PMs e Bombeiros respondem por 22% do gasto com inativos nos Estados 21

Marta Watanabe-VALOR ECONÔMICO 

Mesmo que adotada integralmente pelos Estados, a reforma previdenciária proposta pelo governo federal pode ter efeito limitado no alívio da despesa dos entes federados com inativos. A proposta não inclui os militares, representados nos Estados pelos policiais militares (PMs) e bombeiros. Essas carreiras respondem por 22% do total das despesas estaduais com previdência. Em alguns deles, chegam a 30%.

Os dados, levantados pelo Valor, incluem o Distrito Federal e levam em conta a despesa empenhada em 2016, exceto as intra-orçamentárias, de acordo com os relatórios fiscais. A alta representatividade é atribuída por governos estaduais à idade de aposentadoria considerada relativamente precoce nessas carreiras – abaixo dos 50 anos.

George Santoro, secretário de Fazenda de Alagoas, diz que no Estado os policiais militares e bombeiros respondem por 40% da despesa de pessoal com servidores ativos e inativos. No gasto com aposentados e pensionistas do Estado, eles representam 29%.

Para o secretário, uma mudança nas regras de aposentadoria dos policiais militares é imprescindível para o reequilíbrio nos gastos com inativos do Estado. A aposentadoria em torno dos 48 anos, diz ele, acaba fazendo com que a despesa de inativos dos militares estaduais cresça em ritmo mais acelerado. Para Santoro, é preciso que a situação dos militares estaduais seja definida nacionalmente, porque para os Estados é inviável fazer as mudanças de forma individual.

Em Alagoas, diz Santoro, a reforma previdenciária ainda está sendo avaliada. Não se sabe se o Estado adotará a emenda do governo federal ou se tentará fazer sua própria reforma no período de seis meses. De qualquer forma, diz o secretário, o prazo de seis meses parece curto para que os Estados estabeleçam mudanças nessa área.
Mauro Ricardo Costa, secretário de Fazenda do Paraná, diz que o Estado deve adotar integralmente a reforma previdenciária proposta pelo governo federal. Sua expectativa é que a aposentadoria dos militares seja alvo de discussão logo depois de aprovada a emenda. No Paraná, diz ele, a idade média de aposentadoria dos PMs é de 47 anos. “Com isso, eles trabalham em média 25 anos e gozam dos benefícios por 30 a 35 anos”, afirma. “Essa conta não fecha.”

A despesa com militares inativos no Paraná já é maior que com a folha de ativos da categoria. O secretário destaca que, no mês de abril, o Estado contabilizou 19.163 militares inativos que geraram gasto de R$ 126,5 milhões no mês. Entre os ativos, são 21.462 servidores que geram gasto com folha de R$ 121,2 milhões. Como os inativos já fizeram a progressão na carreira, explica, mesmo em menor número, são mais representativos nos pagamentos.

No Paraná, de acordo com os relatórios fiscais, os militares representam 19% da despesa com inativos e pensionistas. O déficit previdenciário na categoria, informa Mauro Ricardo, é de R$ 1,4 bilhão, 28% do aporte total de R$ 5 bilhões que o Estado precisa fazer anualmente para cobrir os pagamentos de aposentados e pensionistas

Em São Paulo, os militares respondem por 26% das despesas previdenciárias. Segundo a São Paulo Previdência (SPPrev), que administra as aposentadorias dos servidores paulistas, os militares representam 21% da quantidade de beneficiários, incluindo aposentados e pensionistas. O órgão não quis comentar a reforma previdenciária.

O coronel Janary Maranhão Bussmann, vice-presidente da Amai, entidade que reúne policiais militares ativos, inativos e pensionistas do Paraná, diz que a idade do regime geral, de 65 anos, não cabe para os policiais que atuam no serviço de segurança. “Eles estão sujeitos a fortes cargas psicológicas. No momento em que estão auxiliando o público a atravessar a rua, por exemplo, pode acontecer um assalto a mão armada que os obrigue a atuar. E isso acontece ao longo da vida profissional.”

O coronel Élzio Lourenço Nagalli, presidente da Associação dos Militares Estaduais do Brasil (Amebrasil) tem opinião semelhante. Ele diz que os PMs e bombeiros deverão ser contemplados na proposta de reforma da previdência das Forças Armadas que, avalia ele, começará a ser discutida no segundo semestre. Segundo Nagalli, a reforma é necessária, mas é preciso haver bom senso. Não é possível, defende, adotar idade de 65 anos para aposentadoria de cabos, soldados e capitães que atuam na rua, prestando serviço de segurança à população.

Nagalli apoia, porém, a eliminação de “regalias”. Entre elas, ele cita a possibilidade de coronéis se aposentarem antes do 50 anos e de filhas de coronéis e generais terem direito à pensão enquanto permanecem solteiras. “Isso não é viável, não tem cabimento e vai ser mudado.”

Enquanto a reforma não vem, os Estados tentam amenizar a despesa com militares. Santoro diz que Alagoas pretende oferecer bônus para que o PM se mantenha na ativa mesmo quando cumpridos os requisitos para aposentadoria e também para fazer com que o militar aposentado volte ao trabalho.

