O Crime da Delegada Layla- Não ser casada com figurão e nem advogar para banqueiros da Faria Lima-PCC 13

A exploração midiática e a fama do Ministério Público como paladino da moralidade caminham hoje lado a lado, alimentadas por vazamentos seletivos, investigações espetacularizadas e um sistemático desprezo pelo princípio da presunção de inocência. 

A personagem do “delegado corrupto ligado ao PCC” rende manchetes fáceis, mobiliza afetos morais na opinião pública e oferece ao Ministério Público o protagonismo simbólico de instituição purificadora do sistema, ainda que o processo real esteja longe de qualquer conclusão.

Presunção de inocência como ornamento retórico

Na narrativa oficial, a presunção de inocência continua escrita na Constituição, citada em decisões e repetida em discursos institucionais, mas na prática foi rebaixada a mero ornamento retórico. 

No plano da comunicação, o que vale é a imagem do “inimigo interno” já condenado pela manchete e pelo release acusatório, pouco importando se a investigação será arquivada ou terminará em absolvição anos depois, quando ninguém mais se interessar pela correção do dano.

Novos delegados , não façam aos seus investigados aquilo que fazem –  e farão – com vocês!

Ou seja, não naturalizem o direito penal do inimigo aplicado a pobres, pretos e periféricos, pois o mesmo modelo já está sendo testado contra vocês.

O caso recente da delegada recém‑empossada, vinculada midiaticamente ao PCC antes mesmo de completar o curso de formação, ilustra com precisão esse fenômeno: imputações são noticiadas como verdades consolidadas, relações pessoais são tratadas como provas, e qualquer nuance fática é varrida do debate em nome da “luta contra o crime organizado”. 

Em lugar de “há suspeitas, sob apuração”, o que se divulga é “delegada do PCC”, como se a fase instrutória e o contraditório fossem formalidades dispensáveis diante da necessidade de alimentar a narrativa de Estado forte contra facção criminosa.

O viés acusatório e a construção do “delegado inimigo”

No centro desse processo está um viés acusatório que se consolidou dentro de certos núcleos  de ”juristas” ; em especial  Juízes Criminais e os grupos de combate ao crime organizado, acostumados a enxergar a estrutura policial não como parceira institucional, mas como território inimigo a ser vasculhado em busca de “serpentes”.

Na prática – desde a antiga doutrina de que prisão preventiva de policiais civis seria sempre necessária e imprescindível por se tratar de  agentes armados com potencial de intimidar testemunhas e destruir provas  –   muitos membros desses grupos passaram a tratar o delegado de polícia – e policiais civis em geral – como suspeito presumido: se atua na ponta,  ganhando pouco , se lida com facção, então “deve ter algo a mais ”; e, a partir daí, todo fato é selecionado e interpretado para confirmar o preconceito inato.  

Esse é o mecanismo clássico do viés de confirmação: parte‑se da crença de que há corrupção e a realidade é  moldada para caber dentro da crença. 

Relações pretéritas de advocacia criminal, contatos inevitáveis em audiência de custódia, circunstâncias profissionais típicas da área penal – tudo pode ser ressignificado como indício de infiltração, desde que sirva para reforçar o enredo desejado. 

O resultado é um ambiente institucional de desconfiança permanente, no qual o delegado deixa de ser um agente de Estado com atribuições próprias e passa a personagem suspeita, útil para o teatro moral da “limpeza institucional”.

Manchetes, espetáculo e a economia do escândalo

A imprensa encontra nesse cenário um prato cheio: delegado, crime organizado, suposta infiltração, romance com criminoso, tudo isso rende cliques, audiência e sensação de drama moral. 

Ao mesmo tempo, o órgão acusador aparece como protagonista heroico, “desmascarando” o inimigo interno e salvando a sociedade da degeneração do aparelho repressivo, numa narrativa que combina elementos de novela policial e sermão cívico.

Não é por acaso que delegados envolvidos em escândalos – ainda que apenas investigados – produzem manchetes mais chamativas do que decisões técnicas, silenciosas e bem fundamentadas. 

Acusações e prisões cautelares oferecem fotos, imagens de condução, falas indignadas de autoridades e frases de efeito que se encaixam perfeitamente na lógica das redes sociais e dos portais de notícias. 

