Reforma da Previdência: Senado mantém abono para quem ganha até 2 mínimos
Perdeu!
Em uma forte derrota para o governo, o plenário do Senado Federal retirou da reforma da Previdência a proposta de mudar as regras para concessão do abono salarial. Atualmente, o trabalhador que ganha até dois salários mínimos (R$ 1.996 em 2019) tem direito ao benefício, e essa regra será mantida.
Decepcionante, mais um que – a pretexto de salvar a economia do País – não tem pena de prejudicar os mais necessitados em benefício das castas funcionais e militares.
Enquanto a população em geral sofrerá muitas perdas , o Major , certamente, defenderá com unhas e dentes a previdência dos PMs atrelada às FFAA.
Ou seja, aquilo que já é bom ficará bom demais!
Enfim, o Major Olímpio só defende aquilo que lhe aproveita!
Governador Doria, se quem ganha até dois salários mínimos não precisa do abono salarial , com mais razão devem ser extirpados todos os abonos e penduricalhos concedidos aos PMs.
Especialmente para os oficiais, como o Major!
Verdadeiramente, a coragem que São Paulo precisa Olímpio parece que perdeu…
PM que matou menino de 12 anos em SP tem outras 8 mortes na carreira
Miguel Gustavo Lucena de Souza, 12, morto por um policial militar em São José dos Campos, interior de São Paulo Imagem: Arquivo pessoal
Luís Adorno
Do UOL, em São Paulo
02/10/2019 16h34Atualizada em 02/10/2019 16h34
Resumo da notícia
PM participou de sete ocorrências com nove mortes em SP entre 2011 e 2019
Corregedoria apura possível excesso policial em morte de jovem
Jovem que iria depor contra PM é espancado e desiste de denunciar
Governo diz que cabo está em função administrativa
Desconhecido da população em geral, o cabo da PM (Polícia Militar) Thiago Santos Sudré, 40, é conhecido na periferia de São José dos Campos, no interior de São Paulo, sob a alcunha de Carioca e por ser ríspido contra suspeitos de crime contra o patrimônio.
Ele foi o responsável por atirar duas vezes contra Miguel Gustavo Lucena de Souza, 12, que estaria em um carro roubado em um parque de diversões da cidade, às 22h45 de 6 de setembro. O policial alegou à Polícia Civil e à Corregedoria da PM que agiu em legítima defesa.
Após mãe investigar assassinato de filho, MP denuncia PMs de SP
O caso veio à tona após a mãe de Miguel denunciar à Corregedoria que o policial teria atirado contra seu filho depois de ele ter se rendido. O caso é investigado pelo órgão corregedor que também apurou, no passado, outras seis MDIP (Mortes Decorrentes de Intervenção Policial) em que o cabo Sudré estava envolvido, entre 2011 e 2019.
Nessas outras seis ocorrências, oito homens foram mortos. As idades deles variavam entre 17 e 46 anos, mas a dinâmica foi semelhante: houve suspeitas de roubo, tiroteios, suspeitos mortos e o policial sem ferimentos. Em nenhum caso o PM foi penalizado.
Segundo denúncia feita pela mãe de Miguel, Andreia Gonçalves Pena, 36, à Ouvidoria da Polícia, cerca de duas semanas antes de seu filho ser morto, o cabo Sudré foi até sua casa e afirmou: “Compra um caixão bem pequeno, porque, se eu pegar seu filho na rua de novo, vou matar”.
A mãe afirmou que Miguel era dependente químico e que vendia balas em semáforos da região. Andreia relatou que o menino chegou a traficar drogas, mas que, depois de ter sido internado em uma casa de recuperação, deixou a criminalidade. No entanto, relatou que ele era perseguido pelo policial por seu passado no tráfico.
Ela disse que foi informada da morte de seu filho por uma vizinha. Ao chegar ao local, um policial disse a ela que ele estava conduzindo um carro, um Volkswagen Fox de cor vermelha, roubado e que havia atropelado “várias” pessoas.
No entanto, testemunhas teriam gritado, na sequência, que a versão policial era mentirosa: que Miguel estava no banco traseiro, desarmado e que desceu do carro com as mãos para cima. Não houve registros de ninguém atropelado na região.
As testemunhas disseram à mãe que Miguel foi atingido, ainda com as mãos para cima, próximo a axila. Depois, Andreia foi até a delegacia. Lá, encontrou o policial Sudré e afirmou a ele: “Parabéns, você conseguiu. Tô indo comprar o caixão”. Ela relatou que ele retrucou: “Sua louca, boa coisa ele não era. O que tava fazendo em um carro roubado?”.
Miguel de Souza, 12, tinha dependência química
Imagem: Arquivo pessoal
Ainda segundo a denúncia de Andreia à Ouvidoria, ela continua sendo ameaçada pelo policial, que voltou ao seu apartamento, segundo narraram seus vizinhos. Na noite de 15 de setembro, ela teve seu apartamento invadido. A porta foi arrombada e os armários revirados. Numa parede, foi gravado com objeto pontudo os nomes dos seus filhos. O de Miguel, cruzado com um risco. A família mudou de bairro.
Andreia afirmou, também, que não é contra a Polícia Militar, mas que quer justiça para seu filho, que, dependente químico, precisava de ajuda. Ela nega que ele fosse ladrão ou assassino.
Miguel era negro, franzino e tinha 1,33 m de altura. Aluno na Escola Estadual José Frederico Marques, começou a fumar maconha com dez anos, o que desapontava a mãe, que é cuidadora de idosos, tem dois filhos mais velhos empregados no setor de aviação e é evangélica.
Para manter o vício, o garoto foi “recrutado” pelo tráfico de drogas da cidade como “aviãozinho” —vendedor de drogas em “biqueiras” da região. A reportagem apurou que um adolescente de 14 anos, que testemunhou a ocorrência e que iria depor na Corregedoria, foi espancado por um policial um dia antes de prestar depoimento. Com medo, ele desistiu de depor e não quis registrar as agressões.
Segundo o advogado Ariel de Castro Alves, conselheiro do Condepe (Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana) e que está acompanhando a família, “aparentemente, foi um assassinato planejado, premeditado e anunciado pelo policial autor do homicídio”. “A sensação de impunidade dos PMs é tão grande, que os PMs ficam promovendo ameaças e perseguições contra a mãe da vítima.”
Atendendo pedido do ouvidor Benedito Domingos Mariano, a corregedoria-geral da PM instaurou investigação. “Estive em São José e obtive mais detalhes do caso. Solicitei da Polícia Técnica laudos do local, exames de balística das armas e laudo necroscópico. Assim que receber, terei condições de fazer um relatório preliminar para anexar à investigação”, disse Mariano.
De acordo com o Boletim de Ocorrência, que teve como base os depoimentos dos policiais envolvidos na ocorrência, Miguel e outros três jovens teriam roubado o carro por volta das 18h. Localizado o veículo, os policiais iniciaram uma perseguição que terminou quando eles entraram com o carro num descampado. Lá, havia um parque de diversões. O condutor perdeu o controle da direção e bateu na grade de um carrossel.
Os garotos saíram com as mãos para cima e atenderam a ordem para se deitarem no chão, segundo os policiais. No entanto, ainda segundo a versão policial, Miguel teria saído com uma arma em punho e foi atingido por dois disparos. Outros três menores, um jovem de 17 anos e dois adolescentes de 13 e 14 anos, foram detidos e encaminhados para a Fundação Casa.
O comando da PM de São José dos Campos informou que o garoto morto estava com um revólver calibre 32 nas mãos e escondia um simulacro de pistola sob o tapete do veículo. A dona do automóvel não reconheceu nenhum dos garotos como autores do roubo do veículo. A investigação teria apontado que os menores seriam receptadores do carro roubado.
Os oito mortos antes de Miguel
Dois suspeitos em janeiro de 2011
Na noite de 28 de janeiro de 2011, dois homens, não identificados, foram mortos a tiros pelo policial. Os suspeitos teriam roubado uma casa na rua Lorenzo Lotto, no Parque Maria Helena, zona sul da capital paulista. Segundo o que afirmou o PM no 92º DP (Distrito Policial), no Parque Santo Antônio, os suspeitos tentaram fugir em um Volkswagen Golf e, durante troca de tiros, foram mortos.
