O fim do Blog do Pannunzio
Este é o último post do Blog do Pannunzio. Escrevo depois de semanas de reflexão e com a alma arrasada — especialmente porque ele representa um vitória dos que se insurgem contra a liberdade de opinião e informação.
O Blog nasceu em 2009. Veiculou quase oito mil textos. Meu objetivo era compor um espaço de manifestação pessoal e de reflexão política. Jamais aceitei oferta de patrocínio e o mantive exclusivamente às expensas do meu salário de repórter por achar que compromissos comerciais poderiam conspurcar sua essência.
Ocorre que, em um País que ainda não se habituou à crítica e está eivado de ranços antidemocráticos, manter uma página eletrônica independente significa enfrentar dificuldades que vão muito além da possibilidade individual de superá-las.
Refiro-me às empreitadas judiciais que têm como objetivo calar jornalistas que não se submetem a grupos politicos, ou a grupos de interesse que terminaram por transformar a blogosfera numa cruzada de mercenários virtuais.
Até o nascimento do Blog, enfrentei um único processo judicial decorrente das milhares de reportagens que produzi para a televisão e o rádio ao longo de mais de três décadas. E ganhei.
Do nascimento do blog para cá, passei a responder a uma enxurrada de processos movidos por pessoas que se sentiram atingidas pelas críticas aqui veiculadas. Alinho entre os algozes o deputado estadual matogrossense José Geraldo Riva, o maior ficha-suja do País; uma quadrilha paranaense de traficantes de trabalhadores que censurou o blog no fim de 2009; e o secretário de segurança de São Paulo, Antônio Ferreira Pinto, cuja orientação equivocada acabou por transformar a ROTA naquilo que ela era nos tempos bicudos de Paulo Maluf.
A gota d`água foi uma carta que recebi do escritório de advocacia que representa Ferreira Pinto num processo civil, que ainda não conheço, comunicando decisão liminar de uma juíza de primeiro grau que determinou a retirada do ar de um post cujo título é “A indolência de Alckmin e o caos na segurança pública”. O texto contém uma crítica dura e assertiva sobre os desvios da política adotada pelo atual secretário e pelo governador, mas de maneira alguma contém afirmações caluniosas, injuriosas ou difamatórias.
A despeito dessa convicção, o post já foi retirado do ar. Determinação judicial, no entendimento deste blogueiro, á para ser cumprida. Vou discuti-la em juízo assim que apresentar minha defesa e tenho a convicção de que as pretensões punitivas de Antônio Ferreira Pinto não vão prosperar.
Ocorre que o simples fato de ter que constituir um advogado e arcar com o ônus financeiro da defesa já representa um castigo severo para quem vive exclusivamente de fontes lícitas de financiamento, como é o meu caso. E é isso o que me leva à decisão de paralisar o Blog. A cada processo, somente para enfrentar a fase inicial, há custos que invariavelmente ultrapassam cinco ou dez mil reais com a contratação de advogados — e ainda assim quando os honorários são camaradas.
É por estas razões que esta página eletrônica vai entrar em letargia a partir de agora. O espaço vai continuar aqui, neste endereço eletrônico. O acervo produzido ao longo dos últimos quatro anos continuará à disposição dos internautas para consulta. E eventualmente, voltarei a dar meus pitacos quando entender que isso é necessário. Mas a produção sistemática de textos está encerrada.
Espero voltar a esta atividade quando perceber que o País está maduro a ponto de não confundir críticas políticas com delitos de opinião. Quando a manifestação do pensamento e a publicação de fatos não enseje entre os inimigos da liberdade de imprensa campanhas monstruosas como esta que pretende ’kirsnhnerizar’ o Brasil, trazendo de volta o obscurantismo da censura prévia.