Já o desfecho processual, quando chega, não rende a mesma visibilidade: absolvições, trancamentos de ações penais, prescrições e arquivamentos raramente vêm acompanhados de coletiva de imprensa, cenário montado e discursos inflamados.

Nessa economia simbólica do escândalo, o Ministério Público colhe dividendos importantes: projeta‑se como instituição vigilante, incorruptível, tecnicamente superior às demais, especialmente à Polícia Civil, apresentada ao público como corporação permanentemente sob suspeita.

A assimetria narrativa é completa: o delegado é personagem de escândalo; o promotor, personagem de redenção. 

E, enquanto isso, o princípio da presunção de inocência – que deveria proteger qualquer pessoa, inclusive agentes públicos – vai sendo corroído na prática, substituído por um sistema de julgamento antecipado na praça pública.

Concursos em massa, filtros frágeis e culpa governamental

Há, sim, um problema estrutural sério no modelo recente de concursos para delegados: turmas gigantescas, com mais de quinhentos aprovados de diversos estados, curso de formação encurtado e pouco investimento em investigação de vida pregressa e formação ética profunda. 

Isso tudo em nome da pressa política em preencher vagas e “mostrar resultados”, espalhando novos delegados por todo o estado – em ano eleitoral – sem o amadurecimento institucional necessário.

Entretanto, é preciso separar o diagnóstico estrutural da culpabilização automática do indivíduo. 

O fato de o modelo facilitar o ingresso de perfis inadequados ou vulneráveis não autoriza que cada delegado recém‑empossado seja tratado como potencial infiltrado, nem que sua biografia seja pulverizada porque se encaixa num tipo ideal conveniente para a narrativa acusatória. 

A crítica deve mirar as escolhas administrativas e de governo – concursos em massa, cursos de formação apressados, ausência de rotinas periódicas de seleção mais refinada – e não servir como justificativa para transformar qualquer suspeita em condenação informal imediata.

Uma carreira de Estado que lide com crime organizado, corrupção e violência estrutural precisa de filtros rigorosos e cursos de formação sólidos, mas também precisa de um regime de garantias mínimas para seus membros. 

Se o delegado passa a ser descartável na arena midiática ao primeiro sinal de escândalo, a mensagem institucional é clara: o sistema não protege seus próprios agentes das distorções político‑midiáticas, nem respeita sua humanidade básica.

Entre a apuração necessária e o “amor bandido” como espetáculo

Nada disso significa blindar ninguém contra apuração séria.  Se há indícios consistentes de que uma autoridade policial se envolveu com organização criminosa – seja por vínculo afetivo, seja por interesse econômico, seja por associação ideológica – a investigação deve ser firme, técnica e, quando for o caso, exemplar na aplicação de sanções. 

O problema é quando a hipótese investigativa vira condenação moral instantânea, e a história pessoal passa a ser explorada como peça de entretenimento punitivo.

O rótulo “amor bandido” é sintomático desse processo: converte eventual vínculo afetivo em senha para a desumanização completa da pessoa, reduzida a personagem de roteiro policialesco. 

Em vez de se discutir serenamente os limites éticos da atuação de advogados e delegados, as incompatibilidades funcionais, a necessidade de separar vida pessoal e exercício da autoridade, a discussão é capturada pelo sensacionalismo.

O que interessa não é compreender, mas exibir uma advogada de porta de cadeia que, aparentemente, mantém um relacionamento afetivo com um suposto membro do PCC, como infiltrada . 

Será que utilizariam  esse mesmo raciocínio para alguém casado ou casada com Magistrado , Promotor , etc. ?  

Afinal , receber honorários estratosféricos de banqueiro bandido não é ainda pior do que advogar para chineleiros?

Por um outro padrão de responsabilização

Se o jornalismo que se pretende crítico não romper esse padrão – manchetes que condenam, textos que reforçam o viés acusatório, silêncio sobre garantias e presunção de inocência – acabará funcionando apenas como correia de transmissão do espetáculo moral produzido por órgãos de persecução penal. 

Em vez disso, é possível – e necessário – construir outro padrão:

Noticiar investigações sem transformar suspeitos em culpados antecipadamente. 