Um em março de 2014
Em 17 de março de 2014, o policial Sudré teria atirado e matado um motorista que teve apenas a idade revelada (33 anos) em Poço das Antas, Caraguatatuba, litoral de São Paulo. Após a participação no caso, ele foi transferido para o Vale do Paraíba.
Dois em maio de 2015
Em 29 de maio de 2015, o policial participou de uma intervenção que resultou na morte de mais dois suspeitos. Foram mortos Uanderson de Oliveira Gonçalves Martins, 18, e Lucas Aguiar, 17. Naquela ocorrência, segundo a investigação policial apurou, ele não atirou.
Durante a ocorrência, os dois jovens estariam conduzindo um carro roubado na estrada Natan Sampaio, no Jardim Capetingal, em São José dos Campos, por volta das 4h. A equipe policial teria dado ordem para que os suspeitos parassem o carro, o que não aconteceu. Nenhum policial se feriu durante a ação.
Um em fevereiro de 2016
Na noite de 8 de fevereiro de 2016, o cabo atirou contra Matheus Pietro Santos Queres, 21, na rua Antônio José Matos Lima, no Parque Residencial União, também em São José dos Campos.
Desta vez, o policial informou na delegacia que o suspeito estava com uma motocicleta Honda CB 300R roubada e tinha sob posse uma arma de fogo de uso restrito. Os policiais só apresentaram o caso no 3º DP da cidade dois dias depois.
Um em abril de 2018
Na madrugada de 25 de abril de 2018, o policial estava na equipe que matou Bruno do Nascimento Barbosa, 28, no Parque Novo Horizonte, em São José dos Campos. Segundo a investigação policial, o cabo Sudré não atirou, mas participou da intervenção.
Os policiais disseram na delegacia que Barbosa estava com uma arma e atirou contra eles, que “revidaram à injusta agressão”. Nenhum policial ficou ferido na ocorrência.
Um em janeiro de 2019
No noite de 5 de janeiro de 2019, o policial Sudré atirou contra um homem, identificado apenas pela idade (46), na rua Caravelas, no Parque Independência, também em São José dos Campos. Ele teria roubado um estabelecimento e, na tentativa de fuga, teria trocado tiros com o policial.
Outro lado
A reportagem ligou na 2ª Companhia do 46º BPM/I (Batalhão da Polícia Militar no Interior), onde o cabo Thiago Santos Sudré está lotado, mas foi informada de que ele não estava lá no momento da ligação. Um colega de farda do cabo anotou o telefone da reportagem e disse que encaminharia a ele. Até a última atualização deste texto, o policial não entrou em contato.
A reportagem questionou à Corregedoria da corporação se o policial tinha um advogado constituído e foi informada que ele foi ao órgão prestar depoimento sozinho. A reportagem também pediu entrevista a ele via SSP (Secretaria da Segurança Pública), mas não teve retorno sobre o pedido. Procurada, a pasta não se manifestou sobre o assunto até esta publicação.
Com relação ao caso do adolescente Miguel, a pasta havia divulgado nota, anteriormente, informando que todas as circunstâncias relativas aos fatos são apuradas pelo 3º DP de São José dos Campos e pela Polícia Militar por meio de um IPM (Inquérito Policial Militar), que é acompanhado pela Corregedoria da corporação.
“As armas dos policiais foram encaminhadas para perícia, assim como o revólver calibre 32 e um simulacro utilizado pelos suspeitos. Os envolvidos seguem afastados da atividade operacional, cumprindo expediente administrativo, enquanto durarem as investigações”, disse a pasta por meio de nota oficial.
Para o professor de gestão pública da FGV (Fundação Getúlio Vargas) Rafael Alcadipani, “qualquer ação policial que resulta em morte jamais deve ser celebrada. Porque toda vez que há confronto o policial também está em risco”. Ainda de acordo com o especialista, “a ação policial perfeita, e que deve ser comemorada, é aquela em que não há confronto e o suspeito é preso”.
Bilibio alega que em 4 de julho de 2019 foi abordado por policiais civis na região da Avenida Paulista e levado para o 73 DP, na zona norte da capital paulista. Segundo ele, na delegacia os policiais o acusaram de ser traficante e amigo de bandidos. Disseram, ainda, que ele havia aplicado um golpe em um empresário amigo de um dos investigadores daquela delegacia.
Para libertá-lo os policiais exigiram R$ 2 milhões da vítima. Bilibio fez algumas ligações telefônicas e conseguiu arrumar a princípio R$ 450 mil. O empresário foi levado nas proximidades de seu escritório, na região da Paulista, e um funcionário seu, o motorista, entregou o dinheiro para os corruptos.
Ainda de acordo com a vítima, outros R$ 550 mil foram entregues no dia seguinte na própria delegacia por um motorista e um segurança dele. Os agentes, no entanto, queriam mais R$ 1 milhão. O empresário, assustado pelas agressões e ameaças de morte recebidas na delegacia, e também cansado das extorsões, resolveu contar tudo para os seus advogados.
Ele foi orientado a denunciar o caso ao Gaeco (Grupo de Atuação Especial e Combate ao Crime Organizado), de Santos, órgão subordinado ao Ministério Público Estadual de São Paulo.
Documento enviado por Bilibio aos seus advogados e ao Gaeco | Foto: Reprodução
Três dias depois do sequestro e extorsão, ocorridos em São Paulo, Bilibio sofreu nova intimidação. Segundo o empresário, o tenente da Rota José Ricardo Narlich Júnior o abordou em um shopping center de Santos a mando do empresário amigo dos policiais do 73 DP e o ameaçou.
Depois de denunciar os policiais civis e militares, Bilibio deixou o Brasil. Ele foi para Orlando, nos Estados Unidos, e teme pelas integridades dele, da mulher e dos filhos. Em um relatório de 12 páginas feito e entregue a seus advogados e ao Gaeco, ao qual a Ponte teve acesso, o empresário diz ter medo da polícia civil e, principalmente, da Rota, tropa a qual ele afirma sempre ter defendido.
Na última segunda-feira (30/9), a Secretaria da Segurança Pública divulgou nota informando que foram presos um investigador, três PMs e o empresário acusado de extorquir Bilibio. Ao todo, foram expedidos dez mandados de prisões. A SSP não divulgou o nome dos acusados.
A Ponte apurou nesta quarta-feira (2/10), junto ao presídio militar Romão Gomes, que o tenente Narlich, da Rota, está recolhido naquela unidade prisional. A reportagem não conseguiu contatar o advogado do tenente
Eu fui e sou perseguido até hj:
…
por ter ideais,
por um dia ter acreditado nas Polícias e na Justiça,
por ter sido leal aos pares e aos superiores hierárquicos,
por dar as maiores produções e as melhores canas,
por não ser puxa saco,
por ter conquistado o pouco que tenho e muito o que perdi com árduo labor, sem canalhice e putaria…
Pq sou apenado até hj?
Pq sou perseguido até hj?
Pq não encontrei a paz?
Será que esse grupo possibilitaria esperanças concretas de Justiça?
Os FDPs do Ferreirinha e do Chupiscolé, até hj não foram presos e jamais serão sancionados por qualquer coisa.
Todo pelo qual lutei, me doei, acreditei e vivenciei um sacerdócio, abneguei e abir mão, serviu apenas para me foder…
Até acidentes com vtr onde era vítima, e o terceiro pagou e reconheceu a culpabilidade e não houve ônua para o Estado, desarquivaram e tentaram de tudo para me entubar…
Tentaram me matar algumas vezes, buscando silenciar…
Hj repercute na memória, monodia…
Somente para os policiais, na grande maioria, pobres e desapadrinhados, nunca existirá justiça e sempre estarão na mira das estatísticas da Corró.
