Número de PMs candidatos às eleições municipais aumenta 62% no estado de SP 3

Folhapress

Josmar Jozino

Colunista do UOL

22/08/2020 04h03

O número de policiais militares da ativa afastados para disputar as eleições municipais no estado de São Paulo aumentou 62% este ano em comparação com o pleito de 2016.

Em 2020 foram desligados de suas funções 336 policiais militares. Vão concorrer às eleições 24 soldados, 246 cabos, 34 sargentos, sete subtenentes, 22 capitães, 1 major e dois tenentes-coronéis. O prazo para o afastamento terminou no último dia 15.

No pleito municipal de 2016 pediram afastamento 207 policiais militares, sendo 24 soldados, 140 cabos, 22 sargentos, 5 subtenentes, 9 capitães, 5 majores e dois tenentes-coronéis.

As relações com os nomes dos policiais militares que pretendem se candidatar a prefeito ou vereador neste ano foram publicadas nas edições de 3 de abril e de 13 e 15 de agosto do Diário Oficial do Estado.

O Serviço de Comunicação Social da Polícia Militar foi procurado pela reportagem e forneceu apenas a lista dos nomes publicados na edição de 13 de agosto de 2020.

Foi perguntado ainda ao Serviço de Comunicação Social da PM se a corporação tinha conhecimento sobre o número de policiais militares inativos candidatos ao pleito municipal deste ano. A assessoria informou que “a Polícia Militar não dispõe dos dados dos policiais inativos”.

“Policial tem família, é munícipe”, diz ex-comandante pré-candidato

O ex-comandante da Polícia Militar do Estado de São Paulo, coronel Marcelo Vieira Salles, 53, é um dos inativos pré-candidato a uma cadeira de vereador na Câmara Municipal de São Paulo. Ele pretende concorrer pelo PSD.

Segundo o coronel, o número de PMs candidatos às eleições vem aumentando a cada pleito porque o policial militar ficou durante décadas alijado do processo eleitoral.

“O policial também tem família, é pai, é munícipe, mora na cidade, tem condições e quer participar do processo eleitoral para aprimorar a legislação e ajudar a construir um Brasil bem melhor”, argumentou o oficial.

Especialista critica politização da PM

Especialista em segurança pública, Rafael Alcadipani, professor de gestão pública da Fundação Getúlio Vargas, vê com preocupação o aumento no número de policiais militares candidatos às eleições.

“Esse crescimento é extremamente preocupante e demonstra uma politização da Polícia Militar em São Paulo e no Brasil. A maioria desses policiais tem como lógica o discurso violento de que bandido bom é bandido morto”, afirmou.

Na opinião de Alcadipani, o policial militar tem de exercer sua profissão e não ter a política como opção de carreira. “Realmente esse aumento no número de PMs candidatos às eleições preocupa e muito porque denota o perigo da contaminação política dentro da corporação”, acrescentou o professor.

Reportagem de Luís Adorno publicada no UOL em 27 de julho de 2018 já mostrava essa tendência de crescimento. O levantamento indicou que o número de PMs da ativa candidatos às eleições estaduais tinha aumentado 74%.

Em 2014 pediram afastamento para disputar o pleito estadual 38 policiais militares. Quatro anos depois, o número subiu para 66 PMs afastados da corporação para concorrer a uma cadeira na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo.

Casal de PMs é preso suspeito de furtar R$ 53 mil durante abordagem em SP 23

Dois PMs estão presos por suspeita de furto em São Paulo - Folhapress

Dois PMs estão presos por suspeita de furto em São Paulo Imagem: Folhapress

Josmar Jozino

Colunista do UOL

23/08/2020 08h48Atualizada em 23/08/2020 08h55

A Corregedoria da Polícia Militar de São Paulo prendeu em flagrante os soldados Rafael Valentine Reis e Ana Beatriz Santos da Rosa Oliveira, do 22º Batalhão, suspeitos de furtar R$ 53.863 de uma pessoa durante uma abordagem policial na noite da última sexta-feira (21), na zona sul da capital.

A vítima foi abordada pelos PMs às 21h15 na rua Elizabete Linley, no bairro de Americanópolis, Os soldados estavam em serviço e ocupavam a viatura 22305, da 3ª Companhia do 22º Batalhão.

Oficiais da Corregedoria da Polícia Militar foram avisados sobre o furto do dinheiro minutos depois da abordagem. Os tenentes Bonadio, Kolle e Santana revistaram a viatura utilizada pelo casal de soldados e nada encontraram.

Porém, na 3ª Companhia do 22º Batalhão, os oficiais realizaram uma vistoria nos armários e nos veículos dos policiais. Segundo a Corregedoria da Polícia Militar, o dinheiro estava escondido no Renault Sandero branco de Ana Beatriz.

A Corregedoria da PM registrou o APFD (Auto de Prisão em Flagrante Delito) 085/319/20. Rafael Valentine e Ana Beatriz vão responder a processo por peculato (quando um funcionário público se apropria ou desvia bens em razão de seu cargo).

Ambos foram transferidos para o Presídio Militar Romão Gomes, na Água Fria, zona norte da capital. O artigo 303 do Código Penal Militar prevê pena de quatro a 20 anos de prisão para esse tipo de crime. O UOL não conseguiu contato com os advogados dos dois policiais.

Procurada, a PM confirmou os dados apurados pela reportagem e informou que foi aberto inquérito para investigar o caso. Questionada sobre a identidade da vítima e por qual motivo os soldados ficaram com o dinheiro dela, o órgão não respondeu as indagações.

O 22º Batalhão da PM, no Jardim Marajoara, zona sul de São Paulo, é o mesmo que sofreu uma grande operação realizada pela Corregedoria da Polícia Militar e pelo Ministério Público Estadual em dezembro de 2018.

Na ocasião, 53 policiais militares foram presos acusados de ligação com traficantes do PCC (Primeiro Comando da Capital). Com eles foram apreendidos armas com numeração raspada, R$ 80 mil em espécie, além de drogas escondidas inclusive nos armários do batalhão.

Dos 53 PMs presos, 32 eram soldados, 13 cabos, sete sargentos e um subtenente. No ano passado, a Justiça havia condenado 42 policiais militares. As penas variavam de 5 anos a 83 anos de prisão.

