Bolsonarismo invade os quartéis da PM …( o respeito pelas instituições civis e pela sociedade é o inimigo ) 13

Bolsonarismo invade os quartéis da PM

Quando a política entra no quartel por uma porta, não é apenas a disciplina que sai pela outra

Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

13 de janeiro de 2020 | 10h00

Caro leitor,

Há reportagens que simbolizam fenômenos despercebidos porque se passam na penumbra, atrás dos postes, longe dos paços municipais, no silêncio dos becos e na azáfama das ruas. Esse parece o caso do texto publicado pelo ‘Estado’ sobre o jovem solitário que decidira protestar com um exemplar da Constituição nas mãos contra a presença do presidente Jair Bolsonaro, em Santos, e acabou preso após tumulto com ‘aliciancistas’.

Jair Bolsonaro
Presidente disse que apenas aceita criar um novo imposto se outro for extinto. Foto: Adriano Machado/ Reuters

Diz a reportagem que o homem fora ameaçado por bolsonaristas que ali estavam para louvar o líder. O repórter Ricardo Galhardo viu a polícia apartá-los e retirar o livro das mãos do rapaz, detendo-o em vez de proteger a liberdade de manifestação. Do texto se conclui que o único objeto ameaçador que o cidadão carregava era a Carta Magna, a mesma que serve para impedir o abuso do Estado contra o indivíduo. Nestes tempos, encarcera-se quem a exibe.

Não há registro de explicações do comandante dos PMs. O cientista político Oliveiros Ferreira foi um dos que detectaram no século passado a presença do que chamara de “partido fardado”,  que se movia para controlar o poder civil, furtando-se à obediência das leis, revirando a hierarquia, solapando a disciplina e mandando às favas os princípios da neutralidade e da imparcialidade política que devem reger os militares na República.

Ferreira escreveu que “a marca registrada do Partido Fardado era a ideia de que apenas uma ditadura no estilo romano, no qual o cônsul detinha poderes por tempo determinado, poderia salvar o Brasil da corrupção e levá-lo a seu grande destino”.  Entre 1937 e 1945, o partido teve no general Góis Monteiro o chefe que lhe traçava os objetivos. Depois, fragmentara-se, e a divisão das Forças Armadas produziu a sucessão de crises que marcaram o País até 1977.

Há duas semanas, um subtenente da PM confidenciou que a política entrara em seu quartel como jamais vira na carreira – ele está a dois anos da aposentadoria. Oficiais e praças foram capturados pelo bolsonarismo e muitos identificam-se mais com o presidente do que com a sociedade que protegem. Veem em Bolsonaro o vingador de décadas de “infâmias” que lhes foram lançadas por estudiosos de universidades, pela imprensa, por liberais e pela esquerda.

Miram-se no exemplo do sargento Fahur, do coronel Tadeu e de outros policiais eleitos em 2018, que rasgam cartazes dos adversários e os ofendem pelas redes sociais. Tudo distante do que era ensinado nas escolas e academias das forças públicas. Quando a política entra no quartel por uma porta, não é apenas a disciplina que sai pela outra. A promoção do mérito, o respeito à hierarquia e o profissionalismo também batem em retirada. E levam consigo uma parte dos valores militares, como a honra e a honestidade.

Então comandante-geral da PM paulista, o coronel Francisco Profício mandou prender em 1993 todos os oficiais de um batalhão da Baixada Santista porque resolveram fazer um esquema de bico com a prefeitura do Guarujá. Não suportou ver a polícia transformada em guarda municipal. Para ele, a Força Policial não devia servir a governantes e aos interesses monetários de seus homens, mas à sociedade e às leis.

O relato do subtenente vê seus colegas cada vez mais identificados com o bolsonarismo, que atira adversários à vala comum reservada “a comunistas, petistas e bolivarianos”. Não importa se quem se opõe quer apenas defender as leis e o faz com a Constituição nas mãos. Preferem outros símbolos, como o revólver 38, evocado no número do futuro partido Aliança para o Brasil. “Esquecem que a política é transitória. Um dia a conta será cobrada. E quem vai pagar é a instituição”, disse um oficial da PM.

A sedução que a política traz às casernas é a dos salários bem pagos longe dos perigos das ruas, das selvas, da caatinga, do pantanal e dos pampas. São as portas abertas dos favores, os louvores que acompanham os que nadam no mesmo rio, onde são pescados pelos chefes. O desafio ao País é a recriação de uma nação dentro da Nação, um universo paralelo, onde um estamento sequestra o Estado e degrada as instituições.

