Lula falou tá falado : Delegacia não é balcão de achados e perdidos… 10

“Lula falou o óbvio: pobre foge de distrito. O escândalo não é a frase, é a corporação fingir surpresa.”

O presidente Lula, na 7ª reunião do chamado “Conselhão”, resolveu dizer em voz alta o que qualquer cidadão comum, e qualquer delegado minimamente honesto, sabe há décadas: gente de baixa renda tem medo de delegacia, não confia no “tipo de delegado” ou “tipo de policial” que vai encontrar e, por isso mesmo, evita ao máximo entrar num distrito – mesmo que seja para fazer a coisa certa.

A fala veio no contexto do plano de enviar mensagens para milhões de celulares cadastrados como roubados ou furtados, alertando os atuais usuários a devolver o aparelho.

Lula cogitou, primeiro, a devolução em delegacias, com ameaça de indiciamento por receptação ou desobediência, mas recuou e passou a defender que a entrega seja feita nos Correios, justamente porque o caminho da delegacia é percebido como hostil, burocrático e arriscado.

O ponto é que, nesse episódio, a corporação policial reagiu exatamente como o cidadão comum esperava: com ofensa, vitimismo e zero autocrítica.

Lula apenas verbalizou o óbvio – que pobre tem medo de delegacia e não sabe que tipo de policial vai encontrar –, e imediatamente brotou nota chorosa de candidatos sindicatos e associações , como se a grande injustiça brasileira fosse falar mal da Polícia Civil.

Diga-se,  associações e entidades que em passado recente foram comparadas a “escritório de crimes” .

Enquanto isso, a experiência real do balcão é outra: plantão saturado de papel, investigador exaurido e mal pago que desconta frustração em quem aparece, delegado que acha que “cidadão” é estorvo, e um ambiente em que qualquer um que atravesse a porta já entra sob suspeita.

A ideia de mandar gente devolver celular em distrito só escancara a disfunção: transformar delegacia em balcão de achados e perdidos é condenar o usuário a horas de espera, humilhação implícita e o risco permanente de sair de lá menos cidadão e mais suspeito de receptação.

Quando alguns Delegados candidatos com viés bolsonarista e um sindicato de investigadores diz que Lula “generaliza” e “mancha a credibilidade” dos policiais, o que está defendendo não é a realidade da base, mas a ficção institucional de uma polícia acolhedora que só existe em discurso de solenidade.

A corporação não se pergunta por que a população evita delegacia como se fosse repartição inimiga; prefere posar de vítima de “ataques à honra” enquanto mantém um modelo de atendimento que trata pobre como potencial receptador e vítima como estorvo que atrapalha o “café”.

Ora, plantão policial no Brasil é aquela coisa que todo mundo finge não saber, mas todo mundo conhece: virou balcão da PM e, em muita delegacia, balcão de negócios.

Na porta, quem manda é um morcego que  decide quem entra, quem espera até desistir e quem nem chega a ser atendido, conforme a cara, o endereço  e o tamanho  do problema.

Lá dentro, o que deveria ser serviço público virou feira livre de prioridades: BO que anda, BO que morre, inquérito que respira por aparelhos e investigação que só sai da gaveta quando interessa a alguém.

Quem entra achando que vai encontrar o Estado de Direito, encontra o Estado de Jeito …O jeito de cada um, conforme a patente, o humor e, não raro, o negócio em curso.

Se a categoria estivesse realmente interessada em credibilidade, teria aproveitado a fala do presidente para admitir:

  • “Sim, o povo tem medo de nós  e com justo motivo.  Vamos mudar a forma como atendemos, simplificar procedimentos, garantir que ninguém seja tratado como bandido só porque veio fazer a coisa certa.”

Em vez disso, reage com a arrogância de sempre: somos injustiçados, somos heróis incompreendidos, o problema é o discurso do político, não a prática da instituição.

No fim, o recado é cruel, mas verdadeiro: se o caminho mais racional para devolver um celular roubado é uma agência dos Correios e não uma delegacia, não é o Correio que está errado.

É a polícia que é tão pouco confiável para o cidadão comum que o próprio Estado prefere terceirizar o contato.

Lula, talvez sem ter plena consciência do que dizia, apenas puxou a cortina; quem ficou nu foi a corporação.

No fim das contas, a única correção que este blog se permite fazer ao presidente é de roteiro:

  • já que o cidadão morre de medo da delegacia de bairro – e com bons motivos –, que se recomende, em campanha nacional, a entrega dos celulares diretamente nas sedes da Polícia Federal ou nas mãos ungidas dos membros do Ministério Público.

Afinal, esses são sempre de confiança, incorruptíveis por decreto, imunes à vaidade, à política miúda e a qualquer tentação de espetáculo.

  • Nada mais justo que transformar a PF e o MP no grande balcão moral da República: que recebam os aparelhos, os pecados, as culpas e, se possível, também a fila, o calor, o mau humor e o risco diário de ser confundido com bandido.

