‘Lei da Ficha Limpa põe em risco o estado de direito’…Eros Roberto Grau. Ex-ministro do Supremo Tribunal Federal 9

‘Lei da Ficha Limpa põe em risco o estado de direito’

Eros Roberto Grau. Ex-ministro do Supremo Tribunal Federal

Fausto Macedo, Felipe Recondo – O Estado de S.Paulo

 

Eros Roberto Grau deixou ontem a cadeira de ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) convencido de que a Lei da Ficha Limpa põe “em risco” o Estado de Direito. Ele acusa o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de ignorar o princípio da irretroatividade das leis. “Há muitas moralidades. Se cada um pretender afirmar a sua, é bom sairmos por aí, cada qual com seu porrete. Estou convencido de que a Lei Complementar 135 é francamente, deslavadamente inconstitucional.”

O ministro sai do Supremo, após quase seis anos na mais alta instância da Justiça, onde chegou por indicação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em junho de 2004. Em entrevista ao Estado, Eros Grau critica também as transmissões dos julgamentos. “Isso só vai acabar no dia em que um maluco que se sentir prejudicado agredir ou der um tiro num ministro”, afirmou.

O senhor deu várias demonstrações de cansaço no STF. O que o desanimou?

O fato de as sessões serem transmitidas atrapalha muito, porque algumas vezes o membro do tribunal se sente, por alguma razão, compelido a reafirmar pontos de vista. Existem processos que poderiam ser julgados com maior rapidez. Muitas vezes a coisa fica repetitiva e poderia ser mais objetiva.

O senhor é contra as transmissões?

Essa prática de televisionar as sessões é injustificável. O magistrado não deve se deixar tocar por qualquer tipo de apelo, seja do governo, seja da mídia, seja da opinião pública. Tem que se dar publicidade à decisão, não ao debate que pode ser envenenado de quando em quando. Acaba se transformando numa sessão de exibicionismo.

Existe a possibilidade de o tribunal deixar de exibir as sessões ao vivo?

Isso só vai acabar no dia em que um maluco que se sentir prejudicado agredir ou der um tiro num ministro. Isso pode acontecer em algum momento. Até que isso aconteça, haverá transmissão. Depois não haverá mais.

Em algum momento o senhor foi abordado na rua dessa forma?

Eu estava no aeroporto de Brasília com a minha mulher, depois do julgamento da lei de anistia, e veio uma maluca gritando, dizendo: “aí, está protegendo torturador”. Foi a única vez que me senti acossado.

Para Eros Grau, o que é ficha limpa?

“Ficha limpa” é qualquer cidadão que não tenha sido condenado por sentença judicial transitada em julgado. A Constituição do Brasil diz isso, com todas as letras.

Políticos corruptos não são uma ameaça aos cofres públicos e ao estado de direito?

Sim, sem nenhuma dúvida. Políticos corruptos pervertem, são terrivelmente nocivos. Mas só podemos afirmar que este ou aquele político é corrupto após o trânsito em julgado, em relação a ele, de sentença penal condenatória. Sujeitá-los a qualquer pena antes disso, como está na Lei Complementar 135 (Ficha Limpa), é colocar em risco o estado de direito. É isto que me põe medo.

O que está em jogo não é a moralidade pública?

Sim, é a moralidade pública. Mas a moralidade pública é moralidade segundo os padrões e limites do estado de direito. Essa é uma conquista da humanidade. Julgar à margem da Constituição e da legalidade é inadmissível. Qual moralidade? A sua ou a minha? Há muitas moralidades. Se cada um pretender afirmar a sua, é bom sairmos por aí, cada qual com seu porrete. Vamos nos linchar uns aos outros. Para impedir isso existe o direito. Sem a segurança instalada pelo direito, será a desordem. A moralidade tem como um de seus pressupostos, no estado de direito, a presunção de não culpabilidade.

A profusão de liminares concedidas a candidatos, inclusive pelo Supremo, não confunde o eleitor?

