Todo grupo de grande família tem um aniversariante semanal.
No grupo “Aniversário General”, o aniversariante da vez usava farda com estrelas, tinha décadas de corporação nas costas e um discurso de quem arrota pronto sobre o combate ao crime organizado.
O problema é que, no mesmo grupo, quem mandava “parabéns, General!” com três palmas em emoji também mandava planilhas. E nas planilhas, entre “vale-refeição” e “ajuda de custo”, havia uma linha discreta chamada “ticket”.
Ninguém perguntava o que era ticket.
Perguntar seria estragar a festa.
Mas era o “ticket to ride “ para a tranquilidade vitalícia , depois da aposentadoria !
Não fosse a trombada !
Ora, ter pelo menos R$ 1.000.000,00 ( um milhão de reais ) bem guardadinho , uma casa para morar e uma outra para cada herdeiro é o sonho de consumo de todo oficial da PM.
Natural !
E deveria ser merecido para todos , honestamente!
Mas o General — chamemos assim, por elegância e por prudência jurídica — vivia duas rotinas que ele mesmo já não sabia mais separar.
Ah, mas saibam que é sonho e reivindicação antiga a patente de “general “ para quem chega aos postos de comando geral na Polícia Militar .
De dia, discursava sobre ordem, hierarquia e guerra ao tráfico diante de tropa alinhada.
De noite, no mesmo celular, conferia se o “ticket” tinha caído.
A farda garantia a autoridade do dia.
O extrato garantia o sono tranquilo da noite.
O truque, aliás, nunca foi esconder o crime.
Foi batizá-lo. Suborno ficou feio, ultrapassado, coisa de novela antiga.
Ticket é moderno, é planilha, é Excel.
Ticket parece Recursos Humanos.
E o que parece Recursos Humanos não parece crime — mesmo movendo, do outro lado da mesma tela, dinheiro de tráfico e lavagem em escala industrial.
Enquanto o General discursava sobre a farda da ROTA — símbolo, ainda que desgastado, de elite e rigor —, o “bando” que dava nome a esse capítulo particular da crônica policial paulista organizava-se com a informalidade de um churrasco de domingo.
Fotos de bolo. Figurinhas de bom dia.
Uma piada sobre árbitro de futebol.
E, encravado ali no meio, sem alarde, o crime ; como quem esconde a chave debaixo do tapete errado, óbvio demais para ser notado.
Até que chegou a van sem identificação.
Chamaram a operação de “Janus” — nome que, com ou sem intenção, é de uma ironia quase literária.
Janus , segundo a mitologia , era o deus romano das portas, guardião dos limiares, o que olha para dois lados ao mesmo tempo: passado e futuro, dentro e fora.
Ninguém precisou explicar ao General o significado do nome.
Bastou ele ver, de um lado, o mandado de busca; do outro, a planilha que ele mesmo conferia todas as noites.
As duas faces, finalmente, no mesmo espelho.
Janus abriu a porta do inferno das infrações imprescritíveis , vitalícias e hereditárias .
As planilhas foram traduzidas , porque toda propina, no fim, precisa ser traduzida de volta ao português claro.
E ser restituída para a coletividade a título de danos morais !
Mas dentro da corporação ele pode permanecer sossegado …
É bom companheirto valoroso!
Entretanto o “ticket” revelou-se exatamente aquilo que a linguagem tentou, por meses, disfarçar.
A Polícia Militar nunca foi a reserva moral do estado …
Nunca passou de um órgão corrompido como qualquer outro .
Só que sempre foi o mais hipócrita !
Farisaísmo puro…
Hoje, o grupo “Aniversário General” ainda existe.
Ninguém mais posta fotos de churrasco.
Os números continuam lá, cinzentos, sem saída — porque sair do grupo, agora, pareceria confissão.
É mais fácil deixar a conversa parada, como um álbum de família que ninguém tem coragem de fechar.
Afinal , pode ser considerado como fraude processual !
