista, existe a cartilha não escrita:
Arrume uma ou mais empresas de segurança privada;
De preferência com nome brega e brasão paramilitar no logotipo;
Ofereça transporte de valores para comércios suspeitos e igrejas ainda mais suspeitas;
Anuncie vigilância armada, escolta VIP e, para os íntimos, pacotes especiais de “blindagem espiritual” com recibo carimbado.
É a meritocracia à brasileira: quem se mata no plantão honesto morre anônimo; quem abre CNPJ de fachada vira “referência na área de segurança”.
No caso Gritzbach, a caricatura virou autorretrato.
Policiais acusados de mamar no cofre do PCC, de proteger gente que deveriam investigar, agora se engalfinham dentro do presídio da própria corporação.
Não foi o crime que entrou na polícia; foi a polícia que aprendeu a tabela do crime, com juros, correção monetária e contrato social em três vias.
O PCC não corrompeu as Instituições , foram as Instituições do Estado que exigiram sociedade !
Do lado de fora, a narrativa oficial segue olímpica:
É sempre “episódio isolado”;
É sempre “traição aos valores da instituição”;
É sempre “má formação familiar”.
Nunca é curso de formação que ensina a obedecer ao chefe corrupto.
Nunca é equipe montada para fortalecer o esquema.
Nunca é promoção a peso de favores.
O problema, garante-se, nasceu no berço : e não nas delegacias e batalhões.
O delator executado no aeroporto é o grande fantasma dessa ópera bufa.
Falou demais, puxou fios que ligavam facção, polícia e negócios, e virou cadáver ilustrativo.
No entanto, quem continua em cartaz é a retórica do “caso isolado” e da “falha individual”.
Se meia dúzia de delegados ou oficiais da PM abrirem igreja de fachada, empresa de segurança, firma de consultoria, tudo simultaneamente, ainda assim será “empreendedorismo”.
Só se descobrirem o cofre é que vira “desvio de conduta”.
Dentro do presídio especial da PC e do Romão Gomes , a lógica da facção segue firme: hierarquia, disciplina, rixa, território.
Fora dele, a lógica da corporação é mais perversa: preservar o brasão e as estrelas de lata , custe o que custar.
Se for preciso sacrificar mais alguns “indivíduos de mau caráter”, sacrifica-se.
A instituição, essa entidade abstrata, permanece imaculada no discurso: mesmo quando a prática fede a decomposição.
Moral provisória da história: quando o Estado se deita com o crime, nasce um filho híbrido: o policial-empresário de segurança, devoto de igreja suspeita, que jura combater o PCC enquanto negocia em sigilo com o caixa da facção.
Quando esse filho é acidentalmente preso, não vira exemplo; vira mais um “caso isolado” perdido na estatística.
Ah , deu azar …
Ah, estava fora de controle …Melhor para todos !
Vamos dar uma força para que não abram a boca!
E nós, aqui fora, assistimos.
Uns com indignação verdadeira, outros com cinismo, muitos com aquela resignação bovina que é a maior instituição nacional.
A coluna do Josmar traz o fato nu e cru; o Flit Paralisante o lê como aquilo que é: uma parábola sinistra sobre a polícia que se tornou caricatura de si mesma, espancando o próprio reflexo no espelho rachado do presídio.
Se existe moral para essa história, ela é simples e brutal: quando o Estado se deita com o crime, o filho que nasce é esse : um policial que, preso por servir à facção, continua a agir como facção dentro da prisão.
E quando esse filho cresce, ele não apenas bate nos outros; ele bate, sobretudo, no último fiapo de confiança que o cidadão ainda tinha na palavra “polícia”.