Tirar o PT da Prefeitura de São Paulo em 2016 é imperativo para os tucanos. O problema é saber quem será o nome na urna. Nas últimas duas décadas, José Serra e Geraldo Alckmin se alternaram como candidatos nas eleições municipais – Serra disputou em 1996, 2004 (quando venceu) e 2012 (foi para o segundo turno com o petista Fernando Haddad e perdeu); já Alckmin representou o partido em 2000 e 2008, tendo sido derrotado nas duas disputas.
Pela primeira vez, ambos estão cumprindo mandatos ao mesmo tempo – de governador e senador, respectivamente – e não mostram apetite para encarar pessoalmente a disputa em 2016.
O governador emitiu os primeiros sinais. Deu uma declaração em direção ao empresário João Doria Jr. Logo em seguida, seu secretário de Segurança, Alexandre de Moraes, se filiou ao PSDB
Não há um nome natural no PSDB. Fora Alckmin e Serra, ninguém disposto a ir para a campanha desfruta do chamado “recall”, quando o político é lembrado facilmente pelo eleitor simplesmente porque já disputou eleições majoritárias anteriores. Ou seja, será preciso construir um candidato. Mas quem?
A primeira figura a surgir com mais força foi a do vereador Andrea Maratazzo. Ele trabalha faz tempo para emplacar sua candidatura. O problema é que se trata de um político muito ligado a Serra. E hoje é Alckmin quem comanda o Estado mais rico do país e tem o maior capital eleitoral em São Paulo. Certamente, terá a maior influência nessa decisão.
Como protagonista, o governador emitiu os primeiros sinais em dezembro de que poderia caminhar na direção do empresário João Dória Jr, que já apresentou formalmente sua pré-candidatura à prefeitura ao PSDB. Durante um jantar com empresários na capital no último dia 14, o governador soltou a seguinte frase:
“Victor Hugo dizia, João, que nada segura a ideia de que chegou o seu tempo. E eu quero dizer que ficarei muito feliz se esse tempo for João Doria para trabalhar por São Paulo”
Geraldo Alckmin
Governador de São Paulo, em jantar com empresários no dia 14 de dezembro
A manifestação de Alckmin, porém, não foi interpretada dentro do PSDB como uma decisão objetiva, em razão de haver outras alternativas na mesa e de Doria não ter trajetória política consistente. Dois tucanos muito alinhados ao governador disseram ao Nexo duvidar de que o governador esteja mesmo apostando na candidatura de Doria. “Isso não se confirma”, afirmou, reservadamente, um dirigente do PSDB.
Num lance para complicar ainda mais o cenário, o secretário de Segurança Pública do Estado, Alexandre de Moraes, deixou o PMDB para se filiar ao PSDB, também agora em dezembro. Mais precisamente, Moraes assinou a ficha de filiação ao PSDB um dia após a declaração de Alckmin sobre Doria ter sido divulgada na mídia. O secretário era apontado há alguns meses como o preferido do governador por integrantes do partido.
FOTO: GUILHERME PRADO/NEXO
ALEXANDRE DE MORAES, SECRETÁRIO DA SEGURANÇA PÚBLICA DE SÃO PAULO
Há ainda mais três outros nomes correndo atrás da indicação. Os deputados federais Bruno Covas e Ricardo Tripoli e o presidente do Instituto Teotônio Vilela, órgão ligado ao PSDB, José Aníbal, anunciaram que um dos três vai apresentar uma pré-candidatura.
A escolha do candidato tem importância para o projeto político de Alckmin, daí o cuidado no movimento das peças. Embora não abrace publicamente o plano de disputar de novo a Presidência (algo que ele já fez em 2006, sendo derrotado por Lula no 2º turno), o governador não descarta tal aspiração.
O desgaste do PT no cenário nacional dá fôlego aos tucanos para acreditarem numa vitória em 2018. A chegada de um aliado próximo ao comando de São Paulo, maior prefeitura do país, portanto, pode fortalecer Alckmin numa eventual tentativa de concorrer ao Palácio do Planalto.
As prévias, as avaliações e os aliados
Há a possibilidade de o PSDB realizar prévias como as que ocorreram na eleição passada. Em 2012, Tripoli e Aníbal disputaram internamente com Serra a vaga de candidato. A vitória de Serra foi constrangedoramente apertada: ele obteve 52% dos votos e os outros dois tucanos, juntos, tiveram 48%.