Não é , lhes digo com certo estudo!
A farda ROTA, afinal, sempre carregou duas histórias possíveis: a do rigor que inspira respeito e a do poder que corrompe quem o exerce sem vigilância.
O General escolheu, sem perceber quando exatamente, viver a segunda enquanto discursava a primeira.
E a linha entre a lei e o crime, que devia ser uma barreira, o “General” por trinta anos sempre esteve ao lado do crime!
A farda rota da ROTA nunca me enganou.
Sempre soube o que havia por baixo do brasão e do lema: “destinada aos heróis” !
E é por isso que hoje escrevo sem hesitar, com a mesma certeza que eles gostam de gravar no peito: nunca erro.
Verdadeiro, raivoso e cortante!
Mas compassivo !
Escrevo com a angústia de quem fareja com meu nariz dito “defeituoso”.
O dinheiro do tráfico não precisa do tribunal do Flit Paralisante para existir; ele já existe no asfalto, na favela, no espocar de tiros contra quem a ROTA jura combater enquanto abastece o bolso.
Não preciso ver o ticket para saber que a conta de muitas estrelas não fecha.
As conversas e planilhas foram ” reveladas ” acidentalmente ; em português claro.
E o “ticket” – acidental , verdadeiro ou não nos autos que ainda correm sob sigilo – já nasceu batizado pela suspeita que a própria polícia cultiva – contra si própria – ao longo de décadas.
O Balcão de Propina e o “sincericídio” de um Coronel PM aposentado
Cheguei atrasado para a entrevista.
Não por culpa minha, mas porque sou latino-americano e vou de casa para o trabalho sempre pela praia , como proclama o saudoso e inesquecível Zé Rodrix , aquele que também tinha uma Casa no Campo .
Bem, o sinal ficou vermelho na frente da delegacia e eu delirei ter visto um Camaro estacionado na vaga do delegado.
Dentro do carro, um homem de terno lia um contrato de compra e venda.
Ou talvez fosse uma nota fiscal de padaria.
Hoje em dia, é a mesma coisa.
Senta que lá vem a história boa e verdadeira .
O Ministério Público derrubou o queijo da mesa e os ratos – como o delegado deputado Da Cunha se referre àqueles que não são na sua laia – correram de medo para todos os lados.
Conversas interceptadas.
Áudios criptografados.
E o que se ouviu?
O ronronar gordo de propina sendo convertida em crédito de vale-refeição.
Isso mesmo, leitor!
Enquanto você passa o cartão no self-service para comer um arroz com feijão, o delegado cardeal — sim, cardeal, porque aqui a batina é de algodão azul-marinho , no mínimo um Armani com Rolex “Submariner” no pulso e gomalina no cabelo — estava transformando dinheiro sujo em jantares luxuosos em restaurantes fictícios.
Lembrei dos meus tempos de infante : “Dura lex, sed lex, no cabelo só Gumex”!
Trinta e três milhões de reais.
É o preço da dignidade de uma corporação.
Ou, para ser mais exato, o preço para arquivar um inquérito, sumir com uma prova, ou simplesmente fechar os olhos enquanto a mala de dinheiro atravessa a porta giratória.
E aí, no meio desse tiroteio de factoides, surge a figura folclórica do Coronel Paganoto.
Ele aparece numa TubeTV qualquer com a testa brilhando a creme hidratante ou mesmo o bom e velho óleo de peroba ; gesticulando como um profeta no deserto, gritando a tese que arrepia os bigodinhos da velha guarda:
“Tem que acabar com as duas “ …
Talvez corrigindo o seu ato falho , na verdade , penso , que ele quer mesmo é acabar apenas com a Polícia Civil !
Paganoto recuou para não se implicar com os policiais civis …
Afinal, a Polícia Civil não se circunscreve ao estado de São Paulo .
É um órgão permanente e presente em todos os Estados brasileiros , no Distrito Federal e , também , na União!