Expor o perigo do viés de confirmação presente em operações espetaculares. 

Questionar a seletividade dos vazamentos e das coletivas. 

Lembrar que a presunção de inocência também vale para delegados de polícia.

Apesar de grande parte deles não a respeitarem quando se trata de outrem!

Quando envolvidos em escândalos deixam de ser tratados como personagens descartáveis e passam a ser enxergados como sujeitos de direitos – inclusive o direito de responder às acusações sem linchamento prévio – algo se desloca no regime de poder simbólico vigente. 

O Ministério Público continuará a cumprir seu papel acusatório, mas a fama fácil de paladino moral perderá parte do brilho, porque terá de conviver com um jornalismo que não aceita mais confundir denúncia com sentença, nem manchete com verdade.

Absurdamente sentenciou o procurador-geral de Justiça de São Paulo, Paulo Sérgio de Oliveira e Costa ao  afirmar que o caso evidencia a tentativa de infiltração do crime organizado em estruturas do Estado.

“Além da economia formal, o crime organizado tem também se infiltrado em carreiras públicas e estruturas de Estado. Mas em São Paulo, graças aos setores de inteligência, isso tem sido coibido.”

Com efeito,  quando a autoridade máxima do órgão acusador fala apenas em “infiltração” e “atuação do crime organizado no Estado”, sem ressalvas claras ao status jurídico da investigada, contribui para consolidar a culpa antecipada e legitimar o linchamento midiático.

Transforma um inquérito ainda em curso em prova de uma tese política ampla, como se a culpa individual já estivesse definida.

Essa extrapolação é problemática porque usa um caso específico – ainda não julgado – como vitrine para um discurso institucional de firmeza, o que pressiona simbolicamente o Judiciário e contamina a opinião pública com a ideia de que já se trata de uma infiltração comprovada.

Em nenhum trecho destacado nas matérias o chefe do MP enfatiza que a delegada é investigada, não condenada, e que todas as imputações precisam ser demonstradas em juízo, com contraditório e ampla defesa.

Autoelogio institucional

O Procurador-Geral afirma que o crime organizado tenta se inserir em cargos públicos e que isso tem sido “coibido graças aos setores de inteligência” – diga-se serviço feito pela PM – o que funciona como autoelogio do próprio Ministério Público e dos grupos especiais que coordena.

​Não há, porém, qualquer reflexão sobre erros, excessos, vazamentos seletivos ou sobre o risco de viés de confirmação nas apurações ;  como se o MP fosse imune a falhas humanas e institucionais e só a Polícia Civil fosse vulnerável à corrupção.

E reforça a imagem da polícia como campo contaminado, a ser “higienizado” pelo MP, que se coloca como instância moral superior.

Aqui se cumpre o juramento de justiça ao contrário : ser indulgente com os fortes e implacável com os mais fracos !

Enfim , o destino da delegada – que fatalmente será desligada do curso e exonerada “a toque de caixa” – certamente seria outro no caso de casada com um figurão e advogada de banqueiros.

Intimidade com o Abismo – Viver e Morrer Cinematograficamente 28

Praia Grande, uma nova Vegas tropical, com seus coronéis ,  xerifes ,  camarilha improvável , negociatas, traficantes de luxo e velhos caçadores de editais .

Ali, a morte nunca chega sozinha, vem com show pirotécnico e nota de rodapé filosófica.

Até quando se mata em família por conta de uma surubada entre cunhados !

Ruy?

Não fez por menos: morreu em grande cena, depois de viver no eterno papel de protagonista desconfiado, sempre entre um whisky com gelo,  uma mão no acelerador de uma Harley ou Ducati e um 38 no coldre de canela .

Canonizá-lo?

Jamais.

Mas quem não sentir inveja de um enterro com direito a capítulo final escrito em formato de blockbuster policial simplesmente nunca entendeu nada do submundo brasileiro.

Não, não se trata de escarnecer da morte de ninguém , pelo menos se o objetivo é manter o CPF ativo e o nome fora da boca de pistolagem anônima, mas muito profissional.

