Enquanto eu trabalhava com os capítulos dos anos 80, 90 e 00, um conhecido do meu pai, apareceu no orkut com muitas histórias interessantes sobre o início do rock santista. Com um belo texto, rico em detalhes e muita disposição para escrever, não pensei duas vezes, chamei Bardhal, um dos grandes roqueiros da década da beatlemania para me ajudar no projeto. Uma prévia da ajuda dele vocês podem conferir abaixo.
Lucas Krempel
Amava os Beatles e os Rolling Stones
Texto: Bardhal
Muito se fala sobre a radical influência que o Rock and Roll, da era “Depois dos Beatles”, teve na cultura dos anos 60 a 80 no Brasil.
Como um “dinossauro do rock” posso afirmar, sem sombra de dúvidas, que não sou apenas uma testemunha ocular desse acontecimento, como também vivi, na pele de músico amador, os efeitos desta incrível onda iniciada pelos quatro rapazes que mudaram definitivamente a história e o destino de Liverpool. E do mundo.
Lembro-me que no final dos anos 50 e até o início da década de 60, a moçada requebrava as cadeiras ao som de Elvis Presley, Bill Halley, Chubby Checker, Beach Boys, Dell Chanon, Don Taylor, Triny Lopez entre outros.
Ray Conniff e Herb Albert & Tijuana Brass completavam o menu que embalavam os bailinhos onde as meninas ainda usavam cabelos armados (colocavam bombril e laquê pra dar volume) e saias compridas de estampado berrante. Tecido de bolinhas e lenço na cabeça era o “must”, tendo cinturas sufocadamente afinadas por cintos de grandes fivelas, óculos tipo “gatinho”, meia soquete e, é claro, os chicletes. Ronnier Cord subia a Rua Augusta a 120 km por hora e o biquíni amarelinho ainda era um “desbunde“.
Mas, de repente, tudo começou a mudar, muito rapidamente, quando quatro rapazes invadiram o mundo com seus cabelos em cuia, terninhos bem talhados, botinhas de salto alto e, logicamente, uma cabedal de músicas que, além de soar muito bem aos ouvidos, tinha um poder mágico de arrebatar sentimentos, de redirecionar caminhos. Tinha algo realmente novo no ar.
Abduzidos por aquele som totalmente inovador e atrativo, os garotos da minha época inventaram um novo inglês.
Lembro-me ainda de Love me Do e She Loves You (yeah,yeah,yeah) estourando nas rádios e conquistando a molecada de forma endêmica. Era a febre, a Beatlemania. Nos cadernos de música, virava “Lóvmi Dú” ou “Chilóziu” numa língua tão estranha que deixaria Champolion com cara de pateta, tal o grau de incompreensividade. Mas o que importava era o som, o balanço, a onda.
Santos incorporou um certo clima de Liverpool
A cada esquina dos bairros de Santos e São Paulo, principalmente, começavam a se formar os “conjuntos” que tentavam, a qualquer preço, imitar os Beatles.
Afora detalhes que posteriormente vou contar, como por exemplo, a dificuldade de se conseguir instrumentos musicais, um detalhe interessante deve ser considerado nisto tudo: Por onde teria entrado, afinal, o Rock and Roll da era P.B (Post Beatles?).
Pelo Porto de Santos, é claro! Não sei se por uma química mágica ou por fatores que incorporam uma certa semelhança desta cidade portuária com Liverpool: cidade portuária com direito até ao “fog” que, vez em quando, deixava as silhuetas e os neons um tanto sobrenaturais.
De uma coisa estou certo: Pelo Porto de Santos, os navios não trouxeram somente mercadorias. Em meio aos pallets de então (containers estavam em fase de projeto), o rock and roll veio de “carona”, pelas mãos dos marinheiros que, através do contato com os músicos barulhentos das Boites das Bocas do Porto, que começavam a botar para escanteio a geração “bolero”, traziam discos de vinil e instrumentos.
É lógicos que as rádios tiveram papel fundamental, mas eu diria que o epicentro do terremoto do Rock, a verdadeira contaminação cultural, entrou mesmo pelo porto e seguiu caminho, em primeiro, pelos inferninhos das Bocas, tais como Bergen Bar, Zanzi Bar, Suomi, Hamburg Bar, Oslo Bar entre outros, que pelos próprios nomes de batismo deixava claro qual o público-alvo.
Não se pode esquecer dos proprietários dos bares, como o Seo Abel, Alvo Abdalla, Seo Julio e Augustinho, Vadão, Oscar, entre outros, que cederam espaço aos músicos, dando início ao redesenho cultural da época.
BEATLES E ROLLING STONES
Interessante efeito aconteceu na cidade à medida em que, perto do final dos anos 60, começaram a pipocar outras bandas de rock inglesas como Hollies, Led Zeppelin, The Who e os Rolling Stones, principalmente.
Do lado americano, Jimmy Hendrix, Jefferson Airplane, Deep Purple e o canadense Rush, sob meu ponto de vista, foram as únicas contribuições de peso ao rock mundial de então. Tínhamos pérolas como Simon & Garfunkel, Emmerson Lake & Palmer, mas algo mais comportado. Aqui eu falo de “pauleira”.
Na verdade, a poderosa máquina de produzir rock and roll, vinha mesmo das terras Vitorianas.
Mas o efeito de que falo refere-se à inegável influência dos “bonzinhos “ Beatles, e dos “sujos e malcriados” Rolling Stones, capitaneados por Mick Jagger, sobre aquela geração de músicos.
Muito interessante: enquanto bandas da orla como Black Cats ( Blow Up), Pop Six, New Zago, Stylo Set, Phase, Teenagers entre outros, incorporavam uma filosofia “Beatle”, os meninos lotados nas boites das Bocas assumiram uma postura Rolling Stone, provavelmente porque estes falavam diretamente à um universo de prostituição, fumo, álcool, incerteza, sofrimento e muita revolta.