Ele quer mesmo acabar com a briga de irmãos siameses pelo bem da coletividade?
Ou quer juntar a Polícia Civil e a Militar num abraço de urso constrangedor?
Ele próprio insinua que o corporativismo é uma máfia.
Ele , até, diz que a dor inicial vai valer a pena.
Contudo , ele olha para a câmera com a seriedade de quem está tentando vender um carro usado com o motor fundido.
E para a nossa descrença , na atividade , ele nunca se manifestou sobre as mazelas e a corrupção institucional na Polícia Militar.
Preferiu fazer parte dela do que ser expulso ou assassinado!
O inimigo sempre foi outro : a Polícia Civil !
E eu, com meu teclado sujo e meus olhos cansados de ver tantos absurdos protagonizados pelos dois órgãos , me pergunto: quem está com a razão?
Vou te contar a verdade nua e crua, sem meias palavras.
O Paganoto está certo.
Os Pega Nota também estão certos.
E é aí que mora o demônio.
O Paganoto está certo porque o modelo atual é um esgoto a céu aberto.
Duas polícias que se odeiam, que escondem provas uma da outra, que disputam território e despojos como cães de rua.
É o terreno perfeito para o crime plantar suas mudas de dinheiro.
A estrutura atual produz os Pega Nota.
Ela os fomenta.
Ela os abençoa.
E exige a sua parte !
Mas os Pega Nota também estão certos ; e aqui vai o veneno da minha análise.
Eles estão certos porque sabem que a unificação, do jeito que Paganoto propõe, pode não matar o monstro; pode apenas criar um Godzilla.
Imagine só: juntar duas máfias corporativas numa só não é extinção, é fusão empresarial.
Você não está fechando o balcão de propina, está apenas centralizando a contabilidade.
É engenharia financeira.
Sabe o que me dá calafrios?
Quando Paganoto fala sobre algo sobre superar as dores e resistências iniciais desse corporativismo mafioso.
Eu acredito que ele quer o bem.
Juro que acredito.
Mas a palavra inicial no sentido de ser um projeto para os nossos filhos ou netos é uma faca forjada de legumes .
Quanto tempo dura essa fase?
Até o primeiro delegado-geral unificado decidir que o vale-refeição agora vale para todo o estado?
Estou sentado aqui, na minha cadeira que range, olhando para a tela do computador.
Recebi um e-mail agora mesmo de um leitor anônimo: “A solução é acabar com as duas e criar uma terceira, mais limpa”.
Eu ri. Ri solitariamente alto.
Porque a terceira seria filha das duas primeiras.
A maçã não cai longe da árvore, e a árvore está podre pela raiz.
A razão não está num campo ou no outro. Tampouco no meio-termo aristotélico !
Aqui a razão está entre a sarjeta e o meio-fio, onde o moleque tranquilamente arranca celular vendo o camburão passar.
A razão está na cara do policial honesto, que ganha um salário de miséria e vê o chefe comprando um imóvel novo.
A razão é uma questão de “quem” vai controlar o quê”.
Quem ficará com as bocas mais ricas?
Se Paganoto vencer, que venha com um veículo tático , e não com um canivete .
Porque o que essa estrutura precisa é de uma bomba paralisante .
E mesmo assim, tenho medo de que, depois da explosão, os escombros ainda formem o desenho de uma estrela de xerife.
Enquanto isso, a vida é uma merda.
A Justiça é cega, mas tem olfato apurado para dinheiro.
E eu vou terminar esta crônica ouvindo, ao longe, a sirene da viatura que nunca chega antes do crime , salvo para socorrer o cadáver ou para ouvir o barulhinho bom da maquininha de cartão de crédito …
Entre o Paganoto e os Pega Nota, meu leitor, eu fico com o uísque americano .
Pelo menos sei que ele é adulterado, mas não mente sobre a própria origem.
Há episódios que não exigem adjetivos para chocar ; bastam os fatos, expostos em sua crueza administrativa.
