GRIMM : CONTOS DE FADAS, PERIGOS REAIS.
João Alkimin
João Alkimin é radialista – http://www.showtimeradio.com.br/
GRIMM : CONTOS DE FADAS, PERIGOS REAIS.
João Alkimin é radialista – http://www.showtimeradio.com.br/
04/10/2012-06h00
DE SÃO PAULO DO “AGORA”
O governador de SP, Geraldo Alckmin (PSDB), e o delegado-geral Marcos Carneiro Lima, chefe da Polícia Civil paulista, disseram ontem a novos policiais civis que o Estado não tem nenhuma tolerância à corrupção policial.
“Quando um policial comete um crime, ele é pior que o bandido. O bandido não tem nada a perder. O policial tem. A primeira coisa que perde é o respeito dos próprios colegas. Nós, da Polícia Civil, não aceitamos inimigos conosco”, disse Lima.
O discurso foi feito durante a posse de 289 agentes de telecomunicação da Polícia Civil, em um evento no Palácio dos Bandeirantes.
Nesta semana, a Folha revelou que documentos atribuídos à facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital) apontam supostos pagamentos feitos por bandidos a policiais civis de SP.
Os documentos -espécie de “livro-caixa” da facção- apontam, ainda, que policiais militares se aliam a criminosos para cometer roubos.
No seu discurso, o delegado pediu aos novos policiais que não entristeçam as suas famílias por terem se envolvido em irregularidades.
Quando questionado pela Folha sobre a sua fala, o delegado-geral disse que reforçou o cuidado que os policiais devem ter para não caírem na “sedução dos criminosos”.
“No Brasil, há uma cultura da corrupção, que vem desde a época colonial. Mas é importante a sociedade cobrar essa mudança”, afirmou.
Já o governador foi mais sutil na mensagem, dizendo aos novos policiais que eles devem servir de exemplo para a população paulista.
“Exemplo de retidão, exemplo de atender bem as pessoas, de fazer bem feito o que é a nossa atividade.”
PCC
Tanto Alckmin quanto o delegado-geral afirmaram que a Corregedoria das polícias irá investigar todos os policiais que tiverem seus nomes envolvidos em acordos com a facção criminosa PCC.
“Se eu identificar suspeição contra qualquer policial que esteja em uma função estratégica, eu mando tirá-lo da função para que seja investigado”, disse Carneiro Lima.
Nos últimos seis anos, pelo menos 1.223 policiais civis e militares foram punidos por irregularidades diversas, entre elas, corrupção e tráfico de drogas. Os dados são da Ouvidoria da Polícia de São Paulo, que recebe denúncias contra policiais civis e militares. (AFONSO BENITES, ROGÉRIO PAGNAN E JOSMAR JOZINO)
04/10/2012-06h00
AFONSO BENITES DE SÃO PAULO
O secretário da Segurança Pública, Antonio Ferreira Pinto, afirma que a facção criminosa PCC é bem menor do que é divulgado e que a polícia a está asfixiando, com operações bem sucedidas contra o tráfico de drogas.
Em entrevista após a posse de 289 agentes de telecomunicações da polícia, Ferreira Pinto, procurador de Justiça licenciado, criticou o Ministério Público e disse que o número de bandidos ligados ao PCC é menor do que apontam as planilhas do bando apreendidas pela polícia e reveladas pela Folha.
Pelos arquivos, que estão no Ministério Público, a facção possui 1.343 bandidos espalhados por 123 das 645 cidades paulistas.
O Ministério Público não quis comentar as críticas.
*
Folha – Como o senhor está vendo a batalha com o PCC? Antonio Ferreira Pinto – Não há batalha. O governo continua na sua linha de combate à criminalidade, seja ela de que origem for. Temos uma média de dois presos por dia.
A Folha tem mostrado, com base em arquivos do PCC, que a facção continua forte. Mas o governo discorda. Por quê? Porque alguns setores da imprensa exaltam o PCC. Nós trabalhamos dentro da tranquilidade. Temos informações seguras, privilegiadas.Acompanho essa situação há seis anos e meio, desde quando fui secretário de administração penitenciária.
Estou tranquilo sabendo o tamanho da facção. Determinados jornais glamorizam a facção, o que só traz desassossego à população. Combatemos essa facção com eficiência e os resultados estão aí.
Quais são? Há mais de cinco anos que a PM não precisa intervir em presídios. Isso evidencia o nosso controle. A Rota tem prendido bastante.
Agora, qualquer grupo bem organizado aqui fora se arvora em facção criminosa. Isso é grife e a imprensa, felizmente só parte dela, exalta exageradamente. Estão fazendo às gerações futuras, para seus filhos e netos.
