
Há menos de um mês , quatro jovens trabalhadores – migrantes pobres vindos de outros estados em busca de oportunidade – foram sequestrados, executados e jogados numa vala clandestina em Santa Catarina, num crime que escancara o desprezo local pela vida de quem chega “de fora” para servir ao turismo e à construção civil. Seus nomes mal circularam na imprensa, não viraram hashtag, não suscitaram correntes de oração nem mobilizações emocionadas de artistas, empresários e influenciadores. Já a morte do cão comunitário Orelha, embora brutal e juridicamente relevante, ganhou contornos de catarse coletiva: vigílias, campanhas, promessas de “justiça exemplar” e uma súbita sensibilidade animalista que parece inexistir quando as vítimas são rapazes pardos, pobres e sem sobrenome ilustre. Esse contraste obsceno – luto público por um cachorro e indiferença por quatro trabalhadores enterrados como lixo – é a chave para entender a escala de empatia invertida que estrutura o imaginário catarinense e condiciona a própria atuação policial.
Florianópolis voltou ao noticiário, desta vez não apenas pela morte brutal do cão comunitário Orelha, mas pela forma como o delegado‑geral da Polícia Civil resolveu transformar o caso em palanque ideológico e vitrine pessoal.
Enquanto o inquérito sobre as mortes dos quatro rapazes migrantes era enterrado numa gaveta de repartição , empurrados para a conta genérica das facções e da “violência urbana”, o chefe de polícia preferiu latir nas redes sociais em defesa de um suposto “estado de direita” ofendido pela esquerda, como se o papel institucional de sua cadeira fosse agradar a plateia fascistóide da vez.
O caso Orelha e o delegado‑influencer
A morte de Orelha, espancado e arrastado por adolescentes na Praia Brava, comoveu o país e virou símbolo da barbárie cotidiana que costuma ficar restrita às periferias. Era a chance de a Polícia Civil catarinense demonstrar profissionalismo, transparência e empatia, investigando maus‑tratos contra animal com a mesma seriedade que deveria dispensar a qualquer crime violento.
Em vez disso, o delegado‑geral Ulisses Gabriel resolveu usar o microfone institucional para atacar “a esquerda”, acusá‑la de hipocrisia e sugerir que as críticas à condução do caso seriam parte de um complô ideológico contra o “estado de direita” de Santa Catarina, como noticiado por diversos veículos.
Não se viu um gestor republicano, cioso da impessoalidade e da moderação que seu cargo exige; viu‑se um militante digital fantasiado de autoridade policial, reproduzindo o linguajar das bolhas bolsonaristas: quem critica a polícia é “esquerdista”, “defensor de bandido” e, por tabela, inimigo da ordem.
Quando a chefia de polícia compra essa narrativa e a repete de gravata e brasão ao fundo, a mensagem é cristalina: a corporação tem lado, e não é o da Constituição.
O paralelo incômodo: um cão e quatro rapazes na vala
Poucos dias antes, quatro trabalhadores – vindos de Minas e São Paulo em busca de emprego – haviam sido sequestrados, executados e enterrados em cemitério clandestino em Biguaçu, num enredo que mistura disputa de facção, racismo territorial e a velha promiscuidade entre crime e Estado que há anos corrói Santa Catarina.
No texto já publicado neste blog, lembrou‑se que o estado que se imagina “Europa tropical” trata o migrante interno como invasor, suspeito por sotaque, CEP e cor de pele, empurrado para a vala comum física e simbólica.
A reação institucional às duas tragédias revela um traço perturbador do espírito público catarinense. Para os quatro rapazes, a narrativa pronta: “coisa de facção”, “cemitério do crime”, “revanchismo”; uma explicação confortável que dispensa a pergunta mais óbvia : quem controla o território, quem permitiu que o cemitério clandestino brotasse ali, quem faz vista grossa?
Já para o cão comunitário, a comoção foi instantânea, a mobilização policial exemplar, coletiva, midiática; operações rápidas, entrevistas, reconstruções em vídeo, promessas de rigor extremo.
Não se trata de diminuir a gravidade da crueldade contra Orelha – crime grave, que merece rechaço e punição. O problema é outro: a escala de empatia torcida, na qual quatro jovens trabalhadores valem menos que um cão, e onde a polícia se mostra muito mais à vontade para afirmar sua autoridade quando a vítima é um animal que não questiona privilégio nem revela a estrutura racista e classista da “Europa catarinense”.
