Bando usar mulher como isca para resgatar preso
- 31 de outubro de 2011 |
- 23h23 |Por Gio Mendes, Camilla Haddad e Tiago Dantas
As delegacias com carceragem para abrigar provisoriamente presos em flagrante ou com prisão decretada pela Justiça podem estar virando áreas de risco nos fins de semana. Na noite de domingo, dois irmãos integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC) foram resgatados por um bando armado que usou uma loira como isca. A mulher, descrita como magra e de fala mansa, fingiu ir entregar uma pizza de mussarela. Atrás dela, aproveitando a distração dos policiais, apareceram dois homens armados que renderam os cinco plantonistas do 26º Distrito Policial (Sacomã) e ordenaram que eles abrissem uma das celas.
Os suspeitos chegaram às 23h30 no plantão do DP. Enquanto a mulher e dois comparsas seguiram para a carceragem, um terceiro homem ficou com um policial apontando uma arma para sua cabeça. Naquela noite havia 45 detidos no local. Mas eram Rondenele de Oliveira Marques, de 27 anos, e Felipe Marques dos Santos, 20, o alvo da quadrilha.
“Aqui! Aqui!” teriam gritado aos colegas de crime ao vê-los entrar na carceragem. Junto com os dois, fugiram outros dez detentos. “Se quiserem sair, a hora é agora”, disse um dos bandidos aos demais presos da cela. Dois foram recapturados até 20h de ontem pela PM, que chegou a trocar tiros com o bando dentro da delegacia.
Especialistas acreditam que situações assim podem se repetir. Isso porque nos fins de semana os detidos em flagrantes não podem ser levados para os Centros de Detenção Provisória (CDPs), já que essas unidades não tem plantão. Recebem presos só em dias úteis.
São nove os distritos policiais que têm carceragem para presos “em trânsito”. Sete funcionam ao lado de centrais de flagrante. Normalmente, em dias de semana e sábados essas centrais de flagrantes ficam repletas de PMs que vão apresentar ocorrências, o que inibe possíveis ações de resgate. Quando elas fecham, há menos policiais.
A permanência de detentos em delegacias oferece riscos à segurança do entorno, aos policiais civis e aos próprios presos, segundo o professor de Direito Penal da USP Pierpaolo Cruz Bottini, ex-integrante do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária (CNPCP), do Ministério da Justiça. “Deixar o preso na delegacia é contraproducente. A delegacia presta outros serviços à comunidade, como o registro de ocorrências, por exemplo. O ideal seria ter uma unidade específica para receber esses detentos, que funcionasse em sistema de plantão.”
A resolução número 16 do CNPCP, de 17 de dezembro de 2003, afirma que “a permanência de presos condenados e provisórios em delegacias de polícia” deve ser evitada. Além de ser um risco à segurança da vizinhança da delegacia, a permanência deles atrapalha o trabalho policial, segundo o delegado George Melão, presidente do Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo (Sindpesp). “O pior é que o policial precisa ficar vigiando o preso em vez de investigar”, diz.
Melão critica, ainda, a estrutura do sistema prisional, que só recebe presos de dia. “O poder público precisa dar condições e colocar instrumentos para poder receber presos a qualquer hora.”
Segundo o delegado Carlos José Paschoal de Toledo, diretor do Departamento de Polícia Judiciária da Capital (Decap), o resgate foi um “fato isolado”. Ele pediu à Corregedoria da Polícia Civil investigue o caso. Segundo Toledo, os alvos do resgate são acusados de roubar Kombis que transportam cigarros.








