
Defensoria distribui cartilhas sobre direitos de usuários
DE SÃO PAULO
A Defensoria Pública de São Paulo distribuiu ontem na área da cracolândia, região central de São Paulo, panfletos com orientações contra eventuais abusos de policiais e guardas.
No informativo, os defensores informam telefones das corregedorias da Polícia Militar e da Guarda Civil Metropolitana para encaminhamento de denúncias.
Os panfletos informam, também, direitos básicos dos cidadãos como:
1) sempre ser tratado com edução e respeito;
2) ficar, sentar ou deitar ou reunir-se em local público, desde que pacificamente;
3) saber o motivo pelo qual está sendo abordado.
Conforme a Folha revelou ontem, a nova fase da operação policial será dispersar moradores de rua que estiverem em vias ou praças. O objetivo é, diz a PM, evitar o surgimento de uma nova cracolândia.
Os panfletos foram distribuídos por uma base móvel da defensoria. Em cerca de uma hora, em torno de 20 pessoas pediram cópias.
Também esteve lá uma equipe da guarda municipal reclamando da distribuição das informações. Os guardas disseram que os viciados estavam usando o informativo para enfrentá-los.
Além de distribuir os papéis, os defensores recolheram depoimentos de usuários sobre supostos abusos praticados por PMs e guardas. Ao menos dez pessoas apresentaram reclamações.
Na mão de Deus
Fernando dos Santos Deus, craqueiro, com chumbo no corpo e atropelado, sobrevive
LAURA CAPRIGLIONE DE SÃO PAULO
Usuário de crack, 31 anos, o morador de rua Fernando dos Santos Deus tinha ontem a clavícula direita fraturada, a cabeça e as costas em carne viva, o rosto com um rasgo que lhe ia da têmpora direita à orelha, hematomas por todo o corpo.
Santos Deus afirma que foi atropelado por um carro da Força Tática da Polícia Militar na madrugada de ontem, entre 2h e 4h da manhã.
Local: cracolândia, região central de São Paulo.
Dentro do carro, segundo o morador de rua, estariam policiais que fazem parte do contingente mobilizado há quatro dias na operação contra o consumo de crack.
Santos Deus disse que os soldados não lhe prestaram socorro e que teve de esperar ferido, jogado na rua, durante pelo menos uma hora, até a chegada da equipe do resgate do Corpo de Bombeiros.
Relatos idênticos foram ouvidos ontem durante todo o dia pela coordenadora do Núcleo de Cidadania e Direitos Humanos da Defensoria Pública de São Paulo, Daniela Skromov de Albuquerque. Instalada em plena cracolândia, em uma base móvel, ela recolheu denúncias de maus-tratos contra os usuários de drogas.
TESTEMUNHAS
A moradora de um edifício vizinho contou que o atropelamento aconteceu quando um grupo de dependentes reunidos para comprar e fumar crack estava sendo dispersado pelos policiais.
Santos Deus teria tropeçado na guia da calçada, e caído. “A viatura passou duas vezes por cima dele”, disse ela. Outros usuários de crack repetiram o mesmo enredo.
Nenhum testemunho mencionou o número do carro oficial ou suas placas.
A Defensoria Pública também colheu relatos de moradores da cracolândia sobre uso de gás pimenta para dispersar concentrações de usuários, xingamentos, humilhações, “constrangimentos ao direito de ir, vir, permanecer e circular”, além de ter fotografado duas pessoas com marcas de agressões recentes “causadas, segundo as denúncias, por PMs ou guardas civis metropolitanos”, explicou a defensora Daniela.
Ontem à tarde, a Folha encontrou Santos Deus sozinho na portaria do pronto socorro do Hospital do Servidor Municipal, à espera de atendimento. Ele não apresentou documentos, não disse onde mora, não falou sobre familiares vivos ou mortos. Seu nome pode nem ser o que declarou.
Colocado em uma cadeira de rodas, com a cabeça enfaixada, um tufo de algodão pregado na altura da orelha, camiseta dura por causa do sangue coagulado, a roupa colada nos ferimentos, gemendo de dor, a toda hora ele ameaçava cair do assento.
Só com muito esforço conseguia se comunicar, assim mesmo de forma confusa. E caía no sono todo o tempo.
Uma atendente na portaria do hospital explicou que o morador de rua estava ali dentro, sem atendimento algum, porque tinha saído “voluntariamente” do hospital.
Outra atendente, percebendo que ele não podia ter saído se estava dentro, dispôs-se a encaminhá-lo, enfim, para tratamento.
Levado à sala do raio-X, Santos Deus surpreendeu os médicos com sua radiografia -além de confirmar a fratura no ombro, viu-se que o jovem tinha uma incrível constelação de pontos (brancos na chapa) dentro do corpo, na altura da pélvis e espalhados por todo o tórax.
Eram bolinhas de chumbo, usadas dentro da munição de balas calibre 12. Santos Deus já tomou um tiro da arma usada até para matar elefantes -e sobreviveu.
O médico receitou-lhe anti-inflamatório, analgésico e antibiótico e deu-lhe alta. Com o ombro enfaixado e tudo o mais doendo, Santos Deus, entretanto, não conseguia se levantar da cadeira de rodas do hospital.
REJEITADO
No serviço social do Pronto Socorro, a funcionária explicou que nenhum albergue municipal aceitaria um hóspede naquelas condições -da orelha dele quase 12 horas depois, ainda saía sangue.
Santos Deus, sem ter para onde ir, voltou para dentro do pronto socorro, onde deve ter passado a noite.
A assessoria de imprensa do Comando Geral da PM disse à Folha que a denúncia do atropelamento e da eventual omissão de socorro por parte dos policiais da Força Tática será investigada pela Corregedoria da instituição.
Governos federal e estadual discutem ação
DE BRASÍLIA
A Secretaria de Direitos Humanos, ligada à Presidência da República, disse estar preocupada com a atuação policial na cracolândia. “Nas últimas 24 horas, tomamos conhecimento pela imprensa, pela Defensoria Pública de São Paulo e por movimentos sociais de ações policiais que são absolutamente afrontantes”, afirmou Ramaís de Castro Silveira, secretário-executivo.
Silveira disse ter recebido denúncias e imagens de PMs agredindo pessoas. “Não estamos tratando essas pessoas como doentes, mas como criminosos e, pior, com violência, tortura, privação de liberdade, sem ordem judicial.”
A Secretaria da Justiça e da Defesa da Cidadania de SP, que coordena as ações do Estado na operação, disse que pediu o material das denúncias para averiguação, mas que recebeu um vídeo de 2007 e não recebeu as denúncias descritas por Silveira.
A secretaria estadual diz que são inaceitáveis as atitudes descritas e que a iniciativa na cracolândia reúne, sim, a saúde e a assistência social. Segundo a pasta, integrantes da Defensoria negaram a existência das denúncias.
Silveira, de Brasília, afirmou que o “alerta vermelho” foi dado não pelo vídeo, mas por denúncias da pastoral, de movimentos de rua e da defensoria paulista, que seriam requeridas formalmente pela secretaria federal.
Ele disse que a pasta vai apurar as denúncias com mais profundidade e procurar os governos estadual e municipal ainda neste final se semana.
(JOHANNA NUBLAT E ANDRÉIA SADI)