
O vice de Tarcísio de Freitas , Felício Ramuth é investigado em Andorra por suposta lavagem de cerca de U$ 1,6 milhões de dólares, com bloqueio de aproximadamente U$ 1,4 milhões em conta ligada a offshore panamenha em nome da esposa, o que é um arranjo típico de estruturas usadas em esquemas de lavagem de capitais e ocultação patrimonial.
O que já se sabe do caso
A Justiça de Andorra apura movimentações entre 2009 e 2011, quando ele era secretário de Transportes de São José dos Campos.
A conta foi aberta no Andbank em outubro de 2009, na mesma época da constituição da offshore Visio Corporation LTD SA, no Panamá, vinculada à esposa.
Sem ironias, as primeiras vítimas do político manipulador são as próprias esposas. Na prática , tratando-se da instrumentalização da participação – em especial da mulher – como laranja ou “testa de ferro” afetivo.
O marido – seja político , empresário ou chefe de máfia travestido de chefe de família de lata de conserva – apresenta os documentos como mera “formalidade”, omitindo o alcance penal e tributário, de modo que uma mulher acaba , de escudo patrimonial, transformada em coautora e fonte probatória.
E o relatório em desfavor de Ramuth , da Unidade de Inteligência Financeira de Andorra, fala em suspeitas de “delito grave de branqueamento de capitais”, mencionando sociedades instrumentais sem informações disponíveis, com valores que provêm de países como EUA e Luxemburgo.
Em vez de remessa por meio de banco brasileiro.
Ora, ao contrário do que se quer vender , a investigação não diz respeito apenas ao estabelecimento bancário que recebeu os depósitos. Diz muito mais respeito àqueles que inventaram as empresas , abriram as contas e movimentaram os valores.
E de se considerar que , Felício Ramuth , entre 2005 e 2008, foi diretor-presidente da Urbam – empresa pública municipal , da empresa Direct Serviços Digitais e Sistemas e de outra registrada como CSJ.
Em concurso com sócios da empresa CSJ e da Direct , foi denunciado pelo Ministério Público por supostas fraudes em licitações que causaram grandes prejuízos ao município de Praia Grande ; histórico reduto do PSDB . Segundo o Ministério Público, Felicio e sócio Angelo usaram suas empresas para fraudar ao menos três licitações da Prefeitura de Praia Grande, cidade administrada pelo PSDB.
As supostas irregularidades teriam contado com a participação de pelo menos 11 servidores municipais. Os réus negaram todas as acusações e , ao final , foram absolvidos .
As licitações , conforme descreveu o MP , envolviam serviços de gestão eletrônica de resíduos e tiveram a participação de apenas duas empresas: a Direct, de Felicio, e a CSJ, de Angelo.
Coincidentemente , na mesma cidade onde o ex-delegado geral Ruy Ferraz Fontes foi cinematograficamente assassinado , em setembro do ano passado , por motivos , executores e mandantes ainda não identificados .
Jogando-se tudo , providencialmente , na conta genérica do PCC.
Mas que policiais e observadores locais dizem – em conversas de bastidores e até programas no modelo Podcast – que a execução foi praticada por profissionais de segurança pública mediante pagamento de grupo de poder prejudicado pela atuação do então Secretário de Administração .
Para quem gostar de saborear teorias conspiratórias sirvam-se…
Deixando claro que se trata de mera percepção e boato, não fato investigativo oficial. E boato muito mais do que fundo de verdade tem mesmo é fundo de maldade!
Mas seria uma boa razão para que as investigações sobre a morte de Ruy Fontes permaneçam apenas na conta de vingança do PCC.
Retomando a questão , segundo a imprensa profissional , na campanha de 2022, Ramuth declarou à Justiça Eleitoral um patrimônio total de cerca de 1,4 milhão de reais, incluindo pequena quantia em conta bancária no Brasil, valores em espécie e nenhum bem ou aplicação no exterior.
Em maio de 2023, já como vice-governador, a Justiça de Andorra determinou o bloqueio de cerca de U$ 1,4 milhão da conta ( então cerca de R$ 7.000.000,00, ao câmbio da época ) .