Diga-se de passagem, enquanto o irmão de um Delta, tbm majura, tentou me bater e percebeu que apanharia de volta, ainda que algemado, os demais PCs do Dop me trataram com a máxima dignidade e respeito e isenção que as forças ocultas e os interesses escusos, deixaram, pena que as polícias são as putas políticas…
A disparidade entre os salários pagos a delegados da Polícia Civil em cada Estado do país pode chegar a R$ 15.381, de acordo com levantamento feito pelo Sindpesp (Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo).
O Mato Grosso é o Estado que paga o maior salário aos profissionais (R$ 24.451), enquanto São Paulo tem o 2º pior valor (R$ 9.888). Os paulistas ficam à frente somente de Pernambuco (R$ 9.070). O Poder360 preparou 1 infográfico com os dados levantados pelo Sindpesp:
FALTAM DELEGADOS
Em Goiás, 2ª unidade da Federação que melhor paga seus delegados (R$ 21.615), há apenas 336 profissionais nessa função. Proporcionalmente, o Estado dispõe de apenas uma pessoa na função para cada 20.887 moradores. Já em São Paulo, a proporção é de 1 para cada 17.749 moradores
São Paulo tem 4,8 vezes mais delegados de polícia que o Rio de Janeiro: 2.587 contra 530. A defasagem na Polícia Civil fluminense fica ainda mais escancarada no cruzamento do total de delegados com o tamanho da população do Estado: há só 1 profissional para cada 32.575 moradores.
ESCRIVÃES E INVESTIGADORES
O Amazonas tem o melhor salário para escrivão: R$ 9.613. O valor é 157,5% superior ao que é pago pelo Ceará, que tem a pior remuneração para o cargo (R$ 3.733).
A diferença é semelhante para a função de investigador da Polícia Civil. No Distrito Federal, as duas carreiras têm remuneração de R$ 8.699. O DF é o 2º ente federativo que melhor remunera escrivães e investigadores. Para os delegados da Polícia Civil, no entanto, o salário pago é apenas o 12º mais alto do país.
Operação Calabar prende 8 guardas civis por infrações penais em Bebedouro, SP
Comandante da GCM afirma que agentes se apropriavam de drogas e dinheiro apreendidos. Polícia Civil cumpriu 16 mandados de busca e apreendeu armas, munição e entorpecentes.
Por G1 Ribeirão Preto e Franca
Oito guardas civis municipais foram presos na manhã desta terça-feira (1º) em Bebedouro (SP) no âmbito da Operação Calabar por suspeita de infrações penais, como se apropriar de drogas e dinheiro apreendidos. A Polícia Civil também cumpriu 16 mandados de busca e apreensão.
Em nota, a Delegacia Seccional de Bebedouro informou que os agentes cumprirão prisão temporária por cinco dias. Durante as buscas foram apreendidas porções de maconha, crack e cocaína, armas, munições, rádio comunicadores e celulares.
O comandante da Guarda Civil Municipal (GCM), Luís André Rosa Junior, contou que a investigação contra os agentes teve início há oito meses, depois que a Corregedoria passou a receber denúncias de que eles ficavam com parte de drogas e dinheiro apreendidos.
“Alguns GCMs, no ato da abordagem, não apresentavam todo o entorpecente encontrado ou não apresentavam todo o dinheiro encontrado, e que eles estariam subtraindo esse material, tanto o dinheiro, quanto o entorpecente, ficando com eles mesmos”, disse.
Armas e munições apreendidas na Operação Calabar em Bebedouro, SP — Foto: Polícia Civil/Divulgação
Rosa Junior encaminhou o caso à Polícia Civil e ao Ministério Público. A partir de escutas telefônicas realizadas com autorização da Justiça, os investigadores descobriram o esquema envolvendo oito guardas civis, alvos de mandado de prisão nesta terça-feira.
“Existem indícios de que eles utilizavam parte do entorpecente talvez para forjar algum tipo de prisão de algum elemento que não conseguiam pelos meios naturais, e existem indícios de que parte do recurso era acoplada a recursos próprios para subsistência”, afirmou.
Segundo a Delegacia Seccional de Bebedouro, a operação contou com a participação de 50 policiais civis, além de integrantes da própria GCM, liderados pelo delegado Mário Jose Gonçalves.
O nome da operação remete a Domingos Fernandes Calabar, senhor de engenho que, após ingressar nas forças armadas portuguesas, “acabou traindo seus irmãos de armas para favorecer à invasão dos holandeses” em território brasileiro.
Armas, celulares e drogas apreendidos na Operação Calabar em Bebedouro, SP — Foto: Polícia Civil/Divulgação
Ainda segundo o comandante da GCM, os agentes presos representam uma parcela pequena da corporação e também são alvos de procedimentos investigatórios internos na Corregedoria.
“Contamos sempre que o agente de segurança pública vá trabalhar para a população e não para o crime organizado. Foi motivo de bastante tristeza da nossa parte. Mas, a Guarda Civil preza pela transparência, pela retidão do trabalho e não vamos admitir nenhum tipo de desvio de conduta”, disse
“Meus clientes, estou de volta no mesmo farol”, anunciou Rogério Xavier Salles, 32 anos, ao retornar na tarde desta quinta-feira (26/9) para a Avenida Internacional, no bairro Santo Antônio, em Osasco (Grande São Paulo), onde ganha a vida vendendo balas para os motoristas que param no semáforo. Não fazia nem 24 horas que o vendedor havia deixado uma cela no raio 3 do CDP (Centro de Detenção Provisória) 1 de Osasco, onde passou 28 dias preso por uma falsa acusação de tráfico de drogas, motivada pelo “lapso” de um delegado, um promotor e um juiz.
Rogério, um ambulante negro, foi preso em 28 de agosto, por dois policiais militares, Evelyn Daniela Bressain da Silva e Thiago Barreto Madureira, da 1ª Companhia do 14º Batalhão de Polícia Militar Metropolitano, que afirmaram ter apreendido com o vendedor uma sacola contendo 16 pinos de cocaína. Ele nega que estivesse com a sacola. No mesmo dia, o laudo de uma perícia preliminar do IC (Instituto de Criminalística), da Polícia Civil, constatou que o material apreendido não era cocaína, informação confirmada duas semanas depois pela perícia definitiva. O laudo foi ignorado pelo delegado Flávio Garbin, do 8º DP de Osasco, que registrou o resultado como positivo para cocaína — mais tarde, Garbin escreveria nos autos que havia cometido “um lapso”.
Na audiência de custódia, o promotor Rodrigo César Coccaro e o juiz Carlos Eduardo D’Elia Salvatori mantiveram a prisão do vendedor, sem mencionar o resultado negativo do laudo. Até o momento, o delegado é o único a ser investigado pela prisão sem provas de Rogério: a Secretaria de Segurança Pública do governo João Doria (PSDB) informou que “a Corregedoria da Polícia Civil instaurou um procedimento administrativo para investigar todas as circunstâncias relativas aos fatos”.
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Rogério volta ao mesmo ponto onde vendia balas antes de ser preso | Foto: Caio Castor/Ponte Jornalismo
A mãe de Rogério, a também vendedora Maria Inês Xavier, 54 anos, afirma que a família pretende ir atrás, na Justiça, de uma indenização. “Não tenho medo de lutar pelos meus filhos. Por eles sou capaz de tudo. Vamos atrás, sim”, diz.
Dia de liberdade
Sabendo que Rogério seria libertado nesta quarta-feira (25/9), a reportagem da Ponte chegou cedo à casa da mãe de Rogério, Maria Inês Xavier, localizada no Jardim das Bandeiras, bairro pobre de Osasco. Demonstrando tranquilidade e equilíbrio, enquanto contava sua história e de seu filho, Inês descascava uma mandioquinha para complementar a sopa de legumes que estava a fazer com auxílio de seu marido, o motorista Ricardo Souza, padrasto de Rogério.
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Rogério, após sair da prisão, abraça a mãe, Maria Inês | Foto: Arquivo pessoal
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Obviamente , só o Delegado de Polícia – além do vexame – sofrerá uma pequena penalidade por não conferir o trabalho que , ilegalmente, atribui ao Escrivão . Este por sua vez, assoberbado, faz tudo mecanicamente.
