
Se não houver interferências indevidas, a investigação deste caso precisa ser tratada pela Polícia Civil e pela Criminalística como uma verdadeira questão de honra institucional: provar, com ciência e método, que não se engana a polícia.
A elucidação não depende de versões emocionadas, mas daquilo que o inquérito bem feito sabe produzir: convergência entre investigações de campo, oitivas e prova técnica.
Cabe à equipe responsável reconstruir a dinâmica dos fatos sem compromisso prévio com acusação ou defesa, deixando que sejam os vestígios – e apenas eles – a falar. Em um episódio com essa repercussão, recuar diante de pressões hierárquicas ou de amizades togadas significaria confessar que a verdade fática é negociável.
Não é!
Legistas e peritos criminais têm condições de responder, com alto grau de certeza técnico‑científica, à pergunta central: foi suicídio ou feminicídio travestido? Estudos balísticos – trajetória e ângulo do projétil, distância, altura da vítima e do suspeito, posição do corpo, da arma e dos impactos – permitem praticamente desenhar em três dimensões a cena do disparo.
A compatibilidade (ou incompatibilidade) da posição da arma com um tiro auto‑infligido não é matéria de opinião: é de geometria pericial.
Da mesma forma, a alegação de banho, troca de roupas e “preparação” para sair de casa não pode ficar no terreno das narrativas convenientes.
A Criminalística sabe, hoje, localizar e recolher vestígios em box de banheiro, sabonetes, esponjas, ralos e até em segmentos de esgoto do edifício, desde que a cadeia de custódia seja respeitada e a coleta seja tecnicamente dirigida.
Exames residuográficos, de DNA, de sangue , de padrões das lesões e trajetória do projetil, posição da vítima no momento do tiro , podem confirmar ou desmentir o que foi dito linha por linha.
O recado institucional que este caso exige é simples e duro: não há patente, amizade, toga ou farda capaz de dobrar a lógica fria da prova.
Se a Polícia Civil e os órgãos periciais assumirem, publicamente, o compromisso de ir até o fim – reconstituindo o fato, explorando todas as linhas probatórias e enfrentando qualquer tentativa de “arranjo” – a mensagem será clara: não se mente para a polícia impunemente.
A honra da instituição, neste episódio, se confunde com a honra da própria verdade.
E se a voz do povo for a voz de Deus: os mikes dizem que ele a matou e “fez a mão” , tendo como certa a impunidade garantida por poderosos.