Escutas telefônicas autorizadas pela Justiça apontaram que os PMs cobravam propina de traficantes do PCC para não coibir o tráfico de drogas na região patrulhada pelo 22º Batalhão.

O Ministério Público Estadual apurou que os pagamentos feitos aos policiais militares ocorriam semanalmente ou quinzenalmente e variavam de R$ 300 mil a R$ 500 mil.

Formação de policiais militares é ‘fábrica de monstros’, diz ex-tenente-coronel 12

Tese de doutorado aponta que PMs sofrem violências e humilhações em ritos de passagem

Fernanda Cruz/Agência Brasil

De acordo com levantamento da Ouvidoria de São Paulo, nos últimos 20 anos, o número de mortes de civis pela PM cresceu 46%

São Paulo – A militarização das polícias produz efeito psíquico grave aos profissionais, que passam por uma “fábrica de monstros” durante seu período na escola de formação. A afirmação é do tenente-coronel aposentado e doutor em Psicologia Adilson Paes de Souza, que publicou estudo apontando os motivos da letalidade de policiais militares, em São Paulo.

Em sua tese de doutorado na Universidade de São Paulo (USP), intitulada Policial que mata: estudo sobre a letalidade praticada por PM de São Paulo, Adilson apresenta um estudo com base em depoimentos de policiais que aceitaram falar sobre suas rotinas. Ele afirma que, apesar das indefensáveis atitudes dos agentes, é preciso de um debate mais amplo sobre a violência da Polícia Militar, pois o problema passa pela formação dos profissionais.

“Eles criam um novo ser, um guerreiro mesmo. O rito de passagem são atividades metódicas para violentar, humilhar e degradar o novo membro, para que se alinhe aos valores da instituição. É a morte do ‘eu civil’ para a criação do ‘eu militar’”, descreve o especialista a Marilu Cabañas, no Jornal Brasil Atual.

Durante as entrevistas realizadas, Adilson notou que as mesmas práticas pelas quais passou, durante sua formação na década de 1980, continuavam a ser adotadas 30 anos depois. “São as mesmas coisas aplicadas, com atividades físicas violentas, como a ingestão de gás lacrimogêneo, violência física, queimaduras, privação de sono e humilhações”, lamentou.

Onipotência e supremacia

Durante a escola de formação, os policiais são obrigados a exaltar sua onipotência e supremacia, privados de mostrar medo e chorar, de acordo com o tenente-coronel. Sem relativizar a violência praticada pelos policiais, ele explica que as ações são consequências da experiência. “A letalidade pode ser um mecanismo de defesa para lidar com essas tensões criadas pelas organizações. Ele tem consciência e age com dolo, mas a discussão é mais ampla. É uma fábrica de monstros”, afirmou.

De acordo com levantamento da Ouvidoria de São Paulo, nos últimos 20 anos o número de mortes de civis pelos policiais militares cresceu 46%. Outros dados mostram que a Rota foi responsável por 104 mortes de pessoas em 2019 – aumento de 98% na comparação com o ano anterior.

Militarização

Para o tenente-coronel aposentado, o pleito sobre a desmilitarização das polícias é importante. De acordo com ele, o Decreto de Lei 667, em 1969, foi o estopim para a transformação das bases policiais, que viraram pequenos exércitos.

Os relatos que ele colheu para o estudo mostram que, após a formação, o policial não concebe o criminoso como uma pessoa, mas como um “ser desprezível que precisa ser eliminado”.

“São traços de eugenia. Há um relato de um policial que diz que se tornou uma pessoa pior e insensível depois da escola de formação. Teve outra pessoa que relatou tortura física no rito de passagem”, acrescenta.

Formação de policiais militares é ‘fábrica de monstros’, diz ex-tenente-coronel

Corregedoria do TJ-SP decide que apenas delegados e juízes podem lavrar TCO 19

ATRIBUIÇÃO EXCLUSIVA

Corregedoria do TJ-SP decide que apenas delegados e juízes podem lavrar TCO

Por Rafa Santos  – CONJUR 

Apenas delegados e juízes de Direito podem lavrar Termo Circunstanciado de Ocorrência, decide corregedor do TJ-SP
Reprodução 

O corregedor-geral da Justiça do Tribunal de Justiça de São Paulo, Ricardo Anafe, decidiu, no último dia 14 de agosto, que a lavratura do Termo Circunstanciado de Ocorrência (TCO) é uma atribuição do delegado de Polícia Civil que pode, excepcionalmente, ser feita por um juiz de direito.

Também determinou que a requisição de exames e perícias no caso de flagrante de uso ou posse de entorpecentes para consumo próprio, condutas descritas no artigo 28, da Lei nº 11.343/2006, são atribuições do delegado, podendo este ser substituído, em situações excepcionais, por juiz de Direito.

A decisão foi celebrada pela presidente do Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo (Sindpesp), Raquel Kobashi Gallinati Lombardi. “A Constituição determina, no parágrafo 4º, do artigo 144, o delegado de Polícia como autoridade competente para o registro da ocorrência, garantindo o correto andamento do inquérito, protegendo os interesses da sociedade e do próprio autor do delito”, afirma.

Clique aqui para ler a decisão
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PM – A TROPA DE CHOQUE DE BOLSONARO 4

atlas do bolsonarismo

A TROPA DE CHOQUE DE BOLSONARO

Pesquisa inédita traça perfil de policiais que, em postagens públicas nas redes, defendem ideias como fechamento do Supremo e do Congresso

RENATO SÉRGIO DE LIMA E SAMIRA BUENO

08ago2020_10h56

Foto: Alf Ribeiro/Folhapress

“Gilmar Mendes é um vaga****. Bolsonaro tá certo sim se quiser mandar tropas pra fechar o STF”

 “Maia é um bandido!!! Esse Congresso Nacional tem que fechar as portas, só tem rato!!!!”

Na naturalização do realismo fantástico que toma conta do país, frases como as que servem de epígrafe deste artigo são banalizadas e nem sempre transmitem com clareza da gravidade do que está sendo dito; nem sempre é possível perceber as consequências do que está sendo dito e, sobretudo, as consequências de expressá-las publicamente.

As duas frases acima foram extraídas das redes sociais por um amplo estudo que o Fórum Brasileiro de Segurança Pública está desenvolvendo, cujos primeiros resultados foram recentemente divulgados. São comentários públicos de policiais brasileiros aceitando que instituições da República como o Congresso e o Supremo Tribunal Federal (STF) sejam fechadas e que o presidente Jair Bolsonaro intervenha para romper com a ordem constitucional democrática do Brasil.

