
Cunha, senta aí!
Te chamei aqui de soldado pra soldado, de tenente pra ex-tenente, porque isso aqui é entre farda e farda, não entre governo e oposição.
Vou ter que te demitir.
Calma, calma, deixa eu terminar ; porque se eu não assinar até o dia 7 desse mês, esse processo teu prescreve, e aí quem segura a bronca sou eu, e terei que enfiar no procurador que deixou isso engavetado quatro anos.
Você acha que eu vou proteger PGE ? Nem fodendo.
Mas relaxa, fica sussa.
Pega um advogado bom, desses que sabem escrever mandado de segurança rezando baixinho — o Dr. Da Vigor aí é gabaritado — e assina logo essa petição, que assim que cair lá no Tribunal, eu dou um toque nos nossos amigos de toga. Você sabe como é: agrado aqui, telefonema ali, “embargo auricular” bem dado, e liminar sai mais rápido que confissão em cela superlotada.
E não se preocupa com imagem não, que eu fico numa boa.
Rigor e imparcialidade, moral e bons costumes; é disso que o eleitor gosta de ouvir, mesmo sabendo que você também é réu por bater em mulher quando bebe umas geladas a mais.
Isso aí, aliás, até ajuda: quanto mais vilão eles acham que você é, mais heroico fica quando a Justiça “te devolve” o cargo em três horas.
Povo ama mocinho perseguido, Cunha.
Eleitor não lê PAD, lê manchete.
Aprendi com o Bozo, nosso mestre!
Agora presta atenção no timing, porque essa é a parte bonita: o processo foi aberto em setembro de 2021.
Se eu não assino até o aniversário de cinco anos, o troço morre sozinho, sem escândalo, sem manchete, sem noticiário.
Mas aí fica estranho, né?
Fica parecendo que a gente tá dando mole pro amigo.
Então eu assino, você faz de conta que “leva um susto”, eu aplaudo minha própria integridade em rede nacional, e o desembargador desfaz tudo antes do café.
Todo mundo sai satisfeito: eu, de rigoroso; você, de perseguido; e o processo, de morto ; só que morto com pompa, circunstância e nota no Diário Oficial.
E olha, nem adianta me perguntar por que não te suspenderam por noventa dias em vez de demitir.
Óbvio que dava pra fazer isso, mas suspensão não vira manchete, meu filho.
Ninguém chora suspensão de noventa dias.
Demissão anulada em três horas, sim ; isso é espetáculo, isso é reeleição garantida.
E tem o outro lado , tu sabes, né?
Te amarrar pra ti votar do jeitinho que a gente manda …Digo, pedimos!
Agora vai lá meu deputado, assina teu recibo de vítima, chama tua assessoria de imprensa, e prepara o discurso de “perseguição política”.
Que o resto, o Judiciário resolve.
Prescreveu, caralho.
Fim.