Bruno Covas, Ricardo Tripoli e José Aníbal reuniram integrantes do PSDB na segunda quinzena de novembro para anunciar que, desse trio, sairá apenas um nome para disputar as prévias. “Nós três vamos marchar juntos. Conhecemos muito bem todos os meandros da cidade. Não há nenhuma possibilidade de não ser um de nós três o pré-candidato”, afirmou Tripoli.
Uma ala significativa do PSDB quer a realização de prévias em março. Mas o conturbado cenário nacional deixa essa decifinição no ar
Mas um fato chamou a atenção. Nessa mesma reunião estava lá o secretário de Segurança Pública. E o que fazia ali Alexandre de Moraes? “O Alexandre, no início do ano, colocou a pretensão de sair do PMDB e ir para o PSDB. Ele nunca disputou eleição. Ele tem sido um grande parceiro nosso. Daqui a três anos haverá eleição novamente, para vários cargos, governador, deputado, senador, e é provável que ele queira disputar”, justificou Tripoli. Bruno Covas afirmou que Moraes tem toda a legitimidade para, recém-filiado, disputar as prévias. “Mas isso não me tira o desejo de também querer disputar”, antecipou-se.
Uma ala significativa do PSDB quer a realização das prévias apenas em março. O conturbado cenário nacional prejudica ainda mais as definições do partido. Na situação atual, o mais provável é que o PSDB só defina o seu candidato (com prévias ou por indicação direta de Alckmin) na segunda quinzena de abril do próximo ano, disseram ao Nexo dirigentes estaduais do PSDB.
Bruno Covas, o nome que tem o melhor desempenho nas pesquisas internas atualmente, não esconde a descrença no processo de prévias. “Eu gostaria muito de ver isso num papel, mas até agora nada.”
O apoio explícito de Alckmin a um pré-candidato, segundo o deputado, obviamente mudaria o cenário. “Se o governador Geraldo Alckmin declara um apoio, se é que ele vai declarar, surte um efeito muito grande no processo. Não há como negar isso. Agora, se todos vão aceitar [a indicação] a ponto de não ter nenhum processo de prévia, isso eu já não sei.”
Há tucanos que defendam que o nome do candidato não precisa necessariamente ser do PSDB. Segundo José Aníbal, por exemplo, o partido precisa estar aberto ao diálogo. “Quem quer uma aliança e não tem um nome natural tem que estar muito aberto. Precisamos ser muito verdadeiros neste processo e disputar para ganhar.”
Dificilmente, porém, os tradicionais aliados – DEM, PV, PSB e PTB – apresentarão alguém competitivo. A tendência é que apoiem o nome escolhido por Alckmin.
Escolhas tucanas
1996
José Serra concorre pelo PSDB. Celso Pitta (PPB) se elege
2000
Geraldo Alckmin concorre pelos tucanos. A petista Marta Suplicy vence.
2004
Tucano José Serra concorre novamente. Dessa vez, vence
2008
Alckmin volta a concorrer, mas quem vence é Gilberto Kassab (DEM)
2012
Novamente, Serra concorre. Quem vence é Fernando Haddad (PT)
Mais poder a Alckmin na escolha
FOTO: FABIO RODRIGUES POZZEBOM/AGÊNCIA BRASIL
O GOVERNADOR GERALDO ALCKMIN E O SENADOR JOSÉ SERRA
Os sinais de que Alckmin quer interferir no processo de escolha do candidato são cada vez mais claros. No dia 30 de setembro, uma resolução nacional do PSDB, assinada pelo senador Aécio Neves, que preside a legenda, tirou poderes dos diretórios locais nas decisões sobre a disputa eleitoral nas cidades com mais de 200 mil habitantes. Agora, cabe à Executiva Nacional, “em última instância”, homologar “as decisões relativas a candidaturas e alianças”.
Alckmin articulou juntamente com Aécio para que a norma tirasse poderes do diretório local, onde Matarazzo tem mais chances de prosperar. Por razões semelhantes às de Alckmin, Aécio também quer ter poderes de definição do candidato na capital de Minas Gerais, Belo Horizonte.