Em 18 de fevereiro de 2026, a soldado Gisele Alves Santana, 32 anos, foi encontrada morta com um tiro na cabeça no apartamento onde vivia, no Brás, região central de São Paulo.
O marido, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, tentou vender a narrativa do suicídio.
Delegado de Polícia – o Doutor Lucas de Souza Lopes – com fundamento em depoimentos testemunhais , laudos periciais e mensagens trocadas pelo casal desmontaram essa versão em poucas semanas.
A prova pericial é muita clara : a posição do disparo — encostado na têmpora, em trajetória incompatível com autoagressão — marcas de imobilização no rosto e no pescoço da vítima.
Em 18 de março, a Justiça comum – depois de batalha travada pela comarquinha mais cara do mundo para ser reconhecida como a “competente” para julgar o oficial PM – recebeu a denúncia do Ministério Público e Geraldo Neto tornou-se réu por feminicídio e fraude processual ; esta última pela manipulação da cena do crime para simular o que nunca ocorreu.
Em abril, o Superior Tribunal de Justiça confirmou que ele será julgado pelo Tribunal do Júri, afastando a tese de crime militar.
No Júri os “advogados militares “ bem demonstrarão para que servem: desqualificar a Polícia Civil e , talvez, chamar a vítima material do crime de indigna , aproveitadora , infiel ; etc.
Absurdamente , enquanto a engrenagem de apuração criminal seguia seu curso normal, outra engrenagem — silenciosa, protocolar, quase burocrática em sua indiferença — trabalhava em sentido oposto.
No mesmo mês de abril, a Polícia Militar de São Paulo publicou a portaria que transferiu Geraldo Neto para a reserva remunerada, com direito a vencimentos integrais equivalentes ao salário que recebia na ativa, algo em torno de R$ 20 mil a R$ 21 mil mensais .
Em junho, a corporação deu um passo além: publicou o decreto que oficializa definitivamente essa aposentadoria, transferindo o pagamento da remuneração para a SPPrev, o instituto de previdência estadual ; um ato que consolida, com a força da inércia protetiva da Administração “para escolhidos” , aquilo que deveria ter sido, no mínimo, suspenso enquanto pende sobre o oficial um processo por assassinato da própria esposa.
O argumento corporativista protetivo da marginalidade interna
A defesa institucional é conhecida e, tecnicamente, não é falsa: Geraldo Neto tem mais de 30 anos de corporação, preenche os requisitos etários e temporais, e o pedido de inatividade é, segundo a própria Secretaria de Segurança Pública, “um direito” assegurado pelo regulamento da PM.
O próprio governador Tarcísio de Freitas confirmou que a decisão “segue o regulamento da corporação”, ainda que tenha declarado, em tom que soa mais a desabafo político do que a compromisso de Estado, que espera que o oficial “apodreça o resto da vida na cadeia”.
Apodreça às custas do povo , né?
É exatamente aqui que se deve refletir para recusar a complacência da forma.
Que a norma permita a aposentadoria não significa que a Administração estivesse desprovida de instrumentos — e de dever — para conter seus efeitos morais e financeiros enquanto pende sobre o beneficiário uma imputação de feminicídio com fraude processual, ou seja, um crime cometido e depoisencoberto com o aparato corporativista de quem acreditava saber como funciona uma investigação policialfeita pela PM.
Não há direitos absolutos , especialmente direitos previdenciários para quem matou outro policial militar!
Aliás, cadê a ROTA para o tenente-coronel ?
Ah, só é valente na periferia !
A legalidade estrita, aplicada sem qualquer juízo de proporcionalidade ou cautela administrativa, transforma-se em proteção mafiosa .
O Direito Administrativo brasileiro não é um sistema de execução automática de normas: ele convive, há décadas, com os princípios da moralidade, da razoabilidade e da supremacia do interesse público, exatamente os vetores que deveriam ter orientado a PM e a Procuradoria Geral do Estado a, no mínimo, sobrestar o processo de inativação até a conclusão do processo criminal e do tal Conselho de Justificação ; o procedimento disciplinar interno, ainda em curso, que pode culminar na perda da patente.
