Publicado em 30/04/2015 às 18:16
A violência no Paraná era inevitável. Vamos parar de culpar a PM. E declarar guerra a quem merece
A função do militar é ganhar a guerra. Para isso ele é ensinado a ver o mundo em preto e branco. O nosso lado e os inimigos.
Líderes de verdade, civis ou militares, sabem: a guerra é o inferno. Em guerra, ambos os lados vão cometer injustiças terríveis. Inocentes vão sofrer, talvez morrer. É inevitável.
Os discursos bonitos sobre guerra e paz e regras e comportamento ético são só discursos. Na prática, na guerra vale tudo. O maniqueísmo é fundamental. É preciso desumanizar o inimigo. Você jamais pode se colocar no lugar do outro. Atrapalha a mira.
Os soldados da Polícia Militar são isso: soldados. A maioria tem pouca educação, pouco treinamento, baixo salário, nenhum horizonte. São doutrinados para pensar em termos de nós e eles. Matam muito. Sem punição. Ué, porque deveriam ser punidos por matar os inimigos? Não o Brasil não está em uma guerra contra o crime?
Não. O crime, organizado ou pé-de-chinelo, é um problema civil. É um ato que vai contra a lei civil, julgado pela justiça civil, que tem que ser enfrentado com métodos civis. O que têm militares a ver com enfrentar o crime? Absolutamente nada.
E o que militares têm a ver com enfrentar manifestantes? Menos ainda. Porque um soldado é treinado para olhar um manifestante desarmado e ver o inimigo. Nem passa pela cabeça de um PM se negar a descer o sarrafo nos caras que protestam. Está lá para isso. Mesmo que discorde, obedece, porque obediência é o elemento fundamental da disciplina militar.
A grande surpresa de Curitiba foi que 17 policiais se negaram a avançar sobre os manifestantes. O governo paranaense informa que serão exonerados. Faz todo sentido. Assim é a disciplina militar.
Li uma vez em algum lugar que é a melhor medida para ver se um país é avançado é ver se ele paga bons salários tanto para os professores como para os policiais. Não sei quem disse, mas ficou. Aqui ambos ganham porcaria.
O movimento dos professores paranaenses é justamente por salários melhores. Quando vi os vídeos da polícia avançando nos professores, lembrei na hora do que li, e pensei: é um braço do povo batendo no outro.
A PM não é o bandido dessa história. A PM é um instrumento. Uma arma na mão de outros, que puxam os gatilhos. Uma coisa importante sobre guerras: quem vence escreve a História. Quem perde é julgado por seus crimes de guerra. Mas não é foi soldadinho raso lá na ponta, que ajudou a colocar inocentes na câmara de gás, que foi julgado em Nuremberg. Foram os mandantes, os nazistas graduados. Mesmo que pessoalmente nunca tenham matado ninguém.
Fazer os mandantes pagar pelos crimes dos mandados não é exatamente justiça perfeita, mas é educativo. Ensina: em guerra, quem manda matar tem tanta sangue nas mãos quanto quem executa ordem. E mais responsabilidade.
As Polícias Militares são Estaduais. O comandante máximo é o governador do Estado. No Paraná, Beto Richa. Pelas regras da guerra, seria lógico que respondesse criminalmente pelos atos da PM contra os professores em Curitiba. Centenas de feridos, alguns muito graves.
Se nesse caso Beto Richa respondesse por agressão, Geraldo Alckmin responderia por homicídio. A PM paulista está matando mais que nunca. No primeiro trimestre de 2013, a PM matou 67 pessoas. No mesmo período de 2014, 157. No primeiro trimestre de 2015, policiais militares mataram 185 pessoas. Isso são os números oficiais. E quantos PMs morreram em São Paulo no mesmo período? Quatro.
Estamos em guerra? 185 mortos de um lado, quatro do outro… Sempre a mesma história, “troca de tiros”. Um monte de casos muitíssimo mal explicados. A violência é exclusividade da Polícia Militar? Praticamente. A Polícia Civil paulista no primeiro trimestre de 2015 matou nove pessoas, um vigésimo do que a PM.
A população sente que o bicho está pegando. Quando morre um PM, a corporação revida passando a régua. Morreu um policial, o povo já está no Whatsapp decretando toque de recolher. Quem der mole na periferia à noite arrisca levar um tiro. Depois é aquele papo, “reagiu”. E com tudo isso, os índices de criminalidade continuam altíssimos.
Não é questão de Richa ou Alckmin, nem do partido esse ou aquele. É como o país é. É igual em todos os estados. Com a conivência do governo federal, da Justiça, das otoridades em geral. No máximo pune-se algum PM que exagerou e foi pego, ali no rés do chão. E lá nas alturas tudo segue como de costume.
Brasileiro sabe há 515 anos: bacana aqui sempre sai na boa. Lendo as manchetes sobre a Operação Lava-Jato, muita gente botou fé que o Brasil começa a mudar. Escrevi aqui há meses que a Lava-Jato já acabava em pizza antes de começar.
Melancólico conhecer tão bem nosso país. Ontem mesmo os STF mandou mandantes da Lava-Jato para casa. Com isso, se evitam novas delações premiadas, novas acusações, se contém o estrago, e vamos logo voltar ao esqueminha normal. Pátria educadora ensina: roube cem reais e vá em cana. Roube cem milhões e vá para sua mansão usando tornozeleira.
A Polícia Militar é criação da ditadura militar. Naquela época era proibida a crítica, a manifestação e o voto. O regime de 64 foi enterrado há vinte anos, e ainda hoje este restolho da ditadura continua por aí. Por quê? Porque nós permitimos isso. Fomos nós que votamos nestes governadores, nos deputados integrantes da “bancada da bala”.
Porque, nós, brasileiros, somos ignorantes. Nossas escolas são uma porcaria. O investimento em educação no Brasil é ridículo, comparado com qualquer país mais ou menos. Os professores do Brasil são tão despreparados e desvalorizados quanto os policiais.
A solução passa por acabar com a PM. Ou pelo menos desmilitarizar a PM. Tanto não é nenhuma heresia que muitos policiais militares defendem isso. Sociedade civil, polícia civil, e Forças Armadas para lidar com tretas externas. Se é que precisamos de Forças Armadas – outro assunto para outro dia.
Se queremos um país decente, temos que valorizar quem cuida da nossa educação e da nossa segurança. Professores e policiais têm que merecer nosso respeito, inclusive para podermos cobrar deles a performance que precisamos. No sistema capitalista, nada diz “respeito” tão alto quanto bons salários. Enquanto isso não muda, o sangue vai continuar correndo.
Vamos mudar? A quem interessa manter professores e policiais no estado de hoje? A quem interessa manter uma força militar dedicada exclusivamente a lidar com problemas civis? Quem ganha com a manutenção do nosso povo neste estado de ignorância e terror? Não é você nem eu. Nem os policiais. E muito menos os professores.
Vamos parar de usar o termo “violência da PM”. Eles pensam que estão em guerra. Foram treinados para isso, lavagem cerebral. Vamos atrás de quem se beneficia com este estado de coisas. Vamos à raiz do problema e vamos arrancá-la. Guerra por guerra, escolhamos a nossa. Declaremos guerra não aos executores, mas aos mandantes da violência – tão nossa, tão triste, tão brasileira.
André Forastieri – R7