Lei de abuso de autoridade vai inibir investigações, diz representante de procuradores
Presidente da ANPR diz que haverá enxurrada de ações contra policiais, juízes e membros do Ministério Público
30.set.2019 às 11h48
Wálter Nunes
São Paulo
Presidente da ANPR (Associação Nacional dos Procuradores da República), o procurador Fábio George Cruz da Nóbrega, 48, diz que a recém-criada lei contra o abuso de autoridade irá inibir os membros do Ministério Público e outros operadores da Justiça em suas atividades de combate ao crime.
“Existem vários tipos penais [na nova lei], crimes que estão ali incluídos, com uma redação muito aberta, vaga, subjetiva. Isso traz uma intranquilidade muito grande”, afirma.
Sobre a indicação e aprovação de Augusto Aras como novo procurador-geral da República, o presidente da ANPR diz que o novo chefe do Ministério Público Federal precisa expor ideias e projetos a partir de agora, já que não participou da eleição para a lista tríplice da categoria, ignorada depois pelo presidente Jair Bolsonaro (PSL).
O presidente da ANPR (Associação Nacional dos Procuradores da República), Fábio George Cruz da Nóbrega – Pedro Ladeira/Folhapress
Procuradores e juízes dizem que vão ao STF contra a lei do abuso de autoridade. Por que essa lei é tão combatida por vocês? Existem vários tipos penais, crimes que estão ali incluídos, com uma redação muito aberta, vaga, subjetiva. Isso traz uma intranquilidade muito grande na medida em que questões que eram resolvidas no próprio sistema de Justiça através de recursos. Nossa instituição entrava com uma ação e o Judiciário compreendia. Traz uma insegurança jurídica muito grande.
Existem outros artigos [da lei] mais dirigidos à magistratura, como o de decretar prisão fora das hipóteses legais. Algo sujeito a uma interpretação, sujeito a uma discussão, a um posicionamento diverso.
Na medida em que essas questões, que são normais da conformação do sistema judicial, permitem divergência, permitem recursos, são resolvidas ali no sistema de Justiça, elas passam a caracterizar crime, isso traz uma insegurança jurídica na atuação de policiais, membros do Ministério Público, magistrados, particularmente no combate à corrupção e o crime organizado.
Então isso fere, ao nosso ver, um dos princípios fundamentais, que é o princípio da legalidade. É preciso que a definição de crime seja a mais fechada, a mais clara, indiscutível possível para que as pessoas saibam o que podem fazer e o que não podem fazer.
Então a ideia é justamente questionar no STF esses artigos de lei que em nada colaboram para o trabalho de aperfeiçoamento das instituições no cumprimento das suas missões.
Quais os pontos que mais incomodam? Eu citei um exemplo, o artigo 30 incomoda muito particularmente ao Ministério Público e a outras instituições como a polícia, que tem o trabalho de realizar a investigação.
Diz assim: dar início à persecução penal, civil ou administrativa, dar início à investigação, ou ao processo penal, civil ou administrativo, sem justa causa fundamentada. Bom, muitas vezes a gente entende que há indícios suficientes para que a ação seja proposta, e o juiz discorda, e nós recorremos e conseguimos ganhar essa causa em grau de recurso. Às vezes o juiz discorda razoavelmente e nós recorremos razoavelmente e essa decisão é mantida.
Esse artigo incomoda demais porque põe um risco muito grande na atribuição normal de investigar ou de acusar pessoas, tanto na seara penal, como civil, como administrativa, já que esse conceito de justa causa fundamentada, que é um conceito fluido, aberto e subjetivo, que caracterizará, se não vier ser reconhecido, um crime.
Existe um outro artigo que importa mais à magistratura, que é o artigo nono. Decretar medida de privação de liberdade em manifesta desconformidade com as hipóteses legais. É muito comum que o juiz decrete a prisão, e o preso, através do seu advogado, impetre um habeas corpus. [O pedido] muitas vezes não é concedido na segunda instância, [então] se recorre ao STJ [Superior Tribunal de Justiça], [onde] não é concedido, e se recorre ao STF, que algumas vezes concede o habeas corpus.
De uma outra forma, quando você caracteriza isso, que é um conceito normalmente discutido no sistema de Justiça, como crime, você coloca um receio muito grande dos juízes de decretar prisões. Porque estarão sujeitos à apreciação se aquela decisão é ou não é manifestamente desconforme com a lei.
E como mais um exemplo citaria o artigo 43, que diz que passa a configurar crime o descumprimento das prerrogativas dos advogados. Tem várias hipóteses que estão ali mencionadas. Veja, a partir de agora os advogados serão a única categoria profissional em nosso país, juiz não tem isso, membros do Ministério Público não têm isso, nenhuma outra profissão tem isso, cuja violação de suas prerrogativas passa a ser configurada como crime.
Então é usual do sistema de Justiça que o advogado às vezes pleiteie algum direito junto ao juiz, o juiz discorde por algum motivo, haja, portanto, como normalmente no sistema de recursos há interposição de recursos, o manejo de recursos, e muitas vezes esta matéria é revista ou não é revista.
Mas na hora em que se considera isto como crime podemos imaginar que haverá uma quantidade enorme de representação de advogados contra juízes e promotores, delegados, policiais e isso, sem dúvida nenhuma, dificultará sobremaneira a atuação desses profissionais.
Na prática, quais seriam os efeitos? Uma quantidade enorme de representações de advogados contra policiais, delegados, membros do Ministério Público e juízes. E é claro que isso atrapalha sobremaneira o funcionamento dessas instituições e particularmente quando se atua contra a criminalidade organizada, contra o crime financeiro, do colarinho branco, a corrupção.
Para uma reclamação de abuso de autoridade virar uma ação formal precisa da participação dos próprios integrantes do Ministério Público. Sim, quando a gente considera a possibilidade de que isso tenha uma ação penal e que ao final possa ter uma condenação. Mas veja que isso tudo serve também para representações, ou seja, para que acionando essas instituições todos que atuam no sistema de Justiça tenham a necessidade de se defender regularmente de todas essas acusações e imputações que venham a ser realizadas. Isso vai passar a ser corriqueiro na atuação judicial.
Mas de fato há um debate sobre a necessidade de se conter o abuso de autoridades. Sem dúvida, sem dúvida. A lei atual precisava ser revista. A magistratura e o Ministério Público sempre se colocaram à discussão, à disposição do Congresso Nacional para que a lei pudesse ser aperfeiçoada.
Particularmente cobrando que houvesse audiências públicas, que houvesse participação da sociedade e dos atores de Justiça na construção dessa nova lei. Infelizmente isso foi feito de maneira apressada, sem que houvesse esses espaços de participação e de construção e por isso mesmo nós achamos que a norma acabou ao final trazendo essa série de imperfeições.
O presidente Jair Bolsonaro recebe em Brasília Fábio George Cruz da Nóbrega, presidente da ANPR (Associação Nacional dos Procuradores da República) – Presidência da República/Divulgação
Buscas em escritório de Janot requerem atenção da OAB
29 de setembro de 2019, 17h15
A atuação do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil contra a decisão que determinou buscas no escritório do ex-procurador-geral da República Rodrigo Janot gerou questionamentos.
As buscas foram determinadas de ofício pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, depois que o ex-PGR afirmou ter entrado armado no STF para matar o ministro Gilmar Mendes e depois se suicidar.
Escritório de Janot foi alvo de buscas após o ex-PGR confessar que chegou a ir armado ao STF para matar Gilmar MendesReprodução
Para o advogado Marco Aurélio de Carvalho, membro integrante dos Grupos Prerrogativas e Associação Brasileira de Juristas pela Democracia (ABJD) a OAB deve acompanhar o caso com atenção especial e se manifestar de forma contundente contra as buscas em escritórios.
“O mais irônico é que o Janot nunca respeitou a advocacia e muito menos a OAB. Agora, talvez ele precise mais que nunca da advocacia e da OAB. Talvez o Janot possa incentivar seus colegas do Ministério Público a apoiarem a correta aplicação da Lei de Abuso de Autoridade e a observarem, de forma efetiva, o respeito às prerrogativas dos advogados e o respeito ao direito de defesa”, afirmou Carvalho.
