“Eis aqui o que eles fazem, eis por que não são atingidos“.
“Se não é narcoestado, estamos a poucos passos”, afirmou o juiz Paulo Fernando Deroma De Mello, da 2ª Vara de Crimes Tributários, Organização Criminosa e Lavagem de Bens e Valores da capital; assim determinando a prisão – e desgraça social – da delegada Layla Lima Ayub após informações superficiais indicando suposto envolvimento da moça com o PCC.
Narcoestado , paradoxalmente, com a magistratura mais bem paga do Universo!
A decisão que desgraça uma delegada pobre – advogada , do Norte , ex- PM – em estágio probatório
Na sentença , que atendeu a representação do delegado Kleber de Oliveira Granja, da Divisão de Crimes Funcionais da Corregedoria da Polícia Civil de São Paulo, o magistrado vocifera que a contaminação do crime organizado no país já classifica o Brasil como um “narcoestado”.
Obviamente, fala em conformidade com o discurso da extrema-direita endinheirada que governa o Estado de São Paulo .
Perfeitamente alinhada ao governo!
Mas esquecendo de um sistema em que absolvições e “habeas corpus”, na prática, parecem circular como mercadoria em feira de “Corpus Christi”.
Fala-se , neste ponto , apenas de alguns poucos juízes , desembargadores e ministros distribuídos isonomicamente por todos os tribunais do Brasil.
A ordem de prisão contra a delegada Layla – nos termos das passagens vazadas para a imprensa , em regra alimentada de órgãos de persecução penal – é um exemplo acabado de como a retórica do “narcoestado” serve mais para produzir espetáculo do que para fundamentar, com serenidade, uma medida extrema contra uma servidora em início de carreira.
Ao falar em Brasil “a poucos passos de se tornar um narcoestado” e tratar a hipótese acusatória como se fosse prova de captura institucional, o juiz abandona a linguagem técnica e assume um tom político-apocalíptico incompatível com a imparcialidade que se espera da jurisdição.
Em vez de se ater a fatos demonstrados, a decisão se apoia em um mosaico de postagens em redes sociais , relações pessoais e ilações sobre “infiltração”, convertendo investigação em sentença moral antecipada.
Nesse proceder, abre espaço para todos os preconceitos que já rondavam o caso – misoginia, racismo e xenofobia regional – e contribui para desgraçar biograficamente uma jovem delegada antes que qualquer prova seja validada no devido processo legal.
Se o Juiz conhecesse um pouco da história deveria ter dito que o PCC – e o narcotráfico organizado – é uma criação Paulista , sempre com Secretários de Segurança , de Justiça e Assuntos Penitenciários escolhidos a dedo entre Desembargadores , Procuradores de Justiça e , um ou outro , Coronel da PM,
Um narcoestado que tem sido muito benéfico para alguns, não é Sr. Juiz de Garantias ?
A exploração midiática e a fama do Ministério Público como paladino da moralidade caminham hoje lado a lado, alimentadas por vazamentos seletivos, investigações espetacularizadas e um sistemático desprezo pelo princípio da presunção de inocência.
A personagem do “delegado corrupto ligado ao PCC” rende manchetes fáceis, mobiliza afetos morais na opinião pública e oferece ao Ministério Público o protagonismo simbólico de instituição purificadora do sistema, ainda que o processo real esteja longe de qualquer conclusão.
Presunção de inocência como ornamento retórico
Na narrativa oficial, a presunção de inocência continua escrita na Constituição, citada em decisões e repetida em discursos institucionais, mas na prática foi rebaixada a mero ornamento retórico.
No plano da comunicação, o que vale é a imagem do “inimigo interno” já condenado pela manchete e pelo release acusatório, pouco importando se a investigação será arquivada ou terminará em absolvição anos depois, quando ninguém mais se interessar pela correção do dano.
Novos delegados , não façam aos seus investigados aquilo que fazem – e farão – com vocês!
Ou seja, não naturalizem o direito penal do inimigo aplicado a pobres, pretos e periféricos, pois o mesmo modelo já está sendo testado contra vocês.
O caso recente da delegada recém‑empossada, vinculada midiaticamente ao PCC antes mesmo de completar o curso de formação, ilustra com precisão esse fenômeno: imputações são noticiadas como verdades consolidadas, relações pessoais são tratadas como provas, e qualquer nuance fática é varrida do debate em nome da “luta contra o crime organizado”.
Em lugar de “há suspeitas, sob apuração”, o que se divulga é “delegada do PCC”, como se a fase instrutória e o contraditório fossem formalidades dispensáveis diante da necessidade de alimentar a narrativa de Estado forte contra facção criminosa.
O viés acusatório e a construção do “delegado inimigo”
No centro desse processo está um viés acusatório que se consolidou dentro de certos núcleos de ”juristas” ; em especial Juízes Criminais e os grupos de combate ao crime organizado, acostumados a enxergar a estrutura policial não como parceira institucional, mas como território inimigo a ser vasculhado em busca de “serpentes”.
Na prática – desde a antiga doutrina de que prisão preventiva de policiais civis seria sempre necessária e imprescindível por se tratar de agentes armados com potencial de intimidar testemunhas e destruir provas – muitos membros desses grupos passaram a tratar o delegado de polícia – e policiais civis em geral – como suspeito presumido: se atua na ponta, ganhando pouco , se lida com facção, então “deve ter algo a mais ”; e, a partir daí, todo fato é selecionado e interpretado para confirmar o preconceito inato.
Esse é o mecanismo clássico do viés de confirmação: parte‑se da crença de que há corrupção e a realidade é moldada para caber dentro da crença.
Relações pretéritas de advocacia criminal, contatos inevitáveis em audiência de custódia, circunstâncias profissionais típicas da área penal – tudo pode ser ressignificado como indício de infiltração, desde que sirva para reforçar o enredo desejado.
O resultado é um ambiente institucional de desconfiança permanente, no qual o delegado deixa de ser um agente de Estado com atribuições próprias e passa a personagem suspeita, útil para o teatro moral da “limpeza institucional”.
Manchetes, espetáculo e a economia do escândalo
A imprensa encontra nesse cenário um prato cheio: delegado, crime organizado, suposta infiltração, romance com criminoso, tudo isso rende cliques, audiência e sensação de drama moral.
Ao mesmo tempo, o órgão acusador aparece como protagonista heroico, “desmascarando” o inimigo interno e salvando a sociedade da degeneração do aparelho repressivo, numa narrativa que combina elementos de novela policial e sermão cívico.
Não é por acaso que delegados envolvidos em escândalos – ainda que apenas investigados – produzem manchetes mais chamativas do que decisões técnicas, silenciosas e bem fundamentadas.
Acusações e prisões cautelares oferecem fotos, imagens de condução, falas indignadas de autoridades e frases de efeito que se encaixam perfeitamente na lógica das redes sociais e dos portais de notícias.
Já o desfecho processual, quando chega, não rende a mesma visibilidade: absolvições, trancamentos de ações penais, prescrições e arquivamentos raramente vêm acompanhados de coletiva de imprensa, cenário montado e discursos inflamados.
Nessa economia simbólica do escândalo, o Ministério Público colhe dividendos importantes: projeta‑se como instituição vigilante, incorruptível, tecnicamente superior às demais, especialmente à Polícia Civil, apresentada ao público como corporação permanentemente sob suspeita.
A assimetria narrativa é completa: o delegado é personagem de escândalo; o promotor, personagem de redenção.