Então forma-se a “banda podre“ do rock santista, mas nem por isso de baixa qualidade musical. Ao contrário, os músicos do baixo clero eram exímios e aprendiam na prática. Na verdade, a “pegada” das bocas tinha algo de diferente, profundo e de lamento, ao passo que os meninos da “banda limpa” eram donos de um som cristalino, mavioso e bem comportado. Igualmente excelente.
Tive sorte de viver os dois, em perfeito equilíbrio. A partir dos 17 anos, em grandes temporadas nas Bocas como “ free Singer”, fiz amizades com músicos excelentes, como Vign
a, Gennaro Ricardo, Zito, Lello, Jackson Satanás entre muitos outros. Mirão, Tony, Lory e Rico foram os “fab four” das Bocas que melhor incorporaram a entidade Rolling Stones, formando o inesquecível quarteto Union Beat, sem nenhum questionamento, uma das melhores bandas que o Brasil já viu, em se tratando de Rock and Roll. Se não foram mais conhecidos, é porque esbarraram no preconceito pelo fato de serem músicos de “puteiro” e porque a mídia sempre manteve uma postura medíocre em relação aos verdadeiros valores santistas. Tanto o é que, mesmo sendo celeiro de grandes talentos, apenas muito poucos conseguem a merecida projeção. Pior: isto continua até nossos dias, quando o “marketing” se sobrepõe ao talento.
Mas voltemos à Rua João Octávio, numa certa noite do final dos anos 60 quando os inferninhos ferviam sob o som das guitarras dos nossos “Stones”.
Invariavelmente a fumaça de cigarros era comum a todas e, vez em quando, devido ao exagero na bebida e drogas, “estourava” um “pau” que sempre era acalmado, após narizes quebrados e putas feridas, pela PE ( Polícia do Exército), os “récos” como eram chamados.
Eu mesmo, certa vez, testemunhei um “racha” destes, no Hamburg Bar, entre Alemães e Coreanos, digna de verdadeiros gladiadores. Atrás do palco, lembro-me, havia uma quartinho, espécie de camarim do inferno, onde os músicos descansavem e faziam malcriações nos intervalos. E foi pra lá que eu corri à primeira garrafa que estourou na parede do palco. Fui seguido pelo Satanás (Guitarra), Tico( bateria) e pelo Lello ( baixo) e, de lá, ouvimos nada menos que uns 15 minutos de pura pancadaria. Quando a P.E finalmente baixou a poeira, lembro de ter visto gente caída no chão, rostos ensangüentados e gringos tomando borrachada da polícia.
Parecia obra de seguidores de Bin Laden, no melhor estilo homem-bomba: o bar estava completamente destruído; para se ter uma idéia, um banco fixo ao chão havia sido arrancado por um marinheiro coreano para ir repousar no meio dos cornos de um marinheiro alemão.
AS GRANDES DIFERENÇAS
E assim, neste panorama dantesco, as diferenças se contrapunham entre as bandas “dirties” das bocas e as “polites” da orla. Enquanto as primeiras tocavam para um público formado por marinheiros, putas, travestis e cafetões, as segundas embalavam os bailes que os clubes chiques da orla marítima promoviam para seus jovens de classe alta e média-alta, abastados comerciantes e autoridades.
Nesta época, eu freqüentava os dois mundos: dava canjas nas Bocas e tocava nas domingueiras do Internacional com a banda Fire Emotion formado por Luiz na bateria, Ronaldo Rodrigues na guitarra base ( este cantava pra caralho e não ficava devendo nada a David Gates) Lourival Bilú Crooner, eu, este dinossauro que vos fala, no Baixo e vocais, e no lead guitar, nada menos que Roberto Shyniashiki, com sua Vox vermelha que infernizava os vizinhos, hoje famoso escritor de auto-ajuda.
Bailes no Saldanha, Atlético Santista e principalmente o Clube Internacional eram exemplos destes eventos recheados de bom comportamento e onde, ao menor sinal de “fumaça”, a S.W.A.T entrava em ação. Inaceitável!
No “Poor side of the town”, no entanto, a coisa era bem diferente, bem mais suja.
O “BEM” E O “MAL” DIVIDINDO ESPAÇO
Certa vez pude vivenciar esta grandes diferenças, num raríssimo encontro entre o Bem e o Mal: no Vasco da Gama, numa domingueira, duelaram Blow Up e Union Beat. Ali, pelo menos para mim, ficaram claríssimas as grandes diferenças, não só a partir do repertório de cada uma das bandas, como também do comportamento de seus componentes.
Notei, o jeito esculhambado e sarcástico do Union Beat onde roupas e cabelos agrediam os olhos e os músicos gesticulavam, falavam audíveis palavrões, fumavam e cuspiam no palco. Isto não se verificava no Blow Up, cujos componentes eram visivelmente asseados, comportados, e de gestos elegantes. Eram meninos de boa família, enquanto os outros, cães-sem-dono vindos não sei de onde e que se encontraram nas Bocas, apenas atraídos pelo rock and roll.
Não houve vencedor porque, indiscutivelmente, ambos, como já citei, eram excelentes, ainda que de “estirpes” diferentes e, mantendo suas díspares características, brindaram o público hipnotizado, com o melhor do rock de então.
Uma noite inesquecível onde, ao final, não se saberia bem a quem idolatrar. O Bem ou o Mal, o limpo ou o sujo. Na dúvida, ficamos com os dois!
Bardhal
Em homenagem aos músicos Santistas das décadas de 60 a 80
FOTOS: Arquivo pessoal do Vigna