O promotor de Justiça em Minas Gerais André Luís Melo questionou o silêncio da OAB diante das buscas em um escritório de advocacia. “Invadiram, com ordem de ofício do STF e sem ouvir o Ministério Público, um escritório e qual é a posição da OAB? Qual o motivo do silêncio da OAB?”, afirmou. Ele também destacou o fato de o STF “além de investigar e deferir suas próprias medidas de prova, acusa e julga, enquanto a OAB fica num estrondoso silêncio”.
A OAB informou que enviou representantes para acompanhar as buscas tanto no escritório quanto na casa de Janot. Foram quatro representantes acompanhando, do início ao fim, as diligências, que, segundo a OAB, transcorreram de forma tranquila.
Além disso, a OAB cobrou que membros do Ministério Público também passem pelo detector de metais na entrada de fóruns e tribunais. Hoje, apenas advogados são submetidos ao procedimento. Em nota, o Conselho Federal da OAB chamou de “fato grave” e condenou as atitudes de Janot ao planejar matar o ministro Gilmar Mendes. “Tais fatos demonstram completa ausência de respeito às leis, de moderação e de bom senso, justamente por uma autoridade do sistema de Justiça”, diz a nota.
O advogado Raul Haidar acredita que a OAB deveria defender as prerrogativas de Janot. Desde que se aposentou do Ministério Público, o ex-PGR vem atuando como advogado em Brasília. Segundo Haidar, “crime de ameaça só existe se o ameaçado se sentir com medo. O Janot é advogado e pode pedir ajuda da OAB. Mas a OAB hoje está mais para ‘oba-oba’”.
Atuação como advogado
Já o jurista e professor de Direito Constitucional Lenio Streck entende que a OAB só deve defender as prerrogativas estritamente decorrentes da atuação como advogado. Para ele, neste caso, Janot não agiu como advogado e sua conduta está na pauta de um inquérito específico do STF, “que nada tem a ver com sua função ou de seu agir advocatício”. Dessa forma, afirmou Streck, a OAB não tem obrigação de agir. “No máximo, um advogado para acompanhar a busca que foi realizada. E isso a OAB já fez”, completou.
Fernando Fernandes, procurador de prerrogativas do Conselho Federal, esclarece que a OAB deve analisar a limitação de acesso a material apreendido: “A OAB após realizada a busca vai analisar a limitação de acesso a material digital apreendido criado digitalmente após a inscrição do ex-procurador como advogado que tenham relação com eventual atividade como advogado, independente de eventuais ilícitos éticos em suas declarações que devem se apreciados pelo Tribunal de Ética” .
*Notícia alterada às 18h53 deste domingo (29/9) para acréscimos
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O aumento da letalidade policial não diminui crimes contra a vida e o patrimônio. É o que indica o estudo Letalidade policial no Rio de Janeiro em 10 pontos, produzido pelo Centro de Pesquisas do Ministério Público fluminense.
Polícia do Rio de Janeiro está batendo recorde de letalidade em 2019. Fernando Frazão/ Agência Brasil
Com base na pesquisa, o Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública do MP-RJ aditou, nesta sexta-feira (24/9), portaria de inquérito civil para que seja apurada a elevação do índice de letalidade policial no estado.
Cruzando números de homicídios dolosos e mortes decorrentes de intervenção policial de diversas áreas do estado, o Centro de Pesquisas afirma que não é possível identificar correlação entre os dois tipos de morte.
A pesquisa destaca que a polícia do Rio prioriza o enfrentamento ao tráfico de drogas e o combate nas favelas sob a dupla premissa de que nelas estão localizados os criminosos e de que o tráfico é o principal crime a ser enfrentado pelo Estado.
“No entanto, as evidências internacionais na área de Segurança Pública apontam para maior efetividade de ações preventivas como o patrulhamento de manchas criminais, que prioriza o policiamento ostensivo em áreas onde o crime ocorre (e não onde supostamente está o criminoso)”, diz o estudo.
O órgão do MP-RJ ressalta o aumento da letalidade policial no ano. “Até a presente data, houve um recorde do número de mortes decorrentes de intervenção por agentes do Estado, sendo, entre janeiro e julho de 2019, registrados 1.079 casos. No mesmo período do ano passado, foram 899 casos, ou seja, houve um crescimento de quase 20%. Só no mês de julho, o índice de mortes alcançou 194 casos, o maior em um mês desde 1998”, diz o documento, referindo-se a números do Instituto de Segurança Pública e do Observatório de Segurança Pública.
Embora o Rio não esteja entre os 10 estados mais violentos, sua polícia responde por 23% das mortes causadas por forças de segurança no Brasil, destaca a pesquisa. E os 89 agentes mortos em 2018 representam 26% das vítimas estatais no país.
A política do confronto, segundo o Centro de Pesquisas, aumento o risco de inocentes serem atingidos e mortos e afeta o funcionamento de serviços públicos, como hospitais e escolas. Além disso, aumenta a desconfiança da população em relação ao sistema de Justiça Criminal.
“Considerando os custos sociais e os resultados obtidos na prática, o número elevado da letalidade policial no Rio de Janeiro pode colocar em xeque a confiança que a sociedade deposita nas forças de segurança, em especial na capacidade de as polícias operarem como instituições adequadas ao exercício do controle social”.
Dessa maneira, o Centro de Pesquisas do MP-RJ defende que a atuação policial se guie por evidências, deixando de lado a política do confronto. Assim, argumenta, é possível reduzir a criminalidade e diminuir os riscos de danos colaterais.
Inquérito civil
A instauração do inquérito foi motivada pelo fato de o MP-RJ ter recebido representações, que demandam uma reflexão responsável sobre a legalidade da política de segurança pública do estado do Rio de Janeiro.
O grupo juntou essas demandas em um único inquérito civil, com o fim de apurar a elevação dos índices de letalidade, de acordo com as diretrizes da sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos, no caso Nova Brasília. Para auxiliar nas investigações, o órgão solicitou ao Centro de Pesquisas do Ministério Público a elaboração de estudo sobre o fenômeno da letalidade policial no Rio.
Sem bônus
Policiais do Rio de Janeiro deixarão de receber bônus pela redução de mortes em confronto. A mudança no sistema de gratificação a policiais civis e militares foi estabelecida pelo Decreto 46.775/2019, publicado na edição desta terça-feira (24/9) do Diário Oficial fluminense.
A norma retira as mortes causadas por policiais da categoria “crimes violentos letais intencionais”, que passa a ser composta por homicídio doloso, latrocínio e lesão corporal seguida de morte.
Essa categoria compõe o “índice de desempenho de metas”, ao lado de roubos de veículos, roubos de rua e roubos de carga. Se houver redução no número desses delitos, os policiais recebem uma gratificação no fim do semestre.
O decreto do governador Wilson Witzel (PSC) foi publicado quatro dias depois de a menina Ágatha Felix, de oito anos, morrer após ser atingida por um tiro de policial no Complexo do Alemão, na zona norte do Rio. De janeiro a agosto, as polícias fluminenses mataram 1.249 pessoas — o maior número da série histórica do Instituto de Segurança Pública.
Com o argumento de que as estatísticas indicam que a letalidade das ações da polícia do Rio refletem uma política de segurança genocida encampada de forma institucional, PCdoB, PDT, PT, Psol e PSB apresentaram ao Superior Tribunal de Justiça notícia-crime por incitação ao crime e apologia ao crime contra Witzel.
Responsabilidade pessoal
Vários profissionais do Direito afirmam que Witzel pode responder pela “política do abate”. O criminalista e professor da Universidade Federal de Minas Gerais Leonardo Yarochewsky opina que, como o governador é o chefe das polícias, ele pode ser processado pelas mortes que decorrerem da ordem “inconstitucional” de agentes atirarem para matar.
O procurador da República Eduardo Santos de Oliveira Benones, coordenador do Controle Externo da Atividade Policial do Ministério Público Federal no Rio de Janeiro, entende que, como a Constituição Federal proíbe a pena de morte, qualquer ato administrativo ou lei que autorizasse a “execução sumária” de pessoas seria “flagrantemente inconstitucional”. E não só: se ficar provado que um policial matou alguém por ordem expressa e direta do governador, o governador também pode ser denunciado por homicídio, diz Benones. Witzel seria acusado de coautoria. Com informações da Assessoria de Imprensa do MP-RJ.
