Gangues de PMs comandam ataques a caixas, diz polícia
As quatro quadrilhas têm cerca de cem integrantes, sendo 26 deles policiais
“Prisões são só a ponta do iceberg”, diz policial; série de ataques já provocou nove mortes, sendo três de inocentes
Edson Silva/Folhapress![]() |
Caixas eletrônicos atingidos por explosivos no interior
DE SÃO PAULO
Quatro quadrilhas integradas por policiais militares comandam a onda de ataques a caixas eletrônicos iniciada desde o início do ano no Estado de São Paulo.
Segundo a Polícia Civil, as gangues de PMs são responsáveis pela maior parte dos 77 assaltos a caixas -muitos com o uso de explosivos.
Entre a noite de segunda e a madrugada de ontem, oito caixas eletrônicos foram alvo de criminosos -em um dos casos, um mercadinho em Osasco (Grande SP) foi totalmente destruído.
Na cidade de Patrocínio Paulista, uma quadrilha foi perseguida pela polícia e três suspeitos foram mortos.
Cada caixa tem, em média, de R$ 70 mil a R$ 100 mil. Os ataques ocorrem em áreas onde as quadrilhas conseguem informações privilegiadas sobre o policiamento.
Os criminosos recebiam detalhes sobre os locais e horários onde os carros da polícia iriam passar.
As quatro gangues, diz a polícia, reúnem cerca de cem criminosos, sendo 26 PMs. Somente entre sábado e ontem, oito deles foram presos.
Todos os PMs suspeitos são monitorados atualmente pelo Deic (Departamento de Investigações Sobre o Crime Organizado), da Polícia Civil.
“Essas prisões são a ponta do iceberg. O esquema é enorme, envolve mais de cem pessoas. São quatro quadrilhas interligadas”, disse o diretor do Deic, Nelson Silveira Guimarães.
Dois dos sete presos ontem foram apontados como principais aliciadores de PMs: André Luiz Gejuíba Leite e João Paulo Victorino de Oliveira, 31, PM do Batalhão de Trânsito. A reportagem não teve acesso aos advogados deles.
Em dezembro de 2010, 14 PMs da região de Itaquaquecetuba (Grande São Paulo), foram presos também sob suspeita de roubar caixas.
MORTES
Até ontem, morreram seis suspeitos dos ataques e três inocentes -estes últimos atingidos por balas perdidas.
O pamonheiro Geraldo Magela Lourenço, 37, foi morto por PMs no dia 26 de abril, quando uma quadrilha tentava atacar os caixas eletrônicos do Ipê Clube, ao lado do parque Ibirapuera. Ele foi confundido com um ladrão.
Em 15 de abril, um menino de sete anos foi morto com um tiro de fuzil quando ladrões tentaram roubar seguranças que abasteciam um caixa eletrônico no Grajaú (zona sul de SP). Um dia antes, ladrões atacaram dois caixas na Saúde. Ao fugir, atiraram contra um PM.
(GIBA BERGAMIM JR., ANDRÉ MONTEIRO e ANDRÉ CARAMANTE)
Antes de explosões, ladrões sabiam onde estava ronda policial
Grampos telefônicos de conversas entre assaltantes revelam ligações dos ataques com policiais militares
Na operação de ontem, a polícia apreendeu armas, celulares e um carro da marca Chrysler avaliado em R$ 250 mil
GIBA BERGAMIM JR.
ANDRÉ CARAMANTE
DE SÃO PAULO
“Sujou, sujou. Sai daí que a preta está chegando.” Foi um dos alertas captados nas investigações das quadrilhas de ataques a caixas eletrônicos. “Preta” é como os criminosos se referem aos carros da Polícia Civil.
Segundo, Nelson Silveira Guimarães, diretor do Deic, o recado foi dado por um dos bandidos a um grupo que se preparava para roubar um caixa eletrônico. Ele diz que PMs também avisavam sobre as patrulhas.
Em outra escuta, é possível ouvir a explosão logo após o diálogo entre criminosos. “Ouve só, vai explodir”, disse o interlocutor.
Uma terceira conversa revela uma discussão entre criminosos num assalto. Um ladrão reclama que, na ação, um dos sargentos envolvidos com a quadrilha aponta a arma para o colega sem saber que ele fazia parte do bando.
“Foi um mal entendido. O sargento é novo no negócio.”
A polícia informou que o PM João Paulo Victorino de Oliveira, 31, coordenou pelo menos cinco roubos.
Ontem, a polícia apreendeu armas, celulares e um carro Chrysler avaliado em R$ 250 mil, que era do suspeito Rodrigo dos Santos, 27.
O subcorregedor da PM, Edson Silvestre, disse que os PMs não tinham participação direta, mas acobertavam crimes. “Mas nem em todos os furtos há a ação de PMs.”
Colaborou SERGIO MADURO
BANCOS
APOSTA É EM DISPOSITIVO QUE MANCHA NOTA
Segundo a Febraban (Federação Brasileira de Bancos), os bancos aderiram aos dispositivos de tinta dentro e fora das agências. Mas a medida não garante que a máquina não seja atacada. A entidade, que diz que o setor investe R$ 9,4 bi por ano em segurança, pede que as notas manchadas sejam recusadas.
“Nunca esperava por isso”, diz dono de mercadinho destruído
LUCCA ROSSI
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
No começo da tarde de ontem, Orlando Santos, 46, circulava entre garrafas, lâmpadas e produtos de higiene espalhados pelo chão do mercadinho que mantém há quase três anos na periferia de Osasco (Grande São Paulo).
Ele ainda contabilizava os prejuízos após criminosos explodirem na madrugada os três caixas eletrônicos da loja. O fogo destruiu parte do estoque, além de computadores e freezers.
“Já havia ocorrido arrombamentos aqui, mas o alarme tocava e os ladrões fugiam. Fui avisado dos perigos de ter os caixas, mas nunca esperava que algo assim pudesse acontecer aqui”, afirmou.
Apesar do susto, Santos quer instalar novos caixas após reformar o local, caso conte com a ajuda da empresa proprietária dos equipamentos. Segundo ele, o prejuízo deve chegar a R$ 150 mil. A loja não possui seguro.
A polícia não soube dizer quanto do dinheiro dos três caixas (R$ 32 mil) foi levado pelos ladrões, que fugiram após a explosão. As máquinas tinham dispositivo que marca as notas com tinta.
NÚMERO
170% É A ALTA EM FURTOS DE EXPLOSIVOS
Relatório da Polícia Federal diz que uso de explosivos por criminosos no país cresceu entre 2009 e 2010. Ao menos 1,06 tonelada de explosivos foi furtada no ano passado no país, de acordo com o Exército, em comparação a 2009, com 392 kg . Os alvos foram pedreiras e mineradoras, afirma a polícia.