Qual é a extensão da facção? A facção é bem menor do que dizem. Não chega a 30 ou 40 indivíduos que estão presos há muito tempo e se dedicam ao tráfico. Nós temos asfixiado esse tráfico com grandes prisões. Mas essas prisões só merecem uma nota nos jornais. Não tem a mesma repercussão que atos covardes contra a polícia.
A documentação que a sua polícia apreendeu e está na mão do Ministério Público mostra que o número é maior. É, a polícia apreendeu, levou para o Ministério Público e eles não levaram à Corregedoria da polícia dados que demonstram o comprometimento de policiais civis [a Folha revelou que documentos do PCC apontam propina a policiais]. Receberam os dados e vazaram para a imprensa de forma anônima.
Eu sou dessa instituição. No meu tempo a gente falava e assinava embaixo, não se escondia. Quando eles passarem para nós, vamos apurar.
Se tiver policial envolvido, serão demitidos. Fica muito tranquilo para eles [promotores] jogarem isso para a imprensa de uma forma leviana.
No seu tempo na Secretaria de Administração Penitenciária, havia notícias de apreensões de pen drives do PCC? No meu tempo não havia. Não tínhamos, até porque eles não têm computador.
Mas eles usam smartphones. Eles não têm smartphones. No meu tempo não tínhamos e hoje acredito que não tenha. O sistema prisional está tranquilo há muito tempo.
Força Tática
Lotado na Força Tática do 39º BPM/I (São Vicente), o soldado Fábio Passos de Sá, de 34 anos, foi executado com diversos tiros na tarde desta quarta-feira , na periferia daquela cidade. Com esse atentado, sobe para 75 o número de policiais militares mortos neste ano no Estado.
De acordo com informações da própria Polícia Militar, a vítima estava à paisana na altura do nº 141 da Rua Carijós, no Parque São Vicente, quando foi atacada por pelo menos quatro marginais, cujos rostos estavam encobertos por capacetes.
A ação do bando ocorreu por volta das 15h30 e foi muito rápida. Câmeras de segurança de uma escola pública, ainda conforme a PM, registraram o assassinato. Nas cenas gravadas, os criminosos são vistos rendendo a vítima e desarmando-a, antes de alvejá-la várias vezes no rosto.
Uma caminhonete preta aparece na filmagem sendo usada na fuga. Porém, como os criminosos usavam capacete, a polícia acredita que eles também utilizaram motos. O homicídio é investigado pela equipe do 2º DP de São Vicente, mas ainda não há pistas sobre os atiradores.
Guerra suja
O jornalista Fábio Pannunzio, da Rede Bandeirantes, é sério e competente. Abriu um blog em 2009 e, de lá para cá, jamais aceitou ofertas de patrocínio. Paga as despesas com dinheiro do próprio bolso, tirado do salário de repórter.
Que é que fizeram contra ele? Aquilo que a Igreja Universal do Reino de Deus tentou fazer contra a repórter Elvira Lobato: sufocá-la com imenso volume de processos (no caso, espalhados por todo o Brasil, para obrigar a repórter a gastar fortunas com viagens e advogados, e ao mesmo tempo reduzir sua produção jornalística, por falta de tempo). Só que Elvira Lobato trabalhava como repórter da Folha de S.Paulo, que bancou as despesas, denunciou as manobras da Universal e transformou o caso num foco permanente de suas reportagens.
Pannunzio foi processado inúmeras vezes, sem êxito. Mas, em todas elas, teve de perder tempo, contratar advogado, gastar com documentação, viajar até o local dos processos. O objetivo, claro, era este; pessoas que se julgam atingidas em sua honra não entram com processos cíveis, já que honra não se mede em dinheiro (a não ser algumas pessoas, que já têm até a etiqueta de preço afixada). Quem tem a honra atingida entra com processo-crime, exatamente por considerar que sua reputação não tem preço.
Pannunzio foi processado por gente das mais diversas ideologias, partidos, interesses. A gota dágua foi o processo que lhe é movido pelo atual secretário da Segurança de São Paulo, coronel Ferreira Pinto, herança de Serra para Alckmin: o secretário do Governo tucano quer uma indenização monumental de Pannunzio. E o repórter decidiu desistir do blog.