E, enquanto isso, o princípio da presunção de inocência – que deveria proteger qualquer pessoa, inclusive agentes públicos – vai sendo corroído na prática, substituído por um sistema de julgamento antecipado na praça pública.
Concursos em massa, filtros frágeis e culpa governamental
Há, sim, um problema estrutural sério no modelo recente de concursos para delegados: turmas gigantescas, com mais de quinhentos aprovados de diversos estados, curso de formação encurtado e pouco investimento em investigação de vida pregressa e formação ética profunda.
Isso tudo em nome da pressa política em preencher vagas e “mostrar resultados”, espalhando novos delegados por todo o estado – em ano eleitoral – sem o amadurecimento institucional necessário.
Entretanto, é preciso separar o diagnóstico estrutural da culpabilização automática do indivíduo.
O fato de o modelo facilitar o ingresso de perfis inadequados ou vulneráveis não autoriza que cada delegado recém‑empossado seja tratado como potencial infiltrado, nem que sua biografia seja pulverizada porque se encaixa num tipo ideal conveniente para a narrativa acusatória.
A crítica deve mirar as escolhas administrativas e de governo – concursos em massa, cursos de formação apressados, ausência de rotinas periódicas de seleção mais refinada – e não servir como justificativa para transformar qualquer suspeita em condenação informal imediata.
Uma carreira de Estado que lide com crime organizado, corrupção e violência estrutural precisa de filtros rigorosos e cursos de formação sólidos, mas também precisa de um regime de garantias mínimas para seus membros.
Se o delegado passa a ser descartável na arena midiática ao primeiro sinal de escândalo, a mensagem institucional é clara: o sistema não protege seus próprios agentes das distorções político‑midiáticas, nem respeita sua humanidade básica.
Entre a apuração necessária e o “amor bandido” como espetáculo
Nada disso significa blindar ninguém contra apuração séria. Se há indícios consistentes de que uma autoridade policial se envolveu com organização criminosa – seja por vínculo afetivo, seja por interesse econômico, seja por associação ideológica – a investigação deve ser firme, técnica e, quando for o caso, exemplar na aplicação de sanções.
O problema é quando a hipótese investigativa vira condenação moral instantânea, e a história pessoal passa a ser explorada como peça de entretenimento punitivo.
O rótulo “amor bandido” é sintomático desse processo: converte eventual vínculo afetivo em senha para a desumanização completa da pessoa, reduzida a personagem de roteiro policialesco.
Em vez de se discutir serenamente os limites éticos da atuação de advogados e delegados, as incompatibilidades funcionais, a necessidade de separar vida pessoal e exercício da autoridade, a discussão é capturada pelo sensacionalismo.
O que interessa não é compreender, mas exibir uma advogada de porta de cadeia que, aparentemente, mantém um relacionamento afetivo com um suposto membro do PCC, como infiltrada .
Será que utilizariam esse mesmo raciocínio para alguém casado ou casada com Magistrado , Promotor , etc. ?
Afinal , receber honorários estratosféricos de banqueiro bandido não é ainda pior do que advogar para chineleiros?
Por um outro padrão de responsabilização
Se o jornalismo que se pretende crítico não romper esse padrão – manchetes que condenam, textos que reforçam o viés acusatório, silêncio sobre garantias e presunção de inocência – acabará funcionando apenas como correia de transmissão do espetáculo moral produzido por órgãos de persecução penal.
Em vez disso, é possível – e necessário – construir outro padrão:
Noticiar investigações sem transformar suspeitos em culpados antecipadamente.
Expor o perigo do viés de confirmação presente em operações espetaculares.
Questionar a seletividade dos vazamentos e das coletivas.
Lembrar que a presunção de inocência também vale para delegados de polícia.
Apesar de grande parte deles não a respeitarem quando se trata de outrem!
Quando envolvidos em escândalos deixam de ser tratados como personagens descartáveis e passam a ser enxergados como sujeitos de direitos – inclusive o direito de responder às acusações sem linchamento prévio – algo se desloca no regime de poder simbólico vigente.
O Ministério Público continuará a cumprir seu papel acusatório, mas a fama fácil de paladino moral perderá parte do brilho, porque terá de conviver com um jornalismo que não aceita mais confundir denúncia com sentença, nem manchete com verdade.
Absurdamente sentenciou o procurador-geral de Justiça de São Paulo, Paulo Sérgio de Oliveira e Costa ao afirmar que o caso evidencia a tentativa de infiltração do crime organizado em estruturas do Estado.
“Além da economia formal, o crime organizado tem também se infiltrado em carreiras públicas e estruturas de Estado. Mas em São Paulo, graças aos setores de inteligência, isso tem sido coibido.”
Com efeito, quando a autoridade máxima do órgão acusador fala apenas em “infiltração” e “atuação do crime organizado no Estado”, sem ressalvas claras ao status jurídico da investigada, contribui para consolidar a culpa antecipada e legitimar o linchamento midiático.
Transforma um inquérito ainda em curso em prova de uma tese política ampla, como se a culpa individual já estivesse definida.
Essa extrapolação é problemática porque usa um caso específico – ainda não julgado – como vitrine para um discurso institucional de firmeza, o que pressiona simbolicamente o Judiciário e contamina a opinião pública com a ideia de que já se trata de uma infiltração comprovada.
Em nenhum trecho destacado nas matérias o chefe do MP enfatiza que a delegada é investigada, não condenada, e que todas as imputações precisam ser demonstradas em juízo, com contraditório e ampla defesa.
Autoelogio institucional
O Procurador-Geral afirma que o crime organizado tenta se inserir em cargos públicos e que isso tem sido “coibido graças aos setores de inteligência” – diga-se serviço feito pela PM – o que funciona como autoelogio do próprio Ministério Público e dos grupos especiais que coordena.
Não há, porém, qualquer reflexão sobre erros, excessos, vazamentos seletivos ou sobre o risco de viés de confirmação nas apurações ; como se o MP fosse imune a falhas humanas e institucionais e só a Polícia Civil fosse vulnerável à corrupção.
E reforça a imagem da polícia como campo contaminado, a ser “higienizado” pelo MP, que se coloca como instância moral superior.
Aqui se cumpre o juramento de justiça ao contrário : ser indulgente com os fortes e implacável com os mais fracos !
Enfim , o destino da delegada – que fatalmente será desligada do curso e exonerada “a toque de caixa” – certamente seria outro no caso de casada com um figurão e advogada de banqueiros.
No tribunal do futuro próximo – aquele onde os cronistas chegam antes dos julgadores – já se comenta, em surdina, a grande profecia: para absolver os acusados, bastará arrolar como testemunhas de defesa a própria cúpula da investigação.
A delegada do DHPP ( departamento de homicídios e de proteção à pessoa ) , o titular do DEIC ( departamento de investigações gerais e organizações criminosas ) , o chefe do DENARC ( departamento antinarcóticos) e o onipresente Secretário de Segurança , Dr. Nico , entrarão no plenário não como arautos da culpa, mas como personagens de um roteiro que se auto desmonta, frase por frase, coletiva por coletiva.
O inquérito que se incrimina
O caso nasce embalado em narrativa perfeita para manchete: PCC vingativo, promessa de morte desde 2005, ladrões de banco magoados com o delegado “linha-dura” e, coroando, uma execução digna de Michael Mann, com direito a referência tácita a “Fogo Contra Fogo”.