Dias depois, em 14 de outubro, o presidente do PSDB paulistano, Mário Covas Neto, o Zuzinha, divulgou uma nota à imprensa esclarecendo que os dois pré-candidatos à prefeitura até então inscritos para disputar as prévias – Matarazzo e João Doria Jr. – concordavam em estender o prazo para que novos postulantes se apresentassem.
Mesmo tendo questionado a resolução nacional, Zuzinha se viu sem saída e admitiu que o processo será coordenado agora por uma “comissão estadual” supervisionada pelo comando nacional do partido. No diretório estadual a influência de Alckmin é significativa.
Neste cenário, cresceriam substancialmente as chances de Moraes ou algum outro escolhido de Alckmin, como João Doria Jr.
Apostas altas: o homem da máquina e o empresário
FOTO: DIVULGAÇÃO/PSDB-SP
JOÃO DORIA AO LADO DE JOSÉ SERRA EM EVENTO DO PSDB
João Doria e Alexandre de Moraes só terão chances de emplacar uma candidatura pelo PSDB se tiverem o aval de Geraldo Alckmin. Os dois nunca disputaram uma eleição e sua experiência política está restrita a cargos no Executivo. Doria foi secretário de Mário Covas; Moraes foi secretário no primeiro governo de Alckmin, na gestão de Gilberto Kassab (PSD) na prefeitura e, agora, retornou à administração tucana.
Doria é o elo que Alckmin precisa com empresários para pavimentar seu projeto de chegar à Presidência. Tanto que o aceno feito pelo governador a ele se deu num ambiente com a presença de gente de peso do PIB. Moraes conhece bem melhor os meandros da política, transita no meio jurídico e é visto como um nome articulado. Os dois seriam uma aposta do governador.
Uma eventual pré-candidatura de Moraes esbarra na pasta que controla. Ao mesmo tempo que lhe dá projeção, o tema segurança pública é sinônimo de instabilidade
Secretário de Segurança Pública, Moraes entrou para a política pelas mãos de Alckmin, em 2002, tornando-se secretário de Justiça do Estado com 33 anos recém-completos. O convite o obrigou a abandonar a carreira no Ministério Público, instituição na qual ingressou após passar em primeiro lugar no concurso. Ao entrar para o governo, afirmou Moraes ao Nexo, percebeu que poderia “ampliar o horizonte de atuação no poder público”.
“Tenho, e terei para sempre, uma dívida com o governador Alckmin por ele ter me escolhido e nomeado para a Secretaria de Justiça de São Paulo com 33 anos. Ou seja, ele confiou em mim. Eu fui e continuo sendo até hoje o secretário de Justiça mais jovem da história de São Paulo. Eu sempre vou retribuir ao governador”, disse ele em entrevista.
A fidelidade a Alckmin é absoluta. Tanto que na disputa estadual nem titubeou quando seu ex-partido, o PMDB, lançou o presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), Paulo Skaf, ao governo. Moraes permaneceu ao lado do tucano.
“São 13 anos de convívio e de amizade. Posso dizer que eu me tornei um amigo do governador e da família, a minha esposa é amiga da dona Lu (Maria Lúcia Guimarães Ribeiro Alckmin, esposa do tucano). O governador é um homem público excepcional. É um prazer trabalhar com ele”, afirmou.
O presidente do PSDB paulistano, Zuzinha não crê no azarão de Alckmin. E lembra o pai, Mário Covas, para falar das incertezas da política. “Meu pai queria ser três coisas na vida: prefeito de Santos, presidente do Santos Futebol Clube e presidente da República. Vi ele ser governador de São Paulo sem querer ter sido candidato.”
Uma eventual pré-candidatura de Moraes esbarra na pasta que controla. Ao mesmo tempo que lhe dá projeção, o tema segurança pública é sinônimo de instabilidade.
No final de outubro, por exemplo, Moraes teve de aplacar uma nova crise – numa rixa histórica – entre policiais civis e militares. A prisão de um sargento por suposta prática de tortura, a partir de investigações da Polícia Civil, provocou revolta entre militares.
Moraes entrou em ação para contemporizar a briga. Deu razão aos dois lados. O delegado da Civil que atuou no caso agiu legalmente, afirmou. A prática de tortura teria de ser corroborada pela Justiça, acrescentou o secretário constitucionalista.