E esses não são casos isolados, infelizmente. Frases como essas são compartilhadas sem pudor por ao menos 12% de policiais militares, 7% de policiais civis e 2% de policiais federais que possuem contas nas redes sociais e interagem publicamente em grupos e páginas do Facebook. São, se extrapolada a amostra do estudo, estatisticamente representativas de um grupo de cerca de 15,3 mil policiais analisados, de um total de 141.717 policiais pesquisados.

E este número pode ser ainda maior, pois a pesquisa só analisou postagens públicas e não captou manifestações em perfis privados. Se aceitássemos que os policiais que se manifestam publicamente nas redes são um retrato dos demais, estamos falando, em relação aos 885.730 mil integrantes efetivos das polícias disponíveis nos Portais da Transparência, de algo como ao menos 120 mil policiais convertidos para discursos golpistas.

Ou seja, a tropa de choque de Bolsonaro nas polícias seria, hoje, equivalente a ⅓ do efetivo ativo das Forças Armadas. E, com um agravante, trata-se de uma tropa experiente e treinada, com acesso a material bélico e com poucos canais formais de controle externo. Se optarem pelo enfrentamento, dificilmente as demais forças de segurança e defesa do país, se aceitassem se contrapor a elas, conseguiriam subjugá-las sem grandes baixas e risco de convulsão social e guerra civil.

Nesse movimento e no entusiasmo muitas vezes panfletário, os próprios militares das Forças Armadas vão contra a doutrina de defesa nacional engendrada quando da criação da Escola Superior de Guerra (ESG) e que tinha, como parâmetro, a manutenção da integridade territorial do Brasil e o controle da capacidade bélica e da autonomia das polícias. Isso foi feito para se evitar novas crises como a Revolução Constitucionalista, de 1932, que antagonizou tropas federais e a Polícia Paulista.

No atual quadro, além de questões operacionais e tecnológicas associadas a um conflito, uma nova crise pode nascer de onde menos se espera, já que a tropa de choque bolsonarista está distribuída em todo o território nacional e não se resume a uma única corporação. A população está submetida à incerteza e, mais do que defender que um golpe é iminente, é nosso objetivo explicitar os riscos envolvidos e mobilizar os olhares para eles.

E isso não significa rotular todos os policiais apoiadores de Bolsonaro de golpistas, pois esse número seria ainda maior, porém incorreto e injusto. Nem todo policial que acredita em Bolsonaro é golpista, mas a parcela radicalizada e que reproduz discursos antidemocráticos preocupa e deveria ser objeto, essa sim, de monitoramentos de inteligência para se avaliar os riscos reais à institucionalidade democrática.

Assim, a adesão ao bolsonarismo não seria um problema para a ordem social democrática se parte do universo policial e das instituições de segurança não flertasse com a extrema direita e com concepções reacionárias, como demonstram grandes teóricos sobre polícia no mundo, como Robert Reiner, Jerome Skolnick, dentre outros. Uma pesquisa de Robert Reiner com policiais ingleses ainda na década de 1970 indicou que 80% da força policial se descrevia como conservadora, sendo que 18% destes alinhados à extrema direita e, muitas vezes, manifestamente contrários as pautas LGBTI+, marcados ainda pelo racismo e pelo tratamento discriminatório a dependentes químicos.

Os exemplos recentes da Alemanha e da França, que detectaram e agiram para conter movimentos extremistas formados por policiais e ex-policiais desses dois países, comprovam esse fenômeno e mostram que não há exagero em cobrar controle e, por que não, autocontrole daqueles que representam a face mais forte do Estado. Todavia, no Brasil, a questão não é de apenas convergência ideológica dos policiais; temos que considerar que as polícias, sobretudo as militares, gozam de uma grande autonomia operacional e caracterizam-se por um forte insulamento institucional e pela baixa transparência em relação aos seus protocolos e mecanismos internos de supervisão.

O problema está, portanto, no imponderável: no cálculo político que desconsidera variáveis que não estão totalmente claras e/ou que se acreditam ausentes. A nosso ver, esse é o principal risco da radicalização policial. Polícias são instituições de Estado e não podem servir ao projeto de poder A ou B. Elas são o braço armado do Estado em tempos de paz e, se não reguladas, viram-se contra, até mesmo, os seus integrantes que destoam do pensamento hegemônico, a exemplo da lista de policiais antifascismo produzida pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública e distribuída às Unidades da Federação.

Aliás, o debate sobre a lista está concentrado no Ministério da Justiça, mas poucos se deram conta de que a justificativa mobilizada pela pasta informa que a ação se dá no âmbito do SISBIN, Sistema Brasileiro de Inteligência, coordenado pelo Gabinete de Segurança Institucional, cujo titular, general Augusto Heleno, é peça-chave do bolsonarismo. Dito de outro modo, se o MJSP produziu o relatório e informou ao GSI, a questão é ainda mais grave, pois é o reconhecimento de que o SISBIN foi acionado para espionar adversários políticos e nada foi feito para coibir tal prática.

Se o GSI não foi informado, o argumento do ministro André Mendonça se fragiliza ainda mais, pois a operação não contaria, em tese, com o guarda-chuva legal do SISBIN e não poderia ser usada em uma investigação criminal – lembremos que a Operação Satiagraha foi anulada pelo Judiciário exatamente por produzir provas por meio da cooperação de agentes de inteligência e policiais.

Mas o ponto mais sensível é que, no caso da lista dos policiais antifascismo e ex-secretários nacionais, houve, em tese, o compartilhamento das informações com as unidades da federação, para a apuração de eventuais desvios de conduta e procedimentos administrativos. E, voltando à gravidade da adesão de policiais ao bolsonarismo mais radical, essa lista não foi denunciada por nenhuma secretaria e/ou polícia estadual, nem mesmo as subordinadas a governadores de oposição.

Em suma, estamos submetidos a um sistema de segurança profundamente opaco e com instituições policiais quase sem nenhum controle efetivo sobre o que elas podem ou devem fazer. E, pior, um sistema no qual as demais instituições ou se omitem ou aceitam que policiais sejam autônomos e decidam eles próprios seus mandatos e suas atribuições. Isso é perverso tanto para a população que tem que conviver com padrões operacionais geradores, muitas vezes, de mais violência, quanto é cruel até mesmo com os próprios policiais, cuja atividade cotidiana fica dependente de fatores que muitas vezes os punem de forma seletiva ou injustificada.