A história é boa demais para ser estragada por detalhes como prova, coerência lógica ou parcimônia comunicacional.
Para pior: a linguagem de alguns é tosca!
A delegada do DHPP menciona explicitamente um Logan “NP”…
A sociedade sabe o que é um veículo NP , ou seja , objeto de busca e apreensão administrativa ou judicial por falta de pagamento : NÃO PAGADO?
Na ânsia de mostrar serviço, a investigação se apresenta ao país numa vitrine de certeza moral: os investigados são velhos conhecidos, “faccionados antigos”, “topo” do comando local, gente de “sintonia restrita” – portanto, não precisam apenas ser investigados; precisam encaixar no papel de mandantes que a opinião pública exige, sob pena de parecer que o Estado perdeu o fio da narrativa.
A presunção de inocência não existe ; em seu lugar o “princípios do direcionamento e da confirmação” .
A bala que volta pela boca
É aí que entra a Teoria da Perspectiva, de Daniel Kahneman e Amos Tversky, sem que ninguém a convide: valorizamos mais evitar perdas do que obter ganhos equivalentes.
No cálculo institucional, a perda de um ex-delegado-geral é gigantesca, mas a perda do cargo ou do favor político é mais imediata e aterradora.
A aversão a esta perda – a pessoal, a burocrática – atua como combustível definitivo para decisões apressadas, declarações categóricas e o enquadramento da narrativa aos ventos do poder.
A investigação se alinha não à lógica dos fatos, mas à da autopreservação.
O crime é moldado como “promessa antiga” de vingança; o passado de 2005 vira atalho mental para explicar tudo o que não se sabe em 2025–2026.
Mas quanto mais a delegada do DHPP fala, mais munição entrega à futura defesa: admite investigação em curso, perícias pendentes, “última pecinha” não encontrada, incerteza sobre a existência de mandante superior – e, ainda assim, sustenta, em tom de convicção, um enredo fechado de vingança pura, sem “rolagem de grana”, quase um acerto de contas romântico entre o “roubo a banco raiz” e o PCC senil
Em linguagem de júri, isso significa algo simples: o próprio Estado reconhece, em público, que falou mais do que sabia. E tudo gravado, editado, compartilhado, indexado – na era digital, a verborragia não prescreve.
A contradição do crime “fácil” em modo blockbuster
Um dos momentos antológicos vem quando a autoridade insiste que a rotina da vítima tornava tudo muito fácil: andar de moto, circular à beira-mar, por vezes desarmado, vulnerável, acessível, quase um alvo didático.
Se era assim, perguntará a defesa, por que diabos o crime foi executado com coreografia de filme, em avenida, com colisão, rajadas, feridos colaterais, câmeras captando metade da sequência?
A narrativa oficial constrói o cenário da facilidade e, com isso, destrói a lógica do modus operandi escolhido.
Se havia mil chances discretas, o espetáculo armado em via pública passa a exigir outra explicação: recado público?
Disputa interna?
Outro interesse eclipsado pelo mantra “vingança de 2005”?
Quando o Ministério Público tiver de responder a isso, a defesa já terá em mãos a melhor peça de marketing a seu favor: a gravação da própria delegada descrevendo um alvo fácil e um crime desnecessariamente barulhento.
O milagre dos “Azuis” multiplicados
A cereja do bolo está na confusão das alcunhas: Azul colorido, Azul careca, Azul de um inquérito, Azul de outro.
O erro é admitido, relativizado, quase tratado como acidente de digitação, quando, na verdade, revela falhas estruturais de checagem em um caso de enorme repercussão.
No plenário, a pergunta será irresistível: se a polícia errou no “Azul”, quantos outros detalhes foram sacrificados na corrida pela coletiva perfeita?
E mais: se as autoridades não conseguem distinguir homônimos de apelido, como garantir que a imputação de mando não é produto de viés, pressão e “narrativa pronta” em busca de personagens?
A resposta, qualquer que seja, interessará muito mais à defesa do que à acusação.
Testemunhas da defesa, em traje de acusação
É nesse ponto que a profecia se escreve sozinha.
O advogado se levanta, terninho surrado, olhar cansado de quem conhece mais as sombras do que sol, e anuncia:
Excelência, a defesa requer, com especial deferência, a oitiva das seguintes testemunhas: diretora do DHPP, delegado do DEIC, delegado do DENARC e o Secretário de Segurança…
O promotor arregala os olhos. O juiz consulta o relógio.
O júri não entende nada. Mas o processo entende.
Porque, ao deporem, essas autoridades terão de explicar cada contradição, cada excesso retórico, cada certeza antecipada; terão de repetir, sob contraditório, que “a investigação não estava concluída”, que “não se sabia se havia mandante acima”, que “foi possível confundir Azul com Azul” e que “a vítima oferecia facilidade, mas foi morta em modo “sucesso de bilheteria” .
A linha de defesa estará pronta: não se trata de negar a gravidade do crime, mas de demonstrar que a narrativa estatal é psicologicamente enviesada, juridicamente imprudente e logicamente inconsistente.
Em linhas gerais , a própria cúpula Polícia Civil sob pressão do governo do Estado se encarregou de plantar dúvidas mais do que razoáveis : aquelas que absolvem.
Flit, por enquanto, paralisante
No palco do Flit Paralisante, essa história já se desenrola como crônica de costumes de uma segurança pública guiada mais por roteiros de Netflix eleitoral do que por método; muito mais por aversão à perda de prestígio do que por rigor probatório.
A tragédia é real, o morto é real, o PCC é real ; mas a narrativa que se pretende definitiva nasce contaminada por pressa, vaidade coletiva e a velha crença de que falar com ares de autoridade em coletiva é sinônimo de “resposta do Estado”.
A ironia final é simples e cruel: quando o processo chegar à sua hora decisiva, talvez não sejam os acusados que precisem se explicar.
Bastará chamar à tribuna as autoridades do “nós temos certeza”, agora sob juramento, e deixar que, em silêncio entre uma resposta e outra, elas revelem o que sempre tentei ensinar : o inquérito, mal feito e mal contado, na maioria das vezes , é o melhor álibi.
Este texto é, ao fim e ao cabo, uma homenagem póstuma ao delegado Itagiba Vieira Franco, falecido no último dia 8, cuja trajetória firme e silenciosa contrasta dolorosamente com a verborragia insegura de certos protagonistas de hoje.
Nele se celebra a figura do policial que não precisava de holofotes para exercer autoridade, que conhecia o peso das palavras em investigação sensível e que, justamente por isso, faz ainda mais falta quando se vê a cúpula da Polícia Civil deste Estado tropeçar na própria narrativa por incultura , por incompetência e por medo de desagradar o governo!
O governo Tarcísio de Freitas transformou a exceção em regra ao privilegiar soluções extrajudiciais generosas quando os beneficiados são grandes grupos econômicos.
Nas concessões de rodovias, a ARTESP reconheceu administrativamente mais de dois bilhões de reais em “reequilíbrios” pós‑pandemia, sem que as concessionárias precisassem bater às portas do Judiciário ou comprovar cabalmente suas perdas.
Ao mesmo tempo, o governo paulista aprovou o PL 410/2025 e outras normas que permitem a venda de até 720 mil hectares de terras devolutas – ocupadas irregularmente por grileiros há décadas – com descontos de até 90% sobre o valor de mercado, legalizando a preço de capim seco propriedades avaliadas em bilhões.
