Moradores de Paraisópolis acusam a PM pelo assassinato dos 9 jovens 68

‘O pessoal não foi vítima de pisoteamento, mas da própria polícia’, diz comerciante de Paraisópolis

03/12/19 por Maria Teresa Cruz e Paloma Vasconcelos

Ponte visitou a favela na segunda-feira (2/12) para entender a dinâmica das vielas onde 9 jovens morreram; imagens mostram PMs lançando bombas

A avenida Hebe Camargo é um dos principais pontos de entrada na favela localizada na zona sul de SP | Foto: Paloma Vasconcelos/Ponte Jornalismo

O dia nesta segunda-feira (2/12) na favela de Paraisópolis, na zona sul da cidade de São Paulo, parecia normal como qualquer outro começo de semana. As ruas estavam cheias, os comércios funcionando, mas as pessoas estavam monotemáticas. O assunto mais falado da favela era o massacre que tirou a vida de 9 jovens na madrugada do último domingo (1/12).

“A versão policial é mentirosa”. Um comerciante ouvido pela Ponte afirma que nenhum motoboy usou o baile como escudo. O comerciante, que alega ser de família religiosa e não gostar de funk, detalha que sempre que há baile na favela a Polícia Militar não entra no local, mas ficam nas entradas de Paraisópolis fazendo blitz durante o dia.

“Eles estavam fazendo blitz por volta das sete horas da noite. Tinham duas viaturas e mais três motos. De madrugada, eles começaram a invadir o baile, dispersar a multidão, aí vão embora. Aí a multidão volta e fica nessa disputa. É sempre assim”, explica o comerciante, que preferiu para não ser identificado por temer represálias contra sua família.

Um pouco antes das 4h da manhã do domingo, segundo o comerciante, os PMs “invadiram o baile de uma vez só”. “Não foi bala de borracha, foi bala de fogo. Eles invadiram com pau, isso vem acontecendo faz tempo. Eles encurralaram esse pessoal e jogaram bombas”, relata.

Imagens obtidas pela Ponte, perto de um dos pontos de concentração do baile, na Rua Ernest Renan, mostram policiais chegando em alta velocidade com a viatura, lançando bombas contra pessoas que já estavam correndo e outras pessoas tentando se abrigar.

O comerciante deixou pelo menos 100 pessoas se esconderem no seu estabelecimento, que durante o dia é um restaurante e na madrugada funciona como um bar. Ele conta que levou as pessoas para a laje enquanto, na viela, outros participantes do baile eram encurralados.

Por isso, afirma o dono do bar, as pessoas não foram vítimas de pisoteamento e sim da própria polícia. “A primeira reação de frequentadores é correr porque sabe que vai apanhar. É só usar o raciocínio, a coerência”.

No meio da favela de Paraisópolis, onde os moradores chamam de centro, há pelo menos 10 anos rola o famoso Baile da Dz7. O baile é organizado coletivamente pelos moradores e acontece de quinta a sábado.

Às vezes um DJ é convidado para tocar no local, mas normalmente a música vem das caixas de sons espalhadas nas quatro saídas do local de concentração da festa. É a festa mais famosa de Paraisópolis, que reúne milhares de pessoas vindas de várias regiões de São Paulo. Das vítimas do massacre, por exemplo, nenhum era morador da comunidade.

Na visão de quem mora na favela, foi justamente isso – o fato de não serem do local – que pode ter atrapalhado as 9 vítimas, que tinham entre 14 e 23 anos, na tentativa de fugir e se proteger. Na hora do desespero, por conta das bombas de gás, balas de borracha e spray de pimenta usados pela PM na multidão, muitos jovens não sabiam para onde correr. A região onde o baile acontece tem pelo menos 4 ruas de ligação com o restante da favela e muitas vielas ao longo do caminho.

Algumas vielas são longas, mas bem estreitas, cercadas de paredes altas. Muitas dessas paredes são residências. De noite não são muito iluminadas, pois só contam com as luzes das residências no entorno. Algumas vielas não cabem nem duas pessoas andando lado a lado. Outras já tem um pouco mais de espaço. A viela escolhida por parte dos jovens que morreram na madrugada do domingo era estreita, escura e baixa, pois para entrar nela era preciso descer uma escada.

As vielas de Paraisópolis são feitas de cimento e funcionam como caminhos abertos entre as casas para facilitar o acesso de quem mora ali. A população estimada da comunidade é de 100 mil pessoas. Foi em um desses corredores minúsculos que parte da multidão tentou fugir da PM na madrugada do dia 1º de dezembro. Por falta de espaço, iluminação e com os bloqueios em todas as saídas, a ação da PM terminou com nove jovens encurralados e mortos, de acordo com moradores. Todas as saídas foram bloqueadas por viaturas da PM.

Segundo moradores, o policiamento na favela aumentou muito desde que o sargento da PM Ronald Ruas Silva foi morto em 1º de novembro de 2019. De lá para cá, não houve um dia que a PM não esteve na favela. Os últimos trinta dias foram marcados por ameaças diárias, conforme mostrou reportagem da Ponte.