Por fim, soa repetitivo mas necessário lembrar que, em uma democracia, não basta o voto; as instituições precisam acreditar na transparência, na prestação de contas e na importância dos mecanismos democráticos de controle e supervisão do poder. Se nada for feito por elas para conter manifestações antidemocráticas, pouco adiantará lamentarmos a atual hegemonia do sectarismo de extrema direita no país e os avisos sobre os riscos do discurso salvacionista de Bolsonaro engolir os Robespierres do Congresso e do STF que hoje lhe dão sustentação política e instaurar um novo “regime do Terror” – só que agora no Brasil.

Caquistocracia bolsonarista – o governo dos piores líderes com o apoio dos mais desqualificados cidadãos 12

Caquistocracia, o pior de nós

É raro um governo sintetizar a podridão de uma sociedade, mas acontece

No dia 19 de abril de 2018, comecei esta coluna com o seguinte parágrafo: “Caquistocracia: governo exercido pelos piores indivíduos de uma sociedade. A palavra já andou borboleteando por aí, mas não consta de nenhum dicionário de português que eu conheça. Talvez devesse constar”.

Desde então a palavra ganhou alguma circulação e pipocou em dicionários, inclusive no Houaiss, mas a verdade é que ainda não estava madura. Palavras correm atrás da realidade, não na frente. Naquele momento, Jair Bolsonaro era apenas um azarão na corrida presidencial.3

Talvez nem ele imaginasse que iria, alguns meses depois, conquistar pelo voto o direito de instituir a caquistocracia emplumada em que hoje o Brasil se esfola e se despedaça.

Não é uma caquistocracia qualquer. A experiência caquistocrática brasileira aspira seriamente ao título de mais completa e ousada da história. Tudo indica que a hora da palavra chegou.

Em inglês, o termo “kakistocracy” existe –e é marginal– há séculos. Em 2018, o pretexto para falar dele aqui foi o interesse momentâneo que tinha despertado depois de aparecer no ataque de um ex-diretor da CIA, John O. Brennan, ao governo de Donald Trump.

Fazia sentido: o bufão perverso que ocupa a Casa Branca é, com muitos topetes de vantagem, mais merecedor do mimo do que predecessores como Ronald Reagan e Barack Obama, que também chegaram a ser agraciados com a palavra na guerra retórica da política.

Historicamente, “caquistocracia” está aí para isso mesmo. Com seu jeito de comédia erudita, junta dois elementos gregos –“kakistos”, superlativo de “kakos” (mau, ruim), e “kratía”, poder– num xingamento sofisticado, uma hipérbole insultuosa.

Não é uma palavra que cientistas sociais costumem levar a sério em suas reflexões, como democracia, autocracia, aristocracia e outras da família. Tem mais a ver com a volatilidade do insulto lusófono “canalhocracia”, dicionarizado pela primeira vez por Cândido de Figueiredo em 1913.

Entende-se. É raro que a caquistocracia possa ser tomada ao pé da letra para nomear um governo que, de fato, reúne aquilo que de mais vil e grotesco um grupo humano tem para oferecer, sua pior versão possível, o esgoto exibido na sala de estar. Até por razões de sobrevivência social –o componente necessário de autodestruição e loucura é grande demais.

Acontece, porém. Não há termo mais adequado a um governo em que os responsáveis pela saúde promovem a morte, os gestores da educação a vandalizam, os encarregados de preservar o meio ambiente o devastam, os timoneiros das relações exteriores colhem achincalhe mundo afora –e o presidente se chama Bolsonaro.

O curioso é que o mais catastrófico governo de nossa história, responsável por 100 mil mortos e contando, não se contenta em ser a apoteose da caquistocracia. Faz questão de agitar essa bandeira o tempo todo, para ninguém esquecer.

Aparentemente, não basta tocar em frente o projeto de entregar a gente inepta –ou coisa pior– tudo o que se deseja destruir. Deve-se frisar, de preferência com escárnio, a intencionalidade do bota-abaixo. A nomeação de uma blogueira de turismo para a Funarte é só o episódio mais recente.

Pensando bem, talvez caquistocracia corra o risco de soar como um eufemismo meio aguado no atual estágio da calamidade brasileira. Terá chegado a hora do neologismo “tanatocracia” –governo da morte?

Sérgio Rodrigues

Escritor e jornalista, autor de “O Drible” e “Viva a Língua Brasileira”.

Deus nos livre, mas se for parado pela PM, reze! 6

Jovem morto em ação policial fazia manobras com motos, reprimidas pela PM

Gustavo Vinícius Pereira dos Santos, 25, assistente administrativo que participa de "bololôs" por lazer e era amigo de Rogério, morto por um PM no domingo (9) - Marcelo Oliveira/UOL

Gustavo Vinícius Pereira dos Santos, 25, assistente administrativo que participa de ‘bololôs’ por lazer e era amigo de Rogério, morto por um PM no domingo (9) Imagem: Marcelo Oliveira/UOL

Do UOL, em São Paulo

12/08/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Rogério Ferreira Júnior, morto a tiros em abordagem da PM, se divertia com motos
  • Ele e outros moradores faziam manobras e barulho com o escapamento
  • Diversão é comum na periferia e sofre dura repressão
  • Amigo e líder comunitário relatam que jovem assassinado era trabalhador

O estudante Rogério Ferreira da Silva Júnior, 19, morto a tiros durante uma abordagem policial no Parque Bristol, na zona sul de São Paulo, era praticante do “bololô”, lazer que consiste em fazer barulho com o escapamento e malabarismos com motocicletas. Segundo adeptos da cena, a atividade sofre intensa repressão policial na periferia da capital e são comuns agressões e danos às motos.

Na tarde do último domingo, Dia dos Pais, não foi diferente. Era aniversário de Rogério, que pediu emprestada a moto nova do amigo Guilherme Porto, seu vizinho, para participar da brincadeira, quando a PM chegou à avenida dos Pedrosos, atrás do CEU Parque Bristol, e o derrubou da moto.

Poderia ser mais uma abordagem “corriqueira” da polícia, mas o soldado da PM Guilherme Tadeu Giacomelli, 22, com seis meses de atividade nas ruas, atirou e disse ter se assustado com o adolescente durante a abordagem. Rogério morreu no pronto-socorro.

