MPSP vê ligação entre “chave do tráfico” e PM que matou policial civil Resposta

Denúncia do MPSP contra sargento da Rota destaca que o militar tinha acesso prévio a uma chave de portão instalado por traficantes

Milena Vogado do Metrópoles

15/05/2026 02:15, atualizado 15/05/2026 06:55

Chave usada para abrir portão de biqueira
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Uma chave que abre um portão instalado por traficantes na comunidade Fogaréu, no Capão Redondo, zona sul de São Paulo, não foi esquecida pelo Ministério Público do Estado (MPSP) em denúncia contra o sargento das Rondas Ostensivas Tobias Aguiar (Rota) Marcus Augusto Costa Mendes. O militar matou a tiros o policial civil Rafael Moura, em julho do ano passado.

Marcus foi formalmente denunciado pela promotoria por homicídio qualificado contra um agente do Estado com recurso que dificultou a defesa da vítima, além de ter ferido outro policial civil por erro na execução do disparo.

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Pedido de doação para o policial Rafael Moura

Rafael Moura tinha 38 anos

Na denúncia, o promotor Rogério Leão Zagallo apontou que a comunidade onde os policiais estavam era repleta de pontos de vendas de drogas. Para dificultar a ação das forças de segurança e preservar o tráfico no local, criminosos instalaram diversos portões metálicos pelo território, fechados a chave.

O sargento da Rota tinha uma dessas chaves em mãos. Por isso, ele conseguiu abrir um dos portões e acessar uma viela erma, onde Rafael estava em incursão enquanto investigava uma tentativa de latrocínio ocorrida dias antes.

Zagallo destaca que os portões bloqueavam “os locais mais críticos da traficância”, aos quais “somente pessoas certas e determinadas teriam acesso”.

“O sargento tinha em seu poder uma chave que liberava um desses portões que foram instalados pelos traficantes, sendo que, no dia dos fatos, em razão dessa posse estratégica, Marcus Augusto e Robson, por conta da determinação dada pelo denunciado, adentraram em uma viela controlada pelos traficantes e nela passaram a incursionar, sem qualquer estratégia, em desabalada carreira e em desrespeito aos procedimentos operacionais preconizados pela Polícia Militar, eis que deixaram de adotar manobras preventivas esperadas em situações como essa, tais como avanço tático, realização de varredura, de tomada de ângulo, de identificação positiva de risco e ameaça”, considerou o promotor.

PM diz que encontrou chave por acaso

A versão dos PMs é de que a chave teria sido encontrada em uma escadaria próximo ao portão. Em interrogatório no dia 26 de agosto, o delegado afirmou que a equipe de investigação teria tido acesso a outras imagens, anteriores às divulgadas, em que os PMs aparecem na rua de trás. Segundo Antônio Giovanni, em nenhum momento, é possível ver o sargento encontrando a chave.

“A gente tem a bodycam e a gente tem filmagens do percurso de vocês, de vocês chegando antes. E essa chave em nenhum momento foi encontrada. Pelas filmagens que a gente tem, dá para ver que vocês já tinham posse, pelo menos o sargento Marcos já tinha posse dessa chave”, afirmou o delegado, de acordo com a transcrição do interrogatório anexada ao processo.

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Um cabo da Rota envolvido na ação insiste na versão de que o objeto teria sido achado na escadaria. “Não, não tínhamos posse [da chave], doutor. Os outros membros inclusive da viatura também não sabiam da existência da chave.”

O advogado do PM, Wanderley Alves, que estava presente durante o interrogatório, pediu, então, para ter acesso às novas imagens. Questionado pelo Metrópoles, ele disse que o vídeo não capta o local em que a chave teria sido achada.

“Clara intenção letal”

Segundo a denúncia, o sargento da Rota tinha “clara intenção” de matar quando passou a disparar sua arma de fogo contra os policiais civis. Rafael foi atingido no tórax e morreu cinco dias depois. O outro agente ficou ferido.

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Para Zagallo, a conduta de Marcus “afasta qualquer alegação de legalidade”. O promotor apontou que o militar continuou atirando mesmo após ser alertado de que as vítimas eram policiais – fato que é debatido entre o MPSP, a Corregedoria da PM e a Polícia Civil com base nas imagens das câmeras corporais. Tudo acontece muito rápido.

A promotoria pediu que seja fixada uma indenização em favor da família de Rafael, em valor não inferior a R$ 200 mil, e também em favor do outro policial civil ferido na ocasião, o investigador Marcos Santos de Souza, em valor não inferior a R$ 50 mil.