Detento em cela da Central de Flagrantes
Déficit de peritos, necrotério com goteira, falta de internet e de geladeira para conservar cadáveres. O sucateamento do IML e do Instituto de Criminalística em Rio Preto atrasa inquéritos e, no limite, absolve criminosos. A mesma situação de improviso e carência estrutural se repete na Polícia Civil. No 1º, 2º e 5º Distritos Policiais, inquéritos demoram até quatro anos para ser relatados. A Central de Flagrantes não tem nem mesmo alvará dos bombeiros, e as quatro celas são insalubres e inseguras. Na Delegacia de Investigações Gerais (DIG), um banheiro foi improvisado como depósito para três toneladas de drogas, no início do ano.
Para o Ministério Público, a situação tornou-se insustentável. “A polícia precisa de estrutura mínima para trabalhar”, diz o promotor José Heitor dos Santos, corregedor das polícias em Rio Preto. Por sugestão dele, a Promotoria da Cidadania instaurou dois inquéritos para apurar o caso, e nos próximos dias deve abrir novas investigações.
A situação mais grave, segundo Santos, é a do IML. O Diário apurou que a internet no prédio é custeada pelos próprios servidores. Além disso, o órgão tem 21 funcionários, entre médicos, auxiliares e atendentes, quando o ideal seria o dobro disso. Não há aparelho de raios- X e, por falta de equipamentos, um simples exame de dosagem alcoólica precisa ser feito em São Paulo, o que atrasa o resultado em um mês.
No IC, a situação não é diferente. Faltam pelo menos sete peritos além dos 25 que dão expediente no local. Por isso, laudos chegam a atrasar mais de um ano. “Alguns juízes da Comarca exigem laudo para comprovar um furto qualificado, com arrombamento de porta, por exemplo. Por isso, se o documento não chega a tempo no processo, o réu recebe condenação por furto simples, que tem a metade da pena”, afirma o promotor criminal Julio Sobotka. O atraso também leva à destruição de provas. “Quem teve uma janela arrombada por um ladrão não vai esperar semanas pelo perito antes de consertá-la.”
Não é raro, segundo outro promotor, Sérgio Acayaba, audiências ser adiadas ou inquéritos mofar na gaveta por falta de laudos periciais. “Em casos de estupro, por exemplo, fica difícil denunciar um suspeito sem o laudo.”
Terreno
Essa carência seria resolvida facilmente, segundo Santos. Há um ano e meio, a Prefeitura de Rio Preto doou uma área atrás do hipermercado Carrefour para a instalação do IML e do IC. Mas, até agora, a Polícia Científica nem recebeu formalmente o terreno. “É um descaso injustificável”, disse Santos.
Secretaria promete corrigir problemas
Em nota, a Secretaria Estadual da Segurança Pública garantiu que tem feito investimentos “para melhorar o atendimento à população e reforçar o policiamento” em Rio Preto. Segundo a pasta, desde 2011 as polícias Civil, Militar e Técnico-Científica ganharam o reforço de 158 novos policiais, além de 394 viaturas. Há mais 10.211 vagas em aberto de concursos em andamento para as três corporações em todo o Estado. Na semana passada 392 novos policiais civis foram nomeados no Estado. Após passar por curso de formação, os servidores serão distribuídos “de acordo com a necessidade de cada região”.
O delegado João Pedro de Arruda, diretor ( desde janeiro de 2011 ) do Departamento de Polícia Judiciária de Rio Preto (Deinter – 5), informou por meio da assessoria da SSP que “estão em andamento procedimentos para a reforma da DIG e processo para alugar novo imóvel que tenha acessibilidade para abrigar o 3º Distrito Policial”. Ele nega investigações paradas nas delegacias da cidade, mas ressalva que “alguns casos são mais complexos e demandam mais tempo para serem solucionados”. Sobre as celas da Central de Flagrantes, Arruda argumenta que “as pessoas detidas ficam neste local provisoriamente”.
O superintendente da Polícia Técnico-Científica da região, Ivan Miziara, afirmou, também por meio da assessoria, que “estão sendo providenciadas adequações para melhorar a acessibilidade nos prédios” e que “serão realizados alguns reparos emergenciais no necrotério”. Com relação à doação de terreno, Miziara informou que “o processo de aceite está em andamento”.
Celas insalubres, sem pias e camas
A insalubridade é total nas cinco celas da Central de Flagrantes em Rio Preto, que abriga detentos provisórios antes da transferência para uma cadeia da região. Não há lâmpadas, pias ou torneiras no local. As latrinas estão entupidas e com vazamentos. A Vigilância Sanitária e o IC constataram restos de comida e embalagens de marmitex espalhados. Não há camas de alvenaria.
Por falta de segurança, detentos ficam poucos dias no local. “Precisa levar logo para uma cadeia”, diz um funcionário que não quis se identificar. Os problemas se repetem nos DPs. No 1º, 2º e 5º, são mais de 2 mil inquéritos. Como há déficit de funcionários, os inquéritos demoram até quatro anos para ser relatados, problema investigado por inquérito civil instaurado pelo promotor Carlos Romani. No 3º e 7º, o prédio não tem acessibilidade e é insalubre, segundo o promotor José Heitor dos Santos. “Já havíamos instaurado inquérito para investigar a estrutura desses DPs, mas a investigação foi arquivada depois que o Estado prometeu mudar de prédio. O que não ocorreu até agora”, diz Santos.
No prédio da DIG, o problema maior é a falta de acessibilidade. No piso superior, segundo a Vigilância Sanitária, há um forte cheiro de mofo, decorrente das infiltrações misturadas às fezes de pombo no telhado. Há dois anos, a carceragem do local foi desativada por falta de condições mínimas de funcionamento.