Nas Forças Armadas, os comandantes lutam para conter o ressurgimento do partido fardado. Buscam controlar as manifestações em redes sociais dos subordinados. Mas setores do bolsonarismo, por meio da concessão de benesses únicas no funcionalismo federal, parecem aqui também se esforçarem para solapar a neutralidade e a isenção dos escalões inferiores. Revivem o clima dos manifestos de oficiais do passado nas correntes de WhatsApp.

As manifestações estridentes de apoio em solenidades oficiais das PMs diante da presença de Bolsonaro são um termômetro do problema. Comandar não é apenas fazer lobby pela manutenção da paridade e da integralidade das aposentadorias policiais. Nem uma forma de preparar a candidatura – e obter o apoio do bolsonarismo – para a próxima eleição. A corporação não pode sequer parecer – ainda que não seja – guarda pretoriana de um “mito”. Não há notícia, porém, de que os chefes das polícias tenham compreendido o tamanho do desafio que têm pela frente. Com a diferença de que o soldado do Exército não está na esquina para prender quem leva uma Constituição na mão.

 

Marcelo Godoy

Marcelo Godoy

Repórter especial

Jornalista formado em 1991, está no Estadão desde 1998. As relações entre o poder Civil e o poder Militar estão na ordem do dia desse repórter, desde que escreveu o livro A Casa da Vovó, prêmios Jabuti (2015) e Sérgio Buarque de Holanda, da Biblioteca Nacional (2015)

  1. Essa é boa…

    Eu entendi:
    “Eu e os meus estamos nos cagando de medo dessa união entre os escalões “inferiores” das unidades militares. Os comandantes devem fazer algo. Será impossível lutar contra isso…calem essas Praças!”

    É…em suma, foda-se jornalista babaca.

    Agora, com as redes sociais, os quartéis estão cada vez mais envolvidos com a política.
    Isso só vai aumentar.
    É impossível, para qualquer comandante, lutar contra isso.

    Se conformem…ou não…é indiferente!

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  2. Com a assunção ao poder pelos Bolsominions, estabeleceu-se a prioridade aos militares em detrimento da população e funcioários públicos de forma geral.
    Criou-se a fantasia de que os militares são “fundamentais” à população e por isso devem ser elevados a uma categoria ultra especial e lhe conceder amplos e vantajosos benefícios mascarado como “proteção social”.
    Especificamente na previdencia estadual de São Paulo, adotou-se também a figura da” proteção social aos militares” (sem fundamento constitucional) criada por lei ordinária pelo atual governo Bolsominon (a todos os militares federais e estaduais).
    Em São Paulo a Spprev administra o fundo que garante a aposentadoria de todos os funcionários de São Paulo.
    Com expectativa muito próxima de nova majoração na alíquota da previdência dos funcionários estaduais (obviamente PCESP também inclusa) pular de 11% a 14% e podendo ir a até 20 %.
    Aos policiais militares haverá a diminuição (dos atuais 11% a ,progressivamente , até 7,5 %, ou seja, ficarão com mais do seu salário perto dos demais funcionários estaduais que pagarão o dobro do valor pago pelos PMs.
    A única forma da qual a PMESP quis ficar junto dos demais funcionários estaduais foi a de repartir o “rombo” da previdência militar estadual no “balde coletivo” chamado Spprev. Neste caldeirão os demais funcionários do estado de SP carregarão e dividirão o déficit gerado pelos benefícios aos militares estaduais em simetria com militares federais como integralidade da aposentadoria, sem idade, etc (desrespeitando o princípio do pacto federativo).
    Desta forma os demais funcionários estaduais estarão prejudicados, trabalharão mais e se conseguirem, obterão a mísera aposentadoria.
    Esse é o Brasil dos Bolsominions.

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  3. Votei no Bolsonaro, porém, ele já encheu o saco.
    A única vantagem nesse Bolsonaro, foi a derrota do petismo.
    Nada de bolsonarismo ou militarismo.
    Prendam os corruptos e façam o Brasil crescer.

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  4. Com relação à matéria acima, colaboro para o debate com algumas impressões.

    Realço que aqui não seria o local exato para esse debate, mas vamos lá!

