
Florianópolis, janeiro de 2026. A “ilha da magia” cavou mais um buraco na terra e enfiou dentro quatro rapazes que vieram de Minas e São Paulo em busca de trabalho e um gole de futuro barato.
Foi recebê-los com execução e inumação em vala clandestina e um recado muito claro: aqui quem manda é a facção; e quem finge mandar veste farda, terno ou toga e diz que está “apurando os fatos”.
O roteiro é velho, mas em Santa Catarina ganha uma estética própria: o estado que se acha Europa tropical, loiro de catálogo, com bandeira hasteada no poste e olhar torto para quem vem de fora : nordestino, mineiro, paulista preto, pobres em geral ou apenas inconveniente.
A elite branca de condomínio e a malandragem uniformizada, engravatada e togada compartilham o mesmo incômodo: esse Brasil mestiço, barulhento e inconveniente que insiste em atravessar a ponte e pisar na areia que eles imaginam privada.
Os quatro meninos desapareceram numa quinta-feira qualquer, depois de um bar qualquer, porque o Brasil é isso: a linha que separa “sair para beber” de “sumir do mapa” é o primeiro beco sem câmera e o primeiro camburão que resolve olhar para o lado errado.
Em Florianópolis, o lado errado costuma ter CEP de periferia e sotaque de fora; em Minas eles eram filhos, amigos, trabalhadores de promessa miúda; aqui viraram “elementos”, “suspeitos”, “possíveis envolvidos com facção”, aquele carimbo mágico que autoriza a indiferença.
A versão oficial, por enquanto, é a mais cômoda: facção local, PGC, cemitério do crime, revanchismo com facção rival.
É a narrativa perfeita importada do governo Paulista : atribui tudo ao “crime organizado”, esse espantalho conveniente que esconde a promiscuidade estrutural entre Estado, polícia e mercado ilegal ; como se cemitério clandestino brotasse sem vista grossa, sem controle territorial frouxo, sem conivência de quem diz “não sabia” enquanto passa de viatura a menos de uma quadra.
E quem garante que não seja o cemitério clandestino da PM catarina?
Muito mais grave, quando um estado inteiro se acha “diferente do Brasil”, o passo seguinte é tratar brasileiro mestiço de fora – salvo o Neymar – como invasor.
Racismo aqui não é só cor da pele, é também CPF de origem, sotaque e a roupa fora do padrão da tribo local.
A polícia catarinense já produziu seu desfile de casos de racismo explícito, a ponto de MP e Judiciário terem de impor medidas cautelares contra PM da reserva por vomitar ódio racial em vídeo , mas o discurso dominante segue o mesmo: “casos isolados”, “não representa a instituição”, “exagero da mídia”.
Enquanto isso, quatro corpos amarrados, mutilados, enterrados em Biguaçu, esperam identificação completa e laudo, enquanto as famílias em Minas e São Paulo sobem o calvário burocrático de reconhecer cabeça, fragmento, dente, qualquer coisa que prove que o filho agora é mais uma na estatística.
A morte em série, no Brasil, é processada em cartório, em planilha, em nota oficial de três linhas; o sofrimento é artesanal, feito à mão, de mãe em mãe, de pai em pai.
E aí entra o ponto que ninguém gosta de encarar: num caso desses, não basta “deixar a polícia trabalhar”.
Quando a polícia faz parte do problema – por ação, omissão ou promiscuidade – “deixar trabalhar” pode significar exatamente isso: garantir que não se chegue nos verdadeiros mandantes, nem nos elos incômodos da cadeia de comando, públicos e privados.
A mesma estrutura que finge se horrorizar com a vala é aquela que, na prática, negocia território, horários, favores e silêncio.
Ora…ora , onde não há drogas e putas a rodo não há turismo lucrativo!
A Polícia Federal, quando não está capturada por ministro oportunista e diretor carimbador de despacho, já mostrou que sabe mexer em colmeia sem pedir benção a coronel local nem a cacique estadual.
É justamente por isso que incomoda: porque, em tese, tem fôlego e estrutura para chegar aonde a polícia “da casa” tropeça, desvia o olhar ou recebe uma “orientação” de cima: “deixa quieto” , coloca na conta do PCC.
Num caso em que vítimas são migrantes internos, há suspeita de motivação discriminatória difusa, atuação de facção interestadual e histórico de racismo institucional, pedir federalização não é exagero; é instinto de sobrevivência democrática.
Santa Catarina precisa ser investigada de fora para dentro.
Não só o buraco na terra em Biguaçu, mas o buraco moral que transforma parte da população em hóspede indesejado no próprio país.
O separatismo não é só fantasia de rede social com bandeira confederada de fundo; está nas abordagens, nos xingamentos, nos “aqui não é lugar para vocês”, nas decisões administrativas que punem quem denuncia racismo e protegem quem pratica.
Os quatro rapazes mortos são o Brasil colidindo com o sonho europeu catarinense: um conflito que termina, claro, com os de sempre enterrados e os de sempre dando entrevista em frente a painel personalizado com brasão do Estado e do órgão policial.
Vão prometer “rigor”, “investigação imparcial”, “integração das forças”, enquanto nos bastidores combinam a narrativa aceitável, ajustam termos técnicos e distribuem culpas que não respingam em gente importante.
Neste palco, o mínimo aceitável é tirar o inquérito da mão da confraria local e jogar no colo de quem, ao menos em tese, não depende do churrasco de domingo com político da região nem da indicação para cargo em comissão no governo estadual. Federalizar não é panaceia; é só uma forma de dizer aos donos do pedaço que, desta vez, talvez não dê para empurrar tudo para o PCC de praxe e o PGC da vez, lavando a honra das instituições na água suja da vala comum.
Florianópolis gosta de vender a imagem de ilha da magia. A magia está aí: transformar quatro garotos em inimigos invisíveis, em alvos legítimos, em corpos descartáveis ; sem que ninguém de farda ou caneta se sinta realmente responsável.
Enquanto não vier alguém de fora abrir essas covas simbólicas e institucionais, a única magia garantida será essa: fazer desaparecer, junto com os rapazes, qualquer esperança de que a vida de quem vem de longe valha alguma coisa na república branca da praia gelada.
La em Santa Catarina 89 % da população se acha de raça Ariana ,ja passou da hora do resto do Brasil les dizer na cara que aqui é Brasillllllll senao se consideram Brasileiros que voltem pra Europa falida como era antes de seus antepassados na época que vieram pra cá ….
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Eu sou do Paraná. Minha origem é de um País da ex União Soviética. Os Catarinenses são bem preconceituosos e protecionistas mesmo. Só que fica a indagação… Se o Estado é composto por este tipo de pessoas, pq as mesmas continuam a ir p lá tentar a vida? O pessoal que mais causa lá são os turistas. Em especial os Argentinos. Não faz sentido. Não gostam do povo de lá, mas querem continuar a ir para lá. Muitos gostam da cultura de lá também.
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Anônimo em fúria: o estado é dirigido por esses tipos de pessoas . Parcela da população é influenciada , mas não se está falando de todo o povo .
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