Apesar de mortes, como a de Rogério, não serem comuns nas ações da PM contra os “bololôs”, os “esculachos” (abordagens policiais com xingamentos e agressões) da Polícia Militar contra os praticantes das manobras são usuais. A derrubada de motos como parte da abordagem também.

Derrubando moto

“Os PMs chegam ‘esculachando’ a molecada e derrubando moto. Muitos jovens acham normal apanhar da polícia desde que a moto não seja apreendida, mas não é normal. Se há infração de trânsito, tem que multar. Falta diálogo”, conta o educador Marcelo Dias, que dirige a ONG Novos Herdeiros Humanísticos.

Marcelo Dias, preso injustamente por 6 meses em 2018, milita em ONG da zona sul de São Paulo que auxilia famílias vítimas da violência policial - Marcelo Oliveira/UOL - Marcelo Oliveira/UOL
Marcelo Dias, preso injustamente por 6 meses em 2018, milita em ONG da zona sul de São Paulo que auxilia famílias vítimas da violência policial

Imagem: Marcelo Oliveira/UOL

A ONG atua na região e integra a Rede Protetora, um conjunto de organizações que promove os direitos humanos e denuncia casos de violência policial na região da zona sul conhecida como Fundão do Ipiranga, formada pelos bairros limítrofes com o ABC paulista.

Dias foi vítima de brutalidade policial e acusado de tráfico de drogas sem provas. Passou seis meses preso com base no testemunho de policiais militares. Absolvido por falta de provas, hoje está 100% envolvido com a ONG e a defesa dos direitos humanos em sua comunidade. A instituição ajudou no apoio à família de Rogério e no protesto realizado ontem pelos organizadores do bololô do Bristol.

“Faz parte da nossa missão preservar a vida em sua totalidade. Estamos solidários à família e a esse movimento. Que este caso, infelizmente, eduque o nosso povo a buscar por Justiça. Abrimos os caminhos para que se mobilizem, mas agora a comunidade é quem tomará a frente”, disse.

“Se for parado pela PM, reze”

“Foi o segundo caso de violência policial em cerca de três meses ali na região”, conta o assistente administrativo Gustavo Vinicius Pereira dos Santos, 25, formado em recursos humanos e que está fazendo pós-graduação. Além do trabalho fixo na recepção de uma unidade básica de saúde, ele complementa a renda como motorista de aplicativo.

“Nada justifica um policial matar ou dar tapa na cara de ninguém”, disse o jovem, que também foi vítima de violência policial.

Gustavo voltava para casa de carro depois de uma balada e havia consumido álcool. Ele admitiu a infração, mas, em vez de ser multado e ter o carro apreendido, foi agredido pelo policial.

“A comunidade sofre repressão constante por falta de um local adequado para o nosso lazer. Porque não podem disponibilizar um estacionamento, com food trucks, banheiros, uma ambulância e policiamento para que a galera possa fazer as manobras em segurança? Para rico tem eventos assim, porque para nós não?”, questiona.

Parque Bristol, na zona sul de São Paulo, onde morava e foi morto Rogério Ferreira da Silva Júnior, 19, durante abordagem policial - Marcelo Oliveira/UOL - Marcelo Oliveira/UOL
Parque Bristol, na zona sul de São Paulo, onde morava e foi morto Rogério Ferreira da Silva Júnior, 19, durante abordagem policial

Imagem: Marcelo Oliveira/UOL

“Ninguém é vagabundo. São jovens que estão produzindo, trabalhando para ter uma moto, ‘dar um grau’ [como são chamadas as manobras com motos]. São entregadores, motoboys, pedreiros, que curtem um lazer no domingo à tarde, horário em que está todo mundo acordado. A distribuição de brinquedos que fizemos nas comunidades no Natal ninguém vê”, diz.

“No fim de semana, queremos ter o nosso lazer: fumar um narguilé, beber, curtir um funk ou participar de bololô, mas, em dia de semana, todo mundo tem seu uniforme e é um brasileiro padrão. Quem é bandido, quer ostentar na noite, se drogar, não dar rolê de moto à tarde”, afirma.

“Perdi um amigo. Eu estou traumatizado. Todo mundo sabe que o Rogério era um cara trabalhador. Já tinha me ajudado em eventos, trabalhado também de ajudante de pedreiro. Ele se virava. Ele já teve uma moto de 100 cilindradas, mas agora estava sem. Por isso, na homenagem a ele estava escrito RP 100 [veja o post do Instagram acima]. Tem a ver com a motinho que ele tinha.”

Gustavo acrescenta que nem todas as abordagens policiais são violentas. “Eu já fui parado de moto, sem a CNH, mas estava com a carteira de trabalho no bolso e fui liberado, mas eu confesso que, ultimamente, tenho medo de morrer numa abordagem policial. Se alguém for parado em rua escura, tem que rezar o pai-nosso”, diz.

Novo protesto marcado

O jovem diz que seguirá mobilizado em busca de justiça e que neste final de semana haverá protesto novamente em homenagem a Rogério. “Só quero que o autor dessa morte responda conforme a lei. Que se cumpra a lei que ele jurou defender. O lema da PM é servir e proteger, não é matar”, afirma Gustavo.

O UOL questionou a assessoria de imprensa da Polícia Militar sobre qual a estratégia da PM para os bololôs e se a derrubada de motocicletas faz parte de algum padrão de abordagem. A assessoria disse que questionaria o batalhão local. Segundo a assessoria da PM, contudo, a estratégia da corporação nesses casos é semelhante à dos pancadões (festas de funk a céu aberto), mapeando os locais em que acontecem os eventos.

A morte de Rogério é investigada pelo Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), da Polícia Civil.

Para lembrar, mesmo neste momento de tristeza, como a PM costuma tratar policiais civis 10

Nilton gomes Sou policial civil aposentado e já fui policial militar por 10 anos, acho muito inoportuno o comentário do colega acima nessa hora de dor, principalmente para as famílias desses políciais, o colega deveria respeitar o momento e ficar calado.

 

Com todo respeito Nilton, mas neste momento de dor se a Polícia Civil continuar rastejando pra PM muitos de vocês serão algemados e espancados quando de eventuais abordagens.

Bastará dizer que é policial civil !