    ** Do porquê membros das Polícias Militares terem mais alinhamento com Bolsonaro (direita)-breve resumo:

    Após a chamada Redemocratização e consequente promulgação da Constituição Federal/88, a “esquerda” (que chegou ao Poder por via Democrática) “NUNCA” quis tratar de forma digna os membros das forças policiais, em especial Policiais Militares.

    Em apertado resumo, a matéria do respeitado Jornalista nos traz a constatação óbvia de que a “direita” se apoderou de forma inteligente da classe policial militar Brasil afora.

    A “esquerda” perdeu o “bonde da história” nesse quesito (segurança pública), pois “não quis” se aproximar do Homem Policial para conhecê-lo, entendê-los e verificar suas reais necessidades.

    A “esquerda” somente atacou as PPMM nesses anos todos, pautando a questão da “desmilitarização, talvez motivada pelos lucros que viriam dos milhares de Policiais que, sem os regulamentos militares, seriam obrigados a se filiar a sindicatos, aumentando sua arrecadação.

    A esquerda “pós regime militar” deixou um “vácuo”, hj ocupado de forma inteligente pelos que estão no poder.
    Em quase 33 anos no poder, a esquerda não soube lidar com as Polícias e policiais: agiram com preconceito contra eles, que agora “abraçam” quem os trata com “carinho”.

    De 85 até agora ninguém quis “conversar” de fato com o Policial Militar. Não conseguiram conhecer o pensamento, as ideias, as sugestões “do PM”, mas só o achincalharam e a ele lançaram a pecha de “violento”.
    Foram 30 anos de puro preconceito para com a classe PM.
    A imprensa em geral seguiu o mesmo rumo, fomentando o preconceito.

    Lembro-me claramente de 1987 quando Paulo Sérgio Pinheiro (Direitos Humanos/ONU-Núcleo de estudos de Violência/USP) foi palestrar para Alunos Oficiais do Barro Branco: era nítido o “nojo” que nutria pela PM, o que percebíamos pelo modo como se conduzia e tratava os Oficiais organizadores do evento.

    Dessa forma, não se estranha que a classe policial tenha “pendência” por quem a trata com certo carinho: engana-se quem pensar que Bolsonaro e seu “staff” são pessoas “chucras” e rasteiras em “estratégias”. Sabem que a base de qualquer governo são suas forças legais.

    A “esquerda” perdeu a oportunidade! (Continua perdendo-Membros da Ponte Jornalismo nem querem ct com quem possa colaborar com sugestões, simplesmente por “não conversar” com Policial)

    Essa realidade não parece cambiar para alguma mudança: basta verificar o quanto o “policial vem sendo atacado nas mídias”. O mau policial não se importa, mas a Sociedade está “perdendo” os bons policiais com essa estratégia que já demonstrou não dar certo.

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    • …na arquibancada…só assistindo ao jogo…

      Caro Coronel Caldeira,

      Não é verdade!
      Veja o que era a PM antes de 1983 e veja hoje!
      Pois bem, logo de início , a esquerda exigiu a devolução do Comando Geral da PM para o oficialato PM, os Coronéis.
      Melhorou , substancialmente, os vencimentos e vantagens.
      Equipou e nunca poupou investimentos na estrutura PM.
      Melhorou a qualificação dos candidatos e a formação dos aprovados.
      Elevou o status do Barro Branco e da escola de formação de soldados.
      Enquanto a PM , logo na abertura , boicotava flagrantemente os governos de esquerda.
      Em São Paulo, Franco Montoro!

      Da mesma forma que boicotaram Covas no primeiro mandato, por retaliação em relação às providências adotadas depois do caso Favela Naval .
      Quercia , em 1987, garantiu a isonomia entre delegados e oficias. E Quércia era considerado de esquerda!
      Membros da Ponte conversam sim com policiais , mas não devem mesmo falar com quem os acusa de trabalhar para o PCC.
      Meu caro , como pensa o PM ?
      Pela minha experiência PM não pensa , apenas reverbera doutrina institucional como se fosse um padreco da Igreja.
      Em 1987 , desculpe-me , mas quem é que não tinha motivo para ter nojo de policiais em geral?
      Polícia Civil: tudo ladrão e torturador!
      PM: tudo assassino !
      Nem falarei da corrupção de baciada praticada em determinados serviços.
      Na verdade, a PM jamais quis quaisquer aproximações com a dita “esquerda”. Tudo sempre foi motivo pra bater e estourar bombas.
      Aliás, até hoje PM só sabe o que é direita ou esquerda quando pratica ordem unida!
      A PM é odiada por odiar tudo que não vista farda!
      A aproximação com o bolsonarismo é mero oportunismo da PM.
      Querem as migalhas jogadas debaixo da mesa.
      E já conseguiram!
      Por fim , o seu: “Realço que aqui não seria o local exato para esse debate, mas vamos lá!”
      A frase já demonstra um certo ranço , por que aqui não seria o local exato para esse debate ?