A própria advocacia da família de Gisele apontou o ponto mais sensível do caso: não é a aposentadoria em si que revolta, é a celeridade seletiva com que ela foi processada, em contraste com a lentidão crônica que caracteriza os procedimentos disciplinares e penais que tramitam contra o mesmo oficial. “O que nos causa espécie é a celeridade com que foi concedida essa aposentadoria antes do procedimento demissionário”, registrou o advogado da família em entrevista à imprensa .
E a isso – há décadas – denominamos : corporativismo mafioso!
O preço simbólico de manter o salário de quem mata
Há uma dimensão que nenhum argumento técnico-previdenciário consegue neutralizar: o pai de Gisele resumiu, com a precisão que só a dor permite, o que está em jogo. “Acha justo a população pagar salário para um monstro desse?”, questionou, em entrevista concedida dias após a publicação da portaria de inatividade.
A pergunta não é retórica esquerdista : é o contribuinte paulista — o mesmo que financia o orçamento de segurança pública, que paga a filha de sete anos de Gisele com uma pensão pela morte da mãe — quem também sustenta, mês a mês, o padrão de vida de quem responde por tê-la matado e por ter fraudado a cena do crime para escapar da responsabilidade.
Isso não é um detalhe orçamentário menor.
É a materialização, em nota de pagamento, de uma hierarquia de valores em que a estabilidade financeira do algoz antecede — cronologicamente e institucionalmente — a dignidade da vítima.
Enquanto a filha de Gisele recebe pensão ínfima por orfandade, o suposto autor da morte da mãe recebe, com pontualidade e sem qualquer condicionante judicial, seus vencimentos integrais.
A simetria é pornográfica e deveria ser insuportável para qualquer corporação que se pretenda comprometida com o enfrentamento à violência em geral e a de gênero em especial ; ainda mais uma corporação policial, cuja missão constitucional é exatamente a proteção da vida e da integridade das pessoas, a começar pelas próprias integrantes.
PGE e PM: onde estava o dever de cautela?
Cabe às duas instituições que aparecem — direta ou indiretamente — na engrenagem do benefício uma explicação que ainda não foi dada à sociedade paulista.
À Procuradoria Geral do Estado, órgão que assessora juridicamente a Administração e cuja missão inclui zelar pela legalidade e pela moralidade dos atos que produzem efeitos patrimoniais contra o erário, pergunta-se: houve qualquer manifestação técnica sobre a possibilidade de sobrestar o benefício?
A resposta oficial, até aqui, tem sido a repetição de que “a aposentadoria é um direito” e que “não interfere no processo de expulsão”. Trata-se de uma resposta juridicamente indefensável e moralmente indigente .
O Estado de São Paulo tem instrumentos — sobrestamento cautelar, condicionamento do benefício ao trânsito em julgado ou à conclusão do procedimento disciplinar, bloqueio judicial de valores em caso de eventual condenação por indignidade ; que não foram sequer publicamente discutidos antes da concessão do benefício.
A omissão não está na letra da lei, que existe e permite a inativação; está na ausência de qualquer esforço institucional para conter seus efeitos antes que se tornassem irreversíveis.
E mais grave: onde está a ação regressiva do Estado?
Há, porém, uma segunda omissão, ainda mais grave do que a passividade diante da aposentadoria, e que a PGE não pode continuar evitando discutir publicamente: por que, até hoje, o Estado de São Paulo não ajuizou ação de ressarcimento contra Geraldo Leite Rosa Neto pelos custos que a própria Administração suportou em razão da conduta que lhe é imputada?
A lista de gastos públicos diretamente vinculados ao crime é conhecida e documentada.