Escancarando a lógica perversa da direita torta: nega sistematicamente direitos líquidos e certos de contribuintes , de hipossuficientes e de servidores públicos; especialmente os de segurança pública “sem-estrelas” , empurrando cidadãos e funcionários de baixo escalão para calvários judiciais, enquanto – “graciosamente “ – abre a torneira do Erário e as pernas – para concessões bilionárias em favor de grandes grupos privados em plena temporada eleitoral.
Meu nariz defeituoso sente fedor de corrupção administrativa !
Um peso , duas medidas…
A mensagem política é cristalina: para quem veste avental , colete ou farda sem estrelas , anos de espera, perícias, e mais perícias, apelações , agravos e embargos; para quem controla praças de pedágio, basta uma “canetada técnica” de um parecerista de prateleira torta da biblioteca para transformar alegações discutíveis de “desequilíbrio” em crédito gordo a ser pago com dinheiro público.
A crueldade institucionalizada contra os policiais
Policiais estaduais convivem com uma rotina de judicialização para obter o óbvio: férias , licenças-prêmio , adicionais, promoções, pagamentos de diárias incorporação de gratificações e aposentadorias na respectiva classe no momento do cumprimento dos requisitos constitucionais .
A Fazenda, amparada por pareceres de ocasião, recusa administrativamente direitos evidentes, força a propositura de ações, recorre de sentenças favoráveis aos autores , posterga precatórios e transfere integralmente para o servidor o custo emocional e financeiro da litigância.
O recado institucional é devastador: o Estado que exige honestidade , disciplina, risco de vida e disponibilidade integral é o mesmo que se esconde atrás de filigranas para não cumprir a própria lei quando se trata de remunerar com justiça quem o sustenta nas ruas.
Enquanto policiais são obrigados a percorrer anos de litigância para receber direitos cristalinos, fazendeiros condenados por desmatamento e grandes latifundiários obtêm títulos de propriedade praticamente de graça, numa reforma agrária às avessas que drena patrimônio público para quem menos precisa e menos contribui.
O “privilégio” das concessionárias e das castas de grileiros de terras públicas
Quando o assunto são concessionárias de rodovias, a postura se inverte: aquilo que, para o policial, exige trânsito em julgado, para grandes empresas vira “direito adquirido” reconhecido sem burocracia, sem o contraditório real da sociedade.
Em nome de um alegado “reequilíbrio econômico‑financeiro” supostamente causado pela pandemia, o governo se dispõe a reconhecer mais de dois bilhões de reais em favor de grupos que exploram pedágios caros, contratos recheados de garantias e retornos acima da média.
Não há fila de precatórios, não há anos de espera nem ansiedade para saber se “o judiciário vai confirmar”; há notas técnicas benevolentes, reuniões fechadas, termos aditivos e a pressa típica de quem sabe que ano eleitoral é a janela perfeita para premiar aliados econômicos.
E para grileiro de terra pública , quando não indeniza pelas benfeitorias , vende a terra a preço de lama.
A engenharia retórica dos advogados do governo
Os mesmos advogados públicos e pareceristas que tratam pleitos de policiais como “tese controvertida” ou “impacto fiscal excessivo” são pródigos em criatividade para fabricar fundamentos a favor de concessionárias e outros grupos de poder e seus apadrinhados.
Para o servidor sem dinheiro no banco e sem parentes importantes , invoca-se o a legalidade , o interesse público acima do particular , “rigor orçamentário”, a “necessidade de respeito ao teto de gastos”, a “impossibilidade de reconhecimento administrativo sem trânsito em julgado”, mesmo diante de direitos que saltam aos olhos da mais básica hermenêutica.
Para as empresas, o discurso muda: a pandemia vira cláusula mágica para justificar “perdas” que nunca são cotejadas com a redução de custos e de investimentos; a “segurança jurídica” passa a ser escudo para blindar lucros; o “equilíbrio contratual” serve como passaporte para extrair bilhões do Tesouro.
O Tarcinismo da oportunidade eleitoral
O tempo das compensações não é detalhe técnico: concentrar reconhecimento de créditos bilionários às vésperas de eleição revela prioridade política, não apenas “gestão de contratos”.
Para não dizer coisa pior !
Enquanto policiais seguem atolados em ações individuais e coletivas, contando centavos para pagar advogados, peritos e custear recursos, o governo organiza um pacote robusto de benesses a conglomerados que há décadas drenam renda de usuários de rodovias.
Em pleno debate sobre custo de vida, desigualdade e falta de investimento em serviços essenciais, o governo escolhe premiar setores que jamais experimentaram o desamparo que atinge as bases da sociedade.
É uma escolha imoral, antes de tudo.
Captura do Estado e desprezo pelo cidadão paulista
Quando o governo é duro com contribuintes , com servidores , com policiais e generoso com concessionárias, não se está diante de mera “opção técnica”, mas de um desenho de poder: o Estado capturado por interesses privados sofisticados, que dispõem de bancadas, lobbies e escritórios influentes, contra uma base de servidores fragmentada e vulnerável.
A advocacia pública, em vez de atuar como defensora impessoal do interesse público, degrada-se em filtro seletivo: implacável com o pequeno, complacente com o grande; formalista com o servidor público da administração direta , mas empática e criativa com os grupos de poder , como as empresas que exploram as nossas estradas.
O resultado é devastador para a legitimidade das instituições: policiais aprendem que o direito escrito nada vale sem poder de lobby ou do repasse de propina ; a população percebe que paga, em pedágio e impostos, pela combinação perfeita entre insensibilidade social e submissão a grupos econômicos.
Esse contraste – cidadão e servidor na fila do Fórum para ter o básico, esbulhadores , empreiteiros e concessionárias no tapete vermelho para receber bilhões em ano eleitoral – é a síntese de um governo que usa a austeridade como chicote para a base e a “técnica” como disfarce para a transferência de riqueza ao topo.
Por mais que eu queira acreditar no DHPP , ao ver a sua diretora fazendo papel de coadjuvante do diretor do DENARC – que virou protagonista – tendo ao seu lado um Coronel da PM ; só tenho um conclusão: TEATRO …
Na cultura policial , o “chaveirinho” é todo aquele que vive dependurado em alguém com mais poder – delegados cardeais , titulares de Unidades, comandantes, políticos, chefes de gabinete – em busca de promoção, cargo ou vantagem, vendendo submissão por projeção e proteção. Enquanto conveniente, obviamente .
A reestruturação que infla o número de coronéis, sem reforçar praças nem melhorar serviço, cria as condições ideais para multiplicar esses “chaveirinhos” de luxo: oficiais cujo futuro passa mais pelos votos dados ao padrinho do que pelo desempenho profissional.
A “farra dos coronéis” que está em curso na PM paulista não é política pública de valorização da carreira, mas um projeto de cooptação de quadros para formar uma milícia de apoio político e operacional, em tudo semelhante ao modelo chavista de Nicolás Maduro – com uma diferença essencial: aqui, custa muito mais caro e entrega ainda menos.
A cooptação
O discurso oficial fala em “reestruturação” e “modernização” do comando, mas a movimentação concreta aponta para outra coisa: inflar o topo da pirâmide para garantir lealdades pessoais e eleitorais, não para melhorar o serviço prestado ao cidadão. A multiplicação de coronéis e respectivos assessores, com carros, motoristas e mordomias, produz um exército de ocupantes de gabinete, dependentes do favor político, cuja função principal é blindar o governo e patrulhar dissidências internas, não patrulhar ruas.