Talvez, só assim, descubram o que é viver no país em que recomendam que a gente tenha fé.

Alcolumbre, o Judas terrivelmente ladino do Messias 19

Davi Alcolumbre não se comportou como “Rei Davi” que protege o ungido, mas como o Judas profissional da política da pátria que o pariu , que calcula o valor de cada punhalada antes de cravá‑la.

No balcão de negócios do Senado, ele converteu a indicação de Jorge Messias ao STF em peça de leilão, erguida e rebaixada conforme o humor dos compradores habituais: governo fraco, centrão voraz, oposição cínica.

A derrota de Messias não caiu do céu , ou seja , não foi justiça divina como afirmou a ex primeira-dama  e  eterna falsa moralista.

Uma crente de fogo estranho, mais íntima do caixa do que do Evangelho.

A “humilhação histórica” foi preparada em prestações, nos adiamentos, nos recados cifrados à imprensa, nas portas fechadas – com até tu , Alexandre? – finalizando o momento do espetáculo em plenário, quando Alcolumbre pôde entregar o corpo político do indicado como troféu a quem quisesse ver sangue institucional.

Quem sangra é o Brasil assaltado por bandidos eleitos por otários e por outros judas!

O governo Lula, nesse teatro, aparece como apóstolo atrapalhado, incapaz de montar maioria mínima, enquanto Alcolumbre posa de guardião da liturgia, ao mesmo tempo em que negocia nos bastidores a cotação do “Messias” no câmbio paralelo das traições de Brasília.

As “30 moedas” aqui – mensurada em bitcoins – não têm brilho metálico, mas cheiro de poder: controle da pauta, capacidade de chantagear o Planalto, blindagens seletivas ( Master )  vinganças antigas travestidas de prudência republicana.

O preço da traição, como sempre, é pago por fora: a República aceita que a escolha de um ministro do STF vire mercadoria miúda num mercado de canalhas recorrentes; e o Senado se habitua ao papel de casa de leilões, onde cada Judas encontra seu Messias de ocasião.

O Brasil é o templo salomônico de maldades das  pessoas horrorosas que se dizem crentes …

Do dinheiro e do nosso sacrifício !  

Tal espetáculo é a prova viva de que Deus – por aqui – não governa “porra nenhuma”…

Se governa : escolheu os pilantras como seus filhos favoritos!


Advertência : As referências a “Judas”, “Messias”, “crentes” e demais imagens de natureza bíblica neste texto são metáforas político literárias. Não se trata, em hipótese alguma, de ofensa ou incitação ao ódio contra judeus, cristãos ou qualquer pessoa que cultive religiosidade sincera, nem contra aqueles que pautam sua vida por princípios universais de ética, honestidade e probidade. A crítica aqui dirige-se exclusivamente a agentes públicos e políticos concretos, bem como à utilização oportunista do discurso religioso como instrumento de poder e manipulação.

O americano quer cheirar por diversão e o traficante latino só quer comer…O Flit Paralisante pergunta: quem são os piores criminosos? 10

O governo americano, sob o comando do presidente Donald Trump, anunciou recentemente operações militares letais contra embarcações suspeitas de tráfico de cocaína no Caribe, perto da Venezuela, sem necessidade de apreensão, prisão , julgamento ou quaisquer provas concretas.

Basta a imagem de uma embarcação pequena em suposta fuga de caça-bombardeiro supersônico !

Contestado e criticado pelo presidente da Colombia que afirmou que os principais líderes do narcotráfico vivem em cidades – que ele descreveu como luxuosas – como Miami, Nova York ou Dubai e, ainda, que qualquer ação terrestre em solo da Venezuela seria uma invasão territorial, imediatamente ordenou sanções a Gustavo Petro, familiares e autoridades colombianas.

Verdadeiramente, Trump não aceita críticas e trata os divergentes como inimigos e o que é muito pior: neles projeta aquilo que diz estar combatendo.

Enquanto isso, o presidente Lula, ao comentar a política externa dos EUA, afirmou que “os usuários são responsáveis ​​pelos traficantes, que são vítimas dos usuários também”, causando controvérsia.

Apesar de , no Brasil , o usuário , desde o antigo art. 281 do Código Penal  , ser tratado como irmanado ao traficante.  

Mas será que Lula, em seu deslize retórico, não tocou numa verdade incômoda que o próprio Trump insiste em ignorar?

O vício que alimenta o império

O tráfico de cocaína é um negócio movido por dólares americanos, não por plantações andinas.

A cocaína, extraída da folha de coca na América do Sul, há mais de um século , foi transformada em cloridrato na Europa.

Virou panaceia ; o remédio para todos os males .  

Até que – diante da escravidão e zumbificação das elites da Europa –  foi proscrita.

Já era tarde!

A procura nunca foi estancada.