“Escrevo depois de semanas de reflexão e com a alma arrasada”, disse Pannunzio, “especialmente por que isso representa uma vitória dos que se insurgem contra a liberdade de opinião e informação”.
| O risco à livre expressão, Carlos Brickmann para o Observatório da Imprensa | |
| Coluna Circo da Notícia – OI – www.observatoriodaimprensa.com.br – Edição de 2 de outubro de 2012 |
Rogério Marques é Delegado de Polícia há cerca de dez anos; nesse tempo conquistou inúmeras amizades entre policiais e cidadãos em razão de centenas de ocorrências solucionadas em vários distritos do DECAP.
Ai, Guerra… O Flit é ligado aos Mikes??
http://www.viomundo.com.br/denuncias/portal-imprensa-as-ameacas-ao-reporter-andre-caramante.html
A situação ficou ainda mais grave quando o blog “Flit Paralisante”, ligado a policiais militares, divulgou uma foto de Sérgio Dávila, editor-executivo da Folha, como se fosse Caramante, com uma mensagem ainda mais ameaçadora do ex–juiz e advogado Ronaldo Tovani, citado em matéria por ter sido denunciado à Justiça por lavagem de dinheiro: “A palavra escrita, mentirosa e ferina, do jornalista André Caramante agora tem ‘cara’. A foto dele está estampada no ‘Flit’ e passou a ser do conhecimento de todos, inclusive dos policiais militares que ele tanto critica e ofende. Espero, contudo, que não apareça algum maluco querendo fazer justiça com as próprias mãos, quando se deparar com ele por aí”.
Para o jornalista, atitudes como essa não passam de intimidação para evitar que a Folha e o repórter cumpram sua função de informar.
https://flitparalisante.wordpress.com/2012/08/23/vitoria-do-dr-luis-storni/
Vitória do Dr. Luis Storni: Tribunal de Justiça reconhece dano moral praticado pelos jornalistas André Caramante e Rogério Pagnan – da Folha de São Paulo – em desfavor de Delegado de Polícia
Qualquer estudioso da violencia (mesmo internacionalmente) afirma que a ausencia do Estado abre espaço para o crime organizado e que este espaço pode demorar anos para ser reconquistado quando o Estado voltar a atuar.
O Estado está compeltamente ausente na vida do policial, seja ele civil ou militar.Antes de tentar ocupar os espaços perdidos nas ruas o governo tem que recuperar o espaço perdido junto a policia civil e militar, muito mais que ausente o Estado conseguiu se tornar adversario do policial.
As leis relativas aos cargos e funções não são cumpridas, pune-se o policial por bobagens apenas para mostrar serviço enquanto os verdadeiros ladrões jamais são incomodados e não se preocupa com a situação financeira e profissional dos policiais.
O Rio de Janeiro pode ser um exemplo a ser seguido.Sempre se ouviu falar que lá o crime dominava por conta da ausencia do Estado, eles perceberam que estavam ausentes dentro da policia, até 2014 eles terão a polciia mais bem paga e equipada do Brasil e os resultados já começaram a surgir.
Há corruptos nas duas policias, não é possivel dizer em que proporção e nem em que modalidade eles atuam, mas como sempre quem paga a conta é o policial honesto que sofre duas vezes.
Segue a primeira parte da história do laudo do massacre, que hoje faz 20 anos.
É uma narrativa dos bastidores da perícia. Creio que será útil a todos os colegas.
É também uma espécie de desabafo pelo que passei há 20 anos…
Amanhã ou na quinta envio a segunda e última parte.
Abraço.
A HISTÓRIA ESCRITA NAS PAREDES
UMA SUCINTA APRESENTAÇÃO DO LAUDO DO MASSACRE DO CARANDIRU
1 – UMA BREVE DESCRIÇÃO DO P-9 E SEUS PRESOS
Muito se escreveu sobre o episódio do “Massacre da Detenção”. Muitas histórias foram baseadas em relatos de sobreviventes, de funcionários da Casa de Detenção do Carandiru, de jornalistas que tiveram acesso nos dias seguintes ao massacre ao P-9, policiais que fizeram a recolha dos presos, funcionários da enfermaria, etc.
Esta é uma história real, de quem esteve lá dentro, recebeu informações fidedignas e observou com detalhes o que se passou pelos vestígios deixados pela ação.
Aqui, uma curiosidade interessante: a denominação oficial do presídio era Casa de Detenção “Prof. Flamínio Fávero”, brilhante perito médico legista, discípulo de Oscar Freire, ex-diretor da Faculdade de Medicina da USP e Professor de Medicina Legal do Mackenzie, falecido em 1982. Sua inscrição no CRM era a de número 001.