Ramuth afirma que os recursos têm origem lícita, anterior à vida política, e que tanto os valores quanto a empresa no Panamá foram declarados à Receita Federal, alegando que uma investigação em Andorra seria dirigida ao banco e não a ele diretamente.
De sinceridade contestável.
Felício Ramuth – desde jovem – ocupava cargos no partido e na Administração Pública ; construiu sua carreira em São José dos Campos, onde – além de presidente do diretório do PSDB – foi secretário municipal (incluindo a pasta de Transportes) e, depois, prefeito da cidade entre 1º de janeiro de 2017 e 2022, tendo sido reeleito em 2020.
Suas empresas , exclusivamente , eram voltadas ao fornecimento de bens e serviços à administrações públicas , notadamente dos governos do PSDB .
Em resumo, a trajetória anterior a 2016 é a de um administrador , formado pela FGV , ligado ao grupo tucano estadual , que ocupou cargos estratégicos no Executivo joseense (planejamento/comunicação e transportes) até se tornar o candidato natural à sucessão na prefeitura e depois aspirante ao cargo de governador .
Com a mudança dos ventos , juntou-se a Kassab e foi catapultado ao cargo de vice de Tarcísio.
Incomoda questão
Durante agenda em Embu das Artes, o governador – o vestal da moralidade e honestidade – respondia sorridente sobre obras e inaugurações, até que surgiu o tema que realmente importa: a investigação em Andorra envolvendo o seu vice, Felício Ramuth, por suposta lavagem de 1,6 milhão de dólares, com bloqueio de cerca de 1,4 milhão em conta ligada a offshore panamenha.
Bastou um repórter mencionar o caso para que Tarcísio encerrasse abruptamente a entrevista e deixasse o local, em silêncio constrangido e registrado em vídeo.
O governo paulista, pela via burocrática da “nota oficial”, tenta dourar a pílula: diz que não há processo no Brasil contra o vice, que Andorra estaria apenas fazendo diligências em relação ao banco e repete o mantra de que “todos os recursos foram declarados” e tributados.
Será que tal declaração de recursos se deu na mesma base da declaração de domicílio do governador?
Certamente , a justiça eleitoral estadual – cega – não viu irregularidade na declaração de domicílio , mas se o próprio Tarcísio coloca em dúvida o STF alegando a injusta condenação de golpistas, com mais razão não se pode confiar em promotor e magistrado eleitoral , atuando singularmente.
Ademais , ele nunca foi – de fato – domiciliado neste Estado!
A defesa de Ramuth segue o mesmo roteiro de negar e justificar , sem exibir provas ,insistindo na licitude da origem e na regularidade fiscal, como se declaração de IR, por si só, fosse antídoto contra lavagem de dinheiro e ocultação patrimonial no exterior.
Mas o que o vice-governador não quer explicar é qual a lógica de um político que até então era secretário de transportes de São José dos Campos, em nome da mulher , abre empresa , justamente no Panamá , paraíso das offshores de papel , para depositar , em seguida, mais de um milhão e meio de dólares em banco que não paga juros sobre o capital; pelo contrário contrário: cobra taxas de custódia.
Sim, em vez de investimento rendendo juros , o correntista tem que pagar para o banco guardar o dinheiro.
Ora , se o dinheiro era de fato lícito poderia – e deveria – ter sido investido em fundos de moedas estrangeiras mantidos por instituições como a CEF – por exemplo .
Ou melhor: em quaisquer investimentos na nossa moeda que , ao longo do tempo, rende – historicamente – mais do que a moeda americana , quando , meramente , custodiada em cofre de banco europeu, não é?
A lógica econômica é nenhuma; a lógica é típica de ocultação patrimonial e de arquitetura de “dinheiro difícil de rastrear.
Por que Panamá e Andorra fazem sentido para quem quer se esconder?
O Panamá é um polo clássico de offshores “de papel”: empresas sem atividade real, usadas para separar formalmente o dinheiro do verdadeiro beneficiário, com forte tradição de sigilo e baixíssima tributação sobre capital auferido fora daquele país.