Creio que não. Juízes independentes não temem tomar decisões impopulares. Não importa que a opinião publicada pela imprensa não as aprove, desde que elas sejam adequadas à Constituição. O juiz que decide segundo o gosto da mídia não honra seu ofício. De mais a mais, eleitor não é imbecil. Não se pode negar a ele o direito de escolher o candidato que deseja eleger.

Muitos partidos registraram centenas de candidaturas mesmo sabendo que elas poderiam ser enquadradas na Lei 135/2010, que barra políticos condenados por improbidade ou crime. Não lhe parece que os partidos estão claramente atropelando a Lei da Ficha Limpa, esperando as bênçãos do Judiciário?

Não, certamente. O Judiciário não existe para abençoar, mas para aplicar o direito e a Constituição. Muito pior do que corrupto seria um juiz, medroso, que abençoasse. Estou convencido de que a Lei Complementar 135 é francamente, deslavadamente inconstitucional.

Como aguardar pelo trânsito em julgado se na esmagadora maioria das ações ele é inatingível?

O trânsito em julgado não é inatingível. Pode ser demorado, mas as garantias e as liberdades públicas exigem que os ritos processuais sejam rigorosamente observados.

A Lei da Ficha Limpa é resultado de grande apelo popular ao qual o Congresso se curvou. O interesse público não é o mais importante?

Grandes apelos populares são impiedosos, podem conduzir a chacinas irreversíveis, linchamentos. O Poder Judiciário existe, nas democracias, para impedir esses excessos, especialmente se o Congresso os subscrever.

Não teme que a Justiça decepcione o País?

Não temo. Decepcionaria se negasse a Constituição. Temo, sim, estarmos na véspera de uma escalada contra a democracia. Hoje, o sacrifício do direito de ser eleito. Amanhã, o sacrifício do habeas corpus. A suposição de que o habeas corpus só existe para soltar culpados levará fatalmente, se o Judiciário nos faltar, ao estado de sítio.

O senhor teme realmente uma escalada contra a democracia?

Temo, seriamente, de verdade. O perecimento das democracias começa assim. Estamos correndo sérios riscos. A escalada contra ela castra primeiro os direitos políticos, em seguida as garantias de liberdade. Pode estar começando, entre nós, com essa lei. A seguir, por conta dessa ou daquela moralidade, virá a censura das canções, do teatro. Depois de amanhã, se o Judiciário não der um basta a essa insensatez, os livros estarão sendo queimados, pode crer.

Por que o Supremo Tribunal Federal nunca, ou raramente, condena gestores públicos acusados por improbidade ou peculato?

Porque entendeu, inúmeras vezes, que não havia fundamentos ou provas para condenar.

Que críticas o senhor faz à forma do Judiciário decidir?

As circunstâncias históricas ensejaram que o Judiciário assumisse uma importância cada vez maior. Isso pode conduzir a excessos. O juiz dizer que uma lei não é razoável! Ele só pode dizer isso se ele for deputado ou senador. Os ministros não podem atravessar a praça (dos Três Poderes, que separa o Supremo do Congresso). Eu disse muitas vezes isso lá: isso é subjetivismo. O direito moderno é a substituição da vontade do rei pela vontade da lei. Agora, o que se pretende é que o juiz do Supremo seja o rei. É voltar ao século 16, jogar fora as conquistas da democracia. Isso é um grande perigo.

Isso tem acontecido?

Lógico. Inúmeras vezes o tribunal decidiu, dizendo que a lei não é razoável. Isso me causa um frio na espinha. O Judiciário tem que fazer o que sempre fez: analisar a constitucionalidade das leis. E não se substituir ao legislador. Não fomos eleitos.

O senhor tem coragem de votar em um político com ficha suja?

Entendido que “ficha-suja” é unicamente quem tenha sido condenado por sentença judicial transitada em julgado, certamente não votarei em um deles. Importante, no entanto, é que eu possa exercer o direito de votar com absoluta liberdade, inclusive para votar em quem não deva.