A morte desses três PMs servirá de pretexto para toda a sorte de abusos.

Aliás, que há anos praticam quando se trata de policiais civis!

Ficará pior !

Policial civil jamais entrega funcional e arma para outro policial, salvo superior hierárquico! 37

Fernandão DISE Na realidade os 3 PMs que perderam a vida nesse QRU, só demonstraram a gana de querer ferrar um policial civil , o que acabou custando-lhes a vida, nos meus 30 anos de policia civil para mi não existe isso de policia puxar numero de arma de policia, se identificou , PT SAUDAÇÕES, mas os mikes achando que realmente se tratava de um PC, o que lhes fizeram deixar de lado procedimentos de segurança , ate pq se soubessem que a funcional era falsa e se tratava de mala ja estaria algemado e encontrariam a outra arma, mas afrouxaram a revista e os procedimentos pq cientes de que se tratava de um charlie , e ja tinham tirado a arma e a funcional , foram pesquisar com o intuito e a gana de atrasar o lado do PC, so que não contavam e desacreditaram que do outro lado poderia ter um apetitoso que com uma glock 9mm portada nas costas viesse a dar cabo dos 3 antigoes tatiqueiros, fica demonstrado claramente a vontade de atrasar o lado dos PC, mas dessa vez a pica foi para o lado oposto, com certeza se fosse realmete um PC por estar alcoolizado dirigindo , abordando ja estaria em flagrante delito, detido, respondendo um PA e possivelmente com o pé na rua , pela inveja de pseudos colegas que tb ficaram naquelas filas enormes na acadepol mas não conseguiram entrar para a PC o que acarreta nessa rusga eterna.

Não concordo que seja por inveja; já foi o tempo  em que policiais militares poderiam ter inveja de policiais civis…

DE REGRA:  FILHA DA PUTAGEM , PURA ! 

Não sei se foi esse o espírito do caso em questão , mas a rotina e querer sim atrasar o lado e arrumar pretexto para um baculejo no automóvel . 

PM , muito mais do que inveja , nutre preconceito: todo PC é folgado e ladrão!  

Eu amo o povo da China, graças ao chinês o brasileiro pobre ainda possui um pouco de diversão , vestimenta e algum trabalho 17

China: oito coisas que todo mundo deveria saber - Endeavor Brasil

Observe cada produto que você consome: originais , genéricos e os contrafeitos…

Tudo made in China!

O melhor produto americano ou europeu é produzido , com rigorosa qualidade, na China.

Por sua vez, o empresário brasileiro é tão ordinário que nem sequer é capaz de imitar o mais falso dos produtos falsificados…

Desde a Ditadura Militar querem subsídios, reserva de mercado, proibição de importações , tudo isso para nos entregar lixo vendido a peso de ouro!

Por sorte , a maioria foi a falência !

A China , há muito tempo , no comércio , dá mais empregos e renda para os brasileiros  do que todas as multinacionais aqui estabelecidas há décadas.

Olhem para as nossas cidades !

Nem é necessário dizer sobre o nosso agronegócio…

Viva a China e viva aos chineses !

DEFENDA-SE DA PM – O mais do mesmo.Mais sangue, mais despreparo, mais covardia e mais “assassinatos” completamente injustificáveis. Haja retreinamento. 3

Infelizmente, o mais do mesmo. Enquanto a “Defenda PM” se dedica a judicializar questiúnculas sobre atribuição institucional para apuração de determinadas infrações penais, os recorrentes “assassinatos” protagonizados por PM’s continuam. Como desgraça pouca é bobagem, num deles a vítima fazia aniversário no dia em que foi executada.

Em apenas uma semana, em pleno “retreinamento” da PM para melhoria dos protocolos de “espancamento, de passamento, de fuzilamento, etc.”, dois motociclistas são covardemente “assassinado” com o mesmo “modus operandi”, ou seja, mata primeiro e depois mente no histórico do RDO. Só esqueceram que o monitoramento por câmeras não mente nunca.

Por outro lado, uma inédita ocorrência de execução sumária de uma guarnição inteira da PM por um averiguado, numa simples abordagem de rotina. Fiquei 37 anos na polícia e nunca soube de algo semelhante. Com todo respeito à memória dos policiais, como toda a guarnição fica junta, checando informações de arma e identidade do averiguado e nenhum deles, para a própria segurança da guarnição, fica na contenção do averiguado, mormente quando outro indivíduo o acompanhava?
Realmente, algo de muito errado acontece, e com certeza não é retreinamento que vai corrigir.
Me ajuda aí “Defenda PM”!

Por: amigo da ACADEPOL!

Pesquisa demostra que PMs são culturalmente inferiores em relação aos policiais Civis e Federais; disso – pior formação intelectual – resulta tanto ódio pelos diferentes e esse amor apaixonado por Bolsonaro…Diga-se, “amor de corno manso”! 12

PMs amam Bolsonaro e sertanejo tanto quanto odeiam LGBTs, mostra pesquisa

07/08/20 por Caê Vasconcelos – Ponte Jornalismo

Para Dennis Pacheco, pesquisador do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, dados demonstram a “subcultura das ruas e do cotidiano policial”

PMs posam para foto com bolsonarista em manifestação pró-Bolsonaro, em 1 de outubro em 2018 | Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

Fãs de sertanejo, apoiadores de Bolsonaro e odiadores da população LGBT+. Esse é o perfil de parte dos policiais militares brasileiros. Quem mostra isso é o estudo “Política e fé entre os policiais militares, civis e federais“, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública em parceria com a empresa de inteligência de dados Decode Pulse, que analisou interações públicas de perfis de policiais militares, policiais civis e policiais federais no Facebook.

Confira os primeiros resultados da pesquisa

Os pesquisadores usaram informações dos portais de transparência dos estados e da União para chegar em 885.730 policiais da ativa ou aposentados. A partir daí, localizaram 141.717 perfis de policiais no Facebook, dos quais sortearam 879 contas. Ao todo, foram analisadas 2.893.101 menções relacionadas à segurança pública no Facebook entre janeiro e junho de 2020.

Dennis Pacheco, pesquisador do FBSP, explica que o ponto central das mensagens é a pauta anti-LGBT, seguida pelos elogios ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Ambos os discursos são mais presentes entre policiais militares do que entre policiais civis ou federais.