O modelo Maduro, versão Ribeira do Iguape…Ou carioca?
Na Venezuela, o regime se sustenta na compra sistemática de fidelidade de oficiais, criando uma casta militar privilegiada em troca de obediência política irrestrita.
No Brasil de Tarcísio, copia-se o método: amplia-se artificialmente o número de coronéis, garantindo salários elevados, benefícios e poder de mando, desde que alinhados ao projeto de governo e dispostos a funcionar como guarda pretoriana do poder “civil” de turno.
A obscena diferença de custo
Em Caracas, um “general do regime” , apesar dos privilégios materiais paralelos, tem soldo oficial que gira em torno de poucas centenas de dólares mensais, cerca de 400 dólares, em moeda fraca e economia destruída.
Já em São Paulo, um coronel da PM – somando vencimentos , vantagens e penduricalhos – não sai por menos do equivalente a 10 mil dólares mensais, com piso em torno de dezenas de milhares de reais, bancados pelo contribuinte que anda em ônibus lotado e bairro sem viatura.
Não esquecendo , uma trombadinha aqui outra ali de leve, né?
Já que são especialistas em licitações…
Meio batalhão fora das ruas para nada
A conta é simples e devastadora: dezenas de carros oficiais, motoristas, escolta e ordenanças para servir novos coronéis significam aproximadamente meio batalhão retirado do policiamento ostensivo, num estado que já não consegue atender minimamente sua demanda por segurança.
Esses coronéis adicionais não produzem doutrina, informação , formação , investigação, não lavram flagrante, não patrulham área sensível, não atendem ocorrência .
Produzem apenas mais hierarquia, mais gastos , mais burocracia e mais pressão política dentro da corporação, convertendo a PM em plataforma de poder, não em serviço público.
Oficiais da PM como ativo eleitoral
Ao ampliar vagas no topo sem reforçar a base, o governo fabrica uma elite fardada que deve sua ascensão menos ao mérito e à antiguidade do que ao apadrinhamento político do momento.
Essa elite, que está subindo da sarjeta para o meio -fio , cercada de privilégios, passa a ter como missão prioritária sustentar o projeto de poder que a criou: controlar narrativas, enquadrar divergentes, garantir operações convenientes à pauta de governo ; deixando a população à mercê de uma polícia cada vez mais verticalizada , cada vez mais violenta e cada vez menos presente nas ruas.
O Delegado Nico nunca representou a maioria dos Delegados de Polícia — nem quando ocupou cargos de comando na Polícia Civil, e muito menos como Secretário Adjunto. Chegou onde chegou graças ao seu esforço, e apoio político, do qual sempre soube se servir. Quando a categoria precisou de voz, você se calou, foi assim no episódio dos aumentos salariais, quando tivemos diferença a menor em relação aos Oficiais PM. E agora, diante da LOP e da possibilidade de mudança de vencimentos para o regime de subsídios (um perigo), o silêncio se repete. Vai ficar “mudo”? Secretario Nico, convoque os Presidentes da ADPESP e do Sindicato, e outras Associações e conte a eles, para que transmitam aos filiados, o que está ocorrendo e em que pontos se encontram as negociações com o Governador e com os Deputados Estaduais. Mostre a todos, inclusive à Polícia Militar, a inteligência, a articulação, a coragem e o classismo que todos esperamos de um colega Delegado de Polícia. Não vá terminar sua gestao sem mostrar antes a que veio, depois de um jejum de mais de 60 anos sem que um Delegado comandasse a Segurança Pública. Bota para quebrar, Nico! Você não precisa do cargo na Secretaria de Segurança Pública. Construiu com esforço um comércio sólido de pizzarias e não depende do Estado. Mostra sua cara! Sempre esteve aí, agora é hora de mostrar se é de fato um dos nossos ou apenas mais um que se senta na “cadeira” e se esquece da sua origem. A categoria não esquece quem se cala quando mais precisa falar.
Francisco Leão Delegado de Polícia Classe Especial
O manifesto acima de um senhor que se vangloria de ter sido “boina azul ” – embora sem a coragem de um Carlos Lamarca – depois membro da Força Pública , da PM e concursado como delegado de polícia e membro da “academia de letras dos delegados de polícia – cadeira 17.
Diga-se, não sei que academia é essa; tampouco que boas obras esse delegado aposentado escreveu .
Observo , por vezes , que ele gosta de visitar a Argentina – a terra do meu saudoso pai – e , particularmente , penso que ele não deveria sujar as nossas calçadas com os seus sapatos …E muito pior: com as suas palavras!
Quanto ao texto, não há ninguém no mundo que já tenha criticado o NICO , tanto quanto nós.
Mas – várias vezes – elogiei merecidamente, lembrando que ele foi o único delegado que deu a cara a tapa para evitar uma tragédia no embate na greve …
E o critico quase toda semana , mas nunca covardemente!
Nunca na escama…
E somos do “Peixe”!
Frases como “Quando a categoria precisou de voz, você se calou” e “o silêncio se repete” não são apenas críticas; são acusações públicas de covardia e omissão.
Quando ele se calou para a classe ?
Tal mentira , é uma tentativa de envergonhar o destinatário perante seus pares.
É um ataque à identidade profissional de Nico, sugerindo que ele é um traidor de classe, um “vendido”.
E isto , vai muito além da crítica a uma gestão.
E mencionar que ele “construiu com esforço um comércio sólido de pizzarias e não depende do Estado” é ambiguidade perversa .
Serve para desqualificá-lo, insinuando que seu compromisso não é integral.
É uma exposição que pode ser lida como invasiva e desrespeitosa.
E já cometi esse erro, confesso!
Leão , tem quem escolha ficar – paralelamente ao cargo – praticando esportes e namorando moças – ou mesmo tocar guitarra na praia – né?
Qual o demérito de instituir um empreendimento – familiar – sólido ?
O seu texto de Leão, sem dentes , é justamente ofensivo nas passagens em que o tom se aproxima do insulto e do “desmascaramento pessoal”.
Questionando a integridade de Nico enquanto delegado ; insinuando que a origem e o compromisso de classe foram esquecidos é fala covarde!
O que você fez no seu tempo?
Essa sua retórica , embora emocionalmente embalada num contexto de frustração coletiva, fere a dialética republicana da crítica pública…
E você é fruto da ditadura militar…Golpista convicto!
Lembre-se : a crítica deve visar o ato de gestão, não o caráter da pessoa.
Para encerrar, você Leão – pelo que escreve – nunca mereceu ser delegado de polícia !
Em reportagem , no Conjur , o jornalista e advogado Eduardo Velozo Fuccia, expõe que policiais da Rota, em operação no Morro São Bento (Santos), sob a supervisão do GAECO , desligaram as câmeras corporais exatamente no intervalo em que receberam a indicação de uma “casa-bomba”, ingressado no domicílio, em seguida , baleando um dos acusados e apreendendo drogas e arma, de modo que não há qualquer registro audiovisual dos momentos decisivos da diligência.
A juíza da 2ª Vara Criminal de Santos reconheceu a interrupção por cerca de uma hora e quarenta minutos; que o equipamento pode ser ligado e desligado livremente pelo próprio policial e qualifica como “inconcebível” a ausência de imagens dos atos mais relevantes, concluindo que isso torna a ferramenta “inútil” e levando à absolvição dos réus por ilicitude das provas decorrentes da violação de domicílio.