Clique aqui para ler o estudo do MP-RJ.
Clique aqui para ler a portaria.
Tristeza. Descobri que velório na academia somente para delegados. Incrível.
Meus Sentimentos a família.
Lamentável, desumano e inaceitável. Simples assim.
Caro Jorge DAS, sou delegado e não sabia dessa medida discriminatória.
Somos todos alunos da mesma Academia e da mesma Polícia.
Disponibilizar a capela apenas para velório de delegados é inaceitável, mormente quando o policial falece no cumprimento do dever e sequer tem a consideração da instituição de ser velado na casa de ensino onde foi formado.
Se tem uma coisa nessa vida igual para todos é a morte.
O mínimo que se espera da Polícia Civil é que dispense o mesmo tratamento a qualquer integrante por ocasião do seu falecimento, independentemente do cargo que ocupe.
Lamentável !
Escrito por: nosso amigo e colega da turma DP-1 – 1988.
Eduardo Bolsonaro cita John Lennon em defesa das armas
Parlamentar questionou o que aconteceria se o cantor estivesse armado na hora em que foi alvejado
Pleno.News – 27/09/2019 15h46
Eduardo Bolsonaro critica postura da ONU sobre questão armamentista / Foto: Reprodução
Eduardo Bolsonaro critica postura da ONU sobre questão armamentista / Foto: Reprodução
Eduardo Bolsonaro critica postura da ONU sobre questão armamentista / Foto: Reprodução
Eduardo Bolsonaro critica postura da ONU sobre questão armamentista / Foto: Reprodução
Eduardo Bolsonaro critica postura da ONU sobre questão armamentista / Foto: Reprodução
Eduardo Bolsonaro critica postura da ONU sobre questão armamentista / Foto: Reprodução
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O deputado federal Eduardo Bolsonaro fez uma série de publicações no Twitter em resposta a uma matéria do jornal O Dia. Nesta quinta-feira (26), o parlamentar publicou uma foto fazendo o famigerado gesto de arma com as mãos em frente à sede da ONU. No local fica uma escultura de bronze de uma arma com um nó em seu cano. A obra Non-Violence (Não-Violência) foi feita pelo artista sueco Carl Fredrik Reuterswärd, em homenagem ao seu amigo John Lennon, morto por uma arma de fogo.
– As operações de paz da ONU acertadamente usam armas. Mas na entrada do prédio da ONU em Nova Iorque fica essa escultura desarmamentista. Como todo bom desarmamentista, eis a máxima “armas para mim, desarmamento para os outros” – escreveu na legenda da foto.
Na matéria publicado pelo O Dia, nesta sexta (27), a publicação diz que o gesto do filho de Bolsonaro foi uma forma de criticar a escultura contra a violência. Em resposta, Eduardo disse que a escultura deprecia o papel fundamental das armas na garantia da segurança, das liberdades e da paz.
Na sequência, ele fez menção ao assassinato de John Lennon e disse que o crime é usado como “pano de fundo para calar os pró-legítima defesa que ousarem falar contra”. Eduardo questionou o que aconteceria se John Lennon estivesse armado. O deputado federal ainda sugeriu que troquem a escultura por fuzis usados para garantir a liberdade dos Estados Unidos e citou a situação da Venezuela.
– As mesmas armas que o povo venezuelano clama para poder sair das garras de um narcoditador, mas não tem porque, em 2012, uma lei os desarmou. Ao menos que botem na entrada da ONU as mãos do assassino de John Lennon, pois o revólver não atirou sozinho.
Com policiais matando uma a cada três vítimas de mortes violentas na cidade de São Paulo durante o primeiro semestre da gestão do governador João Doria (PSDB), o tucano afirmou no início da tarde de hoje que a redução da letalidade policial no estado “pode acontecer, mas não é uma obrigatoriedade”. Segundo a PM, entre janeiro e agosto deste ano, a letalidade policial reduziu de 642 para 506.
A afirmação ocorreu durante coletiva de imprensa convocada pelo governador para divulgar que houve recorde na queda de vítimas de homicídio no estado. Entre janeiro e agosto, a taxa do crime foi de 6,25 para cada 100 mil habitantes. O menor desde que o governo começou a contabilizar os dados, no fim da década de 1990.
Policiais são responsáveis por 1 a cada 3 mortes violentas na cidade de SP
Mortes violentas caem 10,4%, mas Brasil ainda tem 57 mil casos
Segundo o governador, a polícia é legalista, mas, pelas proporções do estado, reage à medida em que a criminalidade atua. “A polícia de São Paulo tem a orientação clara de obediência aos protocolos, tanto a militar quanto a civil. Com uso progressivo da força”, afirmou. “Naturalmente, na proporção, o índice de letalidade ocorre, lamentavelmente na circunstância de pronta resposta”, complementou.
João Doria voltou a afirmar, à exemplo do que dizia na campanha, que, entre a vida de um criminoso e a de um policial, o governo ficará ao lado do policial. “Mas nós somos legalistas. Somos da paz. Não queremos a violência, atuamos com inteligência”, disse.
O comandante geral da PM (Polícia Militar), coronel Marcelo Vieira Salles, que já havia contrariado Doria no ano passado, quando o tucano afirmou que a polícia iria “atirar e atirar para matar”, voltou a argumentar que nenhum policial sai de casa e vai para o batalhão para matar ninguém.
“É o que desejamos? Claro que não. A opção do confronto é do infrator. Estamos atuando onde precisa, com os meios necessários. A primeira orientação é proteger as pessoas. A segunda, seguir a lei. Somos legalistas. Ninguém sai de casa para matar”, disse o comandante-geral.
Ainda de acordo com o coronel Salles, em agosto de 2018, houve 55 mortes através de intervenção policial. No mesmo mês deste ano, foram 31. “O infrator da lei resolveu se entregar. A PM atuou e não houve reação. Ninguém tem como objetivo a morte. Esse mes, estamos com 44% a menos referente ao mesmo mês do ano passado. No acumulado do ano, até agosto, no ano passado foram 642. Até ontem, neste ano, 506”, disse.
Já o delegado-geral da Polícia Civil, Ruy Ferraz Fontes, complementou que a ação policial de inteligência, com prisões de criminosos, colabora com a redução na letalidade no estado, no acumulado entre o ano passado e este ano.
O general João Camilo de Pires Campos, secretário da SSP (Secretaria da Segurança Pública), que havia falado, pouco antes de assumir a pasta, em “adestrar o policial” para coibir erros acompanhou os chefes das polícias civil e militar para avaliar a letalidade policial no estado.
“Há princípios na segurança pública. Precisamos identificar onde estão ocorrendo os problemas. Depois, ter a presença seletiva. Com crimes ocorrendo, há uma possibilidade de confronto. Não desejamos, mas ocorre. Se houver o confronto, existe a probabilidade de uma morte, ou do lado deles ou do nosso. O policial sai para policiar, mas infelizmente acontece”, afirmou.
Especialistas criticam discurso de Doria
Renato Sérgio de Lima, presidente do FBSP (Fórum Brasileiro de Segurança Pública), criticou a posição de João Doria. “A voz do governador não pode ser de relativização do excesso de uso da força. O controle não joga contra a polícia, mas a fortalece”, disse.
A diretora-executiva do FBSP, Samira Bueno, complementou que “a declaração do governador demonstra que, assim como o Bolsonaro, ele não está preocupado com a redução da violência e sim com a reprodução de uma política pautada na vingança. Reduzir o número de mortes violentas deveria ser sempre um objetivo a ser perseguido por qualquer governante”.
O professor de gestão pública da FGV (Fundação Getúlio Vargas) Rafael Alcadipani também disse que “é lamentável que o governador do estado se comporte dessa maneira. Como chefe das polícias, ele deveria ver a letalidade como problema. Porque é um problema grave, que mostra uma atuação pouco profissional”.