Leia também: Violência contra protesto antifascista mostra de que lado a PM está

No total dos cargos mapeados, 69,2% eram de praças (soldados, cabos e sargentos). Dentro da corporação da Polícia Militar também há diferenças: o ódio aos LGBTs e o apoio ao presidente estão mais presentes nos praças: 92% do total de comentários contrários às pautas LGBTI foram feitos eles. Cerca de 41% desses PMs interagem com grupos bolsonaristas.

O apoio maciço da PM ao presidente Jair Bolsonaro não se reflete da mesma foram em outras grupos policiais. A maior ausência nesses grupos está entre os delegados da Polícia Civil: 93%. Cerca de 90% dos policiais civis de outras carreiras também não estão presentes em grupos bolsonaristas.

Entre os oficiais da PM, 65% não interagem em ambientes bolsonaristas. Entre membros da Polícia Federal, 88% dos delegados não estão em grupos bolsonaristas e 87% dos demais cargos também estão fora desses ambientes.

O ódio contra LGBTs também é menor entre policiais civis e policiais federais. Entre os policiais civis, apenas 5% deles está em ambientes bolsonaristas radicais contrários às pautas LGBTs. Entre os policiais federais não há qualquer tipo de interação contrária a esses grupos.

Nos ambientes bolsonaristas, a análise foi feita de duas formas: bolsonaristas, grupo com participação expressiva de seguidores de páginas relacionadas a políticos de direita, e bolsonaristas radicais, grupo com participação expressiva de páginas declaradas de fãs e militantes do presidente Bolsonaro.

“A baixa aceitação da institucionalidade democrática é o que mais preocupa, porque acarreta posicionamentos dos policiais mais alinhados a uma ideologia conservadora e tradicionalista do que a cadeia de comando. E isso é o que mais assusta, já que estamos falando em uma força de 700 mil pessoas armadas no país”, explica Pacheco.

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Diante disso, o estudo aponta que um em cada quatro praças da Polícia Militar demonstrou adesão nas redes sociais a pautas da extrema direita, identificadas com a agenda radicalizada do governo Jair Bolsonaro.

Ponte já mostrou diversas vezes o aparelhamento da PM pela extrema direita. No período eleitoral de 2018, ficou evidente a conduta partidária da PM paulista, em que os policiais tiraram fotos com apoiadores de Bolsonaro e expulsaram jovens negros das periferias que faziam um “rolezinho” no Masp.

No mesmo ano, a Ponte contou que o coronel Marcelino Fernandes, ex-corregedor da PM, que era responsável por investigar os crimes cometidos por policiais militares até o começo de 2020, apesar de se dizer “um defensor dos direitos humanos”, era apoiador de Bolsonaro, afirmava que Brilhante Ustra não era torturador e que Brasil não teve ditadura.

Em 2020, o posicionamento político voltou com força, quando um ato antifascista foi reprimido com violência enquanto uma bolsonarista, que carregava um taco de beisebol, foi retirada com delicadeza do ato.

A Ponte também contou que, no Rio de Janeiro, policiais que atuam em uma Unidade de Polícia Pacificadora nas favelas fazem apologia à violência nas redes sociais, ostentando armas e zombando do luto de moradores nas periferias.

Entre os assuntos mais compartilhados por policiais militares, 49% são comentários sobre política institucional, 24% tratam de comentários contrários à pauta LGBT+, 14% são de temas relacionados à sociedade civil, como a pandemia e a segurança pública, e 12% são direcionados a instituições democráticas, em que aparecem majoritariamente menções ao fechamento do Congresso Nacional e do STF (Supremo Tribunal Federal).

Leia também: PM de Doria espionou policial por pedir namorado em casamento

Para Pacheco, o fato de a diversidade ter avançado ao longo do tempo, com as lutas por direitos humanos, sociais e civis dos movimentos LGBTs, negros e de mulheres “mexe muito no quanto essa visão tradicionalista era sólida, mas hoje não é mais, por isso existe esse apego muito grande a visão patriarcal de mundo”.

Um exemplo disso são os ataques sofridos pelo PM Leandro Prior, que, em 2018, foi ameaçado de morte ao ser fotografado dando um selinho no namorado. Um ano depois, em 2019, Prior foi impedido de pedir o noivo em casamento com a farda da Polícia Militar. Este ano, foi perseguido por criticar Bolsonaro nas redes sociais.

Por isso, argumenta Pacheco, não dá para dizer que a ideologia representa a militarização das polícias. “É algo muito mais da subcultura das ruas do que da estrutura da PM, do fazer polícia e do cotidiano policial. Embora estejamos falando de um número baixo, de 25%, mas é quem lida com a população”.

Uma parte da pesquisa mapeou preferências musicais e elas também apresentaram uma tendência: 34% dos PMs têm predileção por sertanejo. Na sequência, aparece o rock com 20% e o gospel com 16%. Entre os policiais civis, o sertanejo também é o estilo musical mais ouvido, cerca de 30%, seguido pelo gospel, 16%, e pela MPB, 14%. Já os policiais federais ouvem mais rock, 44%, e o sertanejo fica em segundo lugar, com 28%.

As principais bandeiras defendidas pelos policiais militares são o conservadorismo nos costumes e valores (42%), patriotismo ou nacionalismo (32%), pacifismo (11%), bandeiras religiosas (9%) e apoio a causas sociais e em defesa dos direitos humanos (6%).

Para Pacheco, esse resultado em relação ao ódio aos LGBTs, é pior em relação à população trans, que é mais criminalizada e vulnerável. “Eu como LGBT e negro não me sinto à vontade para contar com a polícia em um caso de necessidade”, confessa.

O pesquisador avalia como um “choque” a mensuração dos discursos, já que “uma coisa é você saber que as polícias têm ideologia conservadora e outra coisa é ter a mensuração nos dados”. “Muito mais importante do que combater essa visão de mundo é regulamentar a atividade policial, já que sem isso o policial acha que pode fazer o que bem entender”.

“Se você não tem uma regulamentação, o Judiciário pode dizer que foi legítima defesa, resistência ou desacato em todos os casos, o policial se torna mais potente do que qualquer direito humano ou civil na medida em que a atividade dele não requer o respeito institucional”, completa.

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O fato de o racismo não aparecer diretamente nessa pesquisa, avalia Pacheco, também é um indicador: dentro dessa visão de mundo, o racismo é tão naturalizado que não é necessário falar.

