Laudo aponta desvio de droga apreendida por policiais em Itu
Caso aconteceu em 2003; 4 policiais chegaram a ser presos.
Advogado de um dos suspeitos diz que vai contestar laudo.
Da Agência Estado
Foto: Arte/G1mapa itu (Foto: Arte/G1)
Laudo produzido pelo Núcleo de Criminalística da Polícia Federal em São Paulo indica a possibilidade de desvio de drogas apreendidas por policiais do Departamento de Investigações sobre Narcóticos (Denarc) em setembro de 2003 no aeroclube de Itu, a 101 km de São Paulo. O documento atesta que os cinco fardos de cocaína pura tinham entre 128,4 kg e 156 kg. A quantidade estimada é no mínimo 30,4 quilos maior do que a equipe chefiada pelo delegado Robert Leon Carrel diz ter encontrado no avião usado pelos traficantes – 98 kg.
O policial atualmente é chefe da Divisão de Administração do Departamento de Polícia Judiciária da Macro São Paulo (Demacro), unidade responsável pelas delegacias da região metropolitana. O suposto sumiço do entorpecente levou Carrel, outro delegado e dois investigadores para a cadeia em junho de 2008.
A ordem de prisão foi expedida pela 29ª Vara Criminal da capital, que acolheu na íntegra a acusação de tráfico de drogas e peculato. Os policiais foram soltos 24 dias depois por habeas corpus do Tribunal de Justiça de São Paulo.
Os peritos federais realizaram duas simulações distintas para indicar o provável peso do carregamento de entorpecente – uma com a droga não compactada e outra com o entorpecente prensado, como provavelmente foi transportado. A conclusão do primeiro ensaio é de “massa não menor que 128,4 kg”. O segundo apontou “massa não menor que 156 kg”.
O pedido de auxílio da perícia federal partiu do Ministério Público Estadual (MPE). Desde o início das investigações, defesa e acusação divergem sobre a quantidade de droga apreendida. Perícia feita pelo MPE sustenta que a aeronave levava cerca de 200 quilos de cocaína. O parecer foi feito por meio de comparação de imagens, tendo como referência reportagens veiculadas pelas TVs. O piloto Pierre Delannoy, um dos quatro presos na operação em Itu, afirma que o carregamento era de 300 quilos.
A pedido da Corregedoria de Polícia Civil, que na ocasião instaurou procedimento para apurar a atuação dos policiais, o Instituto de Criminalística também se manifestou sobre o caso. O laudo faz duras críticas ao trabalho do MPE. “Mensurações em imagens para comparar algo de tamanha seriedade são, no mínimo, irresponsáveis”, escreveram. O texto afirma que o assistente técnico do MPE “confundiu alhos com bugalhos”.
A técnica de comparação adotada pela PF foi a mesma do MPE. Ao contrário do órgão, que usou pacotes com farinha de trigo para compor o cenário da apreensão, os peritos federais tiveram autorização da Justiça para usar 100 tijolos de cocaína prensada. Simulacros com dimensão e massa idênticas aos tijolos de cocaína interceptados pelo Denarc foram confeccionados para se atingir o suposto peso da carga.
Contestação
O advogado Daniel Bialski, que defende o delegado Robert Leon Carrel, vai contestar judicialmente o resultado do laudo produzido pela PF. “No 17º quesito formulado pela defesa, os próprios peritos dizem ser “impossível realizar uma avaliação definitiva do peso do material apreendido”, destaca Bialski. “Isso acaba com o processo.”
Ele também aponta erros nas medições feitas pela PF. “Os peritos dimensionaram os simulacros de modo maior do que eles realmente eram. Essa estrutura de cálculo está equivocada e vamos demonstrar isso”, afirmou.
Nesta semana, o advogado juntará aos autos um laudo particular, além de pedido para que a PF refaça a perícia. “O que foi encontrado de droga dentro do avião foi integralmente apreendido. Essa história de desvio é uma falácia.” Bialski afirma que o peso bruto da apreensão, que inclui o material usado para embalar a droga, girou em torno de 110 quilos.
O advogado Adriano Salles Vanni, que defende os investigadores, não retornou a ligação.
A PF analisou ainda a viabilidade técnica de o monomotor Cessna 210 ter decolado com 200 quilos de cocaína, peso anunciado em nota distribuída pelo Denarc no dia da apreensão e reproduzida no site da Secretaria da Segurança Pública. “Diante de tal configuração da aeronave, o transporte de 200 kg de cocaína, distante ainda cerca de 70 kg do máximo comportado, é plenamente factível”, diz o laudo, na folha 10.
O QUE DIZ A FONTE OFICIAL NA ÉPOCA DOS FATOS
http://www.ssp.sp.gov.br/noticia/lenoticia.aspx?id=17137
Quinta-feira, 25/09/03 – 11:08
Denarc prende chefe do Cartel de Cali em Itu
Membro do comando das Farcs (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) e ligado ao Cartel de Cali, o colombiano Juan Carlos Parras Arcila, de 36 anos, foi preso na tarde de ontem por policiais do Denarc (Departamento de Investigações Sobre Narcóticos), na região de Sorocaba. Na operação, também foi preso o empresário franco-canadense Pierre Jacques Hernandes Delanoy, de 60 anos, no Aeroporto de Itu, quando ele pousou com um Cesna 210, carregado com aproximadamente 200 quilos de cocaína. Outros dois pilotos também foram presos.
Segundo investigação do Denarc, Juan Carlos é irmão de Miguel Antônio, conhecidos no Cartel de Cali como “os Gêmeos”. Pierre trabalhou vários anos no porta-aviões norte-americano Roosevel e foi instrutor de vôo dos EUA na Guerra do Vietnã, em 1968. Conforme o delegado Ivaney Cayres de Souza, diretor do Denarc, ele também atua como instrutor de vôo de pilotos das Farcs há pelo menos oito anos. “Esta é uma das maiores investigações já produzidas pelo Denarc”, disse o diretor.
No Cesna, equipes de policiais do delegado Everardo Tanganelli, titular da Divisão de Investigações Sobre Entorpecentes do Denarc, também prenderam o piloto do Mato Grosso do Sul Mário de Jesus Alves da Silva, de 60 anos. Em um hotel do Largo do Arouche, Centro da Capital, policiais do SOE (Setor de Operações Especiais) prenderam outro piloto, Carlos Alberto Paschoalin, de 53 anos, acusado de estar a serviço do tráfico de drogas.
A investigação foi feita por policiais da equipe do delegado Robert Leon Carrel, titular da 4ª Dise, que monitoram a ação da quadrilha há vários meses. Na manhã de ontem, investigadores montaram a operação em municípios da região de Sorocaba e esperaram pela chegada da aeronave, marcada para às 13h30. “Tivemos de bloquear a passagem do Cesna com carros”, contou Tanganelli. A droga ainda não foi pesada por peritos do IC (Instituto de Criminalística), mas estima-se que o peso seja de aproximadamente 200 quilos.
Todos os envolvidos têm passagens por tráfico de drogas. Carlos Alberto está em liberdade condicional. Pierre está com prisão preventiva decretada pela Justiça Federal, segundo o Denarc. Em maio de 2003, parte da quadrilha dele foi presa em Belém com um veleiro especial, que transportaria 400 quilos de cocaína para o Brasil vindo de Trinidad Tobago, para depois ser levada à Espanha.
por Antônio Carlos Silveira
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pelo que me parece, esses anéis são bons em protestar contra a verdade…
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