Além das inúmeras histórias, muita fantasia se escreveu a respeito dos presos: que eram os mais perigosos do país, todos assassinos com vários homicídios nas costas, matadores de criancinhas, estupradores, etc. Esta versão ajudou a criar na sociedade uma repulsa pelos detentos e auras de heroísmo à ação realizada. Longe de querer fazer uma defesa de criminosos, garantimos que a verdade não é esta. O Pavilhão Nove (P-9) do Carandiru abrigava presos chamados “virgens”, ou seja, primários, que haviam cometido pela primeira vez qualquer tipo de crime: estelionato, furto, roubo, tráfico, homicídio, etc. Muitos deles não haviam sido sequer julgados, estavam apenas “detidos”.
Ainda hoje muitas pessoas condenam o laudo que “desnudou” a ação realizada e acham que 111 mortos foram poucos. Estes não estiveram lá dentro, não viram e, provavelmente, não têm qualquer religião. Satisfazer-se com o massacre de 111 presos indefesos, como uma vingança por ter sido vítima de algum crime revela a face mesquinha de muitas pessoas. Nós, como tantos outros, já fomos vítimas de assalto mais de uma vez, sentimos medo sim, principalmente se os bandidos descobrissem nossa identidade, não pudemos reagir porque estávamos acompanhados e nem por isso pudemos acobertar o que ocorreu lá dentro. Uma coisa é enfrentar bandidos na rua, dispostos a matar ou morrer, outra coisa, muito diferente, é matar presos desarmados, encurralados dentro de suas celas. Uma verdade é inegável, e as estatísticas criminais comprovam: se antes do laudo da detenção a PM matava mais de 200 por mês só na Capital, em média, apenas dois meses depois da divulgação do laudo este número caiu para cerca de 35. Hoje se mantém por volta de 60, com a população quase dobrada em relação a 1992. Não há dúvida que houve uma mudança de paradigma. Hoje a PM respeita os direitos humanos, apesar de muita gente ainda combater os métodos utilizados.
Por outro lado, o que restava a um perito fazer ante aquela situação? Esconder o que viu e analisou, e assim falsear a verdade? Não foi para isso que criaram a perícia, mas sim para estabelecer a verdade dos fatos através da prova material.
O P-9 era composto por cinco pavimentos (o térreo é considerado o primeiro pavimento) e as celas se distribuíam do segundo ao quinto pavimento. A estrutura arquitetônica correspondia a um quadrado com um pátio central e as celas ficavam dispostas nos quatro lados do quadrado, frente a frente e separadas por um corredor perimetral. A numeração das celas obedecia a um código alfanumérico de cinco caracteres, sendo o primeiro o número do pavilhão, o segundo, o número do pavimento; os dois seguintes a ordem numérica a partir do acesso do pavimento, no sentido horário, e o último, uma letra “E” ou “I”, antecedidas por um hífen, indicava se a cela era voltada para a região externa do P-9 (“E”) ou para o pátio interno (“I”).
Nunca ficou claro como eram distribuídas as celas para os presos, mas houve a informação que eles mesmos decidiam quem iria habitar qual cela (para eles chamadas de “casa”). Havia dentro de cada Pavilhão uma espécie de “Comissão” que negociava com as autoridades do presídio sobre as questões a serem resolvidas e eram responsáveis pela distribuição das celas. Foi esta “Comissão” que, com um surpreendente espírito de colaboração (coisa rara, criminosos colaborando com policiais) prestou a maior parte das informações aqui relatadas. Muitos destes informes, por não serem relevantes à perícia ou confiáveis, na época, não foram para o laudo, mas serviram de embasamento para deduzir o que de fato provocou a situação.
Naquela época, não havia ainda uma “organização criminosa” propriamente dita, mas existiam certos grupos que dominavam o P-9, impondo horários, distribuição de cigarros (que era a principal “moeda” deles), impunham castigos aos que saíam da linha, decidiam sobre os “jurados de morte”, etc. Entenda-se: os “jurados de morte”, que não eram poucos, não estavam numa espécie de “corredor da morte” aguardando seu destino, mas eram aqueles que haviam cometido falta grave contra a organização do grupo e poderiam até morrer se não se desculpassem e pagassem pelos seus “crimes”. Estes ficavam em celas especiais, sozinhos (solitárias), até terminarem sua “condenação”. Morreriam somente se fossem considerados “criminosos rebeldes”, o que raramente acontecia. Era o início dos Tribunais do Crime. E de uma organização criminosa, cujo embrião foi desenvolvido após o massacre. Ali dentro, havia uma facção mais dominadora, recém-formada, chamada “Serpentes Negras”, que correspondia a uma associação de líderes de grupos, mas não havia então uma verdadeira organização e não agiam fora do presídio. Dominavam pela força. Os grupos menores se organizavam pelas mais diversas afinidades: os homicidas e os matadores de policiais formavam um grupo de poucos, mas barulhentos presos porque se diziam os mais “corajosos” – portavam uma tatuagem com um punhal encravado numa caveira (depois ficamos sabendo que muitos casos que eles contavam eram fantasiosos, apenas queriam se sobressair), os traficantes formavam outro grupo, assim como os religiosos, os torcedores de determinado time, os estelionatários (que eram considerados os intelectuais dos presos e redigiam petições, pedidos, solicitações, reivindicações, etc.), e outros. Calcula-se que os quase 1.800 presos eram distribuídos por cerca de 30 grupos. Enfim, era uma sociedade à parte do mundo externo, com suas próprias leis, advogados e juízes.