Mas não foi ao fundo da questão!
Talvez lembrando-se da juíza carioca : Patrícia Acioli…
O desligamento das câmeras justamente nos momentos críticos não é acidente técnico, mas padrão intencional documentado. Aceitar uma narrativa policial neste contexto seria premiar a torpeza.
Diga-se de passagem , lei futura , além de prever a obrigatoriedade das câmeras corporais deve criminalizar o desligamento e quaisquer fraudes praticadas com a finalidade de esconder a realidade dos fatos.
Destacando que , apenas policiais criminosos são contrários ao uso das câmeras .
A decisão da 2ª Vara Criminal de Santos no processo 1506214-68.2025.8.26.0385 representa um paradoxo institucional , embora , formalmente garantidora (absolveu os réus, aplicou corretamente conceitos e prescrições legais sobre inviolabilidade domiciliar), entretanto , salvo melhor posicionamentos , contribuiu de forma omissa quanto ao enfrentamento dos fatos.
Verdadeiramente, a decisão, embora benéfica para os réus, é um paliativo.
Sem medidas concomitantes de responsabilização dos policiais militares e reforma dos protocolos (ex.: gravação ininterrupta em operações, criminalização do desligamento doloso), ela se torna apenas um episódio num ciclo de abuso e nulidades , sem romper com a lógica que permite que a “banda podre – da polícia – continue perseverando no crime”.
Com efeito , ao considerar “em tese” materialidade e autoria sem analisar criticamente em que se baseiam tais elementos; ao identificar o desligamento das câmeras como “inconcebível” sem extrair as consequências para a criminalização e responsabilização da versão policial; ao silenciar sobre indicativos de flagrante forjado, coação e tentativa de homicídio , a magistrada exerceu o que se pode denominar viés de não confronto : estratégia decisória que – em linhas gerais – protege – aparentemente – os direitos fundamentais do acusado sem confrontar institucionalmente a narrativa estatal.
E realimenta as fraudes e a violência institucional!
Este padrão decisório, embora decorrente das pressões institucionais que recai sobre magistrados – nem tanto independentes quanto se pensa – produz consequências sistêmicas deletérias : perpetua práticas abusivas ao não gerar implicações reais para os agentes e órgãos “poderosos” ; corrói a legitimidade do sistema de justiça perante populações vulneráveis; e normaliza a impunidade institucional em um contexto de escalada da letalidade policial .
Ademais , a sentença é caminho suave para Apelação do Ministério Público com grande probabilidade de provimento e condenação dos réus , considerando-se o viés de confirmação – de preconceitos – da segunda instância paulista!
A sentença, apesar de tecnicamente defensável, opera dentro de uma lógica de contenção de danos pontual, e não de transformação institucional.
Ela gerencia o conflito sem resolvê-lo, e nesse processo, normaliza a ideia de que a versão policial – mesmo quando cercada de irregularidades graves e indícios de fraude – merece um status privilegiado de credibilidade que a versão do acusado, por preconceito e covardia , não tem.
A questão de ouro que a sentença não enfrenta : é crível que alguém, detido pela ROTA da Capital , em contexto violento, com direito ao silêncio, espontaneamente confesse participação em tráfico de drogas armado, com estrutura (“biqueira”, “contensão”, rádio), sem qualquer benefício concreto à vista?
Por que para este ex-delegado jamais algum investigado ou preso em flagrante confessou , admitiu , quaisquer crimes ; sendo que aqueles que o fizeram , alertados sobre o seu direito ao silêncio – mesmo na redação original da Constituição , quando o silêncio poderia ser interpretado em desfavor do acusado – sempre apresentaram justificativas defensivas ?
Por fim , a sentença rejeita frontalmente a tese de flagrante forjado:
“Importa destacar que a alegação de que os policiais militares forjaram as drogas é absolutamente inverossímil. Não se concebe que, em apoio ao Gaeco, não haja cumprimento do mandato de busca domiciliar e, sem qualquer justificativa, intrujassem substâncias ilícitas em uma segunda casa.”
Ingenuidade , né?
A PM em apoio ao MP , muito mais do que conceber , executa qualquer coisa com absoluta certeza de impunidade e da certeza de medalhas!
O desligamento de câmeras operacionais corporais afixadas nas fardas de policiais militares, impossibilitando a gravação de trechos de uma ocorrência que resultou na prisão em flagrante de dois homens com drogas e uma arma, resultou na absolvição da dupla. Além de insuficiente, a prova foi considerada ilícita.
Câmeras corporais tiveram gravações interrompidas por mais de uma hora
Apesar de reconhecer demonstradas, em tese, a autoria e a materialidade dos crimes de tráfico e de posse ilegal de arma de fogo de uso restrito, a juíza Lívia Maria De Oliveira Costa, da 2ª Vara Criminal de Santos (SP), considerou que a entrada dos PMs na casa onde estavam os materiais ilícitos foi ilegal.
Segundo o processo, a gravação das câmeras corporais dos PMs se iniciou às 6h14, foi interrompida às 6h18 e retornou apenas às 7h58. Enquanto o aparelho estava desligado, dizem os agentes, uma testemunha indicou o endereço de um depósito com armas e drogas. Na ação, um dos acusados foi baleado.
Depois de requisitar à Polícia Militar o envio da íntegra das imagens das câmeras dos policiais envolvidos nos fatos, a julgadora foi informada de que a gravação não sofreu qualquer tipo de edição ou supressão de conteúdo. A justificativa da PM foi a de que as câmeras podem ser ligadas ou desligadas por meio de um botão acionado pelos próprios policiais.
“Em outras palavras, o policial militar pode livremente iniciar e interromper a gravação, o que evidentemente torna a ferramenta inútil”, destacou a juíza, em relação à resposta da PM de que não houve edição no vídeo. De acordo com ela, é “inconcebível” a inexistência de gravação dos momentos mais relevantes da diligência.
“Não havendo provas de que o ingresso em domicílio foi autorizado pelo morador, tampouco da existência de justa causa que autorizaria a mitigação da proteção constitucional, as provas produzidas são ilícitas e inadmissíveis para sustentar um decreto condenatório”, concluiu a magistrada.
Garantia violada
O episódio aconteceu no Morro São Bento, no dia 11 de junho de 2025. De posse de mandado de busca e apreensão requerido à Justiça pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público, policiais das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota) vistoriaram o endereço de um investigado por tráfico.
Nada de irregular foi achado na casa do alvo da operação. Porém, os PMs deram continuidade à diligência porque, segundo eles, o investigado lhes informou a localização de uma residência de terceiro, no próprio morro, onde haveria entorpecentes e armamentos. Os policiais disseram que a porta do segundo endereço estava aberta.
A versão dos PMs foi contestada pelo alvo do mandado de busca, que negou ter passado qualquer informação sobre o depósito. A segunda casa revistada é do réu que foi baleado. Ele refutou que estivesse armado e possuísse drogas no local, afirmando que levou o tiro no banheiro, enquanto escovava os dentes para levar o filho à escola.
Para a magistrada, o atual entendimento doutrinário e jurisprudencial evoluiu para exigir que a entrada forçada em casa habitada pressuponha a presença de “justa causa previamente verificável”, a qual é posteriormente controlada pelo Poder Judiciário.