Por fim, digo apenas que essa pressão judicial calou o blog, mas não conseguiu dobrar a opinião do blogueiro. E que me sinto orgulhoso por ter conseguido cumprir o compromisso que me impus de respeitar a opinião alheia mesmo quando ela afronta a do editor. Aqui, nunca houve censura a comentários dos leitores que discordavam da minha maneira de ver o mundo. E esta é minha prova de apreço pela liberdade de expressão — inclusive quando ela me desfavorece.
A vocês que me acompanharam deixo meu muito obrigado. A gente vai continuar se encontrando em outra seara, a da televisão.
Muito obrigado. E até breve.
Posted by Fábio Pannunzio
” POSTAGEM INFAMANTE “ ( ou inflamante )
A indolência de Geraldo Alckmin e a barbárie na área da segurança
17 jun 2012
Mais do que estranho, é incompreensível que o governador Geraldo Alckmin ainda não tenha demitido seu secretário de segurança pública Antônio Ferreira Pinto. Não apenas pela barbárie que se instalou na Polícia Militar sob sua batuta, mas sobretudo pela maneira autoritária, antidemocrática e ilegal que tem orientado as ações do secretário.Ferreira Pinto, com seu aval explícito ao uso desmedido da violência, com ações deliberadas para acobertar policiais acusados dos mais graves crimes, com sua passividade diante da formação de milícias de policiais militares, expõe a população de todo estado à sanha do PCC e de bandidos fardados abrigados pela Polícia Militar. Aí estão o aumento drástico das estatísticas (supostamente manipuladas) da criminalidade a quantificar o caos instalado.Ai de quem se insurge contra o Napoleão de Higienópolis.Para os jornalistas, sobram ameaças e constrangimentos de toda natureza. Neste momento, há dois repórteres da Rede Record sob ameaça severa de morte vindas da banda podre da Polícia Civil. Um delegado foi punido porque se recusou a devassar quatro jornalistas, entre os quais o editor deste blog. E não é segredo para ninguém que Ferreira Pinto usa extensivamente a imprensa para conspirar contra o Palácio dos Bandeirantes, como prova o episódio envolvendo a demissão do sociólogo Túlio Khan.Agora o secretário se levanta contra o Ministério Público, que tem por função fiscalizar a polícia que ele governa com mão de ferro. O ataque, feito em entrevista à Rádio Jovem Pan, teve por objetivo macular a única instituição que não teme confrontá-lo. Foi disferido para desqualificar o trabalho minucioso feito pelo MP em relação à desocupação da Cracolândia, operação desastrosa que consumiu uma fábula de dinheiro do contribuinte e levou para o rés-do-chão os dados sobre apreensão de narcóticos e o tratamento dos viciados.Da mesma forma, foi ostensiva a atuação de Ferreira Pinto para dificultar a apuração da execução covarde de um homem apontado como membro do PCC, caso que ficou conhecido como o Crime do Bar Barracuda. O homem foi levado por uma viatura da ROTA até um local ermo, na beira da Rodovia Ayrton Senna, onde foi espancado e depois assassinado a sangue-frio. Ferreira Pinto esteve no DHPP, onde corre o inquérito, e deu ordens explicitas para dificultar ao máximo o acesso do MP à investigação. Sobre esse caso, estranhamente, foi decretado segredo de justiça, privando a sociedade de saber o que se passa nos desvãos da segurança.O governador Geraldo Alckminsabe muito bem de todas essas coisas. Ele próprio, há cerca de um mês, teve que substituir 32 policiais que faziam sua segurança pesoal no Palácio dos Bandeirantes. Até hoje as razões da troca dos oficiais e soldados da PM não foram suficientemente explicadas. Há informações nos bastidores de que eles compunham uma rede que tinha por objetivo monitorar os movimentos do próprio governador e de sua família dentro da ala residencial.Diante de tudo isso, é a ele, governador, que a sociedade deve responsabilizar pelo que vem acontecendo — da inflexão da curva estatística dos crimes cada vez mais bárbaros ao surgimento de novos “mercados” do crime, como os arrastões a prédios e restaurantes, que mantêm a população trancafiada em casa enquanto os bandidos ganham as ruas.