Lembrem da encrenca de quem ousou menosprezar o assassinato de Charlie Kirk: o destino não perdoa quem ri da desgraça alheia.

Mas não é preciso lançar lágrimas de crocodilo como muitos estão chorando!

Só que o caso do Ruy Ferraz Fontes é coisa de outro nível.

Aqui, não teve covardia: foi cinema puro, digno de roteiro do Scorsese, com De Niro, Pacino e um SUV preta entrando em cena com “requintes de tecnicidade” e sangue frio digno dos grandes clássicos do banditismo tropical.

Ao contrário do que o governador carioca apressou em berrar para as câmeras, Ferraz não foi só vítima …Foi protagonista, morreu com direito a perseguição, capotamento, desembarque tático e execução sincronizada.  

O  Ferraz não foi morto covardemente!

Ele foi morto cinematograficamente…

E com direito o requinte de uma aula de “fogo contra fogo em um dia de treinamento” digna das melhores academias policiais ou dos melhores clubes táticos desse pessoal americanista e extremista.

Quem nunca sonhou em um fim mais digno, aqueles “do bom e do melhor” que a vida oferece só para quem também sabe bater cartão nas esquinas do poder e nos meandros do erário?

E antes que algum moralista da FEBRABAM ou do DEIC  enfie o dedo na tela: não é deboche ou demonização !

Sim, Ruy continuava  xerife na PMPG , patrão da cidade mais próspera do litoral paulista, e circulava entre políticos , empresários, banqueiros  de fintech, traficantes e construtoras com a desenvoltura de quem entende que, nesse país, o crime às vezes é só questão de perspectiva .

Grampeava até Secretário de Segurança , investigava ladrão, fechava acordos de não persecução policial, servia aos banqueiros  e ainda faturava o salário do mês ; genialidade que não se aprende na Academia de Polícia, só nos bastidores da vida urbana.

E no DEIC  se um larápio se fizesse difícil, bastava um telefonema de alguém da repartição : “Sua mãe, esposa ou irmão estão esperando  por um advogado para uma troca de ideias!”

E não chamem a isso de sequestro!

É apenas um dos métodos pouco ortodoxos de investigação policial!

E que não constam de nenhum manual de teoria e prática investigativa dos professores Coriolano Cobra , Luiz Carlos Rocha e Dr. Marchi de Queiroz …

Aos quais rendo homenagens!

Inteligência pura; só quem tem uma boa quantidade de neurônios delinquentes no cérebro sabe que para ser  policial, homem do poder, ou bandido legítimo, é preciso pensar como o inimigo.

Eu invejo e elogio!

Investigar essa morte?

Mais fácil achar quem consegue cruzar a orla da Praia Grande sem tropeçar em uma licitação suspeita, um cargo comissionado “de confiança”  ou meia dúzia de gangsters  vitaminados por contratos públicos de saúde, transporte e obras públicas .

Sem esquecer de obras civis ao preço de R$ 20.000,00 o metro quadrado , lavadas à perfeição.

No fim das contas, Ruy morreu como viveu protagonizando o papel principal .

Tenho empatia sim !

Não levem flores ; deixem admiração, talvez inveja.

Afinal, morrer bem é privilégio de poucos nessa selva, e não cabe a mim rir , chorar , santificar ou satanizar.

Romantizo !

Me coloco no lugar dele e sinto uma ligeira inveja . 

Para despachar  o Gonzo Flit Paralisante basta contratar uma trombadinha de 1m50 armada de canivete.

E não deixo pensão para viúva rica  ; nem patrimônio para filhos.

Portanto há que se celebrar a gente que morre bem na fita…

Até no assassinato!


PS – E ainda lembro da famosa frase do filme “Batman: O Cavaleiro das Trevas” : Ou você morre como herói, ou vive o suficiente para se tornar o vilão!

Ninguém quer comemorar morte, nem canonizar corrupto: mas que inveja daquele que conseguiu pular do trem antes de o roteiro o transformar no inimigo número um da sua própria moralidade.

Prove que estou errado, ou torça para morrer herói porque quem sobrevive demais vira lenda de podcast ou caso de polícia.

Flit Paralisante, amigo: a única bomba capaz de tocar o terror na mosca e no justiceiro ao mesmo tempo!