Esses grupos, embora precisassem uns dos outros, eram muitas vezes rivais e brigavam pelos mais diversos motivos: pela posse de pontos de distribuição de cigarros, pela produção e distribuição de bebidas artesanais, de sabonetes, de TVs, de perfumes, de mulheres, de drogas – somente maconha, pois os presos não permitiam a entrada de qualquer outra droga na época, segundo eles disseram – e muitas outras coisas. Mas conviviam sem grandes traumas graças ao entendimento entre os líderes.
E foi justamente um desentendimento entre dois destes líderes que, por um motivo fútil, levou à morte os 111: uma briga por causa de uma arbitragem duvidosa do jogo de futebol numa final de campeonato interno. Pelo menos, foi esta a versão contada para a perícia e confirmada pela Comissão de Presos e de Disciplina. Um membro de um grupo foi ferido gravemente com estiletes pelo membro de outro grupo e começou a gritaria e perseguições, que não pôde ser evitada pelos carcereiros, pois se estendeu por todo o P-9.
Chamaram, então, a PM. E tudo começou.
Osvaldo Negrini Neto
Perito Criminal aposentado, autor do laudo do Massacre da Detenção.
02/10/2012-06h00
AFONSO BENITES ROGÉRIO PAGNAN DE SÃO PAULO JOSMAR JOZINO DO "AGORA"
Os arquivos da facção criminosa PCC, apreendidos pela polícia, registram que a organização faz pagamentos sistemáticos para policiais civis, além de supostos acordos feitos com PMs para atuarem juntos em assaltos.
Identificadas como “percas”, as informações constam de parte dos 400 documentos que já estão com a polícia e o Ministério Público, conforme revelou ontem a Folha. Uma espécie de livro-caixa do crime, os arquivos mostram que a facção atua em 123 das 645 cidades do Estado e tem nas ruas 1.343 bandidos.
Essa documentação já embasou ao menos duas denúncias judiciais de promotores e norteiam a atuação da polícia contra o crime organizado.
Nas planilhas, não há nome de policiais. Só são citadas a cidade ou a delegacia em que eles atuam e a situação em que a extorsão ocorreu.
As informações também aparecem quando a organização lista os devedores do mês. Em um dos registros, de 2011, um dos criminosos, identificado como Tucano, aparece com uma dívida de R$ 615 mil. O motivo: perdeu o valor para a polícia. Essa é a expressão usada pelos criminosos para dinheiro gasto em extorsão.
R$ 10 MIL POR SEMANA
Em um dos documentos, de 9 de agosto, apreendido na Baixada Santista, os criminosos afirmam que policiais de Mauá (Grande São Paulo), que já recebiam cerca de R$ 10 mil por semana, foram para Santo André e, se passando por policiais do Denarc (narcóticos), pediram mais dinheiro para não impedir o tráfico no local.
Nesse arquivo, os bandidos também relatam que outros policiais, dessa vez da 4ª delegacia do Patrimônio do Deic, prenderam, em 8 de agosto, uma traficante e exigiram R$ 100 mil para liberá-la.
Em negociação com os advogados, o valor caiu para R$ 10 mil em dinheiro, mais a droga apreendida e o carro.
Pelo relatório, o acerto caminhava para não ser fechado porque os policiais queriam ainda manter o flagrante da mulher, embora com o registro de uma quantidade menor de droga. O documento, porém, não revela o desfecho do caso.
“Resumindo: os policiais ficaram com o carro, com as drogas, com dinheiro do acerto se nós pagássemos e a menina ficaria presa do mesmo jeito. Olha as ideias desses policiais. Estão é tirando e subestimando a nossa inteligência”, diz trecho.