O cãozinho da extrema-direita
Nesse cenário, o delegado‑geral comporta‑se como cãozinho de estimação da extrema‑direita: fareja o vento das redes, abana o rabo para a manada bolsonarista, late contra “a esquerda” e, no fim, deita-se aos pés de quem realmente manda no pedaço : a aliança informal entre elite branca, política profissional e “empreendedores” do crime organizado.
Ao reduzir a crítica legítima à atuação policial a uma suposta conspiração ideológica, ele presta o serviço perfeito ao fascismo tropical: transforma qualquer cobrança por investigação séria, por controle externo ou por responsabilização de agentes públicos em prova de “marxismo cultural” e “ataque ao estado de direito”.
A lógica é simples e funcional. Quando o alvo é o adolescente que torturou o cachorro, vale a teatralidade punitivista: mandados, coletivas, vídeos, frases de efeito.
Para inglês ver!
Com um cuidado incomum com a preservação da identidade e imagem do “animais racionais” !
Quando o assunto é vala clandestina com cadáver de migrante, promiscuidade entre facção e Estado ou racismo institucional da polícia, aí a palavra de ordem volta a ser “prudência”, “não politizar”, “deixar a polícia trabalhar”.
O delegado‑geral assume, assim, o papel de mascote ideológico: serve de voz dócil para o projeto que quer polícia forte para pobres e dócil para poderosos.
Um Estado que escolhe quem merece luto
O contraste entre a reação à morte de Orelha e o silêncio burocrático em torno dos quatro rapazes diz mais sobre Santa Catarina do que qualquer propaganda turística com mar azul e gente loira de olho claro.
Ali, parte expressiva da sociedade chora um cão, mas normaliza a execução de trabalhadores migrantes; exige punição exemplar – sem prisão e exposição – para jovens que maltratam animais, mas relativiza a responsabilidade de quem permite cemitério clandestino, quem lucra com a exploração turística e quem alimenta um separatismo envergonhado, travestido de “orgulho catarinense”.
Quando o chefe da Polícia Civil prefere agradar esse público – chamando de “estado de direita” um território que empurra brasileiros mestiços para a vala e trata migrante interno como intruso – ele não apenas viola princípios constitucionais de impessoalidade e moralidade.
Ele legitima um projeto de país em que vidas humanas têm cotação variável: valem mais quanto mais parecidas com o retrato idealizado do catarinense padrão e valem menos quanto mais se aproximam do Brasil real que a elite local prefere manter à distância.
Investigação de fora para dentro
Frente a esse quadro – vala clandestina, racismo institucional, delegados‑influencers ajoelhados diante da extrema‑direita – insistir apenas em “deixar a polícia trabalhar” é ingenuidade ou má-fé.
Como já se defendeu aqui, Santa Catarina precisa ser investigada de fora para dentro: federalizar casos emblemáticos, submeter a polícia local a controles externos efetivos, romper a confraria que protege fardas, togas e cargos de confiança enquanto corpos desaparecem nos fundos de Biguaçu.
O caso Orelha e a morte dos quatro trabalhadores expõem o mesmo buraco moral: um Estado que escolhe quem merece luto e quem merece vala; uma polícia que, na boca de seu delegado‑geral, se assume “de direita” e se oferece como cão de guarda da extrema‑direita fascista; e uma sociedade que parece sentir mais dor por um cão do que pelos brasileiros que ousam cruzar a ponte rumo à “ilha da magia”.
Nada, absolutamente nada tenho a acrescentar, diminuir, ou alterar no mais lúcido, imparcial, justo e castiço texto até agora escrito aqui no Flit.
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Guerra, via de regra, vejo essa escala de empatia invertida estruturando o imagináro do brasileiro. Perceba que a vida de um cão, um gato ou qualquer pet causa mais comoção do que a de um ser humano, principalmente se for homem, pardo, preto ou periférico, mas, mesmo um classe média. Se houver um atropelamento simultâneo de um cão e de um homem, pode estar certo que o cão será socorrido mais rapidamente e aparecerão inúmeras pessoas indignadas fazendo vídeos e cobrando providências dos órgãos públicos. Já o homem, ficará jogado na pista, quiçá, coberto com uma folha de jornal. Cães, gatos e pets dão votos, Guerra. São currais eleitorais enormes e é isso que importa para os políticos: votos e manutenção nos cargos de poder. O resto é conversinha fiada de amor ao Brasil, ao estado ou à cidade.
