REVISTA ÉPOCA | BRASIL
JUDICIÁRIO | POLÍCIA FEDERAL
Um tiro no delegado
Romeu Tuma Júnior, na semana passada. Ele luta para ficar, mas já perdeu a confiança dos chefes
O delegado da Polícia Civil de São Paulo Romeu Tuma Júnior foi nomeado secretário Nacional de Justiça em setembro de 2007. Ganhou o cargo como resultado de um acordo político que incluiu a transferência de seu pai, o senador Romeu Tuma (SP), do oposicionista DEM para o PTB, partido da base de apoio do governo. Filiado ao PMDB paulista, Tuma Júnior ganhou mais poderes no dia 23 de abril deste ano, quando passou a presidir o Conselho Nacional de Combate à Pirataria.
Na terça-feira, Tuma Júnior pediu um mês de férias para preparar sua defesa na Comissão de Ética Pública, onde é acusado de ter ligações com o chinês naturalizado brasileiro Li Kwok Kwen, conhecido como Paulo Li e apontado como um dos chefes do contrabando no Brasil. Tuma Júnior não retornará ao cargo. Ele perdeu a confiança do ministro da Justiça, Luiz Paulo Barreto, que já informou ao presidente Lula sobre a gravidade das descobertas da Polícia Federal (PF) a respeito do suposto envolvimento do delegado com a máfia do contrabando.
A misteriosa amizade de Tuma Júnior com o chinês foi revelada há duas semanas pelo jornal O Estado de S. Paulo, a partir de relatório da Operação Wei Jin, realizada pela Polícia Federal em setembro de 2009. O documento reproduz interceptações telefônicas de conversas entre Tuma Júnior e Paulo Li. Uma das gravações mostra um telefonema de Paulo Li para o delegado no momento em que o chinês era preso pela acusação de formação de quadrilha e descaminho, nome técnico para a sonegação de impostos de importação. Antes de ser preso, Paulo Li circulava livremente pelo Ministério da Justiça. A PF também o acusa de intermediar a emissão de vistos para chineses em situação irregular no país.
Em agosto de 2009, segundo a PF, Tuma Júnior convidou Li para um encontro em Brasília ou Ribeirão Preto, no interior de São Paulo. “Tenho um monte de respostas daqueles negócios. Se você quiser vir…”, diz o delegado. Demonstrando intimidade, Tuma Júnior sugere que os dois dividam o mesmo quarto de hotel. Durante a operação de busca e apreensão da PF no escritório e na casa de Paulo Li, os policiais encontraram mensagens trocadas entre Paulo Li e Tuma Júnior na memória de um computador. Numa delas, o delegado comemora a resolução de um dos casos de emissão de vistos. Na mensagem enviada ao chefe do Departamento de Estrangeiros do Ministério da Justiça, Tuma Júnior escreve: “É o caso do Paulinho!! Mais um caso resolvido. É noisssssssssssssssss!!”.
O delegado também chefiava o Departamento de Recuperação de Ativos do ministério e era responsável pelo rastreamento de dinheiro enviado ilegalmente ao exterior. Depois das denúncias, Tuma Júnior disse que só falaria quando tivesse acesso ao inquérito.
O senador Tuma, pai do delegado, evitou comentar o caso. A amigos, disse que o filho sofre perseguição política de opositores dentro da própria PF. O envolvimento de Tuma Júnior com a máfia chinesa deve dificultar ainda mais a vida política de Tuma pai. Ele quer disputar a reeleição ao Senado, mas até a semana passada não tinha espaço em nenhuma das alianças já formadas no Estado.


Foto: Departamento de Segurança do Distrito de Haidian/Pequim, China – 20/02/2009