
O texto que segue resulta diretamente da recentíssima entrevista do tenente‑coronel Geraldo Leite na programação policial da TV Record, emissora de perfil notoriamente cristão/evangélico, na qual o principal suspeito da morte do soldado Gisele passou a exibir – tardiamente – uma versão devocional e “edificante” dos fatos, em evidente contraste com o que consta dos autos e dos primeiros relatos oficiais.
Absurdamente , não bastasse o verniz cristão de última hora, o próprio suspeito faz questão de deixar escapar o subtexto econômico da sua via‑crúcis conjugal: teria dito à mulher que gastava R$ 7.000,00 por mês para viver sozinho, como se confessasse, em off, aquilo que o enredo todo sugere nas entrelinhas que o tenente‑coronel se sentia explorado pela “oportunista” que lhe custava caro.
Algo como se a cobrasse …
E na leitura “flitadora mamonisticamente assassina” : me passaram a mão na bolso e ainda não comi ninguém!
Enredo carnavalesco para eventual Tribunal do Júri .
O tenente-coronel cristão que diz ter orado um pouco antes de a mulher se matar coloca o público diante de um dilema simples: ou ele é um baita mentiroso, tentando comprar a compaixão do povo ignaro – em especial dos cristãos – ou então Cristo é surdo e perverso.
De uma hora para outra, o principal suspeito da morte do soldado Gisele descobriu Deus, a oração matinal e a “transparência absoluta”.
Na cena do crime, porém, quem encontrou o corpo, quem fotografou o banheiro seco e quem registrou a cronologia das ligações não viu nem devoção, nem transparência – viu um oficial calmo, seco e rapidamente protegido.
A narrativa que agora desfila na Record parece menos memória e mais peça de marketing jurídico‑religioso: acordei às 7h10, fiz minhas orações, até o quarto dela…, recita o tenente‑coronel, como se estivesse numa homilia, não respondendo por uma morte violenta dentro do próprio apartamento.
Cristo que a tudo e a todos perdoa , né?
Um homem de bem , um dos nossos , errou …
Mas a moça não pode ser ressuscitada…
Para que condená-lo, então ?
O roteiro devocional não consta dos primeiros relatos, dos primeiros registros, da fria burocracia do boletim de ocorrência.
Ele aparece apenas agora, quando a versão original – o suicídio conveniente – começou a ser desmontada por peritos, socorristas e pela própria exumação.
Isso vale para a justificativa técnica “perfeita” – o advogado dele é notoriamente excelente – para não socorrer a esposa baleada: o oficial diz que não tocou na vítima “para não mexer na cena do crime”.
Um ser humano normal corre, grita, tenta reanimar; um experiente policial, idem!
A ideia de renunciar ao socorro em nome da cadeia de custódia é tão juridicamente redonda que cheira a reunião com Ministro do STF , não é uma ocorrência instintiva de marido em choque.
Curiosamente, também não se ouviu essa história, com esse refinamento, nos primeiros dias – ela surgiu depois que o noticiário começou a perguntar, com toda razão, por que ele nada fez.
Enquanto isso, os fatos duros insistem em não se converter à fé do coronel. Bombeiros e PMs relatam que ele estava seco, sem pegadas molhadas, sem toalha, apesar de jurar que saía do banho e que o chuveiro seguia ligado.
As fotos mostram banho e troca de roupa após a morte.
A polícia registra limpeza do apartamento por policiais, após a perícia.
E, ao fundo, um desembargador “amigo” subindo ao local, convocado pelo investigado em plena manhã de morte.
Cada um desses dados fala alto – mais alto do que o “nada a esconder” repetido em tom pastoral diante das câmeras.
Também é sintomático como a dramaturgia conjugal só ganhou núcleos quando se viu que o caso iria para o Júri.
Dormiam separados há oito meses, ele acorda, ora, bate na porta, fala em separação com a serenidade dos justos, ela se levanta, empurra o marido e bate à porta “com muita força”.
É uma cena escrita, com diálogos e marcação de corpo.
Servir para duas funções clássicas de defesa: transformá-la em figura descontrolada, emocionalmente frágil, e apresentá-lo como marido sereno, resignado, quase mártir. E provedor explorado!
Nada disso estava nos autos como relato espontâneo; tudo isso está, agora, no script televisivo cuidadosamente polido.