Os papéis revelam ainda um caso, de junho de 2011, de um criminoso identificado como Maguegui que diz ter pago R$ 150 mil para ser libertado por policiais do Deic.
“Eles falaram ainda que nós estávamos no lucro porque estava na mão deles. Porque se fosse a Rota nos matariam”, diz trecho do relatório.
Um arquivo de agosto do ano passado diz que os bandidos precisam levantar informações junto a policiais que roubam com eles, “principalmente PM”.
Os promotores responsáveis pelo caso dizem que somente uma investigação aprofundada poderá concluir se houve, de fato, propina. Mas não descartam a possibilidade de algum criminoso ter inventado a propina nos relatórios para justificar desvio de dinheiro da própria facção criminosa.
| Editoria de Arte/Folhapress | ||
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O MASSACRE DO CARANDIRU: A HISTÓRIA ESTAVA ESCRITA NAS PAREDES
2 de outubro de 1992: pode parecer incrível, mas o maior crime, em número de mortos, já cometido no Estado de São Paulo continua, 20 anos depois, insolúvel. Sabe-se o que aconteceu com detalhes, pelos laudos periciais que foram feitos pelo IC e IML, mas ainda não se sabe quem foram seus autores. Ora, dirão, foi a PM. Mas a PM é uma instituição do Estado, logo, foi o Estado o autor do Massacre da Detenção? A verdade é que não houve, até agora, a individualização de autoria.
Relatos de muitos presos sobreviventes apontando autores foram desconsiderados. Mas os presos, no caso, eram vítimas do Estado e testemunhas presenciais dos fatos. Nem a CPI da Assembleia Legislativa, na época, conseguiu avançar neste aspecto, não obstante a combatividade de vários deputados – da situação e da oposição – que se interessaram pela verdade.
Mas não é só: também não foram realizados exames balísticos comparativos – prova que poderia identificar pelo menos algumas armas utilizadas -, sob a justificativa de que “demandariam décadas de trabalho”. Pergunta-se: se tivessem começado naquela época os exames, quantos autores já teriam sido descobertos? Pelas contas feitas acima, é bem possível que pelo menos uma boa parte dos autores já estaria identificada. E certamente teriam muito que contar. Não fica claro porque não se deu início aos exames na época. Hoje, é quase certo que tal perícia esteja tecnicamente inviabilizada em decorrência da deterioração das armas, projéteis e estojos (cápsulas, na linguagem popular). Aliás, estojos eram poucos, certamente houve uma “varredura fina” após o evento para recolhê-los. Ainda que o material restante tenha sido armazenado com todas as cautelas, a ação natural do tempo sobre os metais provavelmente os tornou inservíveis para a perícia.
Mais um detalhe: espalhou-se aos quatro cantos, na época – e até hoje muitos ainda acreditam – que os presos do Pavilhão Nove eram perigosíssimos: assassinos frios, estupradores, matadores de policiais, de criancinhas, canibais, traficantes assassinos, etc. Esta versão ganhou as ruas, grande parte da população a adotou e alçaram os policiais a heróis. A verdade é bom outra: no Pavilhão Nove, na época, só entravam presos de primeira condenação – ou seja, primários -, por qualquer crime: furto simples, roubo, tráfico, estelionato, tentativa de homicídio, pensão alimentícia, homicídio e outros – que não tinham direito a prisão especial. Naquele tempo era difícil para um condenado comum, sem posses, conseguir Habeas Corpus – aí está uma das razões dos presos passarem a se associar em grandes grupos organizados (na época, “Serpentes Negras”, embrião do “PCC”). Tudo indica que esta organização criminosa teve início neste episódio do massacre.
A perícia comprovou que nas paredes de várias celas existiam vestígios de tiros a partir da soleira da porta, rajadas de metralhadora dirigidas para o chão, como se apontassem para presos ajoelhados ou acuados. Era a história que estava escrita nas paredes. Era a história sendo contada pelos vestígios. Outro fato que impressiona é que, vendo a morte de perto, os presos tentaram se defender desesperadamente, seja ocultando-se em celas distantes ou se escondendo debaixo de cadáveres dos executados. Este foi o relato de vários sobreviventes.
Homicídios cometidos contra os presos desarmados, confinados nos cubículos de suas celas, metralhados por policiais, agora são só uma triste lembrança de um episódio que apesar de extremamente lamentável, mudou a PM para melhor. Hoje, se alguns combatem os métodos de atuação da Polícia Militar, nem imaginam como era na época. Somente o Instituto de Criminalística atendia cerca de 220 casos de perícias de mortes em confrontos entre a PM e suspeitos somente na Capital por mês, casos denominados como “resistência seguida de morte”. Depois do laudo da Detenção, este número caiu em dois meses para menos de 30, e até hoje se mantém em patamares que, se não são ideais, pelo menos são bem mais razoáveis. Basta estudar as estatísticas para se comprovar isso. Ao menos para este propósito serviram as investigações.
