Por anos a fio, ele conseguiu ludibriar detetives, investigadores, delegados, a Justiça e até mesmo a Interpol, a polícia internacional. Escondeu-se na América do Sul, na Europa e no Oriente Médio. Só abandonou de vez os esconderijos, disfarces, nomes e documentos falsos após a prescrição de um tríplice homicídio e uma tentativa de homicídio.
Protagonista da Chacina da Ponta da Praia, um marco na crônica policial de Santos, o engenheiro químico Alberto Pisaneschi, hoje com 69 anos, está de volta ao Brasil. Ele não pode mais ser processado, levado a júri popular e, muito menos, ser preso pelas mortes da ex-namorada Vera Lúcia Galvão de Lima, de 16 anos, do médico Josedyl Camargo de Lima e de Eneida Flaquer Nunes Galvão, pais da jovem. Da mesma forma, não responderá pela tentativa de homicídio de Vera Camargo Galvão, irmã de Eneida.
A matança ocorreu na manhã de 23 de julho de 1974 e teve como palco a casa de Vera Lúcia, na Rua 1º de Maio, 90, até então na Ponta da Praia (o bairro da Aparecida só foi criado em 1983). A decisão foi tomada às 2 horas da madrugada daquela terça-feira, quando, após escrever uma longa carta à sua mãe, Pisaneschi convocou seu motorista, Sebastião Pedro Quirino, que se encontrava na Empresa de Ônibus São José, em Santo André (SP), de propriedade da família. Pediu-lhe que o trouxesse a Santos em uma Variant da companhia de transportes.
Quirino e o patrão chegaram a Santos por volta das 4h30. Na Avenida Coronel Joaquim Montenegro, próximo à sede da PM, o engenheiro desceu do carro carregando um pacote, no qual havia um galão com cinco litros de gasolina azul e uma barra de ferro, além de duas pistolas 7.65. O motorista retornou a Santo André, e Pisaneschi dirigiu-se à Rua 1º de Maio.
OS CRIMES
Segundo apurou a polícia, o médico Josedyl Camargo de Lima saía da garagem às 5h30, com seu Karmann-Ghia, a caminho da Santa Casa de Santos, e foi surpreendido pelo namorado da filha, que o matou com dois tiros na nuca. Em seguida, o engenheiro invadiu a casa e atirou na tia da ex-namorada, que dormia em um dos quartos, mas esta, mesmo ferida, conseguiu sobreviver à chacina. Houve gritos e correria.
A mulher de Josedyl, Eneida, tentou fugir e foi alcançada na porta, sendo também executada. A jovem Vera Lúcia, que assistiu ao assassinato dos pais, correu para a rua, à procura de socorro. Foi agarrada pelo engenheiro, ainda na calçada da Rua 1º de Maio, a duas quadras de sua casa, e executada com três tiros na cabeça.
Pisaneschi tinha intenção de atear fogo à casa e se matar, conforme relatara na carta escrita de próprio punho à mãe, mas mudou de ideia. Sumiu do mapa, sem deixar qualquer pista. Como, à época, julgamentos à revelia do acusado não eram previstos pela legislação, ele ficou à espera da prescrição de seus crimes, o que ocorreu 20 anos depois da pronúncia, feita em outubro de 1979, e 25 anos e 3 meses após a data dos crimes.
FRUSTRAÇÃO DO PROMOTOR
“Minha grande frustração em 40 anos como promotor foi não ter colocado esse rapaz na cadeia”, diz o promotor de justiça Otávio Borba de Vasconcelos Filho, assinalando que hoje a história seria bem diferente. Desde 2008, explica Borba, em caso de fuga do criminoso, com ou sem réu, pode haver julgamento. “Infelizmente, contudo, o covarde assassino Alberto Pisaneschi não será punido, perante a lei dos homens, pelos seus crimes”.
Por onde andou Alberto Pisaneschi durante o longo período em que foi um fugitivo da Justiça? Como ele conseguiu escapar das polícias brasileira e internacional? E por qual razão decidiu exterminar toda uma família santista? Quando surgiram os primeiros indícios de que o engenheiro havia retornado ao Brasil, A Tribuna saiu à sua procura, localizando-o em São Paulo. O engenheiro, no entanto, não quis conceder entrevista, pois disse que não queria relembrar a Chacina da Ponta da Praia.