No início de novembro, um aliado de Alckmin afirmou ao Nexo que o episódio revelava ao PSDB o perigo de ter um candidato ligado ao tema. “O governador precisa dele na secretaria. Se ele for candidato, terá que sair meses antes do governo, e o tema segurança pública entra automaticamente para a campanha. Pode ser um tiro no pé”, definiu esse aliado reservadamente.
Meses depois, a polícia paulista era flagrada em pancadarias com estudantes da rede estadual, que resolveram ocupar escolas em protesto à reforma do ensino proposta por Alckmin. Moraes disse que não apoiava reintegração de posse em colégios com aparato militar. Mas houve truculência em manifestações de rua. E as cenas certamente vão cair na conta do secretário de Segurança numa eventual disputa eleitoral.
O cenário nacional também poderia tirar Moraes do jogo sucessório em São Paulo. Em caso de impeachment da presidente Dilma, por exemplo, ele pode ser chamado pelo vice-presidente Michel Temer a compor um novo governo, em especial o Ministério da Justiça. Entre a prefeitura de São Paulo e um quinhão na Esplanada dos Ministérios, o segundo cenário pode lhe ser bem mais tentador.
Saída partidária: Matarazzo e outros tucanos
FOTO: /DIVULGAÇÃO
O VEREADOR ANDREA MATARAZZO E O EX-PRESIDENTE FERNANDO HENRIQUE
Os outros pré-candidatos – Andrea Matarazzo ou um integrante do trio Covas-Tripoli-Aníbal – são nomes que teriam melhor aceitação na estrutura partidária. Todos eles têm experiência política e parlamentar, o que os difere dos outros dois que seriam “apadrinhados” do governador.
Apesar de ainda ser um nome viável dentro do PSDB, Matarazzo é distante de Alckmin e mantém fortes vínculos com Serra e com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. “Eu sempre imaginei sair candidato com o apoio do partido e de todas as lideranças do partido”, disse Matarazzo ao Nexo.
A definição de Alckmin, admitiu, é determinante, mas o vereador não se acha carta fora do baralho e tem a expectativa de cativar a confiança do governador. Para ele, Alckmin observa, atentamente, o cenário nacional e avalia que passos tomar. Por enquanto, parece estar imobilizado.
Em setembro, Matarazzo organizou um evento com a intenção de atrair apoio dos caciques à sua candidatura. Alckmin, segundo um auxiliar do governador, foi “convidado por e-mail”. O tiro saiu pela culatra. Foi “como organizar uma festa no Vaticano e esquecer de convidar o papa”, definiu um outro dirigente tucano, que considera o colega Matarazzo um candidato qualificado, mas cuja ansiedade de ser candidato poderá derrubá-lo.
Além disso, há dúvidas entre os dirigentes do PSDB sobre o perfil de Matarazzo. Ele é descendente do conde italiano Francesco Matarazzo (1854-1937) – ícone do desenvolvimento econômico e industrial de São Paulo -, e pertence a uma das famílias “quatrocentonas” mais tradicionais do Estado.
Para muitos dentro do próprio partido, tem uma “alma elitista” que poderia se transformar num enorme obstáculo para conquistar votos da classe média e de camadas com renda menor, ainda que receba créditos e elogios por conhecer profundamente a cidade de São Paulo.
“Nós não podemos errar [na escolha do candidato]”, afirmou o presidente do PSDB em São Paulo, Pedro Tobias. “Se errarmos, a decepção será total.” Na primeira semana de dezembro, Tobias declarou ao Nexo estar aflito: “Com essa confusão nacional, ninguém sabe mais o dia de amanhã. Não tem nada concreto [sobre as prévias e as pré-candidaturas]”.
O Brasil em São Paulo
É em São Paulo que a disputa entre PT e PSDB, a chamada polarização partidária, se potencializa. A origem dos dois partidos está intimamente ligada ao Estado, assim como suas principais lideranças, dos dois lados – Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva.
Diante da atual conjuntura de crise política e econômica, com o PT sofrendo um desgaste histórico após mais de uma década de hegemonia nacional, o embate eleitoral na capital paulista seria uma espécie de Batalha de Waterloo, a disputa decisiva que acabou com o império de Napoleão, em 1815. Por enquanto, nenhum “imperador” tucano declarou ao exército qual a tática a ser seguida