Carta de Despedida e Manifesto de Carreira Resposta

Ao encerrar uma jornada de 42 anos de dedicação integral à segurança pública, olho para trás com a certeza do dever cumprido, embora este desfecho tenha ocorrido de forma compulsória e contra a minha vontade.

Por décadas, atuei na linha de frente, dividindo com colegas de extrema competência o peso e a honra de proteger a sociedade. O reflexo desse empenho materializou-se em inúmeros elogios e reconhecimentos por ocorrências de destaque, que orgulhosamente carregamos em nossas ações de serviço.


A reta final desta trajetória, no entanto, trouxe um forte contraste entre o idealismo que sempre me moveu e a realidade imposta por um modelo de gestão recente.

Logo que a nova chefia assumiu a Delegacia de Polícia de São Bernardo do Campo, por exemplo, um setor que antes funcionava com plena eficiência passou a sofrer um esvaziamento inexplicável.

Dos 04 funcionários originais, o quadro foi reduzido para 03, depois para 02 e, no momento em que deixei o serviço, restava apenas 01 profissional.

Essa desestruturação foi agravada pela conduta da administração face àqueles que resistiram a esse novo sistema: colegas que eram excelentes profissionais, admirados por todos, foram sumariamente removidos e transferidos para outros locais.

Afastar quem de fato sabia trabalhar demonstra o impacto negativo dessa gestão, resultando em uma equipe profundamente desmotivada e infeliz diante de um desafio gerencial mal conduzido.


A mudança para a nova sede da instituição evidenciou de forma ainda mais severa essas lacunas de planejamento e a falta de empatia.

Profissionais veteranos, muitos deles já enfrentando restrições médicas e problemas de saúde preexistentes, foram submetidos ao esforço físico de carregar mobiliários, arquivos pesados e divisórias, sem qualquer suporte ou condições saudáveis de trabalho, durante a mudança para uma nova sede.

Tudo isso em uma estrutura predial precária, com elevador inoperante, exigindo deslocamentos constantes por escadas.


Como desfecho desse cenário de precariedade, fomos surpreendidos com uma escala de revezamento para exercer funções de portaria.

Esse desvio de função técnica e operacional acabou distribuído de maneira desigual, poupando círculos de proximidade da chefia — protegidos ao redor do “rei” — e sobrecarregando aqueles que mantiveram o foco estritamente profissional deslocando para esta função.


Sempre acreditei na cooperação mútua para o bom andamento do serviço. Por essa razão, cheguei a arcar com recursos do próprio bolso para viabilizar o transporte de materiais e içamento de um cofre para o setor e garantir um armário forte adequado para a guarda segura de equipamentos institucionais.

Fiz isso de forma voluntária, visando o bem coletivo e a salvaguarda do patrimônio, sem qualquer contrapartida do Estado. Infelizmente, diante do tratamento recebido na despedida da carreira, esse esforço individual hoje se traduz em arrependimento.


O preço físico dessa jornada também cobrou seu tributo. Deixo o serviço ativo com o agravamento severo de dores na coluna lombar e o diagnóstico de fascite plantar, marcas físicas de um período de transição desgastante e mal gerido.


Encerro este ciclo com a cabeça erguida pela história construída ao lado de heróis na linha de frente, mas com o firme desabafo de quem esperava que a lealdade de uma vida inteira à instituição fosse devolvida com o mínimo de dignidade, respeito e consideração institucional.