Pletora de brutalidades: o ódio, a indiferença, o egoísmo fizeram do Brasil uma terra sombria de gente feia, suja e ignorante por vocação 2

Bom. Por onde começar?
Talvez apontando o óbvio que ulula.
O primeiro legente, ao ver essas linhas, algures, praguejará: – C…, lá vem ele. O chato. O delegado que gosta de escrever. Ô sujeitinho atrevido. Pernóstico. Perifrásico. Como pode, um mero policial querer-se intelectualizado? É realmente muita petulância. Ele deveria fazer como a maioria, policiais ou não, e usar o pronome “mesmo” como se pessoal fosse, e parar de encher o saco.
Dizer o quê? Afora a parte do “mesmo” e do “querer-me intelectualizado”, condescendo com todo o resto – fazendo a óbvia ressalva de que policiais há que dão de 10 a 0 em muitos sedizentes especialistas.
Mas, de facto, eu devia fechar-me em copas e deixar o mundão sem minhas despiciendas considerações. Ocorre que eu não me contenho. Assoma-me uma comichão, e vejo-me premido a falar, a escrever.
Como efeito, malgrado o achincalhe e a risadaria geral, eu volto à carga. Por minha conta e risco. Digam-me chato. Já me reconheço como tal. Mas não pelos motivos epidérmicos. Por outros. Da minha escrita, não abro mão. Afinal, parafraseando o célebre João Ubaldo Ribeiro, não se faz exigível uma faculdade de letras para escrever “pletora”.
Feitas essas ponderações, prometo ser breve. H á pouco, eu estava em casa, na região central de São Paulo. Súbito, uma efusão, expressa em gritos de júbilo, irrompe janela adentro. No meu alheamento, supus tratar-se de uma manifestação. Tão recorrente nessa nossa contemporaneidade arrevesada.
Advertiram-me que não. Era a algaravia promovida por torcedores do Corinthians e do Palmeiras. Rivais de há muito. E empedernidos. Dei de ombros e prossegui no que vinha fazendo. Nada, a rigor.
Ao depois, ocioso que estava. Passei a ler as notícias pela internet . Logo saltou aos olhos a titulação de uma matéria em caixa alta. Em síntese: nosso Brasil atingira o tétrico montante de cem mil mortos pela covid-19.
Minhas sinapses agitaram-se. Eu me atrevi fazer uma ligação que, talvez, me torne ainda mais chato aos olhos da geral. Causou-me espécie este algo paradoxal: o grito vociferado de torcedores e o silêncio tumular pela marca tristemente atingida.
Continuei ruminando. Talvez fosse pedir demais certa circunspecção pelos cem mil brasileiros que tiveram a vida ceifada. Um minuto de silêncio, quiçá. Mero simbolismo? Nem discuto. Mas talvez um mínimo verniz para mascarar nosso lado selvático.
É claro que há uma outra perspectiva. O brado do time vencedor e o urro do perdedor podem ser uma manifestação catártica. Algo mais ou menos símile ao que houve no carnaval de 1919, e tão bem retratado pelo insuperável Nelson Rodrigues.
A peste espanhola estava no seu estertor, e a festa pagã nunca foi tão orgiástica. Talvez por ter sido pós-apocalíptica. Guardada as devidas proporções, faço a relação. E não concluo, ao final, se a manifestação dos torcedores exprime indiferença ou algo à guisa de catarse.
Mas de uma coisa eu sei: todos nós devíamos ficar compungidos com a marca taciturna dos cem mil. E, francamente, não sei se isso que ocorre. Talvez um muxoxo. A mim, todavia, a mim me parece que os brasileiros perdemos muito do nosso humanismo.
São tantas as enormidades que nos assacam. São tantas as nódoas que sobre nós recaem. E há tanto tempo. Sagramos, reparem, como a última nação, recalcitrante, a abolir a hediondez da escravatura. E isso, “porca miseria” nos remete a alguns vídeos recentes, em vales adjacentes.
Mas claro. A psique coletiva de um povo não passa incólume por tudo isso Brutalizamo-nos. Querem ver? Mesmo à frente, no enfrentamento de um vírus virulento, neófito para nós, e com potencial arquicomprovado de ceifar vidas aos borbotões, não houve entre nós brasileiros um armistício.
Singrem pela internet, e constatarão. Nunca estivemos mais beligerantes. A doxa vigente é a do ódio. Esmeramo-nos em reproduzir uma clivagem irreversível. E pior: de um modo a constranger a mais rematada caricatura. É um pastiche.
Os à esquerda, eles reproduzem uma dogmática que ignoram. Os à direita, também. É até difícil discernir as respectivas mundividências. É só uma maçaroca fermentada no ódio. Um ódio que não cede. Não cede mesmo ante cem mil mortos.
Mas não é só. Estamos em pleno mês de agosto. Atribuímos uma cor a esse mês específico. O lilás. Um simbolismo, e prenhe de semântica. Tudo para conscientizar acerca do antigo martírio da violência doméstica.
Por essas placas, mulheres são seviciadas e mortas amiúde. E não suponham que isso se dá por descaso dos órgãos oficias. Ao contrário. A polícia civil de São Paulo faz um trabalho incessante e digno de aplauso. E o faz todo santo dia.
Eu mesmo não tenho como computar quantas prisões em razão desse tipo especialmente nefasto de crime já fiz. O ministério público também não poupa esforços. Nem o legislativo, que mantém atual a tecnologia legislativa.
Ainda assim, em pleno mês de agosto – o mês elegido para conscientizar o brasileiros acerca desse problema nevrálgico – os casos pululam. Cada qual mais tristemente impressionante que o outro.
E redigo: seria injusto atribuir tal fato a uma inação dos órgãos competentes. Infelizmente, tudo parece expressão de uma insensibilidade que nos caracteriza como povo.
Infelizmente, brasileiros, parece, tornamo-nos insensíveis a simbolismos.

Dr. João – Delegado de Polícia

  1. Legal e bem pensado o comentário. Apesar do português “rebuscado jurídico” escrito. Vírus virulento… Entre outras.

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  2. Bom Dia!

    Senhoras e Senhores.

    O brasileiro padece largado numa fila de macas num longo corredor de suplício!

    O brasileiro empobrece sem horizontes!

    O brasileiro enfraquece diante de atitudes tacanhas daqueles que deveriam zelar pelos desamparados!

    O brasileiro se esforça para entender a insansatez de poucos que se entrelaçam e balbuciam numa euforia desenfreada dos quitutes indevidos!

    O brasileiro falece diante de tanta iniquidade oriundo de péssimas sementes que um dia se atreveram a germinar no ventre de mães inocentes!

    O brasileiro nesta sofrência rasteja buscando querência a fim de satisfazer sua clemência!

    E por fim, o brasileiro almeja JUSTIÇA… não dos vis mortais, destes não se espera nada de bom, suas almas não são dignas de nada!

    Caronte!

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