MISTÉRIO DESFEITO
A seguir, a equipe de reportagem procurou, em Santo André, o empresário Duílio Pisaneschi, irmão do engenheiro, que revelou alguns detalhes da vida de fugitivo de Alberto, o suficiente, entretanto, para desvendar o grande mistério sobre sua vida errante no exterior.
Duílio alega não saber detalhes da fuga do irmão. Observa, entretanto, que ela não foi planejada, como comprova a carta à mãe, redigida com antecedência. Segundo uma das hipóteses levantadas pela polícia à época, Alberto mudou seus planos devido à fuga da ex-namorada da casa para a rua, onde foi alcançada e morta. Há também quem acredite que ele teria desistido de praticar o suicídio por ter descarregado toda a munição das pistolas em suas vítimas.
Após o tríplice homicídio, Alberto perambulou pela América do Sul e a Europa, até se fixar no Oriente Médio. Consta que chegou a casar quando estava foragido, mas não teve filhos, e se separou da mulher, uma espanhola. “Meu irmão sempre foi muito inteligente e falava cinco idiomas quando saiu do Brasil. Isso facilitou sua fuga e permanência no exterior”, explica Duílio.
Em sua última escala antes de voltar ao País, o engenheiro trabalhava em empresas de exploração de poços de petróleo. Naquela região, reencontrou um colega, outro engenheiro químico que lá já havia se estabelecido, e a partir de então adotou hábitos árabes, o que dificultou seu reconhecimento e captura.
PENA FAMILIAR
Por diversas vezes o advogado do engenheiro, Paulo Sérgio Leite Fernandes, tentou convencê-lo a voltar do exterior para se entregar e ser levado a júri popular. Não obteve sucesso. Pior para os Pisaneschi, na avaliação de Duílio. “Nossa família foi quem cumpriu e pagou a pena que seria dele, pois tivemos nossas vidas pessoais, familiares, empresariais e política reviradas”, afirma.
Os dez primeiros anos após os crimes foram os piores, segundo o empresário. Ele recorda que a polícia, volta e meia, cercava a empresa de ônibus da família à procura do irmão. Além disso, interceptava correspondências e telefonemas.
Os filhos de Duílio iam para o colégio escoltados por seguranças, porque havia o medo de uma vingança. “Só que o crime foi praticado por meu irmão e nós nunca tivemos nada a ver com o que ocorreu”. E menciona: “Ao contrário, sempre o orientamos a largar o romance que não estava dando certo e pedíamos que esquecesse a namorada pela qual se dizia muito apaixonado”.
Durante muito tempo, os irmãos ficaram sem ter notícias um do outro. O contato foi retomado por intermédio do engenheiro químico que Alberto reencontrou no Oriente Médio, mas só quando este vinha ao Brasil.
“Meu irmão estava bem no Oriente Médio, deveria ter ficado por lá. Diz que voltou por causa de nossa mãe, que está com 91 anos, e que ela foi a única que o aceitou e ficou contente com o seu retorno”, relata Duílio, assinalando que Alberto se nega a falar sobre os crimes.
Alberto Pisaneschi é hoje proprietário de uma empresa de importação e exportação, com sede em São Paulo e filial em Buenos Aires, na Argentina. A exemplo da postura adotada em relação à família, o autor da Chacina da Ponta da Praia se negou a relembrar o passado para A Tribuna. E justificou: O que está no passado, vai ficar no passado.
Advogado do engenheiro, Paulo Sérgio Leite Fernandes, por questões de ética profissional, também se recusou a abordar o assunto. Mencionou, entretanto, um fato ocorrido há 36 anos: “O Alberto esteve em meu escritório e eu lhe disse, com convicção, que em 20 anos estaria livre. E cumpri a promessa: fui a Santos peticionar ao Tribunal do Júri, alegando a prescrição dos crimes, extraindo as certidões com a baixa e arquivamento do processo”.