O socorro a Gisele mobilizou o Corpo de Bombeiros e, na sequência, o Helicóptero Águia do Grupamento Aéreo da Polícia Militar — recurso de altíssimo custo operacional, reservado a ocorrências de gravidade extrema, que a transportou ainda com pulso ao Hospital das Clínicas, onde o óbito foi constatado horas depois.
Depoimento prestado em maio por um capitão da PM, testemunha da ocorrência, agrava o quadro: segundo ele, o próprio tenente-coronel não tentou, em nenhum momento, reanimar a esposa antes da chegada do socorro; circunstância que, se confirmada, apenas reforça a tese de que os recursos públicos de emergência foram mobilizados para socorrer a consequência de um ato que o próprio autor não quis reverter.
A esse custo somam-se os gastos médico-hospitalares no Hospital das Clínicas, a integralidade dos recursos humanos e periciais empregados pela Polícia Civil e pela Corregedoria da PM ao longo de meses de investigação, e — o item mais permanente de todos : a pensão – ainda que medíocre – que o Estado, por meio da SPPrev, já paga e continuará pagando à filha de sete anos de Gisele até a maioridade, em razão da orfandade provocada pelo próprio réu.
O ordenamento jurídico brasileiro não deixa margem de dúvida quanto à viabilidade dessa cobrança.
A Advocacia-Geral da União já consolidou, em teses reiteradas por tribunais regionais federais, o entendimento de que o autor de feminicídio deve ressarcir o INSS pelos valores pagos a título de pensão aos filhos da vítima, justamente porque o Estado, ao cumprir seu dever constitucional de proteção social, adianta um custo que a conduta ilícita do agressor gerou e que a ele, e não à sociedade, deve ser definitivamente imputado.
Se essa lógica já é aplicada ao regime geral de previdência, não há razão jurídica para que o mesmo raciocínio não alcance a SPPrev e o próprio erário paulista: o dever de ressarcimento ao ente público que socorre, trata, investiga e sustenta financeiramente os dependentes da vítima é uma decorrência direta da responsabilidade civil do agressor, sem prejuízo — como já assentou a jurisprudência administrativa — do dever primário do Estado de prestar essa proteção independentemente de qualquer ressarcimento futuro.
A própria ação penal já reconhece essa lógica reparatória, ainda que em escala insuficiente: o Ministério Público pediu R$ 100 mil de indenização à família de Gisele na denúncia que tornou Geraldo Neto réu.
Mas essa cifra, fixada no âmbito criminal, não substitui nem esgota a ação regressiva cível que caberia à PGE ajuizar em nome do Estado : abrangendo os custos operacionais do resgate por helicóptero, os gastos médicos, o dispêndio investigativo e, sobretudo, o valor presente das pensões que a SPPrev pagará à filha da vítima ao longo de cerca de mais de quinze anos.
Sem essa ação na esfera cível , o Estado paulista assume integralmente, e de forma definitiva, o papel de segurador gratuito de um crime cuja autoria já é comprovada por laudo necroscópico, reprodução simulada, testemunhas e denúncia formal do Ministério Público ; enquanto o patrimônio pessoal do próprio réu, incluindo os proventos integrais que ele passou a receber, permanece intocado.
Há, ainda, uma perda que nenhuma ação de ressarcimento patrimonial é capaz de recompor, mas que a PGE e o Estado têm o dever de nomear publicamente como dano à coletividade: a perda de Gisele Alves Santana como policial, como profissional formada e mantida às custas do erário, e como pessoa.
O elemento humano — a vida, a capacidade de trabalho, a experiência acumulada em anos de serviço — não tem preço de reposição em qualquer orçamento público, e é precisamente por isso que a inação da PGE em buscar todas as formas de responsabilização patrimonial disponíveis soa como uma segunda negligência, sobreposta à primeira.
E aqui cabe uma pergunta incômoda, que a corporação certamente preferiria não ver formulada, mas que a opinião pública já formula em surdina: por que a Rota não fez, no caso de Geraldo Leite Rosa Neto, o que fez no atentado contra o tenente Ronickson Pimentel dos Santos?