Por outro lado, não se pode comparar a ação no Pavilhão Nove da Casa de Detenção, contra presos desarmados e sob a guarda do Estado, com os confrontos de rua, contra bandidos armados e dispostos a matar ou morrer. Hoje a PM é uma instituição digna de reconhecimento pela população e está em constante evolução para acolher a filosofia moderna dos direitos humanos.
O que se pode lembrar, passados 20 anos, é que graças a alguns parlamentares que lutaram decisivamente contra a tentativa de “pizza” – e graças também (e principalmente) ao próprio Secretário recém-empossado na época, Michel Temer – houve esforços decisivos para que pelo menos a história do Massacre fosse desvendada e descrita com toda a transparência, inclusive com a exibição de fotos chocantes, como a pilha de mortos no Pavilhão Nove. Pessoalmente, considero que o apoio do Secretário – e, por extensão, do Governador Fleury – na ocasião foi determinante para que o laudo pericial do local repercutisse em toda a imprensa; caso contrário, terminaria em alguma gaveta como vários outros documentos sobre o fato.
Muitos relatos e livros apareceram contando as mais variadas histórias sobre o Massacre. Mas só quem esteve lá dentro e viu as pilhas de cadáveres no saguão do Primeiro Pavimento e a cachoeira de sangue nas escadas, pode entender o terror que representa uma cena como essas, que desperta sentimentos que nem o mais perfeito escritor ou diretor de cinema é capaz de transmitir. Muitos policiais militares, que não participaram do massacre, lamentaram profundamente o incidente e inclusive auxiliaram a perícia, fornecendo fontes de iluminação, luvas e máscaras.
Difícil de entender é que os supostos autores do massacre não foram ainda julgados, o que só deverá acontecer no início de 2013, mais de vinte anos passados. E o único que foi a júri, o Cel. Ubiratã, na verdade não chegou a participar diretamente, pois foi socorrido logo no início da invasão do Pavilhão Nove, por ter sido ferido pela explosão de um aparelho de TV ainda no pavimento térreo. Ele foi condenado pelo júri e sentenciado a mais de 600 anos de cadeia, mas teve sua pena anulada pela Justiça, mesmo depois da brilhante atuação da acusação do Ministério Público em plenário e de todas as provas apresentadas. Ele respondeu pelo fato de que estava no comando da tropa e, portanto, teria pleno conhecimento da ação e de seu planejamento.
Osvaldo Negrini Neto
01/10/201211h42
“Nunca vi algo tão desumano”, conta perito ao lembrar Massacre do Carandiru
Elaine Patricia Cruz
Da Agência Brasil, em São Paulo Sergio Andrade/Folhapress
Naquele 2 de outubro de 1992, uma sexta-feira, quando foi chamado para fazer a perícia no Pavilhão 9, na Casa de Detenção de São Paulo, mais conhecida como Carandiru, o perito Osvaldo Negrini Neto achou que se tratava de um evento de resistência seguida de morte, ou seja, que os detentos haviam morrido em decorrência de confronto com a Polícia Militar, mas logo mudou de ideia.
“Depois percebi que foi um massacre seguido de muitas mortes”, disse o ex-perito, em entrevista à “Agência Brasil”. Na época, contou, era perito de uma seção especial do Instituto de Criminalística de São Paulo que analisava exatamente os casos de resistência seguida de morte. Após o episódio, chegou a sofrer ameaças.
Vinte anos do massacre do Carandiru
O que o levou a classificar o episódio como um massacre estava, segundo ele, “escrito nas paredes” do Pavilhão 9. “Todas as celas que eu examinei tinham muito poucos tiros nos corredores. No corredor, eu contava dois ou três buracos de balas. Mais de 90% dos tiros estavam dentro das celas. E sempre da porta para o fundo, ou seja, impossível que tenha sido algum tiro dado pelos presos em direção aos policiais militares. E, realmente, não tinha nenhum policial ferido por balas.”
Negrini Neto foi o autor do principal laudo sobre a morte dos presos no Carandiru. Aposentado desde 2010, ele conversou com a Agência Brasil por telefone.
