Entre o Paganoto e os Pega Nota, quem está com a razão…A pergunta não é retórica… É clínica ou cínica Resposta

O Balcão de Propina e o “sincericídio” de um  Coronel  PM aposentado

Cheguei atrasado para a entrevista.

Não por culpa minha, mas porque sou latino-americano e vou de casa para o trabalho sempre pela praia , como proclama o saudoso e inesquecível Zé Rodrix , aquele que também tinha uma Casa no Campo .

Bem,  o sinal ficou vermelho  na frente da delegacia e eu delirei ter visto um Camaro estacionado na vaga do delegado.

Dentro do carro, um homem de terno lia um contrato de compra e venda.

Ou talvez fosse uma nota fiscal de padaria.

Hoje em dia, é a mesma coisa.

Senta que lá vem a história boa e verdadeira .

O Ministério Público derrubou o queijo da mesa e os ratos – como o delegado deputado Da Cunha  se referre àqueles que não são na sua laia – correram de medo para todos os lados.

Conversas interceptadas.

Áudios criptografados.

E o que se ouviu?

O ronronar gordo de propina sendo convertida em crédito de vale-refeição.

Isso mesmo, leitor!  

Enquanto você passa o cartão no self-service para comer um arroz com feijão, o delegado cardeal — sim, cardeal, porque aqui a batina é de algodão azul-marinho , no mínimo um  Armani com Rolex “Submariner” no pulso e gomalina no cabelo  — estava transformando dinheiro sujo em jantares luxuosos em restaurantes fictícios.

Lembrei dos meus tempos de infante  : “Dura lex, sed lex, no cabelo só Gumex”!

Trinta e três milhões de reais.

É o preço da dignidade de uma corporação.

Ou, para ser mais exato, o preço para arquivar um inquérito, sumir com uma prova, ou simplesmente fechar os olhos enquanto a mala de dinheiro atravessa a porta giratória.

E aí, no meio desse tiroteio de factoides, surge a figura folclórica do Coronel Paganoto.

Ele aparece numa TubeTV qualquer  com a testa brilhando a creme hidratante ou mesmo o bom e velho óleo de peroba ;  gesticulando como um profeta no deserto, gritando a tese que arrepia os bigodinhos da velha guarda:  

“Tem que acabar com as duas “ …

Talvez corrigindo o seu ato falho , na verdade , penso , que ele quer mesmo é acabar apenas com a Polícia Civil !

Paganoto recuou  para não se implicar com os policiais civis …

Afinal, a Polícia Civil não se circunscreve ao estado de São Paulo .

É um órgão permanente e presente em todos os Estados brasileiros , no Distrito Federal e , também  , na União!

Ele quer mesmo acabar com a briga de irmãos siameses pelo bem da coletividade?  

Ou quer juntar a Polícia Civil e a Militar num abraço de urso constrangedor?

Ele próprio insinua que o corporativismo é uma máfia.

Ele , até, diz que a dor inicial vai valer a pena.

Contudo , ele olha para a câmera com a seriedade de quem está tentando vender um carro usado com o motor fundido.

E para a nossa descrença , na atividade , ele nunca se manifestou sobre as mazelas e a corrupção institucional na Polícia Militar.

Preferiu fazer parte dela do que ser expulso ou assassinado!

O inimigo sempre foi  outro : a Polícia Civil !

E eu, com meu teclado sujo  e meus olhos cansados de ver tantos absurdos protagonizados pelos dois órgãos , me pergunto: quem está com a razão?

Vou te contar a verdade nua e crua, sem meias palavras.

O Paganoto está certo.

Os Pega Nota também estão certos.

E é aí que mora o demônio.

O Paganoto está certo porque o modelo atual é um esgoto a céu aberto.

Duas polícias que se odeiam, que escondem provas uma da outra, que disputam território e despojos como cães de rua.

É o terreno perfeito para o crime plantar suas mudas de dinheiro.

A estrutura atual produz os Pega Nota.

Ela os fomenta.

Ela os abençoa.

E exige a sua parte !

Mas os Pega Nota também estão certos ;  e aqui vai o veneno da minha análise.

Eles estão certos porque sabem que a unificação, do jeito que Paganoto propõe, pode não matar o monstro; pode apenas criar um Godzilla.

Imagine só: juntar duas máfias corporativas numa só não é extinção, é fusão empresarial.

Você não está fechando o balcão de propina, está apenas centralizando a contabilidade.

É engenharia financeira.

Sabe o que me dá calafrios?

Quando Paganoto fala sobre  algo sobre superar as dores e resistências iniciais desse corporativismo mafioso.

Eu acredito que ele quer o bem.

Juro que acredito.

Mas a palavra inicial no sentido de ser um projeto para os nossos filhos ou netos é uma faca forjada de legumes .

Quanto tempo dura essa fase?

Até o primeiro delegado-geral unificado decidir que o vale-refeição agora vale para todo o estado?

Estou sentado aqui, na minha cadeira que range, olhando para a tela do computador.

Recebi um e-mail agora mesmo de um leitor anônimo: “A solução é acabar com as duas e criar uma terceira, mais limpa”.

Eu ri. Ri solitariamente alto.

Porque a terceira seria filha das duas primeiras.

A maçã não cai longe da árvore, e a árvore está podre pela raiz.

A razão não está num campo ou no outro.  Tampouco no meio-termo aristotélico !

Aqui a  razão está entre a sarjeta e o meio-fio, onde o moleque tranquilamente arranca celular vendo o camburão passar.

A razão está na cara do policial honesto, que ganha um salário de miséria e vê o chefe comprando um imóvel novo.

A razão é uma questão de  “quem” vai controlar o quê”.

Quem ficará com as bocas mais ricas?

Se Paganoto vencer, que venha com um veículo tático , e não com um canivete .

Porque o que essa estrutura precisa é de uma bomba paralisante .

E mesmo assim, tenho medo de que, depois da explosão, os escombros ainda formem o desenho de uma estrela de xerife.

Enquanto isso, a vida  é uma merda.

A Justiça é cega, mas tem olfato apurado para dinheiro.

E eu vou terminar esta crônica ouvindo, ao longe, a sirene da viatura que nunca chega antes do crime , salvo para socorrer o cadáver ou para ouvir o barulhinho bom da maquininha de cartão de crédito …

Entre o Paganoto e os Pega Nota, meu leitor, eu fico com o uísque americano .

Pelo menos sei que ele é adulterado, mas não mente sobre a própria origem.