Em 27 de junho de 2026, Pimentel — irmão de Eloá Pimentel, morta em 2008 — foi baleado na nuca ao sair de uma academia em São Caetano do Sul, vítima de uma execução premeditada e monitorada por meses.
Na resposta a esse ataque contra um dos “suspeitos “ , a Rota matou poucas horas dias após o crime sete homens em supostas buscas pelos responsáveis ; sendo que, nenhum dos executados , tinham qualquer indício de ligação comprovada com o crime , salvo aquela conhecida justificação : “ a ROTA nunca erra” !
A covardia da corporação salta aos olhos quando posta lado a lado com o silêncio letárgico que envolveu o caso Gisele: nenhuma unidade de elite foi mobilizada, nenhuma cifra de recompensa multimilionária, nenhuma resposta corporativa correspondente à gravidade do crime cometido dentro de casa, por um oficial, contra uma soldada da própria corporação.
Um leitor identificado como policial militar comentou, em reação a texto publicado neste espaço, uma frase que resume com brutal honestidade a lógica hierárquica em jogo: “a Rota ou qualquer unidade de polícia de verdade não é justiceira, mas vai atrás para proteger os que trabalham no mesmo local. Quando o jogador reclama veementemente da arbitragem não é para aquele, talvez, cometido, mas para o próximo jogo.”
A frase, dita para justificar a corporação, na verdade a incrimina: revela que a resposta armada da tropa de elite não é acionada pela gravidade abstrata do crime, mas pelo cálculo de que o alvo pertencia ao “time” que precisa ser protegido para o próximo jogo.
Gisele também vestia a farda.
Também era “do time”.
E, ainda assim, sua morte não produziu nenhuma mobilização equivalente ; porque, ao que tudo indica, o inimigo, nesse caso, usava a mesma farda que ela , a diferença fica por conta das “decorações”.
O custo para a imagem da corporação e para a segurança pública
Toda corporação policial vive de credibilidade. É essa credibilidade que autoriza o uso da força, que legitima a hierarquia e a disciplina, que sustenta o pacto social pelo qual a sociedade delega à polícia o monopólio da coerção legítima. Cada episódio em que essa mesma corporação parece proteger um dos seus membros corrói, de forma acumulativa e silenciosa, a autoridade moral de toda a instituição.
O caso de Geraldo Leite Rosa Neto não é isolado da conjuntura mais ampla que envolve a corporação que , rotineiramente , absolve contra todas as provas policiais autores de crimes abjetos ; até sob fundamentos jocosos como: “ é impossível praticar estupro no banco traseiro de viatura “ !
É um padrão, não um incidente.
E padrões de conduta abusiva que avançam por anos dentro de uma corporação — sem barreiras disciplinares efetivas, sem punição exemplar em tempo hábil — não nascem prontos: são cultivados pela sensação de impunidade, pela certeza de que a estrutura hierárquica protegerá antes de responsabilizar.
Felizmente , aqui, depois da repercussão pela imprensa , a sociedade viu uma resposta penal robusta, fruto do trabalho técnico da Polícia Civil, correndo em paralelo com uma resposta administrativo-financeira que blindou o acusado a toque de caixa !
Se dependesse da corregedoria e da justiça militar ele já estaria em liberdade!
O que resta exigir
Não se trata de presumir a culpa de Geraldo Leite Rosa Neto fora do devido processo legal: ele teve direito à ampla defesa e à presunção de inocência, valores que defendemos sem hesitação, inclusive para os que a inteligência mediana já julgou.
O que se questiona não é o processo penal, que segue seu rito no Tribunal do Júri.
O que se questiona é a escolha institucional de tramitar, com rapidez injustificável, um benefício financeiro que — independentemente do desfecho penal — projeta à sociedade a imagem de que a corporação prioriza a proteção patrimonial de seus quadros superiores sobre qualquer sinal de comprometimento com a dignidade das vítimas de violência doméstica, sobretudo quando essa vítima também vestia a mesma farda.
