O CASO PABLO MARÇAL E O VELHO DITADO: pimenta no olho alheio é refresco… No meu arde!    3

A recusa do Tribunal de Justiça de São Paulo em censurar o livro Pablo Marçal – A trajetória de um criminoso não é apenas uma vitória pontual da liberdade de imprensa.

É um lembrete de que o passado, especialmente quando envolve figuras públicas, não é propriedade privada — é matéria de interesse coletivo. 

Marçal, empresário, influenciador digital e ex-candidato à prefeitura de São Paulo, alega que a obra é difamatória e fictícia, mas a Justiça, ao menos em primeira análise, reconheceu algo fundamental: há indícios documentais suficientes para que a narrativa do jornalista Cristiano Silva circule sem cerceamento prévio.

A desembargadora Clara Maria Araújo Xavier foi clara: quando se trata de personalidades que procuram espaço político , a sociedade tem o direito de conhecer sua trajetória — inclusive as partes mais sombrias. 

O livro resgata episódios que Marçal preferiria deixar no esquecimento: sua prisão em 2005, acusado de crimes cibernéticos, e sua condenação em 2010 por furto qualificado.

A defesa argumenta que se trata de uma “obra de ficção”, mas a Justiça Federal de Goiás, anos atrás, não pareceu ter dúvidas sobre a materialidade dos fatos.

A prescrição pode ter livrado Marçal do cárcere, mas não apaga os autos do processo. 

Há aqui uma lição que transcende o caso específico: a tentativa de silenciar críticas ou investigações através de ações judiciais é uma estratégia cada vez mais comum, mas que esbarra num princípio democrático básico — a verdade não é monopólio de ninguém.

Se Marçal considera o livro inverídico, o caminho não é suprimi-lo, mas rebatê-lo com provas e contranarrativas.

A censura prévia, felizmente, ainda é exceção no Brasil, e a decisão do TJ-SP reforça que o debate público deve ser livre, ainda que incômodo para alguns. 

O processo segue, e Marçal pode recorrer.

Mas, por ora, a mensagem é clara: quem escolhe a vida pública não pode exigir que o público ignore seu histórico.

A memória, afinal, é um tribunal sem data de prescrição.

A Mclaren e a Memória do Velho Soldado 10

Na sala modesta de um apartamento antigo, repousa uma foto amarelada: um policial militar dos anos 80, farda surrada, olhar cansado, mas digno.

Era de um amigo, daqueles tempos em que ser PM significava viver no limite – de salário, de esperança, de reconhecimento.

Em sua casa, como em tantas outras, faltava quase tudo, menos honestidade.

Carro?

Só nos sonhos ou no bico como taxista. .

Escola, só pública.

O convênio, restrito à Cruz Azul.

O luxo era a roupa lavada, uma cerveja e o macarrão com frango no domingo.

Hoje, a paisagem mudou.

O noticiário estampa o caso do tenente Fernando Genauro da Silva, preso e acusado de envolvimento com o PCC e CV.

Assassino de aluguel !

O que chocou a opinião pública não foi apenas o crime em público deboche , mas o que veio depois: cinquenta dias após o homicídio, Genauro comprou uma McLaren 570S Spider, avaliada em R$ 2,2 milhões, prometendo quitar a dívida em 12 parcelas.

 “Não resisti, mano”, confidenciou a um contato, segundo o laudo pericial requisitado pelo DHPP.

A imagem da McLaren reluzente, motor bi turbo, cor de ouro líquido, corta a avenida como um míssil britânico.

O contraste é gritante: enquanto filhos de PMs do passado disputavam vaga em escola pública, hoje há oficiais ostentando carros de luxo, filhos em colégios particulares, casas de alto padrão, roupas de grife.

 O abismo entre a velha e a nova polícia nunca foi tão visível – e tão ruidoso.

O caso do tenente e sua McLaren de R$ 2 milhões não é isolado.

Os novos policiais  –  civis e militares – ostentam nas redes sociais carros de luxo, viagens, festas, mansões.

O dinheiro circula fácil, a origem nem sempre é clara.

Para muitos, o sonho do serviço público virou bilhete premiado.

Mas a que custo?

O velho PM, aquele da foto amarelada, talvez não reconhecesse mais a farda que um dia vestiu com orgulho.

Talvez, sentado à mesa simples, ele se perguntasse: “Quando foi que a honra deu lugar ao luxo?

No fim, esta crônica policial se escreve entre extremos: a dignidade silenciosa dos que serviram com sacrifício e a ostentação ruidosa dos que se perderam no caminho.

A McLaren do tenente é só um símbolo: veloz, brilhante, mas, como toda ilusão, passageira.

O que fica mesmo é a memória – e o preço que cada um escolhe pagar por ela.