“Você não falar sobre o racismo é a maior arma para que o racismo continue consolidado, para que as ações policiais que se voltam especialmente contra populações negras continuem assim”, aponta.

“As ações nunca foram ditas como racismo, supostamente, sempre foram amenizadas como atitude suspeita, tráfico de drogas, estar no lugar errado, andar de certa forma. Sempre foi a criminalização da pobreza e da negritude”, finaliza.

Pletora de brutalidades: o ódio, a indiferença, o egoísmo fizeram do Brasil uma terra sombria de gente feia, suja e ignorante por vocação 2

Bom. Por onde começar?
Talvez apontando o óbvio que ulula.
O primeiro legente, ao ver essas linhas, algures, praguejará: – C…, lá vem ele. O chato. O delegado que gosta de escrever. Ô sujeitinho atrevido. Pernóstico. Perifrásico. Como pode, um mero policial querer-se intelectualizado? É realmente muita petulância. Ele deveria fazer como a maioria, policiais ou não, e usar o pronome “mesmo” como se pessoal fosse, e parar de encher o saco.
Dizer o quê? Afora a parte do “mesmo” e do “querer-me intelectualizado”, condescendo com todo o resto – fazendo a óbvia ressalva de que policiais há que dão de 10 a 0 em muitos sedizentes especialistas.
Mas, de facto, eu devia fechar-me em copas e deixar o mundão sem minhas despiciendas considerações. Ocorre que eu não me contenho. Assoma-me uma comichão, e vejo-me premido a falar, a escrever.
Como efeito, malgrado o achincalhe e a risadaria geral, eu volto à carga. Por minha conta e risco. Digam-me chato. Já me reconheço como tal. Mas não pelos motivos epidérmicos. Por outros. Da minha escrita, não abro mão. Afinal, parafraseando o célebre João Ubaldo Ribeiro, não se faz exigível uma faculdade de letras para escrever “pletora”.
Feitas essas ponderações, prometo ser breve. H á pouco, eu estava em casa, na região central de São Paulo. Súbito, uma efusão, expressa em gritos de júbilo, irrompe janela adentro. No meu alheamento, supus tratar-se de uma manifestação. Tão recorrente nessa nossa contemporaneidade arrevesada.
Advertiram-me que não. Era a algaravia promovida por torcedores do Corinthians e do Palmeiras. Rivais de há muito. E empedernidos. Dei de ombros e prossegui no que vinha fazendo. Nada, a rigor.
Ao depois, ocioso que estava. Passei a ler as notícias pela internet . Logo saltou aos olhos a titulação de uma matéria em caixa alta. Em síntese: nosso Brasil atingira o tétrico montante de cem mil mortos pela covid-19.
Minhas sinapses agitaram-se. Eu me atrevi fazer uma ligação que, talvez, me torne ainda mais chato aos olhos da geral. Causou-me espécie este algo paradoxal: o grito vociferado de torcedores e o silêncio tumular pela marca tristemente atingida.
Continuei ruminando. Talvez fosse pedir demais certa circunspecção pelos cem mil brasileiros que tiveram a vida ceifada. Um minuto de silêncio, quiçá. Mero simbolismo? Nem discuto. Mas talvez um mínimo verniz para mascarar nosso lado selvático.
É claro que há uma outra perspectiva. O brado do time vencedor e o urro do perdedor podem ser uma manifestação catártica. Algo mais ou menos símile ao que houve no carnaval de 1919, e tão bem retratado pelo insuperável Nelson Rodrigues.
A peste espanhola estava no seu estertor, e a festa pagã nunca foi tão orgiástica. Talvez por ter sido pós-apocalíptica. Guardada as devidas proporções, faço a relação. E não concluo, ao final, se a manifestação dos torcedores exprime indiferença ou algo à guisa de catarse.
Mas de uma coisa eu sei: todos nós devíamos ficar compungidos com a marca taciturna dos cem mil. E, francamente, não sei se isso que ocorre. Talvez um muxoxo. A mim, todavia, a mim me parece que os brasileiros perdemos muito do nosso humanismo.
São tantas as enormidades que nos assacam. São tantas as nódoas que sobre nós recaem. E há tanto tempo. Sagramos, reparem, como a última nação, recalcitrante, a abolir a hediondez da escravatura. E isso, “porca miseria” nos remete a alguns vídeos recentes, em vales adjacentes.
Mas claro. A psique coletiva de um povo não passa incólume por tudo isso Brutalizamo-nos. Querem ver? Mesmo à frente, no enfrentamento de um vírus virulento, neófito para nós, e com potencial arquicomprovado de ceifar vidas aos borbotões, não houve entre nós brasileiros um armistício.
Singrem pela internet, e constatarão. Nunca estivemos mais beligerantes. A doxa vigente é a do ódio. Esmeramo-nos em reproduzir uma clivagem irreversível. E pior: de um modo a constranger a mais rematada caricatura. É um pastiche.
Os à esquerda, eles reproduzem uma dogmática que ignoram. Os à direita, também. É até difícil discernir as respectivas mundividências. É só uma maçaroca fermentada no ódio. Um ódio que não cede. Não cede mesmo ante cem mil mortos.
Mas não é só. Estamos em pleno mês de agosto. Atribuímos uma cor a esse mês específico. O lilás. Um simbolismo, e prenhe de semântica. Tudo para conscientizar acerca do antigo martírio da violência doméstica.
Por essas placas, mulheres são seviciadas e mortas amiúde. E não suponham que isso se dá por descaso dos órgãos oficias. Ao contrário. A polícia civil de São Paulo faz um trabalho incessante e digno de aplauso. E o faz todo santo dia.
Eu mesmo não tenho como computar quantas prisões em razão desse tipo especialmente nefasto de crime já fiz. O ministério público também não poupa esforços. Nem o legislativo, que mantém atual a tecnologia legislativa.
Ainda assim, em pleno mês de agosto – o mês elegido para conscientizar o brasileiros acerca desse problema nevrálgico – os casos pululam. Cada qual mais tristemente impressionante que o outro.
E redigo: seria injusto atribuir tal fato a uma inação dos órgãos competentes. Infelizmente, tudo parece expressão de uma insensibilidade que nos caracteriza como povo.
Infelizmente, brasileiros, parece, tornamo-nos insensíveis a simbolismos.

Dr. João – Delegado de Polícia