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      • Dr Guerra bom dia!!

        “Ranço” algum de minha parte; mesmo porque há tempo longe das vaidades inerentes à estrutura da polícia, deslanchamos numa Paz de Espírito profícua, resultante do concreto sentimento de dever cumprido!

        Andamos bem quando optamos por nunca não nos abeberar em quaisquer facilidades advindas do cargo: colhemos hj “indiferença aos carreiristas”, cabeça erguida e Gratidão pelo Valor que construímos em longa e árdua carreira voltada no trabalho da atividade-fim da PM.
        Apoiamos nessa vida os bravos PMs, procurando porém orientar e admoestar os que caminhavam por estradas tortuosas da corrupção e violência. Tenho muito respeito pelos policiais corretos e trabalhadores, seja civil, militar ou municipal. Não temos nenhum “ranço” mas só contribuição ao debate, Dr Guerra.

        No tocante à instituição, parece necessitar se repensar pois “nem sabe mais” divisar quem realmente cumpre os deveres, daquele indolente, venal e mau caráter; mas isso não é mais assunto de nossa alçada: por isso só observo o jogo!

        O Sr está certo nas suas assertivas acima: longe de mim polemizar qualquer coisa.
        Quanto aos “carreiristas”, creio que um dia se encontrarão consigo mesmos e terão vergonha das mentiras e hipocrisias que semearam.
        Espero que o Flit continue sempre a ser espaço de debate respeitoso de temas referentes à segurança pública.

        Vez por outra deixaremos respeitosamente algumas impressões por aqui, caso o Sr assim permita.

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  5. A base de qualquer governo são suas forças militares.
    Não importando se de direita ou esquerda.
    Militar nem sabe a diferença entre um Status ou outro.
    O PT nunca quis consquitar um ou dois milhões de militares.
    O PT queria conquistar o povo, nem isso conseguiu.
    Como já foi comentado aqui brilhantemente, “direitÁ, esquerdÁ, marche”.
    Eu votei no Bolsonaro, o que eu queria dele, já consegui (tirar o PT), minha aposentadoria foi pro saco, junto com a maioria do povo brasileiro.
    Não era para o Bolsonaro lamber as botas de ninguém, foi lamber se ferrou.
    Em 2022, duvido que o Bolsonaro seja reeleito somente com os votos dos militares , familiares e simpatizantes.
    Antes da eleição, no Bolsonaro eu talvez não votasse novamente para um segundo mandato, ele sempre foi um péssimo militar (nem para isso ele serviu) e um deputado temático e mediocre.
    Mas, deputados e senadores mediocres, o congresso está lotado.
    E entre um Bolsonaro “temático” e um Jean Wyllys (temático) que passou dois mandatos defendendo o próprio ânus, MIL VEZEZ o Bolsonaro, que graças a ele, o JEAN caiu fora do terceiro mandato.
    Agora, tenho certeza, não vou votar mesmo.
    Nem eu ou qualquer familiar ou amigo meu.
    Bolsonaro já era, e os militares saíram perdendo com esse racha.
    No próximo governo, seja de direita ou esquerda, os militares vão levar a pior.
    E com certeza, a PM vai sair muito mais prejudicada.
    Essa mania besta de acreditar que militar é superior a o outro contribuinte, fala sério!
    E quer saber, PM nem militar de verdade é.
    Uma imitação barata, ou seja, um “exército” do governador ou prefeito partidário.
    É a tropa de choque, para acudir as cagadas que esses politicos cometem (com frequência).
    Fui militar das Forças Armadas nos governos Militares, precisamente, do General Geisel.
    Acredite PM, um militar das forças armadas, nem considera um “PM” como um militar de verdade.
    Fica sempre aquele conceito de “meia boca”.

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