E cabe à imprensa e à sociedade civil manter viva a pressão que já produziu, segundo a própria defesa da família de Gisele, a abertura de processo administrativo para que o homicida perda a sua patente e que a sua aposentadoria seja cassada .
Que ele depois – de cumprir sua provável condenação – busque seus direitos – cumpridos os requisitos legais – junto ao regime geral de previdência .
Ou como disse o governador Tarcísio de Freitas : que apodreça na cadeia até a morte !
Gisele Alves Santana morreu com um tiro na cabeça e teve a cena do próprio assassinato manipulada por quem deveria ser o primeiro a protegê-la.
O mínimo que se pode exigir de um Estado que se apresenta como firme no combate à violência contra a mulher é que não recompense o autor desse crime.
Enquanto isso não muda, a Polícia Militar de São Paulo continuará devendo à sociedade paulista, e sobretudo à memória de Gisele, uma resposta que a tal “legalidade seletiva ” , por si só, é incapaz de oferecer.
Quando delator vira oráculo, áudio vira sentença e manchete vira pena perpétua, o resultado não é justiça: é entretenimento com cadáver reputacional em horário nobre.
De uns tempos pra cá, ligar a TV ou abrir portal de notícias virou experiência paranormal: qualquer assunto, de inflação a previsão do tempo, acaba caindo no delegado Fábio Caipira. Chove em São Paulo? Manchete: “Entenda a ligação com o delegado do DEIC citado em delações.” Faltou luz? Manchete: “Áudio exclusivo revela bastidores da corrupção na Polícia Civil”.
O homem – desde o Camaro que não era amarelo, mas despertava atenção – virou rodapé de tudo. É tipo aqueles personagens de novela que aparecem em todas as tramas ao mesmo tempo. Vale dizer: da notinha $u$$urrada pelo plantonista aos mensalinhos de titulares e divisionários, é tudo para o Caipira! Só falta o narrador dizer: “Este programa tem o patrocínio da sua indignação seletiva”.
Funciona assim: aparece um áudio com meia frase e três palavrões; um delator fala em tom de guru arrependido; alguém vaza um trecho de decisão judicial.
Pronto: entra vinheta, sobe trilha dramática, o apresentador respira fundo e anuncia: “Novo capítulo da polêmica envolvendo o delegado…”. Capítulo de quê? Ninguém sabe, mas a série precisa continuar.
Prova robusta, contexto, corroboração? Coisas menores. A moda agora é soltar episódio semanal, sempre com suspense – e o final ninguém garante. Até porque final mesmo, só processo com trânsito em julgado, e isso não dá ibope.
Enquanto isso, o contraditório vira figurante: uma linha no penúltimo parágrafo – “a defesa nega” – e vamos em frente. É o equivalente jornalístico daquele “bom dia” que você dá sem olhar na cara: serve só pra constar.
E a perseguição vai se fazendo sem ninguém admitir que é perseguição. “Estamos apenas informando”, dizem, enquanto repetem o mesmo nome, o mesmo rosto, a mesma narrativa, dia sim e o outro também. Se falarem mais duas semanas seguidas em Caipira, o algoritmo passa a reconhecê-lo como sobrenome da República.
Não se trata de canonizar delegado, nem de absolver de ofício quem quer que seja. É só constatar o óbvio: quando delator vira oráculo, áudio vira sentença e manchete vira pena perpétua, não é justiça; é entretenimento com cadáver reputacional.
Nesse circo, o público aplaude, a imprensa finge que é neutra, e o personagem da vez apanha em praça midiática. Hoje é o Caipira. Amanhã pode ser qualquer um que sirva para mais uma temporada da série “Operação Fulano – A verdade que você não viu”.
Chamam isso de jornalismo. Mas, aparentemente, é roteiro de linchamento vendido como reportagem séria.