“A medida tem por escopo concretizar o princípio constitucional da inviolabilidade de domicílio, garantindo que pessoas, em especial em comunidades, não fiquem sujeitas a invasão policial imotivada, ao mesmo tempo em que protege os policiais de acusação de abuso de autoridade”, explicou a juíza.
Clique aqui para ler a decisão Processo 1506214-68.2025.8.26.0385
Tarcísio de Freitas começa o ano enfrentando uma crise com a polícia paulista. O Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo (Sindpesp) afirma que o governador cortou pela metade os recursos para combater o crime organizado, enquanto seu então secretário de Segurança Pública, Guilherme Derrite, voltava ao Congresso para relatar o PL Antifacção.
Em pé de guerra com o governador, o Sindicato divulgou, na semana passada, uma nota comparando os recursos investidos pelo prefeito Ricardo Nunes com os de Tarcísio. O prefeito de São Paulo aumentou em 26% a verba de segurança para 2026 e Tarcísio, 3,6%, de acordo com o sindicato. A comparação incomoda o governador duplamente, até porque Nunes estava cotado para ser seu sucessor na corrida ao governo paulista.
O orçamento da Segurança Pública de Tarcísio é de R$ 21 bilhões para 2026. Para combater o crime organizado, a verba caiu de R$ 666,4 milhões em 2025 para R$ 325,8 milhões este ano.
“É uma contradição muito grande. Principalmente porque nós sabemos que hoje o estado de São Paulo tem sido frequentemente atacado por diversas organizações criminosas nos mais variados segmentos de crimes, afirmou à coluna o delegado e professor de direito Edson Pinheiro, dirigente do sindicato.
O delegado diz que o governo cortou também o programa de seleção e aperfeiçoamento dos policiais civis de R$ 984,8 milhões para R$ 562,4 milhões.
“Nossa instituição, dos delegados da polícia, está na ponta da lança, lida diretamente com a investigação e prisão de organizações criminosas. Então, quando você tem um valor reduzido, é passado um recado muito claro de que esse não é um fator importante para o o governo”, disse o delegado.
Pinheiro afirmou que a entidade tentou negociar com o governo, mas não houve diálogo. O delegado criticou também a declaração recente de Tarcísio de que o domínio do PCC nos presídios de São Paulo havia acabado.
“Soa até engraçado isso. Negar uma realidade. Nós sabemos que [a afirmação] não condiz ali com a verdade dos fatos. Basta verificar as conversas, as informações prestadas pelos agentes que trabalham no sistema carcerário”, disse ele.
Apesar da tensão com os delegados, não está prevista nenhuma paralisação. O tema, no entanto, deve virar mote de campanha. “São promessas feitas e promessas que não são cumpridas. E isso acende um alerta à toda a população. Nós não temos esse poder de interferir no pleito, mas a população tem que ser comunicada”, disse o delegado.
Em nota à coluna, a Secretaria de Segurança Pública (SSP) afirmou que o orçamento da pasta aumentou 33,3% em relação ao governo anterior.
Leia a íntegra da nota da SSP:
“A Secretaria da Segurança Pública esclarece que a média orçamentária da pasta nos últimos quatro anos cresceu 33,3% em relação ao período anterior. Descontados os gastos previdenciários, que, por determinação da Secretaria do Tesouro Nacional, desde 2023 são registrados e executados exclusivamente pela São Paulo Previdência, os investimentos da atual gestão em segurança atingiram R$ 19 bilhões em 2025 e estão previstos mais R$ 21 bilhões para 2026.
Desde o início da atual gestão, a SSP tem mantido um índice médio de execução orçamentária superior a 95%, e avançado na recomposição dos efetivos, na valorização dos profissionais e na modernização das polícias. Nesse período, 11 mil novos policiais foram contratados, foi concedido um reajuste salarial médio de 25,2% a todos as carreiras das forças de segurança, R$ 1,1 bilhão em bônus foram pagos e mais de 62 mil equipamentos entre novas viaturas, armamentos e coletes balísticos adquiridos e incorporados ao patrimônio das corporações. Essas aquisições complementam as compras realizadas nos dois últimos anos da gestão anterior, quando foram adquiridos equipamentos de maior valor como helicópteros e viaturas blindadas, que seguem em uso pela administração.
Paralelamente, a atual gestão reforçou os investimentos em sistemas de inteligência e novas tecnologias, o que permitiu ao Estado de São Paulo alcançar, em 2025, os menores índices de homicídios e latrocínios desde 2001, além de expressivo aumento na produtividade policial: mais de 202,3 mil infratores presos, 196,4 toneladas de drogas apreendidas e 12,8 mil armas de fogo ilegais retiradas de circulação.
A nota da SSP é tipicamente auto celebratória e genérica: selecionando dados, misturando conceitos diferentes e omitindo detalhes essenciais (por órgão, por função, por tipo de gasto e por indicador criminal), o que a torna inconsistente como prestação de contas sérias.
Não fique nervoso Dr. , mas o Maduro já apodreceu : Maduro, que chegou ao poder após a morte de Hugo Chávez, demonstrou ser um líder autoritário, incapaz de reconhecer a vontade do povo venezuelano. Ele reprimiu as vozes dissidentes, prendeu opositores e violou sistematicamente os direitos fundamentais de cada um de nós. A liberdade de expressão foi seu maior inimigo, e a liberdade política, seu maior medo.
Este governo implementou políticas que destruíram nossa economia, deixaram nossa moeda sem valor e empobreceram a maioria da população. Enquanto isso, os membros de seu círculo próximo se enriquecem, mostrando sua verdadeira natureza: uma elite corrupta que não tem interesse algum em melhorar a vida do povo, mas sim em se manter no poder para continuar saqueando nossos recursos.
Maduro e seu regime tomaram controle de todas as instituições do Estado, distorcendo a democracia, manipulando os processos eleitorais e usando a força militar para se manter no poder. Sua estratégia é clara:o medo, a repressão e a mentira. Mas não devemos acreditar que o povo venezuelano está derrotado. A cada dia, mais pessoas se levantam, se organizam e gritam em uma só voz:
Chega de ditadura!
Não estamos sozinhos. O mundo inteiro tem testemunhado as atrocidades cometidas por este regime. Organizações internacionais denunciaram a violação dos direitos humanos na Venezuela e a comunidade internacional exige uma mudança, uma transição para a democracia.
Hoje, mais do que nunca, devemos nos unir na luta pela nossa liberdade. Não podemos permitir que um regime corrupto e repressivo continue nos despojando de nossa dignidade. A Venezuela merece mais do que viver sob o jugo de um ditador. Merecemos ter o direito de escolher nossos líderes sem medo de represálias, viver em um país onde a justiça e a igualdade sejam os pilares da nossa convivência.A todos que sofrem em silêncio, a todos que perderam um ente querido, a todos que foram forçados a deixar sua terra natal em busca de um futuro melhor: a sua dor é nossa dor. Mas também é nossa motivação. Não descansaremos até que a Venezuela seja livre.
La lucha es difícil, pero no está perdida. Juntos, con valentía, determinación y esperanza, lograremos derrotar la dictadura y devolverle al pueblo venezolano la democracia que le ha sido arrebatada.
Viva Venezuela libre. ¡Viva la democracia!
A luta é difícil, mas não está perdida. Juntos, com coragem, determinação e esperança, conseguiremos derrotar a ditadura e devolver ao povo venezuelano a democracia que lhe foi roubada.