Nos anos 1960 passou a ser  traficada por americanos para americanos , pois o governo direcionava toda a repressão para os maconheiros e negros usuários de heroína.

E os americanos vivendo um momento de prosperidade e euforia a adotaram como “medicação de referência “.

Vivas à lei da oferta e procura até que o produtor descobriu  que merecia ganhar muito mais e poderia dominar toda a cadeia , desde a plantação , refino e entrega ao consumo .   

Aí houve uma grande revolta; muito mais do que a saúde dos povos estava a saúde financeira dos governos .

O Tesouro Nacional passou a verificar o “desaparecimento” de toneladas de dólares dos “mercados”.

Uma fortuna bilionária estava sendo desviada para outros países e mantida fora do sistema bancário e imobiliário formal.

E veio a guerra aos cartéis dos latinos

Ora, sempre latinos ; esse tipo meio palestino que fala uma língua mais musical .  

Com a guerra , nos EUA, o  seu valor quintuplica – ou mais – ao chegar aos bares, festas e escritórios de Nova York, Miami ou Los Angeles.

São os “filhinhos de papai” do norte, os endinheirados usuários recreativos, que sustentam os cartéis com seu hábito de cheirar cocaína como se fosse oxigênio .

Enquanto isso, Trump manda drones e fuzileiros para matar supostos traficantes em alto-mar, sem direito a defesa, sem julgamento, numa espécie de justiça extraterritorial que fere qualquer noção de civilidade e respeito à soberania.

Trump está matando todas as noções de Direito ;  não está defendo a saúde da população americana .

Talvez só esteja defendendo  o interesse de alguns dos seus sócios .

A hipocrisia do combate às drogas

O discurso de Trump é o mesmo de sempre: culpar o outro, o latino, o estrangeiro, o pobre.

Mas ninguém fala em invadir os arredores  de Beverly Hills para prender os usuários que financiam o tráfico.

O governo americano prefere bombardear barcos no Caribe a investir em tratamento, prevenção e redução de danos em seu próprio território.

Afinal, é mais fácil culpar o vendedor de rua do que admitir que o vício está dentro de casa, nas salas de reunião de negócios , nas festas de gala, nos eventos esportivos.

O latino quer comer, sim!

O americano só quer cheirar , mas que  o mundo inteiro pague o preço por isso.

A ironia do destino

Lula, ao soltar a frase de que ‘os traficantes são vítimas dos usuários’, provocou o esperado coro de indignação daqueles que preferem o mundo em preto e branco.

Foi taxado de defensor de bandidos, como era de se esperar no teatro raso da política .

A ironia cruel, no entanto, é que a fala que soa como absurdo no plenário do Congresso seria uma verdade elementar, um dado operacional, num relatório das nossas polícias e certamente do DEA ou da CIA. 

Os policiais mais capacitados sabem: o ‘traficante’ não é um monstro unidimensional, mas o elo final de uma cadeia movida a uma demanda voraz e insaciável.

Enquanto Trump, no mesmo teatro, manda matar esse mesmo ‘elo final’ em alto-mar – sem provas, sem julgamento, num ato de pura barbárie –, a fala de Lula, na sua crueza, escancara a pergunta que nenhum presidente americano quer ouvir: 

O que é um cartel senão a versão brutalmente eficiente de uma empresa que atende a uma demanda de um mercado abastado e viciado?

O pequeno traficante, o ‘trincheiro’, é a vítima sacrificial perfeita: morto pela polícia aqui, vaporizado por um drone americano ali, enquanto os verdadeiros arquitetos do negócio ;  a demanda dourada do Norte e a lavagem de dinheiro que escorre para o sistema financeiro global  seguem intocáveis.

Lula, de fato, ao dizer que os traficantes são vítimas dos usuários , não foi linguisticamente  preciso.

Mas não deixa de ter razão: os pequenos traficantes do terceiro mundo  – o trabalhador do crime –  são sim vítimas!

Vítimas do sistema que os empurram para o crime, vítimas da repressão desigual, vítimas da ganância dos cartéis e da hipocrisia dos países consumidores.

Enquanto Trump manda matar sem provas, o Brasil debate uma PEC da Segurança Pública e bate registros de apreensão de drogas destinadas ao “Primeiro Mundo”.

O Brasil é vergonhosamente inepto quando se trata de apreender drogas destinadas ao “público interno “.

Aqui não se apreende na entrada , apenas na saída …

Melhor dizer : não se apreende o que se destina ao comércio interno ; apreende-se muito mais drogas que seriam exportadas.  

Por quê?

A outra ironia é que o país que mais consome drogas no mundo é o mesmo que mais se arvora no direito de julgar e punir os outros.

O Flit Paralisante pergunta: quem são os piores criminosos?

Os que vendem para sobreviver ou os que compram para se divertir, cegos pela sua riqueza e pelo seu poder?