A Festa dos Ratos da PM …Ou : A Noite dos Generais ROTOS? Resposta

O Aniversário do General do Bando da ROTA

Todo grupo de grande família tem um aniversariante semanal.

No grupo “Aniversário General”, o aniversariante da vez usava farda com estrelas, tinha décadas de corporação nas costas e um discurso de quem arrota pronto sobre o combate ao crime organizado.

O problema é que, no mesmo grupo, quem mandava “parabéns, General!” com três palmas em emoji também mandava planilhas. E nas planilhas, entre “vale-refeição” e “ajuda de custo”, havia uma linha discreta chamada “ticket”.

Ninguém perguntava o que era ticket.

Perguntar seria estragar a festa.

Mas era o “ticket to ride “ para a tranquilidade vitalícia , depois da aposentadoria !

Não fosse a trombada !  

Ora, ter  pelo menos R$ 1.000.000,00 ( um milhão de reais ) bem guardadinho , uma casa para morar e uma  outra para cada herdeiro é o sonho de consumo de todo oficial da PM.

Natural ! 

E deveria ser merecido para todos , honestamente!  

Mas o General — chamemos assim, por elegância e por prudência jurídica — vivia duas rotinas que ele mesmo já não sabia mais separar.

Ah, mas saibam que é sonho e reivindicação antiga a patente de “general “ para quem chega aos postos de comando geral na Polícia Militar .

De dia, discursava sobre ordem, hierarquia e guerra ao tráfico diante de tropa alinhada.

De noite, no mesmo celular, conferia se o “ticket”  tinha caído.

A farda garantia a autoridade do dia.

O extrato garantia o sono tranquilo da noite.

O truque, aliás, nunca foi esconder o crime.

Foi batizá-lo. Suborno ficou feio, ultrapassado, coisa de novela antiga.

Ticket é moderno, é planilha, é Excel.

Ticket parece Recursos Humanos.

E o que parece Recursos Humanos não parece crime — mesmo movendo, do outro lado da mesma tela, dinheiro de tráfico e lavagem em escala industrial.

Enquanto o General discursava sobre a farda da ROTA — símbolo, ainda que desgastado, de elite e rigor —, o “bando” que dava nome a esse capítulo particular da crônica policial paulista organizava-se com a informalidade de um churrasco de domingo.

Fotos de bolo. Figurinhas de bom dia.

Uma piada sobre árbitro de futebol.

E, encravado ali no meio, sem alarde, o crime ; como quem esconde a chave debaixo do tapete errado, óbvio demais para ser notado.

Até que chegou a van sem identificação.

Chamaram a operação de “Janus” — nome que, com ou sem intenção, é de uma ironia quase literária.

Janus , segundo a mitologia , era o deus romano das portas, guardião dos limiares, o que olha para dois lados ao mesmo tempo: passado e futuro, dentro e fora.

Ninguém precisou explicar ao General o significado do nome.

Bastou ele ver, de um lado, o mandado de busca; do outro, a planilha que ele mesmo conferia todas as noites.

As duas faces, finalmente, no mesmo espelho.

Janus abriu a porta do inferno das infrações imprescritíveis , vitalícias e hereditárias .

As planilhas foram traduzidas ,  porque toda propina, no fim, precisa ser traduzida de volta ao português claro.  

E ser restituída para a coletividade a título de danos morais !

Mas dentro da corporação ele pode permanecer sossegado …

É bom companheirto valoroso!

Entretanto o “ticket” revelou-se exatamente aquilo que a linguagem tentou, por meses, disfarçar.

A Polícia Militar nunca foi a reserva moral do estado …

Nunca passou de um órgão corrompido como qualquer outro .

Só que sempre foi o mais hipócrita !   

Farisaísmo puro…

Hoje, o grupo “Aniversário General” ainda existe.

Ninguém mais posta fotos de churrasco.

Os números continuam lá, cinzentos, sem saída — porque sair do grupo, agora, pareceria confissão.

É mais fácil deixar a conversa parada, como um álbum de família que ninguém tem coragem de fechar.

Afinal , pode ser considerado como fraude processual !

Não é , lhes digo com certo estudo!

A farda ROTA, afinal, sempre carregou duas histórias possíveis: a do rigor que inspira respeito e a do poder que corrompe quem o exerce sem vigilância.

O General escolheu, sem perceber quando exatamente, viver a segunda enquanto discursava a primeira.

E a linha entre a lei e o crime, que devia ser uma barreira,  o “General”  por trinta anos sempre esteve ao lado do crime!

A farda rota da ROTA nunca me enganou.

Sempre soube o que havia por baixo do brasão e do lema: “destinada aos heróis” !

E é por isso que hoje escrevo sem hesitar, com a mesma certeza que eles gostam de gravar no peito: nunca erro.

Verdadeiro, raivoso e cortante!

Mas compassivo !

Escrevo com a angústia de quem fareja com meu nariz dito “defeituoso”.

O dinheiro do tráfico não precisa do tribunal do Flit Paralisante para existir; ele já existe no asfalto, na favela, no espocar de tiros contra quem a ROTA jura combater enquanto abastece o bolso.

Não preciso ver o ticket para saber que a conta de muitas estrelas não fecha.

As conversas e planilhas foram ” reveladas ” acidentalmente ; em português claro.

E o “ticket” – acidental , verdadeiro ou não nos autos que ainda correm sob sigilo – já nasceu batizado pela suspeita que a própria polícia cultiva – contra si própria – ao longo de décadas.