
Brian Epstein foi aquilo que a provincianice inglesa mais detestava: judeu, homossexual, elegante e genial . Em outras palavras, tudo o que um “Beatlemaníaco comuna”, um “Einstein piadeiro” de segunda chamada e, ainda por cima, intoxicado por Espinosa, aprenderia a admirar.
Se os Beatles foram o maior terremoto musical e comportamental do século XX, é justo perguntar: quem foi o arquiteto invisível desse abalo?
Brian Samuel Epstein nasceu em Liverpool em 1934, justamente em Yom Kippur, filho de judeus de origem leste‑europeia que construíram uma vida respeitável como comerciantes.
Cresceu em ambiente judaico, frequentou escolas judaicas, conviveu com a sinagoga e foi sepultado segundo o rito judaico, em cemitério judeu, sob as rezas de um rabino.
Enquanto o garoto aprendia em casa a liturgia severa do Dia da Expiação, a cidade lhe ensinava a outra liturgia: a da piada sobre nariz, dinheiro e diferença, o lugar marcado para o imigrante bem‑sucedido que não deve esquecer “quem realmente manda”.
Era o judeu admitido na sala de visitas britânica, desde que soubesse entrar de cabeça baixa.
A isso somou‑se o outro “crime” imperdoável para a Inglaterra pós II guerra: Brian era gay.
Em uma época em que a homossexualidade masculina era crime, ele conheceu de perto polícia, tribunais, chantagistas e brutamontes.
Foi detido por “assédio homossexual”, alvo de extorsão e violência física.
Em um dos episódios mais reveladores de seu caráter, ainda sob a sombra da lei penal, decidiu não se esconder: denunciou o agressor, depôs em juízo, obrigou o tribunal a encarar, ainda que a contragosto, a existência concreta de um homem judeu e homossexual vitimado pela brutalidade.
Numa sociedade que esperava dele vergonha e silêncio, respondeu com um misto de dignidade e teimosia civilizada.
Esse contexto – antissemitismo difuso, homofobia legal e social, hipocrisia vitoriana tardia – torna ainda mais impressionante a compostura com que Epstein conduziu a própria vida pública.
Ele poderia ter escolhido o cinismo ou o ressentimento.
Em vez disso, escolheu o trabalho bem‑feito, a elegância, a organização do caos alheio.
A resposta de Brian ao mundo que o empurrava para o armário e para a margem foi profundamente judaica e, por que não, espinosana: não gritar, mas compreender; não destruir, mas ordenar; não devolver o ódio na mesma moeda, e sim transformá‑lo em música, em forma, em civilização.
É nesse ponto que ele encontra o seu destino com quatro rapazes barulhentos de Liverpool.
Quando Brian desce ao porão úmido do Cavern Club, em 1961, não encontra ainda “os Beatles”, mas uma incendiária e malcomportada banda de rock de porto: jaquetas de couro, cigarro, cerveja, anfetaminas , piada interna, um talento bruto que ninguém tinha sabido traduzir.
O judeu, treinado desde cedo a ler o mundo pela fresta, enxerga ali um produto mundial que a Inglaterra “esclarecida” desprezava.
Em poucas semanas, oferece‑se para ser empresário, impõe disciplina de ensaios, organiza agendas, melhora cachês, escreve cartas, acerta entrevistas.
Troca o couro por bem cortados terninhos sem gola Pierre Cardin , inventa a imagem coesa do grupo, enquadra o improviso da rodinha de amigos na moldura de um espetáculo exportável.
Ao mesmo tempo, enfrenta a arrogância e a miopia da indústria fonográfica de Londres.
Gravadora nenhuma queria apostar numa banda de Liverpool; Brian insiste, argumenta, volta, incomoda, até arrancar um contrato que permitiria a Lennon, McCartney, Harrison e Ringo existirem como fenômeno mundial.
Mais importante: ao contrário do empresário-tirano , corrupto e ladrão , típico do show business, não tentou controlar o conteúdo artístico dos Beatles.
Administrou com mão firme a carreira, mas devolveu a eles a liberdade criativa.
Não é pouco: sem esse raro equilíbrio entre organização e respeito ao talento, talvez as canções que mudaram o século jamais tivessem passado de curiosidade regional.