O senhor está deixando o STF. Retoma a advocacia? Aceitará como cliente de sua banca um folha corrida?

Terei mais tempo para ler e estudar. Escrever também, fazer literatura. E trabalhar com o direito. Para defender quem tenha algum direito a reclamar, desde que eu me convença de que esse direito seja legítimo. Ainda que se o chame de “folha corrida”.

E para Brasília o senhor pretende voltar?

Brasília é uma cidade afogada, seca, onde você não é uma pessoa, você é um cargo.

Um Comentário

  1. EROS GRAU, só respondeu dessa forma porque saiu do STF, não foi o mesmo discurso quando entrou

    Curtir

  2. Pois é o “Cupido”, professor de direito nos idos de 70,(Mackenzie)também ensinava uma forma de empregar a lei, decentemente,respeitando todos os princípios morais e éticos.
    Agora depois de sua péssima atuação como minsitrodo Supremo,volta às letras da constituição.Tardio,ensse entendimento. .

    Curtir

  3. Já foi tarde e para quem não se lembra foi por decisão dada por este senhor que a greve na polícia civil teve o seu termino interrompido.

    Curtir

  4. O ministro que escondeu toda a tecnologia que mostra o subterrâneo das maracutaias dos ricos e poderosos, tendo como homem de frente o banqueiro Daniel Dantas e seu banco Opportunity. Uma horda de ladrões de paletó e gravata está escondida nos pens drives, discos rígidos e quetais. A Opearação Satiagraha naufragou pelas garras também do ministro. Uma vergonha nacional esse tal de STF. Nem o juiz Fausto De Sanctis, que prendeu e condenou Dantas duas vezes, acredita nesse arremedo de Justiça do Brasil. Já vai tarde, ministrão.

    Curtir

  5. Xiiiii, o mesmo ministro que nós brindou com uma decisão em que só a polícia civil de São Paulo, não pode fazer greve por ser serviço essencial, e não vê ou não viu a greve de mais de 90 dias dos funcionários da judiciário paulista,deve ser que para ele a justiça NÃO de ser serviço essencial, essencial para o Estado democrático, fala sério, dizem que este irá se dedicar a contar historinhas para criancinhas, para mim ele já contou história para boi dormir, mais um que passou pelo STF, e não disse a que veio, não fará falta alguma.

    Curtir

  6. A República de Weimar, também criada a toque de caixa, como a nossa pós-1988, era Estado Democrático de Direito, porém nem os social-democratas – que eram de fato democratas no sentido mais estrito do termo, diferente dos que aqui adotaram o nome – que eram maioria no Reichstag, puderam escamotear a desgraça da Alemanha após a 1a Guerra, quando 1 dólar valia 1.000.000.000.000.000.000 (um quinquilhão) de marcos (por volta de 1923), e o povo encontrava-se na bosta pura…

    Estado Democrático é bonito, aliás eu só estou falando agora graças a ele, mas se determinadas medidas discutidas diretamente pela população com os seus representantes não forem tomadas, como a tal “ficha limpa”, sucumbindo o Brasil ao intelectualismo jurídico elitista e intransigente, corremos o risco de um golpe – ou revolução – talvez não do militarismo, mas do crime organizado.

    O ideal da revolução francesa e do iluminismo não proporcionou que a guilhotina ficasse fora de uso…

    Curtir

  7. Já foi tarde , um tremendo de um safado ,duas caras ou seja o pior que se pode ter como ministro do STF , talvez só superado pelo Gilbosta Merdes

    Curtir

  8. O QUE “EROS GROU” TEM NA CABEÇA ESTA NA BARRIGA
    MAS MESMO ASSIM FODEU MEIO MUNDO EM INTERRE%%E PROPRIO
    QUE VA DESCANSAR NO INFERNO QUE É O SEU LUGAR.

    PSDB/DEM NUNCA MAIS

    Curtir

Os comentários estão desativados.