Segundo o especialista, “o governador fica num jogo ambíguo. No caso da menina Ágatha, morta no Rio, ele diz que a polícia não tem que ser letal. Depois, defende a letalidade. Ele fica nessa dança das cadeiras, nadando conforme a onda”.
O ouvidor das polícias de São Paulo, Benedito Mariano, afirmou que não contra-argumenta discursos do governador, mas que “é prioridade da Ouvidoria da Polícia a diminuição da letalidade policial e a valorização profissional, que não são objetivos antagônicos”.
Para especialistas, o volume de suicídios acende um alerta sobre a necessidade de as corporações prestarem melhor assistência à saúde mental dos agentes
Divulgação
O órgão chama a atenção para a alta taxa de suicídio entre policiais, que é de 23,9
O número de policiais que cometeram suicídio no Brasil em 2018 (104) foi maior que a quantidade que morreu em decorrência de confronto nas ruas (87), enquanto estavam em serviço. Para especialistas, o volume de suicídios acende um alerta sobre a necessidade de as corporações prestarem melhor assistência à saúde mental dos agentes. O estresse inerente à função policial e conflitos institucionais, como assédio moral, são apontados pela Ouvidoria da Polícia de São Paulo como fatores que, em conjunto com outros, podem contribuir para essas mortes.
A Ouvidoria divulgou nesta quarta-feira, 25, um relatório em que analisa os suicídios de policiais cometidos no Estado de São Paulo em 2017 e 2018 – os dados nacionais são do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, divulgados neste mês. O estudo paulista compila os registros para detalhar informações como o perfil da vítima, além de ter conversado com parentes e amigos para entender o contexto em que a morte aconteceu. O órgão chama a atenção para a alta taxa de suicídio entre policiais, que é de 23,9, enquanto no total da população o número é de 5,8 por 100 mil habitantes.
Os números mostram que o suicídio é a principal causa de morte dos policiais civis paulistas, superando as mortes decorrentes de confronto em serviço e de folga. Na Polícia Militar, as autolesões fatais representam a segunda maior causa de morte, atrás dos assassinatos sofridos na folga, mas à frente dos óbitos ocasionados por confrontos em serviço. “A pesquisa aponta que há necessidade de ampliar o suporte à saúde mental dos policiais em São Paulo”, disse o ouvidor, Benedito Mariano. O jornal O Estado de S. Paulo mostrou neste mês que, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), mais de 90% dos casos de suicídio estão associados a distúrbios mentais e, portanto, podem ser evitados com o tratamento certo.
O estudo paulista elenca oito fatores que, em conjunto, podem contribuir para esses casos. São eles: estresse inerente à função policial; falta de suporte de serviço de saúde mental; depressão; conflitos institucionais; conflitos familiares e problemas financeiros; isolamento social, rigidez e introspecção; subnotificação de tentativas de suicídio; e fácil acesso a arma.
Os pesquisadores destacam que, corriqueiramente, os pensamentos suicidas estão associados a problemas da saúde mental, como depressão. Mas é o estresse inerente à função policial que é citado com destaque nessa lista de fatores. “O policial deve começar a lidar com isso já na academia e tem de existir um programa que o acompanhe ao longo da carreira. Não adianta só dar viatura, armamento e uniforme e não cuidar da saúde mental”, apontou Mariano.
A psicóloga Beatriz Brambilla, do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo, reforça que não é uma única dimensão que produz a motivação das vítimas. “A ideia do multicausal é que se possa compreender o fenômeno na totalidade. Então a pessoa que está em sofrimento não está assim por uma questão interna ou porque ela tem uma fragilidade ou inadaptação. Temos de compreender que há questões que são do sujeito, mas que há questões sociais.”
Resiliência
O soldado Antônio Figueiredo Sobrinho, de 56 anos, tinha três anos e meio de carreira na Polícia Militar quando reagiu a uma tentativa de assalto no comércio onde realizava um “bico” de segurança. Correu atrás do assaltante, mas não percebeu que um comparsa estava nas suas costas. Foi baleado e ficou paraplégico
Acostumado à ideia de ser um herói para os filhos e de prover a sua família, viu-se muito abalado depois do caso, pois se enxergava como um fardo para os que tentavam ajudá-lo a se adaptar e a vencer as barreiras. “Por duas vezes tentei suicídio Coloquei a arma na cabeça e o dedo no gatilho. Não queria mais viver porque pensava que meus filhos não precisavam de um pai aleijado”, disse ao jornal.
Desistiu da ideia e trilhou o caminho contrário, passando a ajudar aqueles que enfrentavam os mesmos problemas que ele. Sobrinho ajudou a criar a Associação de Policiais Portadores de Deficiência, que conta hoje, segundo ele, com mais de 23 mil associados. Lá, uma série de serviços é oferecida, de doação de cadeira de roda à assistência psicológica. “Fazemos um trabalho de integração daquele policial de volta à sociedade.”
Em nota, a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo disse que as recomendações da Ouvidoria (mais informações nesta página) serão avaliadas pelas áreas técnicas da pasta. Disse que as polícias do Estado “contam com sistemas de apoio e atendimento psicológico aos seus agentes”. Além disso, a Corregedoria e a Academia também oferecem atendimento psicológico aos agentes. “Sempre que necessário, os casos são encaminhados ao Departamento de Perícias Médicas do Estado (DPME) para avaliação.”
Presidente do Conselho Federal de Psicologia, Rogério Giannini disse que a reflexão sobre a saúde mental do policial beneficia a corporação e toda a sociedade. “A pesquisa de certo modo contribui com a ideia de humanização da polícia. O policial é um ser humano que tem as vicissitudes de qualquer ser humano.”
Frustração
A auditora fiscal do trabalho aposentada Maria Aparecida Almeida Dias de Souza, de 70 anos, ainda reflete sobre as razões que levaram a irmã, a delegada Maria Cássia Almeida Almagro, a tirar a própria vida, em julho de 2015, aos 54 anos. “Podem ter havido outros motivos, mas é certo que havia uma insatisfação muito grande com a profissão. Ela vivia uma frustração de não poder realizar aquilo que achava que devia fazer.” A delegada foi encontrada morta em sua casa, em um condomínio de Sorocaba, com ferimento à bala. A perícia indicou que ela havia se suicidado.
Maria Aparecida conta que a irmã enfrentava problemas familiares, pois seu segundo casamento havia terminado e o único filho tinha se mudado para os Estados Unidos. No dia anterior à morte, Cássia esteve na casa da irmã e falou de um curso que estava fazendo na área policial. “Ela não demonstrou nada, estava feliz, cheia de planos.”
A presidente do Sindicato dos Delegados de Polícia de São Paulo, Raquel Kobashi Gallinati, classificou a rotina do policial civil no Estado como “estafante”. “Sabemos que a profissão internacionalmente é ligada a maior índice de suicídio. Atuamos sob pressão e tendo de gerenciar crises a todo instante em situações adversas.”
Sugestões
O relatório da Ouvidoria termina com 11 recomendações de melhorias. À Polícia Militar, o órgão recomenda a criação de mais 75 núcleos de assistência psicossocial, o que cobriria quase todos os batalhões. Hoje, são 35 núcleos.
Além disso, a Ouvidoria pede que o tema da saúde mental seja incluído nas preleções diárias das unidades e nos treinamentos. Para a Polícia Civil, o órgão recomenda a implementação urgente de um programa de saúde mental e contratação de psicólogos para a atividade.
Estudo mostra que suicídio é a principal causa de morte de policiais civis; dois investigadores que sofrem de depressão criticam assédio moral, machismo e lógica violenta
Fachada do Edifício Palácio da Polícia Civil, no centro histórico de SP | Foto: divulgação/PCSP
Há pouco mais de 15 dias Ana Paula* diz que consegue, ao menos, voltar a viver. Durante os últimos três meses e meio, a investigadora de polícia de 40 anos chegou no limite do que pode ser considerado emocionalmente suportável. Quando entrou na Polícia Civil, há cinco anos, Ana Paula não imaginou que seria afastada dos trabalhos por depressão e pensamento suicida. O trabalho tornou-se pesadelo por uma série de fatores exaustivos dentro do distrito de polícia. Ana Paula não entrou para as estatísticas de suicídios, porque procurou ajuda e está afastada do cargo de investigadora.