“Colhi material das paredes e vi que, em muitos casos, não era bala de revólver, mas de metralhadora. Os tiros seguiam uma sequência quase na mesma linha. Uma pistola e um revólver não fazem isso. Colhi material daquilo para saber se tinha cobre presente no buraco, porque o cobre caracteriza que a bala é encamisada, ou enjaquetada [revestida com metal, a exemplo de cobre, para aumentar a penetração no alvo], como a de metralhadora.”
O perito descreve a situação de um dos andares mais atingidos: “No terceiro, a coisa estava bárbara. Na primeira cela em que entrei, tinha mais de 20 buracos de bala. Na outra, 15, na outra, dez. Fui contando e havia mais de 450 buracos de bala na parede. Em alguns, tinha [marca] no chão como se tivesse matado gente que estivesse sentada ou ajoelhada”, descreveu.
Negrini Neto só conseguiu entrar na Casa de Detenção por volta das 21h30 daquele dia. “Tive que entrar escondido, junto com meu fotógrafo, na viatura do delegado, abaixados no banco de trás, porque a Polícia Militar tinha dado ordem de que não queria perícia lá dentro”, relatou.
Quando finalmente chegaram ao Pavilhão 9, o prédio encontrava-se interditado. “Tinha havido um incêndio no térreo”, contou. Ele pediu então ao oficial que estava tomando conta do local para poder entrar no pavilhão e fazer as fotos e um relato sobre o que ocorreu. “Depois de muito relutar, ele permitiu que entrássemos no pátio ou térreo. Ali tinha barbearia, lavanderia, cozinha, dependências de convivência entre os presos e a parte de administração do Pavilhão 9, onde estavam todos os arquivos dos presos dali”. Como houve o incêndio, a energia elétrica foi cortada e o trabalho precisou ser feito todo com lanternas, até que a polícia fornecesse alguns holofotes.
No local, os policiais lhe contaram que uma TV explodiu perto de onde se encontrava o então comandante da Polícia Militar, o coronel Ubiratan Guimarães, que precisou deixar o local para ser atendido.
“Fiz [registro de] toda essa parte de baixo, analisei o incêndio, e vi, pela escada do canto que subia para o primeiro pavimento, uma gosma escura descendo que parecia óleo queimado. Uma cachoeirinha. Achei meio intrigante aquele fenômeno ali e fui mais perto para olhar. Como já tinha bastante experiência nisso, vi que era sangue misturado com uma série de outras sujidades”, contou.
Com a ajuda dos holofotes, ele subiu então para o primeiro pavimento. “Quando cheguei à borda do primeiro pavimento, vi uma cena dantesca, algo que nunca tinha visto na minha vida. Um monte de cadáveres empilhados, um por cima do outro, todos completamente destroçados, com buracos de balas aos montes”, disse.
Foi então que ele começou a contar os cadáveres que estavam empilhados. “Só havia um espaço para pisar no Pavilhão 9, entre a parede e a primeira pilha de cadáveres, e que não chegava a 40 centímetros. Fomos indo por aquela borda, até onde os holofotes conseguiram chegar, e eu pude contar 90 cadáveres. Contei errado naquele dia. Na realidade, eram 89”, falou.
Depois disso, teve início o trabalho de retirada dos corpos. “Para isso, eles precisaram encostar quatro ou cinco caminhões-baú do presídio e os próprios presos foram obrigados a pegar os cadáveres, um por um, no primeiro pavimento, e trazer, de dois em dois, para botar no caminhão. Aí, vi que todos os presos estavam completamente nus”, descreveu.
Segundo o ex-perito, os sobreviventes do Pavilhão 9, que eram mais de 1,8 mil na época, estavam todos sentados no pátio, nus, ajoelhados, cercados por policiais. “Nunca vi algo tão desumano na minha vida”, disse o perito. Os corpos precisaram ser levados para vários institutos médico-legais de São Paulo e da região metropolitana.
No sábado, começaram os telefonemas à sua casa, com ameaças. “Na época, felizmente não tinha celular. Eles diziam: ‘Olha, vê lá o que você vai escrever’. Foram [telefonemas] de colegas, delegados, mas ninguém sabia ainda exatamente o que tinha acontecido na Casa de Detenção, sabiam que tinha morrido muita gente, mas ninguém sabia quantos tinham morrido”, lembrou. As ameaças, segundo ele, terminaram quando o laudo foi finalmente divulgado, nos primeiros dias de novembro daquele mesmo ano.
“No domingo [logo após o massacre], seria dia de eleição [municipal] e havia uma necessidade enorme de não se divulgar nada, pelo menos até lá. E, de fato, só foi divulgado que o número de mortos era maior que 90 no final da tarde, quando se fecharam as eleições”, disse ele.