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Além de curral eleitoral é uma indústria bilionária …
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Um antigo Investigador aqui do ABC se tornou delegado de polícia em Santa Catarina.
Ao alçar o cargo de Delegado Geral de Polícia de lá, não aceitou ingerência política na instituição que comandava.
Preferiu a dignidade de entregar o cargo.
Se todos fossem iguais…
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Respeitar Santa Catarina é reconhecer um estado construído pelo trabalho, pela diversidade cultural e pela contribuição concreta ao desenvolvimento do Brasil. Críticas generalizadas e estereótipos não representam a realidade de um povo plural, que valoriza a convivência, a produção e o compromisso social. Defender Santa Catarina não é negar desafios, mas rejeitar discursos que desqualificam o estado e sua população. O verdadeiro respeito está em reconhecer suas conquistas, sua capacidade de enfrentar problemas e o direito de não ser reduzido a rótulos injustos. Como dizem aqui em Santa Catarina, Dr. Flit não seja “Cú de increnca” e não sejas ” Mofas com a pomba na balaia” seu “ Istepô!” e “tanso”
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Respeitar Santa Catarina não é passar pano para os seus problemas ; muito menos para o cheiro de vala comum e racismo estrutural que vem de Biguaçu e arredores.
Quem reduziu o estado a rótulo não fui eu: foi a elite política, judicial e policial que se gaba de viver num “estado de direita” enquanto tolera estupros, violência policial , racismo , cemitério clandestino para migrante pobre e reserva a comoção organizada para um cão comunitário.
Santa Catarina, como qualquer pedaço deste país, foi construída por gente diversa: açorianos, alemães, italianos, indígenas, negros, migrantes do Norte, do Nordeste, de Minas, de São Paulo.
Quando quatro rapazes vindos de fora acabam enterrados como lixo e a resposta social é um bocejo, não estou “desqualificando o povo catarinense”; estou descrevendo uma hierarquia de vidas em que alguns valem luto e outros valem vala.
Se isso lhe dói, talvez seja porque acertou o nervo.
Defender o estado, para mim, é exatamente o oposto do que faz a turminha do “estado de direita”: não é repetir slogan, é cobrar que a polícia investigue de verdade, que o Ministério Público saia da zona de conforto, que a imprensa olhe para além da orla gourmet e dos slogans de “Europa brasileira”.
Não aceito a chantagem emocional de quem confunde crítica institucional com ódio ao povo.
O catarinense trabalhador, explorado e discriminado – inclusive por conterrâneos de “sangue europeu” – é meu aliado, não meu alvo.
Quanto ao folclore linguístico, fico até lisonjeado: para chamar alguém de “cú de encrenca” e “tanso” em comentário anônimo é preciso ter esgotado todos os argumentos de fato e de direito.
Entre ser “istepô” por apontar vala, racismo e promiscuidade entre crime e Estado, e ser mascote dócil de uma fantasia separatista branca e limpinha, fico com a primeira opção sem pestanejar.
Sigo escrevendo, investigando e publicando.
Se isso incomoda tanto, é porque a Santa Catarina vendida nos cartões‑postais não resiste a um pouco de luz ; nem ao cheiro da terra recém‑revolvida. Por fim , todos os epítetos regionalistas que me foram atirados – “tanso”, “istepô” e congêneres – ajustam‑se com muito mais precisão a quem, por devoção bovina ao “Véio da Havan”, elegeu e seguirá elegendo filhos de Bolsonaro como se fossem representantes naturais do povo de Santa Catarina.
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Delegado 🍌 BAH THE
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Segundo a imprensa, dois, desses coitadinhos, tinham passagem pelo sistema prisional, inclusive ostentando tatuagens de palhaço e outras mais. Quem é policia de verdade, sabe o que isso significa. Os “meninos” sairam para beber, e foram encontrados, dias depois, sem os olhos, nariz…típico de execução do comando. Foram se meter no local errado.
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Segundo a PCSC , conforme diversas matérias jornalísticas que podem ser consultadas , eles não tinham passagens . Foram torturados e depois executados a tiros . Enterrados sem cuidados em covas rasas; encontrados em adiantado estado de putrefação. Obviamente, sem olhos e sem narizes já carcomidos pelos vermes. Quem é polícia de verdade sabe que tatuagem não diz nada . Se dissesse a gente poderia eliminar uma considerável parcela de policiais .
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