De acordo com a pesquisa “Uma análise crítica sobre suicídio policial”, feita pela Ouvidoria de São Paulo em parceria com os Conselho Federal e Regional de Psicologia, só entre 2017 e 2018, 78 policiais cometeram suicídio em São Paulo. Desse total, 17 eram da polícia civil. A Organização Mundial da Saúde adverte que a situação é considerada epidêmica a partir de 10 suicídios para cada 100 mil pessoas. Na polícia civil, a taxa chega a 30, ou seja, um número três vezes acima do recomendado, já que a corporação conta com 28 mil policiais.
Ana começou a adoecer quando chegou no ápice do seu sonho. Depois de passar pelo setor administrativo do IML (Instituto Médico Legal) e pelo cargo de escrivã, ela conquistou o ofício de investigadora de polícia. Dentro dos distritos, ela ficou assolada ao saber que durante os plantões faltava água e papel higiênico. Da escassez material veio o assédio dentro do ambiente de trabalho. Ana Paula chegou ao ponto de ser transferida de delegacia depois de recusar um pedido que colocava a sua própria segurança em risco. Esse caso específico Ana chama de “a gota d’água”.
O caso aconteceu quando o distrito em que Ana trabalha estava sem sistema. Um caminhão havia derrubado os cabos de internet da região. Ela estava de plantão, de 12 horas, junto com o delegado e o escrivão. “Naquele dia tinha o caso de uma violência doméstica. E a mulher estava visivelmente machucada. Não tem como retornar depois para fazer o B.O. Não dá”, explica à Ponte.
O delegado, que tem a voz máxima dentro da delegacia, repassou a seguinte ideia: Ana Paula deveria pegar a viatura caracterizada, conduzir o escrivão até outra delegacia com sistema, retornar ao seu distrito e depois de um tempo voltar para buscar o colega de trabalho. A investigadora negou a proposta, para ela não existia a menor possibilidade de dirigir uma viatura caracterizada sozinha e colocar sua segurança em risco.
“Se você se depara com uma ocorrência em andamento, você vai fazer o quê sozinha? Se atentam contra a viatura? Você tomou um tiro, você pedir apoio? Então, na minha negativa eu falei: ‘Não, é perigoso’”, relembra.
O delegado entendeu que Ana não estava se protegendo e, sim, mostrando uma possível fragilidade feminina e respondeu: “Ah, se mulher não dirige viatura sozinha, então tem que ser comunicado que não dá para trabalhar com mulher em plantão”. Para ela, “o machismo afeta o homem, porque se ele não for ele é frouxo.”.
A pesquisa divulgada pela Ouvidoria mostra que a principal causa de morte entre os policiais civis é o suicídio. Essa mesma polícia não tem programa de saúde mental. “As instituições precisam entender o apoio à saúde mental dos policiais não como custo, isso é um investimento do trabalho”, enfatiza o ouvidor Benedito Mariano.
Estresse inerente à função, transtorno pós-traumático, falta de suporte psicológico, depressão, conflitos internos da corporação, problemas financeiros e familiares, rigidez e isolamento social são, para Mariano, as principais causas de suicídio entre os policiais.
Alexandre Félix Campos, investigador e militante do movimento Policiais Antifascistas, vai um pouco além na questão de saúde mental dentro da Polícia Civil e critica os nortes que, segundo ele, guiam a segurança pública brasileira: a militarização e a criminalização. “Policial não tem que agir no combate ao inimigo. A polícia é uma parte integrante da gestão da cidade. A polícia tem que atuar como cidadão. Garantindo os direitos alheios e os seus direitos. Infelizmente essa não é a nossa realidade. A nossa realidade é uma simulação de guerra”, pontua à Ponte.
Alexandre Félix Campos demorou 15 anos para entender que estava doente e precisava de ajuda | Foto: arquivo pessoal
Foram necessários 15 anos trabalhando como policial para Alexandre entender que estava doente e precisando de ajuda. O sonho que ele almejava desde pequeno passou a confrontar valores dos quais ele mesmo fazia parte. Filho de pai motorista e mãe dona de casa, o investigador não conseguia entender como alguém com as mesmas características que as suas era considerado inimigo do Estado.
“Eu venho da periferia de São Paulo, sou do extremo leste, do bairro de Guaianazes. E essa política de segurança pública entende que eu devo combater, exterminar um inimigo e esse inimigo, que eles inventam, é exatamente o cara que nasceu no mesmo bairro que o meu, que tem o mesmo histórico de vida que eu. Então, não tem como não adoecer”, complementa.
O correr pelo errado
Outro motivo de adoecimento, pontuado por Ana Paula, é a angústia de conviver diariamente com a corrupção e não poder fazer nada. “Alguns policiais antigos, quando você não se adequa ao meio, e aqui quando eu digo se adequar ao meio é quando você não começa a fazer parte do assédio moral e do jogo de corrupção, eles falam: ‘Ah, não. É que você não é polícia’. Não tem pra quem denunciar. Isso faz parte da polícia e isso é muito triste de se ver”, ela explica.
Ana também lembra o caso de um amigo, este da Polícia Militar. Além do trabalho como policial, que ela chama de X, que exige 12 horas de plantão, ele ainda cumpria 8 horas de um trabalho extra. Um dia, ela perguntou para ele se valia a pena tudo aquilo: “Aí ele ergueu o queixo como se ele fosse um herói, um gladiador e falou: ‘Eu tenho que fazer o meu serviço se eu não fizer a sociedade vai ficar pior’”, conta.
Para ela, está claro que projetaram nele o mito do policial herói e não trabalhador. “Ele está se destruindo, é um policial que fere direitos humanos, porque vai para a rua e se tiver oportunidade vai matar. E quem ganha com isso?”, questiona. “Pegaram uma pessoa de boa índole e transformaram em um potencial assassino.”.
A pesquisa também mostra que a maioria dos suicídios são cometidos em dias de folga o que, para Ana Paula, faz total sentido. O trabalho do plantonista exige cuidado e atenção, fazendo com que o profissional controle as suas emoções. “Quando você sai dali, aquilo tudo vem na sua cabeça. Automaticamente você senta, demora para relaxar, e aquele mundo desaba em cima de você”, explica.
Arma: objeto suicida e renda extra
De acordo com a pesquisa da Ouvidoria de São Paulo, 83% dos casos de suicídio policial, entre 2017 e 2018, foram por arma de fogo. Um objeto que, além de ser essencial para a profissão, garante uma renda extra aos policiais. Os chamados “bicos” são feitos fora do horário formal de trabalho e complementam os salários.
De acordo com o último levantamento da Secretaria da Fazendo e Planejamento de São Paulo, de 2018, as classes especiais de escrivães e investigadores da Polícia Civil têm um teto salarial de R$ 5 mil. Já na Polícia Militar, o teto salarial inicial chega a R$ 4.253,00, que condiz com a função de subtenente.
São os próprios salários que fazem os policiais usarem o armamento para serviços extras, como o de segurança particular. Acontece que quando o profissional submete a um tratamento psicológico, ele pode perder a sua arma. Ou seja, perde também a renda extra.
Nesse ponto, Rogério Giannini, presidente do Conselho Federal de Psicologia, acredita que uma polícia menos armada é um modelo a ser seguido. “Eu creio que quando nós olhamos para outras experiências de outros países, em sociedades mais equânimes, mais justas, com polícias não armadas, você tem tanto índice de violência como índices de suicídio mitigados”, explica. “A violência tem que ser exceção na sociedade e não regra”, acrescenta.
Em um dos momentos mais delicados da depressão de Ana Paula, ela escreveu um depoimento ao seu superior explicando a situação, dizendo que estava no seu limite a assumindo a vontade de se matar.
“Policiais lidam com o pior da sociedade, em todos os sentidos, e você tem um cara que tem uma arma na mão. Como você trata dessa maneira uma área tão importante?”, ela questiona.
(*) A investigadora pediu que identidade dela fosse preservada