O secretário acha que pode atrair 15% desse contingente. Com as duas medidas, é capaz de manter trabalhando cerca de mil policiais, o que evitaria contratações no período de dois a três anos.

Os incentivos ainda devem ser propostos para a Assembleia Legislativa este ano, conta Santoro e, se aprovados, darão origem a uma nova despesa de pessoal, mas bem menor que as contratações. O secretário de Alagoas ressalta, porém, que a medida é paliativa e serve para dar maior fôlego ao pagamento dessas categorias, mas é necessário que haja uma reforma para os militares nesse período.

3º DP de Santos fecha à noite 38

Unidade da Ponta da Praia deixou de atender a população a partir das 20 horas, nos feriados e finais de semana

EDUARDO VELOZO FUCCIA
10/05/2017 – A TRIBUNA
A redução do horário de atendimento começou na última segunda-feira (Foto: Fernanda Luz/AT)

O sucateamento da Polícia Civil pela falta de recursos humanos, principalmente, começa a gerar os seus mais fortes reflexos em Santos. Localizado em uma das regiões mais nobres da Cidade, o 3º DP fechou as suas portas à população no período das 20 às 8 horas e nos fins de semana e feriados.

A área do 3º DP abrange boa parte da orla, englobando os bairros Ponta da Praia, Embaré, Aparecida, Estuário e parte do Macuco. A redução do horário de atendimento da unidade policial começou na última segunda-feira, por tempo indeterminado.

Titular do distrito, o delegado Jorge Álvaro Gonçalves Cruz justifica que a medida foi tomada após um escrivão se lesionar em um acidente de moto e precisar se afastar do trabalho. Mais dois já se encontram de licença por motivos de saúde e deverão ser readaptados para outras funções, quando receberem alta médica.

A situação crítica, que não se resume ao distrito localizado na Ponta da Praia, lembra o ditado popular da coberta curta que deixa os pés descobertos de quem cobre a cabeça e vice-versa. Desse modo, remanejar policiais de outras unidades para suprir o deficit do 3º DP de Santos seria desfalcá-las e apenas transferir o problema.

Delegado do 3° Distrito Policial, Jorge Cruz
(Foto: Alexsander Ferraz/AT)

Internet

O delegado Jorge Cruz tenta minimizar a situação, informando que aumentou o número de casos que podem ser registrados pela internet, sem que a vítima necessite se deslocar em um primeiro momento para alguma repartição policial.

Por esse meio eletrônico é possível a comunicação dos seguintes casos: roubos e furtos de veículos; roubos, furtos e perda de objetos e documentos; injúria, calúnia e difamação; acidentes de trânsito sem vítima; desaparecimentos e encontros de pessoa.

Cruz também observa que o fechamento por tempo indeterminado do 3º DP durante a noite e nos fins de semana e feriados não deverá causar maior impacto, porque os casos de maior relevância e urgência, que exigem a intervenção de um delegado, já eram encaminhados à Central de Polícia Judiciária (CPJ).

Localizada no Palácio da Polícia, no Centro, a CPJ funciona diariamente, entre 20 e 8 horas, e nos feriados e finais de semana.

Desse modo, todos os flagrantes, termos circunstanciados e casos mais graves ocorridos na Cidade são registrados na central. Atualmente, apenas o 7º DP (Gonzaga) funciona durante a noite, mas sem delegado. Os 1º, 2º, 4º e 5º DPs permanecem fechados nesses períodos.

Raquel Kobashi Gallinati é presidente do Sindicato
dos Delegados de Polícia do Estado (Foto:Divulgação)

‘Desmonte’

O fechamento do 3º DP de Santos não surpreende Raquel Kobashi Gallinati, presidente do Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo (Sindipesp). Desde o início do ano, ela e a sua diretoria elaboram um estudo para avaliar a falta de efetivo em todas as carreiras da Polícia Civil paulista.

“O Sindipesp já percorreu quase todas as 70 delegacias seccionais do Estado para constatar in loco e montar um raio X da falta de recursos humanos e materiais a que vem sendo submetida a Polícia Civil pelo Governo de São Paulo”, informa a delegada.

Segundo ela, um dos grandes problemas que apontam o “desmonte” da instituição é a escassez de pessoal. “Foi convocada parte dos aprovados nos concursos de 2013.

Os últimos, aliás, realizados para a contratação de policiais civis. Porém, a medida não resolveu o problema, pois não supre, por exemplo, o deficit de mais de 1.300 aposentadorias”.

A falta de estrutura para trabalhar que começa a emergir em Santos foi constatada pela presidente do Sindipesp no Interior e na Capital. “Há delegacias em péssimo estado, viaturas velhas, uma completa ausência de valorização do delegado de polícia de São Paulo, que tem o maior PIB (Produto Interno Bruto) do Brasil, mas paga, proporcionalmente, o pior salário de delegado do País”, denuncia Raquel.

A Secretaria Estadual da Segurança Pública foi procurada, mas não respondeu até a publicação desta matéria.