Quando hoje falamos em “Beatlemania”, costumamos ver apenas o brilho dos quatro no palco.
O que quase nunca aparece é o judeu homossexual nos bastidores, segurando telefonemas, domando agendas impossíveis, negociando com empresários hostis, aparando crises de ego, respondendo a jornalistas, calculando o tempo entre um voo e outro, protegendo seus rapazes de armadilhas contratuais.
A maior revolução musical e comportamental do século XX teve, no comando invisível, um filho de imigrantes, vítima de preconceito, que acreditava na força da forma, do contrato, da palavra dada.
Se alguém merece, com justiça, o título de quinto Beatle, não é um produtor e músico coadjuvante: é Brian Samuel Epstein.
A forma como ele viveu essa condição engrandece o judaísmo.
Não porque tenha sido “modelo de piedade” no sentido estrito .
Brian não era um religioso devocional, não virou rabino, não se fechou numa ortodoxia defensiva.
Sua grandeza judaica estava em outro lugar: na crença de que se responde à exclusão com trabalho sério, que se enfrenta o estigma com profissionalismo, que se honra o próprio povo e a própria história não pela exibição de símbolos, mas pela construção silenciosa de algo que melhora o mundo.
Em plena era da caricatura antissemita do “agiota ganancioso” ou do “manipulador da mídia”, o arquiteto judeu da história dos Beatles aparece exatamente como o contrário: um homem que protegeu a autonomia artística de seus clientes, honrou contratos, recusou explorar seus artistas como gado, pagou o preço de colocar o talento alheio à frente do próprio narcisismo.
Também aí há algo de familiar para qualquer “Beatlemaníaco comuna” que cedo lia Baruch Espinoza que tenha aprendido cedo a apanhar por ser diferente.
A adolescência passada ouvindo discos dos Beatles, sem saber que por trás daquela avalanche sonora havia a mão firme de um judeu gay, ganha outra cor quando descobrimos a biografia de Brian.
O garoto chamado de Einstein piadeiro porque só tirava 10 na segunda chamada, o militante suspeito de “comuna” por gostar de guitarras e de questionar autoridades ( professores ) , encontra em Epstein um irmão mais velho invisível: alguém que, décadas antes, já combinara minoria, estigma e trabalho obstinado para civilizar um ambiente hostil.
A morte precoce de Brian, aos 32 anos, por abuso de medicamentos e exaustão, tem algo de epílogo trágico e previsível.
É como se o corpo finalmente não aguentasse o esforço de conciliar todas as contradições que a sociedade lhe atirou: ser judeu em país que nunca deixou de medir narizes, ser gay num sistema penal que o criminalizava, ser sensível num meio de tubarões, ser civilizado num universo que lucrava com a histeria.
No funeral, um rabino preferiu gastar tempo condenando a homossexualidade do morto a reconhecer o que aquele homem tinha feito pelo nome judeu no século XX.
Foi, talvez, o gesto menos judaico de toda a cerimônia.
Décadas depois, porém, a história, que corrige provas em regime de segunda época em pleno verão , vai reescrevendo o boletim escolar .
Biografias sérias, filmes, reportagens e memórias de músicos devolvem a Brian o lugar que lhe havia sido negado: não o do escândalo, mas o da grandeza discreta.
Ele passa a ser lembrado como o quinto Beatle, o Beatle judeu, o homem que fez a ponte entre quatro garotos de Liverpool e o resto do planeta.
Para um prematuro e inculto espinosista que era ridicularizado como Beatlemaníaco comuna e Einstein piadeiro é um certo consolo ver a razão histórica, por uma vez, tentar derrotar o preconceito : ainda que, como sempre, seja preciso esperar a segunda chamada.
Em tempos que associam o nome ‘Epstein’ ao escândalo e à depravação, revisitar Brian Samuel Epstein é um antídoto necessário.
Ele nos lembra – e nos representa – que uma linhagem não se define por seu pior exemplo, mas por aqueles que, mesmo sob os mesmos estigmas, escolhem construir pontes em vez de abismos, e cuja herança é a cultura, não a corrupção.
Roberto Conde Guerra
quanta besteira menos besteira e corrupção e mais salário
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