A mesma lógica de “ressignificação” atinge as condutas mais graves. Tomar banho e trocar de roupa depois do episódio – fato objetivo, filmado – vira, no novo evangelho do coronel, um gesto orientado por terceiros, para “baixar a pressão” e “ir apresentável à delegacia”, com a frase pronta: “não tomei banho para tirar vestígios de sangue”.
A higienização do apartamento por PMs – igualmente documentada – deixa de ser interferência em cena de crime para virar ato de caridade do comandante, “pensando no bem‑estar da família de Gisele”.
Que o comandante também seja investigado !
A presença do desembargador não é influência institucional; é visita de amigo de 30 anos.
Tudo ganha roupagem edificante, tudo se espiritualiza, tudo é relido à luz da conveniência defensiva.
Por fim, as acusações contra o advogado da família e contra qualquer testemunha que ouse contrariar o roteiro oficial vêm embalada na linguagem de rotina de falsas vítimas : “narrativa para me incriminar”, “ataques impiedosos”, “inverdades”.
É o velho truque: o ocupante do topo da posição – homem, oficial, armado, com acesso ao desembargador – veste a túnica de perseguido, enquanto a mulher morta, com marcas de violência e um tiro na cabeça, é vendida como exploradora , interesseira , capaz de tudo para “se dar bem” !
O que não cola com suicídio!
Ademais , ele afirma que arrumou o cargo para a mulher na Comarquinha Mais Cara Do Mundo …
Tal afirmação deve ser muito bem explicado …
Qual a “corrida” que ele tem para colocar a mulher num serviço tranquilo e bem remunerado por nada…Uma boca rica!
E uma imprensa popular, sedentária por exclusivas, oferece o púlpito perfeito para esse melodrama tardio.
No fim, o que sobra não é fé, é cálculo.
As “orações”, a “transparência”, o zelo súbito com a cena do crime, o banho que “não foi para tirar vestígios”, a caridade higienizadora do comandante, o desembargador “apenas amigo”: todos são elementos edificantes, cuidadosamente plantados depois que a cronologia real, os vestígios físicos e a palavra dos que foram lá encontrados a corroer a versão original.
A vítima não pode se defender; o coronel, sim!
E fê-lo como um sermão em horário de público de identidade religiosa ; não com a cruz dos autos.
Mentiroso!
Eu era ainda um jovem promotor de Justiça! Nessa condição recebi, com certa alegria, a designação de um julgamento pelo tribunal do júri naquela pequena comarca com não mais de 15.000 almas. O processo estava prontinho havia tempos, à espera da designação de um promotor para a comarca. Os fatos se apresentavam inquestionáveis: um conhecido comerciante local, nascido e criado ali mesmo, onde se casou com uma linda mulher e teve dois filhos na época ainda menores, emprestara determinada quantia em dinheiro para um amigo de infância, que depois se negava em pagar. O credor, aborrecido com as desculpas esfarrapadas e, mais ainda, com a possibilidade de levar o “cano”, matou o devedor com dois tiros certeiros. Tudo isso estava provado no processo. Dois ou três dias antes do júri, aportou na cidade um advogado por ali desconhecido. Na barbearia da praça – soube eu depois -, em meio à prosa interiorana, indagado pelo “seu” Chico, barbeiro ali havia 40 ou 50 anos, se estava de “passagem”, respondeu-lhe que iria fazer a defesa do Pedrinho, que matara o amigo de infância. Poxa! Disse o “barbeiro”, matar por dinheiro e “dinheiro pouco!!! Que nada! retrucou o advogado. “Pediu o dinheiro emprestado, não pagou e ainda por cima ‘comeu a mulher do credor’ “. Falou para a pessoa certa! A “versão” se alastrou de tal maneira, que, instalada a sessão de julgamento, o que eu via na “cara” de cada um dos 21 jurados (dos quais 7 iriam por sorteio compor o conselho de sentença) era “dó” do acusado. Seis a hum pela absolvição (“legítima defesa da honra” – nos dias de hoje tese inadmissível). Espertamente o advogado, contratado à última hora, sem poder inovar a tese defensiva, porque nos autos, nem na realidade, nada havia sobre !traição”, expôs sua “tese” inicialmente na barbearia, e depois no bar, e depois na praça. Apelei, e antes que o processo retornasse do tribunal, fui promovido e soube muito tempo depois que o julgamento fora anulado, por 2 a 1. Ainda houve 1 desembargador que entrou nessa conversa de “salão de barbeiro”.
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Dr. Tovani , bem assim ! O terreno já está sendo preparado para o tenente-coronel de São José dos Campos , ligado ao grupo de poder do vice-governador!
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