ESTADO TORTO – O Delegado Geral de Santa Catarina age como cãozinho de estimação da extrema-direita fascista 9

Há menos de um mês , quatro jovens trabalhadores – migrantes pobres vindos de outros estados em busca de oportunidade – foram sequestrados, executados e jogados numa vala clandestina em Santa Catarina, num crime que escancara o desprezo local pela vida de quem chega “de fora” para servir ao turismo e à construção civil. Seus nomes mal circularam na imprensa, não viraram hashtag, não suscitaram correntes de oração nem mobilizações emocionadas de artistas, empresários e influenciadores. Já a morte do cão comunitário Orelha, embora brutal e juridicamente relevante, ganhou contornos de catarse coletiva: vigílias, campanhas, promessas de “justiça exemplar” e uma súbita sensibilidade animalista que parece inexistir quando as vítimas são rapazes pardos, pobres e sem sobrenome ilustre. Esse contraste obsceno – luto público por um cachorro e indiferença por quatro trabalhadores enterrados como lixo – é a chave para entender a escala de empatia invertida que estrutura o imaginário catarinense e condiciona a própria atuação policial.

Florianópolis voltou ao noticiário, desta vez não apenas pela morte brutal do cão comunitário Orelha, mas pela forma como o delegado‑geral da Polícia Civil resolveu transformar o caso em palanque ideológico e vitrine pessoal. 

Enquanto o inquérito sobre as mortes dos quatro rapazes migrantes era enterrado numa gaveta de repartição , empurrados para a conta genérica das facções e da “violência urbana”, o chefe de polícia preferiu latir nas redes sociais em defesa de um suposto “estado de direita” ofendido pela esquerda, como se o papel institucional de sua cadeira fosse agradar a plateia fascistóide da vez.

O caso Orelha e o delegado‑influencer 

A morte de Orelha, espancado e arrastado por adolescentes na Praia Brava, comoveu o país e virou símbolo da barbárie cotidiana que costuma ficar restrita às periferias.  Era a chance de a Polícia Civil catarinense demonstrar profissionalismo, transparência e empatia, investigando maus‑tratos contra animal com a mesma seriedade que deveria dispensar a qualquer crime violento.

Em vez disso, o delegado‑geral Ulisses Gabriel resolveu usar o microfone institucional para atacar “a esquerda”, acusá‑la de hipocrisia e sugerir que as críticas à condução do caso seriam parte de um complô ideológico contra o “estado de direita” de Santa Catarina, como noticiado por diversos veículos.

Não se viu um gestor republicano, cioso da impessoalidade e da moderação que seu cargo exige; viu‑se um militante digital fantasiado de autoridade policial, reproduzindo o linguajar das bolhas bolsonaristas: quem critica a polícia é “esquerdista”, “defensor de bandido” e, por tabela, inimigo da ordem. 

Quando a chefia de polícia compra essa narrativa e a repete de gravata e brasão ao fundo, a mensagem é cristalina: a corporação tem lado, e não é o da Constituição.

O paralelo incômodo: um cão e quatro rapazes na vala 

Poucos dias antes, quatro trabalhadores – vindos de Minas e São Paulo em busca de emprego – haviam sido sequestrados, executados e enterrados em cemitério clandestino em Biguaçu, num enredo que mistura disputa de facção, racismo territorial e a velha promiscuidade entre crime e Estado que há anos corrói Santa Catarina. 

No texto já publicado neste blog, lembrou‑se que o estado que se imagina “Europa tropical” trata o migrante interno como invasor, suspeito por sotaque, CEP e cor de pele, empurrado para a vala comum física e simbólica.

A reação institucional às duas tragédias revela um traço perturbador do espírito público catarinense. Para os quatro rapazes, a narrativa pronta: “coisa de facção”, “cemitério do crime”, “revanchismo”; uma explicação confortável que dispensa a pergunta mais óbvia :  quem controla o território, quem permitiu que o cemitério clandestino brotasse ali, quem faz vista grossa? 

Já para o cão comunitário, a comoção foi instantânea, a mobilização policial exemplar, coletiva, midiática; operações rápidas, entrevistas, reconstruções em vídeo, promessas de rigor extremo.

Não se trata de diminuir a gravidade da crueldade contra Orelha – crime grave, que merece rechaço e punição.  O problema é outro: a escala de empatia torcida, na qual quatro jovens trabalhadores valem menos que um cão, e onde a polícia se mostra muito mais à vontade para afirmar sua autoridade quando a vítima é um animal que não questiona privilégio nem revela a estrutura racista e classista da “Europa catarinense”.

O cãozinho da extrema-direita 

Nesse cenário, o delegado‑geral comporta‑se como cãozinho de estimação da extrema‑direita: fareja o vento das redes, abana o rabo para a manada bolsonarista, late contra “a esquerda” e, no fim, deita-se aos pés de quem realmente manda no pedaço :  a aliança informal entre elite branca, política profissional e “empreendedores” do crime organizado. 

