Após intervenção na Luz, cracolândias de bairros de classe média crescem
No Campo Belo, várias ruas estão tomadas por pessoas fumando crack
SÃO PAULO – Após a intervenção no bairro da Luz, minicracolândias de bairros de classe média nas zonas sul e leste também aumentaram de tamanho. Moradores, comerciantes e até viciados em drogas afirmaram acreditar que esteja acontecendo uma migração de usuários em busca de crack.
No Campo Belo, na zona sul da capital, várias ruas nos arredores da Avenida Jornalista Roberto Marinho estão tomadas por pessoas fumando crack. “A gente conhece os usuários de drogas que moram aqui, eles até nos cumprimentam. Dá para notar que desde quarta-feira várias pessoas estranhas passaram a circular pela área para usar drogas”, afirmou o segurança Gilvan Correa, de 42 anos.
Morador de rua e usuário de drogas, um catador de materiais recicláveis de 30 anos, que pediu para não ser identificado, afirma que o movimento de pessoas vindas de outros pontos da cidade ocorre principalmente na Rua Estácio Coimbra. “Aquilo ali está virando uma segunda cracolândia”, disse o rapaz.
Na tarde de quinta-feira, 5, nem a chuva intimidava os viciados. Cobertos com sacos plásticos, eles acendiam os cachimbos no meio da rua. Alguns se escondiam no canteiro central da Avenida Jornalista Roberto Marinho. Carros da Polícia Militar passavam pela área sem parar.
O ponto de venda de drogas que abastece a região, de acordo com moradores, fica em uma favela na Ruas dos Emboabas.
Na zona leste da cidade, no bairro do Tatuapé, a população também notou intensificação do número de usuários de drogas. “Quando fui abrir minha loja de manhã, havia meia dúzia de drogados dormindo ali. Deve ser gente vinda da cracolândia”, afirmou ele, que é dono de uma loja de tintas. A maior concentração de viciados fica na Rua Hely Lopes Meireles, na Ponte Aricanduva, e debaixo de uma alça de acesso da Marginal do Tietê. No fim da noite e de madrugada, os viciados são agressivos na tentativa de conseguir dinheiro de motoristas. Assim que eles conseguem o que querem, correm para a Favela do Pau Queimado, onde compram crack.
Na tarde de quinta-feira, a reportagem do Estado encontrou uma base comunitária da PM estacionada em um posto de gasolina na Avenida Airton Pretini. Após alguns minutos, porém, o veículo saiu. Perto dali, debaixo da alça da Marginal, era possível ver várias pessoas acendendo seus cachimbos.
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Em nova fase, ação anticrack dispersará moradores de rua
‘Ideia é sempre abordar’, diz comandante da PM, segundo quem cracolândia surgiu por causa de formação de grupos
Se pessoas estiverem consumindo drogas, serão levadas a DPs; caso não estejam, apoio social será solicitado
| Marlene Bergamo/Folhapress | ||
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| Usuário de crack foge da polícia no centro de São Paulo |
ROGÉRIO PAGNAN DE SÃO PAULO
Para tentar acabar com o livre consumo de crack nas ruas de São Paulo, a PM passará a dispersar grupos de moradores de rua em toda a região central da cidade.
Segundo o comandante-geral da corporação, coronel Álvaro Camilo, o objetivo é evitar o surgimento de novos territórios livres para o consumo e venda de drogas ilícitas, como ocorreu na cracolândia há cerca de 20 anos.
O coronel diz que os policiais vão passar a abordar esses grupos sempre que se depararem com eles ou forem solicitados por moradores de qualquer região, em especial do centro e bairros vizinhos.
“A ideia é sempre abordar. Se estiver consumindo droga, ou tráfico, a polícia vai fazer [o encaminhamento para o distrito]. Se não, vamos comunicar as assistentes sociais ou de saúde para agir.”
De acordo com o oficial, esse encaminhamento ao distrito será feito quantas vezes for necessário. “A ideia é não deixar formar mais esses grupos em nenhuma região da cidade. O que aconteceu lá [na cracolândia] foi isso, foram formando grupos.”
FASES
Essa será a terceira fase da operação da PM iniciada na terça na cracolândia. A primeira deve durar 30 dias, com o objetivo de “sufocar” consumidores e desarticular o tráfico. A ideia é obrigar o viciado a buscar ajuda médica.
A segunda fase é dar atendimento de saúde e social aos viciados. A prefeitura prevê internações compulsórias -quando o viciado não concorda com o atendimento.
Depois disso, começarão as abordagens para dispersar grupos de moradores de rua.
Na terça, com o início da operação, PMs cercaram as ruas onde 400 usuários permaneciam reunidos 24 horas por dia consumindo drogas, principalmente o crack.
De acordo com o delegado-geral Marcos Carneiro Lima, a Polícia Civil também participa dessa fase.
Para o comandante da PM na região central, coronel Pedro Borges, o plano de prender todos os traficantes da cracolândia é utópico.
“Temos certeza de que não vamos acabar com o tráfico de drogas no centro. É utópico dizer que vai acabar”, disse.
Anteontem, o comandante-geral da PM, coronel Álvaro Camilo, afirmou que acabaria com o tráfico na cracolândia em 30 dias.
Na região, segundo a polícia, há microtraficantes. Muitos são usuários que vendem pedras para bancar o vício.
Em julho de 2009, a PM, em parceria com a prefeitura, realizou uma operação semelhante, mas o efetivo de homens na região acabou sendo gradativamente reduzido.
Kassab e Alckmin temiam ação do governo federal
CATIA SEABRA DE BRASÍLIA
A nova operação policial na cracolândia foi uma antecipação aos petistas.
Apesar do distanciamento político, Gilberto Kassab (PSD) e Geraldo Alckmin (PSDB) se uniram por temer que o ministro da Saúde, Alexandre Padilha (PT), anunciasse algum pacote federal para a área, imprimindo no prefeito e no governador o rótulo de inoperantes.
O alvo de preocupação da prefeitura e do governo estadual é o lançamento do programa federal “Consultório de Rua”: transporte de equipes de saúde em vans, com a marca do governo Dilma.
O custo mensal de cada van é avaliado em R$ 50 mil, mas o aporte de recursos federais seria de cerca de R$ 18 mil. A avaliação era de que o governo federal colheria frutos do trabalho desenvolvido pela prefeitura, hoje com sete equipes de saúde nas ruas.
Cotado para a disputa pelo governo de São Paulo em 2014, Padilha chamou a atenção de tucanos ao declarar, em entrevistas, ter visitado a região da cracolândia até de madrugada.
Em conversas, Alckmin repetia que a dependência química é a pauta do momento e manifestou o temor de que o governo Dilma assumisse a bandeira de combate ao tráfico de drogas.
A proposta da operação nasceu há dois meses. Segundo integrantes do governo estadual e até do municipal, foi Kassab quem procurou Alckmin. O prefeito nega ter tomado a iniciativa.
A Folha apurou que a vice-prefeita e secretária municipal de Assistência Social, Alda Marco Antonio, e o secretário municipal da Saúde, Januário Montone, procuraram Alckmin em nome do prefeito Kassab.
Durante os preparativos da operação, Kassab se preocupava com o efeito da operação -como a dispersão de dependentes químicos pela cidade- e queria dividir o ônus com Alckmin.
Mas havia também uma cobrança da opinião pública sobre o assunto, diagnosticada em uma pesquisa interna, comparando São Paulo ao sucesso de operações no Rio.

