O sargento foi morto próximo do cruzamento da avenida Hebe Camargo com a rua Rudolf Lutze, mesmo local que, segundo a versão policial, uma moto começou a ser perseguida pelas viaturas. Essa perseguição, ainda de acordo com a PM, teria motivado o tumulto no baile. A Rudolf Lutze é uma das ruas em que o Baile da Dz7 acontece.

Esquina da avenida Hebe Camargo com a rua Rudolf Lutze | Foto: Paloma Vasconcelos/Ponte Jornalismo

Uma moradora relatou à Ponte que costuma frequentar o baile, mas que desde a morte do sargento Ruas a repressão aumentou. “Depois da morte do sargento já não tava tendo tanto baile assim, mas tava rolando de certa maneira. O baile ajuda a economia local, a noite em Paraisópolis é uma potência econômica e cultural, e já tava sofrendo com várias ações da PM, que vinha fechando os comércios”, explica.

A jovem conta como a favela enxerga as ações da PM. “A gente critica a forma violenta que é dada nessa gestão Doria na periferia, porque atinge o dia a dia do morador, atinge as questões econômicas do bairro, atinge a juventude, porque as pessoas não têm lazer, não tem lugar para ir, aí decide fazer um rolê barato, que é o baile, que é um ponto onde as pessoas consomem funk e se divertem, é um lugar de lazer”, crava. “Temos um Estado conservador que criminaliza o baile, que é uma cultura negra, periférica e marginal. O baile gira muito a renda, porque com o desemprego a galera virou autônoma e a noite a galera consome, eles vivem disso”, finaliza.

Uma funcionária de uma lanchonete no topo de uma das ruas onde o baile acontece, que trabalha há 2 meses no local, reforça que depois da morte do sargento as ações policiais se tornaram frequentes. “Antes quando a polícia vinha pra cá era diferente, era mais difícil, mas depois que morreu o policial eles vêm direto, passam a semana todinha vindo aqui, com cavalaria, andando. A gente fica com medo de ficar aberto”, desabafa.

Ela conta como o baile ajuda na economia local e o quanto as ações prejudicam o comércio. “De dia de sábado vem muito mais gente pra cá. A gente fica a noite toda trabalhando de sábado, até 5h da manhã. No sábado retrasado a gente tava aberto, mas os policiais entraram, colocaram todo mundo para fora e mandaram a gente fechar”, relata.

“Nesse sábado eles pararam aqui e ficaram só olhando. Eu tava aqui na hora, só via o pessoal correndo, as bombas estourando e o pessoal correndo. Quando foi umas 3h da manhã parou um rapaz aqui todo ensanguentado e falou mais ou menos o que aconteceu. Mas eu só fui saber o que aconteceu depois”, explica a funcionária.

A funcionária também denuncia que policiais entraram no local no fim de semana e falaram que não queriam ver as imagens da câmera de segurança vazadas. “Aqui de cima não deu pra entender a dimensão. O rapaz que veio machucado disse que tinha sido pisoteado. É um absurdo, os policiais já chegam como loucos. Eles entram metendo o louco. Entraram aqui, olharam para as câmeras e falaram que não era pra gente vazar nenhuma imagem”.

Duas manifestações já foram marcadas contra o massacre de Paraisópolis. Dia 10 de dezembro haverá um ato no Masp, na avenida Paulista, em homenagem as vítimas. No dia 14, uma marcha em Paraisópolis pede o fim do genocídio da população negra e periférica.

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A Força Pública se constrói com confiança e eficiência democrática; não com demagogia e truculência 4

O canto da sereia que pode levar a PM ao descrédito

A Prefeitura de São Paulo registrou, no primeiro semestre de 2019, 9.457 reclamações de barulho na cidade, incluindo os pancadões. Isso é equivalente a 52 ocorrências por dia. No distrito de Vila Andrade, onde fica localizada a favela de Paraisópolis, foram registradas apenas 60 reclamações neste mesmo período, o que é pouco frente ao total da cidade e é emblemático da desconfiança e do temor dos seus moradores em relação ao Poder Público.

E não à toa, a ação policial injustificável da madrugada deste domingo (1), que inacreditavelmente bloqueou saídas e encurralou participantes do baile funk, é uma daquelas ações que nos fazem entender as razões para o descrédito da população com as instituições públicas. Em nenhuma hipótese, uma ação policial que, para prender dois fugitivos, dispersa com brutalidade e violência uma festa com 5 mil participantes pode ser vista como técnica ou moralmente correta.

A Polícia Militar de São Paulo precisa apurar com máxima celeridade, transparência e rigor a sequência dos acontecimentos e a cadeia de comando de uma operação que, até aqui, fugiu de todos os padrões de excelência que marcam a corporação. Não é possível transigir com o descontrole da tropa empregada na operação.