Ao reduzir a crítica legítima à atuação policial a uma suposta conspiração ideológica, ele presta o serviço perfeito ao fascismo tropical: transforma qualquer cobrança por investigação séria, por controle externo ou por responsabilização de agentes públicos em prova de “marxismo cultural” e “ataque ao estado de direito”.

A lógica é simples e funcional. Quando o alvo é o adolescente que torturou o cachorro, vale a teatralidade punitivista: mandados, coletivas, vídeos, frases de efeito. 

Para inglês ver!

Com um cuidado incomum com a preservação da identidade e imagem do “animais racionais” !

Quando o assunto é vala clandestina com cadáver de migrante, promiscuidade entre facção e Estado ou racismo institucional da polícia, aí a palavra de ordem volta a ser “prudência”, “não politizar”, “deixar a polícia trabalhar”. 

O delegado‑geral assume, assim, o papel de mascote ideológico: serve de voz dócil para o projeto que quer polícia forte para pobres e dócil para poderosos.

Um Estado que escolhe quem merece luto 

O contraste entre a reação à morte de Orelha e o silêncio burocrático em torno dos quatro rapazes diz mais sobre Santa Catarina do que qualquer propaganda turística com mar azul e gente loira de olho claro. 

Ali, parte expressiva da sociedade chora um cão, mas normaliza a execução de trabalhadores migrantes; exige punição exemplar – sem prisão e exposição – para jovens que maltratam animais, mas relativiza a responsabilidade de quem permite cemitério clandestino, quem lucra com a exploração turística e quem alimenta um separatismo envergonhado, travestido de “orgulho catarinense”.

Quando o chefe da Polícia Civil prefere agradar esse público – chamando de “estado de direita” um território que empurra brasileiros mestiços para a vala e trata migrante interno como intruso – ele não apenas viola princípios constitucionais de impessoalidade e moralidade. 

Ele legitima um projeto de país em que vidas humanas têm cotação variável: valem mais quanto mais parecidas com o retrato idealizado do catarinense padrão e valem menos quanto mais se aproximam do Brasil real que a elite local prefere manter à distância.

Investigação de fora para dentro 

Frente a esse quadro – vala clandestina, racismo institucional, delegados‑influencers ajoelhados diante da extrema‑direita – insistir apenas em “deixar a polícia trabalhar” é ingenuidade ou má-fé. 

Como já se defendeu aqui, Santa Catarina precisa ser investigada de fora para dentro: federalizar casos emblemáticos, submeter a polícia local a controles externos efetivos, romper a confraria que protege fardas, togas e cargos de confiança enquanto corpos desaparecem nos fundos de Biguaçu.

O caso Orelha e a morte dos quatro trabalhadores expõem o mesmo buraco moral: um Estado que escolhe quem merece luto e quem merece vala; uma polícia que, na boca de seu delegado‑geral, se assume “de direita” e se oferece como cão de guarda da extrema‑direita fascista; e uma sociedade que parece sentir mais dor por um cão do que pelos brasileiros que ousam cruzar a ponte rumo à “ilha da magia”.

Santa Catarina precisa ser investigada de fora para dentro …Melhor o pé no capim do que o pé na cova …Nóis vai descer …vais descer…vai descer : prá vala no finalzinho de ano! 21

Florianópolis, janeiro de 2026. A “ilha da magia” cavou mais um buraco na terra e enfiou dentro quatro rapazes que vieram de Minas e São Paulo em busca de trabalho e um gole de futuro barato.

Foi recebê-los com execução e inumação em  vala clandestina e um recado muito claro: aqui quem manda é a facção;  e quem finge mandar veste farda, terno ou toga e diz que está “apurando os fatos”.

O roteiro é velho, mas em Santa Catarina ganha uma estética própria: o estado que se acha Europa tropical, loiro de catálogo, com bandeira hasteada no poste e olhar torto para quem vem de fora : nordestino, mineiro, paulista preto, pobres em geral ou apenas inconveniente.

A elite branca de condomínio e a malandragem uniformizada, engravatada e togada compartilham o mesmo incômodo: esse Brasil mestiço, barulhento e inconveniente que insiste em atravessar a ponte e pisar na areia que eles imaginam privada.

Os quatro meninos desapareceram numa quinta-feira qualquer, depois de um bar qualquer, porque o Brasil é isso: a linha que separa “sair para beber” de “sumir do mapa” é o primeiro beco sem câmera e o primeiro camburão que resolve olhar para o lado errado.

Em Florianópolis, o lado errado costuma ter CEP de periferia e sotaque de fora; em Minas eles eram filhos, amigos, trabalhadores de promessa miúda; aqui viraram “elementos”, “suspeitos”, “possíveis envolvidos com facção”, aquele carimbo mágico que autoriza a indiferença.