Viva a Venezuela livre! Viva a democracia!
Sei que o Sr. Dr. é descendente de Argentinos e por ser da América Espanhola sabe das dificuldades do povo. Argentina também é um país de coragem e resistência. Enfrentou tempestades políticas, crises econômicas e momentos de grande sofrimento, mas seu povo nunca se entregou. A luta pela democracia, pelos direitos humanos e pela justiça social é um exemplo para todos nós. O povo argentino é resiliente, determinado e orgulhoso de suas raízes.
Neste momento, queremos lembrar a força de sua identidade e a beleza de sua cultura, que não é apenas geográfica, mas também histórica, emocional e humana. Hoje, celebramos não só a Argentina como nação, mas como um povo que nunca deixa de lutar por seus valores, por seus sonhos e por sua liberdade.
Queremos expressar nossa admiração, nosso respeito e nosso carinho por todos os argentinos. Que este país continue a brilhar, não só em seu futebol, mas também em sua arte, sua literatura, sua música, sua política e, acima de tudo, em seu povo
Autor : Santiago Lòpez
Titulo e Música por Flit .
Júlio Sosa : Gerardo H Matos Rodriguez, Enrique Pedro Maroni Composer: Pascual Contursi Music Publisher: Universal Mgb Internacional
Florianópolis, janeiro de 2026. A “ilha da magia” cavou mais um buraco na terra e enfiou dentro quatro rapazes que vieram de Minas e São Paulo em busca de trabalho e um gole de futuro barato.
Foi recebê-los com execução e inumação em vala clandestina e um recado muito claro: aqui quem manda é a facção; e quem finge mandar veste farda, terno ou toga e diz que está “apurando os fatos”.
O roteiro é velho, mas em Santa Catarina ganha uma estética própria: o estado que se acha Europa tropical, loiro de catálogo, com bandeira hasteada no poste e olhar torto para quem vem de fora : nordestino, mineiro, paulista preto, pobres em geral ou apenas inconveniente.
A elite branca de condomínio e a malandragem uniformizada, engravatada e togada compartilham o mesmo incômodo: esse Brasil mestiço, barulhento e inconveniente que insiste em atravessar a ponte e pisar na areia que eles imaginam privada.
Os quatro meninos desapareceram numa quinta-feira qualquer, depois de um bar qualquer, porque o Brasil é isso: a linha que separa “sair para beber” de “sumir do mapa” é o primeiro beco sem câmera e o primeiro camburão que resolve olhar para o lado errado.
Em Florianópolis, o lado errado costuma ter CEP de periferia e sotaque de fora; em Minas eles eram filhos, amigos, trabalhadores de promessa miúda; aqui viraram “elementos”, “suspeitos”, “possíveis envolvidos com facção”, aquele carimbo mágico que autoriza a indiferença.
A versão oficial, por enquanto, é a mais cômoda: facção local, PGC, cemitério do crime, revanchismo com facção rival.
É a narrativa perfeita importada do governo Paulista : atribui tudo ao “crime organizado”, esse espantalho conveniente que esconde a promiscuidade estrutural entre Estado, polícia e mercado ilegal ; como se cemitério clandestino brotasse sem vista grossa, sem controle territorial frouxo, sem conivência de quem diz “não sabia” enquanto passa de viatura a menos de uma quadra.
E quem garante que não seja o cemitério clandestino da PM catarina?
Muito mais grave, quando um estado inteiro se acha “diferente do Brasil”, o passo seguinte é tratar brasileiro mestiço de fora – salvo o Neymar – como invasor.
Racismo aqui não é só cor da pele, é também CPF de origem, sotaque e a roupa fora do padrão da tribo local.
A polícia catarinense já produziu seu desfile de casos de racismo explícito, a ponto de MP e Judiciário terem de impor medidas cautelares contra PM da reserva por vomitar ódio racial em vídeo , mas o discurso dominante segue o mesmo: “casos isolados”, “não representa a instituição”, “exagero da mídia”.
Enquanto isso, quatro corpos amarrados, mutilados, enterrados em Biguaçu, esperam identificação completa e laudo, enquanto as famílias em Minas e São Paulo sobem o calvário burocrático de reconhecer cabeça, fragmento, dente, qualquer coisa que prove que o filho agora é mais uma na estatística.
A morte em série, no Brasil, é processada em cartório, em planilha, em nota oficial de três linhas; o sofrimento é artesanal, feito à mão, de mãe em mãe, de pai em pai.
E aí entra o ponto que ninguém gosta de encarar: num caso desses, não basta “deixar a polícia trabalhar”.
Quando a polícia faz parte do problema – por ação, omissão ou promiscuidade – “deixar trabalhar” pode significar exatamente isso: garantir que não se chegue nos verdadeiros mandantes, nem nos elos incômodos da cadeia de comando, públicos e privados.
A mesma estrutura que finge se horrorizar com a vala é aquela que, na prática, negocia território, horários, favores e silêncio.
Ora…ora , onde não há drogas e putas a rodo não há turismo lucrativo!
A Polícia Federal, quando não está capturada por ministro oportunista e diretor carimbador de despacho, já mostrou que sabe mexer em colmeia sem pedir benção a coronel local nem a cacique estadual.
É justamente por isso que incomoda: porque, em tese, tem fôlego e estrutura para chegar aonde a polícia “da casa” tropeça, desvia o olhar ou recebe uma “orientação” de cima: “deixa quieto” , coloca na conta do PCC.
Num caso em que vítimas são migrantes internos, há suspeita de motivação discriminatória difusa, atuação de facção interestadual e histórico de racismo institucional, pedir federalização não é exagero; é instinto de sobrevivência democrática.
Santa Catarina precisa ser investigada de fora para dentro.
Não só o buraco na terra em Biguaçu, mas o buraco moral que transforma parte da população em hóspede indesejado no próprio país.
O separatismo não é só fantasia de rede social com bandeira confederada de fundo; está nas abordagens, nos xingamentos, nos “aqui não é lugar para vocês”, nas decisões administrativas que punem quem denuncia racismo e protegem quem pratica.
Os quatro rapazes mortos são o Brasil colidindo com o sonho europeu catarinense: um conflito que termina, claro, com os de sempre enterrados e os de sempre dando entrevista em frente a painel personalizado com brasão do Estado e do órgão policial.
Vão prometer “rigor”, “investigação imparcial”, “integração das forças”, enquanto nos bastidores combinam a narrativa aceitável, ajustam termos técnicos e distribuem culpas que não respingam em gente importante.
Neste palco, o mínimo aceitável é tirar o inquérito da mão da confraria local e jogar no colo de quem, ao menos em tese, não depende do churrasco de domingo com político da região nem da indicação para cargo em comissão no governo estadual. Federalizar não é panaceia; é só uma forma de dizer aos donos do pedaço que, desta vez, talvez não dê para empurrar tudo para o PCC de praxe e o PGC da vez, lavando a honra das instituições na água suja da vala comum.
Florianópolis gosta de vender a imagem de ilha da magia. A magia está aí: transformar quatro garotos em inimigos invisíveis, em alvos legítimos, em corpos descartáveis ; sem que ninguém de farda ou caneta se sinta realmente responsável.
Enquanto não vier alguém de fora abrir essas covas simbólicas e institucionais, a única magia garantida será essa: fazer desaparecer, junto com os rapazes, qualquer esperança de que a vida de quem vem de longe valha alguma coisa na república branca da praia gelada.