PCC Clube do Crime – VIII Palco de mega-assalto, Paraguai se torna refúgio e peça-chave de facção Resposta

Palco de mega-assalto, Paraguai se torna refúgio e peça-chave de facção

Fachada da transportadora Prosegur após mega-assalto em Ciudad del Este, no Paraguai

Excelente Série Clube do Crime detalhando as atividades do Primeiro Comando da Capital (PCC), publicada pela Folha de São Paulo, edição 30ABR 2017.

ROGÉRIO PAGNAN
Enviado Especial ao Rio de Janeiro, a Cuiabá (MT)
e a Presidente  Prudente (SP)

O mega-assalto a uma empresa de transporte de valores no Paraguai na semana passada não foi a primeira ação no país vizinho de bandidos ligados à facção criminosa paulista. Bandidos queimaram carros e caminhões e usaram armas capazes de derrubar aeronaves, além de bombas que destruíram o prédio da companhia e uma casa ao lado.

A primeira “invasão” dos criminosos do PCC ao país vizinho se deu de maneira silenciosa, há cerca de 20 anos. Atualmente, são considerados pela polícia local como a principal facção do país e com um histórico de grandes crimes.

A história do bando no Paraguai começou no final dos anos 1990, antes mesmo de o governo paulista admitir sua existência. Foi lá onde se refugiaram infratores como Marcos Camacho, o Marcola. Por meses, o criminoso se escondeu no país, até ser preso em julho de 1999 pela Polícia Civil de SP, quando arriscou uma visita ao irmão na capital paulista. Na época, ele ainda não era o principal chefe da facção, posto que passou a ocupar em 2002.

Marcola fugiu para o Paraguai meses depois de liderar um roubo de quase R$ 30 milhões (em valores corrigidos) de uma empresa de transporte dinheiro de SP, a Transpev, em 1998. Com parte desse montante, ele chegou a comprar propriedades no Paraguai, incluindo uma fazenda.

Desde essa época, o grupo se fortaleceu em regiões fronteiriças e passou controlar o tráfico de drogas, eliminando os intermediários e o predomínio na região por Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, do Comando Vermelho.

Os criminosos se multiplicaram e, atualmente, há mais “batizados” do PCC no Paraguai do que na zona norte da capital paulista ou no Estado do Rio de Janeiro, por exemplo.

No país vizinho são estimados 97 membros, contra 95 da zona norte e 83 no Rio, segundo dados da Promotoria de SP com base na contabilidade apreendida dos criminosos.

Segundo Abel Cañete, comissário da Polícia Nacional do Paraguai, há ao menos 40 detentos brasileiros ligados ao PCC em prisões do país. O policial investiga ações do grupo há quatro anos, em especial em Ciudad del Este, na fronteira com o Brasil.

 

“Há membros do PCC envolvidos em todas as áreas que investigo: assaltos a transportadoras, a bancos e a caixas eletrônicos, escavações de túneis para roubos e fabricação de explosivos. Não investigo tráfico de drogas, mas sabemos que há muitas informações de que o PCC atua também nesse setor.”

Entre o contingente da facção há também paraguaios “batizados”. Segundo um agente da Polícia Federal que atua na fronteira, o objetivo do PCC é sempre cooptar mais gente.

Também há membros desconhecidos da polícia paulista, como o brasileiro Wellington Tiago Miranda, 35, preso na quinta (27) em um condomínio de luxo em Ciudad del Este. Ele foi apontado como membro do PCC e um dos mentores do megarroubo.

De acordo com Fabiano Bordignon, delegado da Polícia Federal em Foz do Iguaçu, o PCC tem sido um dos principais temas das reuniões mensais do Comando Tripartite, grupo que reúne as polícias do Brasil, Paraguai e Argentina.

“Esses encontros ocorrem há 20 anos. Óbvio que tráfico de drogas e de armas, contrabando e assaltos são nossa prioridade. Mas é difícil dimensionar qual o tamanho que essa facção tem na fronteira e no Paraguai. Ela atua no Brasil inteiro”, disse.

MORTES

Um dos pontos de maior presença do grupo no Paraguai é a cidade de Pedro Juan Caballero, onde a quadrilha de Marcola assumiu a venda de maconha após se aliar ao traficante Peter Quevedo –ele foi traído e morto pelo próprio PCC, em 2008.

A decisão dos criminosos em se instalar no Paraguai deve-se ao alto nível de corrupção da polícia local. Em 2010, por exemplo, um grupo de criminosos do PCC resgatou seis comparsas de uma prisão da cidade. Eles eram suspeitos de tentar assassinar o senador Robert Acevedo, do Partido Liberal.

O governo paulista chegou a comunicar tal plano à polícia paraguaia com 17 horas de antecedência, mas nenhuma medida foi tomada para evitar o resgate.

Também há suspeita de que policiais de Ciudad del Este tenham ajudado os bandidos durante o roubo à transportadora Prosegur. Três comandantes da polícia local foram afastados dois dias após o ataque. Segundo Lorenzo Lezcano, ministro do Interior do Paraguai, o afastamento ocorreu porque os três policiais “não passaram informações corretamente durante e depois do assalto”.

Existe ainda a suspeita de participação de bandidos do PCC no assassinato do traficante Jorge Rafaat Toumani, 56, que dominava o tráfico do lado paraguaio na divisa com Ponta Porã (MS), em um tiroteio que durou cerca de quatro horas e teve uso de fuzil calibre.50 –capaz de derrubar helicópteros.

Alfredo Maia – 6.jan.2017/Folhapress
Reprodução/Twitter/ABC Digital
Metralhadora antiaérea usada para romper a blindagem do carro do traficante Jorge Rafaat Toumani, 56, morto com 16 tiros
Metralhadora usada para romper a blindagem do carro do traficante Jorge Rafaat Toumani, 56, morto com 16 tiros

Esse crime é apontado com um dos fatores que pioraram a relação entre PCC e Comando Vermelho, já que a facção paulista assumiu o controle do tráfico nessa região e, assim, ampliou seu poder no tráfico internacional de drogas.

O Paraguai também é uma região importante para a facção, pois no país existem enormes áreas de plantação de maconha. A posição geográfica facilita o transporte da droga ao Brasil.

Segundo policiais da região fronteiriça, pequenas embarcações lotadas de maconha atravessam o rio Paraná, que faz a divisa entre os dois países. A margem do rio, com muitas reentrâncias, é de difícil fiscalização. Do outro lado, já no Brasil, há enormes fazendas e áreas rurais desabitadas.

Mais acima, na fronteira do Paraguai com o Mato Grosso do Sul, a facção atravessa carregamentos de drogas ou de cigarro falsificado numa região conhecida como “fronteira seca”, próximo à cidade de Dourados. “Nessa região, às vezes o que separa o Brasil do Paraguai é uma rua, uma avenida”, explica um agente do comando da Polícia Rodoviária Federal.

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