A versão oficial, por enquanto, é a mais cômoda: facção local, PGC, cemitério do crime, revanchismo com facção rival.

É a narrativa perfeita importada do governo Paulista : atribui tudo ao “crime organizado”, esse espantalho conveniente que esconde a promiscuidade estrutural entre Estado, polícia e mercado ilegal ;  como se cemitério clandestino brotasse sem vista grossa, sem controle territorial frouxo, sem conivência de quem diz “não sabia” enquanto passa de viatura a menos de uma quadra. 

E quem garante que não seja o cemitério clandestino da PM catarina?

Muito mais grave, quando um estado inteiro se acha “diferente do Brasil”, o passo seguinte é tratar brasileiro  mestiço de fora – salvo o Neymar – como invasor.

Racismo aqui não é só cor da pele, é também CPF de origem, sotaque  e a  roupa fora do padrão da tribo local.

A polícia catarinense já produziu seu desfile de casos de racismo explícito, a ponto de MP e Judiciário terem de impor medidas cautelares contra PM da reserva por vomitar ódio racial em vídeo , mas o discurso dominante segue o mesmo: “casos isolados”, “não representa a instituição”, “exagero da mídia”.

Enquanto isso, quatro corpos amarrados, mutilados, enterrados em Biguaçu, esperam identificação completa e laudo, enquanto as famílias em Minas e São Paulo sobem o calvário burocrático de reconhecer cabeça, fragmento, dente, qualquer coisa que prove que o filho agora é mais uma na estatística.

A morte em série, no Brasil, é processada em cartório, em planilha, em nota oficial de três linhas; o sofrimento é artesanal, feito à mão, de mãe em mãe, de pai em pai.

E aí entra o ponto que ninguém gosta de encarar: num caso desses, não basta “deixar a polícia trabalhar”.

Quando a polícia faz parte do problema – por ação, omissão ou promiscuidade – “deixar trabalhar” pode significar exatamente isso: garantir que não se chegue nos verdadeiros mandantes, nem nos elos incômodos da cadeia de comando, públicos e privados.

A mesma estrutura que finge se horrorizar com a vala é aquela que, na prática, negocia território, horários, favores e silêncio.

Ora…ora , onde não há drogas e putas a rodo não há turismo lucrativo!  

A Polícia Federal, quando não está capturada por ministro oportunista e diretor carimbador de despacho, já mostrou que sabe mexer em colmeia sem pedir benção a coronel local nem a cacique estadual.

É justamente por isso que incomoda: porque, em tese, tem fôlego e estrutura para chegar aonde a polícia “da casa” tropeça, desvia o olhar ou recebe uma “orientação” de cima: “deixa quieto” , coloca na conta do PCC.  

Num caso em que vítimas são migrantes internos, há suspeita de motivação discriminatória difusa, atuação de facção interestadual e histórico de racismo institucional, pedir federalização não é exagero; é instinto de sobrevivência democrática.

Santa Catarina precisa ser investigada de fora para dentro.

Não só o buraco na terra em Biguaçu, mas o buraco moral que transforma parte da população em hóspede indesejado no próprio país.

O separatismo não é só fantasia de rede social com bandeira confederada de fundo; está nas abordagens, nos xingamentos, nos “aqui não é lugar para vocês”, nas decisões administrativas que punem quem denuncia racismo e protegem quem pratica.

Os quatro rapazes mortos são o Brasil colidindo com o sonho europeu catarinense: um conflito que termina, claro, com os de sempre enterrados e os de sempre dando entrevista em frente a painel personalizado com brasão do Estado e do órgão policial.

Vão prometer “rigor”, “investigação imparcial”, “integração das forças”, enquanto nos bastidores combinam a narrativa aceitável, ajustam termos técnicos e distribuem culpas que não respingam em gente importante.

Neste palco, o mínimo aceitável é tirar o inquérito da mão da confraria local e jogar no colo de quem, ao menos em tese, não depende do churrasco de domingo com político da região nem da indicação para cargo em comissão no governo estadual. Federalizar não é panaceia; é só uma forma de dizer aos donos do pedaço que, desta vez, talvez não dê para empurrar tudo para o PCC de praxe e o PGC da vez, lavando a honra das instituições na água suja da vala comum.

Florianópolis gosta de vender a imagem de ilha da magia. A magia está aí: transformar quatro garotos em inimigos invisíveis, em alvos legítimos, em corpos descartáveis ;  sem que ninguém de farda ou caneta se sinta realmente responsável.

Enquanto não vier alguém de fora abrir essas covas simbólicas e institucionais, a única magia garantida será essa: fazer desaparecer, junto com os rapazes, qualquer esperança de que a vida de quem vem de longe valha alguma coisa na república branca da praia gelada.