Enganam-se as pessoas que imaginam que a ação visou a manutenção da ordem e louvam a morte de 9 pessoas nas redes sociais e nos comentários dos portais de notícias. A ação contrariou recomendações contidas em vários Manuais de Controle de Distúrbio Civil para que, na dispersão, é necessário controlar o fluxo da multidão e sempre deixar rotas de fuga desobstruídas, para que pisoteamentos e outras tragédias sejam evitadas  (a versão vigente de SP é classificada como sigilosa pela PMESP, mas a de 1997, disponível na web, também corrobora tais recomendações).

E, mais, no Controle de Distúrbios Civis (CDC), tropas de choque sejam acionadas e que o policiamento territorial não fique no primeiro plano da operação. Os vídeos que estão circulando mostram policiais armados, sem escudos e no meio da multidão. A chance de confrontos violentos é sempre maior, como acabou ocorrendo. Diante de uma perseguição que acabou enveredando para uma ação de CDC com 5 mil pessoas, em termos de ordem pública, a medida mais adequada teria sido ter desmobilizado a equipe envolvida e acionado retaguarda aérea e pedido de apoio da tropa de choque.

A investigação que foi anunciada pelo Governador João Doria deve buscar saber o que de fato ocorreu e quem autorizou esta ação. Nada justifica o que ocorreu e não é saudável para a corporação tentar minimizar os acontecimentos ou punir apenas os policiais que estavam na ponta.

A Prefeitura de São Paulo, na contramão da transparência, não permite mais buscas no campo de observações das reclamações do SP156, mas, usando dados de 2015 e 2016, o mapa abaixo mostra que pancadões fazem parte da vida na cidade e que, se plotarmos as unidades da PMESP, teremos que tais festas acontecem próximas aos Batalhões e Companhias da PM.

Ou seja, a polícia historicamente sabe e monitora quando estas festas acontecem e tem todas as condições de planejar operações e protocolos de contingência que evitassem uma ação como a desta madrugada, em Paraisópolis. Se não o fez, errou feio. E errou ainda mais sabendo que uma ação como esta jamais ocorreria na dispersão de uma festa em um bairro “nobre” da cidade e/ou em um clube de elite (lembremos a dispersão do Carnaval na Vila Madalena que, mesmo com episódios de confrontos, todos os protocolos são seguidos).

A experiência acumulada com o controle das manifestações desde 2013 é exemplo de que é possível fazer diferente.

É verdade que polícia sozinha não resolve o problema dos pancadões, mas não podemos aceitar, como nos alertou Thiago Amparo na Folha de S. Paulo, a naturalização da truculência. Paraisópolis convive com os pancadões sem nenhuma resposta mais efetiva do Poder Público para a oferta de espaços de convivência pacífica.

Na toada de populismos autoritários, a ação destrambelhada em Paraisópolis acontece dias depois do Governador João Doria publicar a sua Política Estadual de Segurança Pública sem qualquer meta de controle de uso da violência por parte das polícias. Por tudo isso, a PMESP deve evitar o canto da sereia do tempo social e não pode se sentir autorizada a abandonar o investimento de décadas no profissionalismo e na supervisão da atividade policial.

A Força Pública se constrói com confiança e eficiência democrática; não com demagogia e truculência.

O canto da sereia que pode levar a PM ao descrédito

Febeapá Bolsonarista – O lambedor do Trump coloca pessoas incompetentes em diversos cargos mais preocupadas em bajular o aspirante a ditador de plantão do que buscar o bem coletivo…Os bolsonaristas vigaristas praticam aquilo que o jornalista Sérgio Porto chamou de “festival de besteira” …O mamute virou merda! 12

A “máquina de guerra” da cultura bolsonarista, se é que isto é possível

POR FERNANDO BRITO · 02/12/2019

O homem da Funarte que acha que rock é de Satanás não foi o último.

Ainda tinha o olavista escalado para a Biblioteca Nacional, um certo Rafael Nogueira, que acha que Caetano Veloso é um promotor do analfabetismo e – apesar dos conceitos do colega que acha o rock satânico – é adorado do Shaman e de suas letras, escritas em inglês, of course.

O time que o governo Bolsonaro formou na cultura é destes que lembram o alemão Hans Johst, autor do famoso “Quando ouço [a palavra] “Cultura’ destravo minha [pistola] Browning!”, trecho de um diálogo na peça Schlageter, homenagem a um protonazista alemão.

No nosso caso, porém, para um suicídio da inteligência.

O gajo que vai cuidar do maior acervo literário do país diz na Folha que espera que o legado de Olavo de Carvalho preencha o vazio deixado por Machado de Assis!

Junta-se a um time de desesperança: o secretário negro que acha que ser escravo foi um progresso, a reverenda Jane que cuida da diversidade cultural, o pastor Tutuca para a secretaria de Audiovisual e mais um leque de nulidades para ocupar a “máquina de guerra cultural” do fanático Roberto Alvim.

Nunca antes na história deste país a área cultural esteve entregue a gente tão obtusa, tão desqualificada, tão fanática e obscurantista.

http://www.tijolaco.net/blog/a-maquina-de-guerra-da-cultura-bolsonarista-se-e-que-isto-e-possivel/