Andorra, por sua vez, é (ou foi por muito tempo) um microestado com sistema bancário conservador, alta confidencialidade e regime fiscal mais amigável do que a média europeia, historicamente associado ao planejamento tributário agressivo e, em alguns casos, às estruturas usadas para evasão ou lavagem.
O cinismo de quem bate carteira e grita pega ladrão
Tarcísio , todos os dias , discursa seu falso moralismo contra o governo Lula e contra o PT , mas é – como a maioria dos políticos – o mais acabado figurino do moralista seletivo.
Com agravantes: invoca a formação militar como atestado de competência, de honestidade e altivez , mas vive lambendo pastores neopentecostais mendigando votos do rebanho infeliz!
O contraste entre o que diz e faz é eloquente quando lembramos o discurso das “maçãs podres” usado por Tarcísio ao minimizar a prisão de seu então chefe de segurança – um Capitão da PM – em operação contra o PCC.
Quando o problema é no andar de baixo, trata-se de um desvio isolado que deve ser apurado com todas as garantias e com a presunção de inocência .
Quando a mera suspeita alcança os adversários ela condena sem provas; afirmando que o Brasil vive sobre escombros da imoralidade , da corrupção e do crime organizado protegido pelo Governo Federal.
Quando vestígios levam à suspeitas de crime de corrupção passiva , improbidade administrativa e de lavagem de dinheiro podem atingir o segundo homem do seu governo , Tarcísio simplesmente dá as costas e vai embora.
Fujão!
Tarcísio , hipotético crime de corrupção – se cometido – deve estar prescrito (ou na iminência de ser ) , mas eventual crime de ocultação de bens tem como termo inicial a data em que dele se tomou conhecimento , no caso , foi quando o bloqueio se tornou oficialmente conhecido .
Ademais , a lavagem de dinheiro é autônoma em relação à infração penal antecedente. Portanto, a prescrição ou a extinção da punibilidade do crime anterior não impede a punição pela lavagem de dinheiro.
Obviamente , seria pedir demais que a Polícia Civil – por uma das suas delegacias de investigações de crimes contra a ordem tributária ou de lavagem de capitais – instaurasse inquérito policial para apurar a conduta pretérita de Ramuth.
Aliás, a polícia judiciária estadual é mantida sucateada e sob a direção de “delegados de confiança” justamente para jamais incomodar os medalhões da elite e da política estadual ; ainda mais os políticos da vez.
Contudo lhe digo o seguinte: para o Flit Paralisante – no tocante a ocultação de bens e valores no exterior – o ônus da prova da origem lícita do dinheiro cabe a quem remeteu e o mantém , especialmente em nome de pretensa empresa de papel domiciliada no exterior tendo como titular a esposa, segundo consta : mulher honesta e do lar!
E nesse sentido havendo dúvidas , diante do conjunto das circunstâncias , de que o dinheiro é produto de crime, ainda que parcialmente , o dono precisa provar a licitude (ex: holerites, contratos, declarações de imposto de renda, rastreamento bancário) para afastar a presunção de ilicitude, o que caracteriza a inversão do ônus da prova.
Diga-se , para restituição de quaisquer objetos apreendidos exige-se , até da própria vítima do crime , a prova de que se é o dono e de que a origem do bem é legítima.
Se vale para a bicicleta velha do operário pobre , com muito mais razão vale para o milhão e meio de dólares do vice-governador!
E , salvo melhores entendimentos , eventual declaração de IRPF mesmo com o devido recolhimento dos tributos federais ( sem esquecer dos estaduais e municiais ) , além de, necessariamente, anteceder a remessa internacional , por si só , não faz prova da origem lícita do dinheiro.
O lançamento na declaração gera a obrigação tributária sobre o valor que o contribuinte disse ter auferido e possuir.
Mas a prova da origem honesta se faz com ampla documentação, especialmente contabilidade e balanço no caso de empresas.
Cá entre nós : secretário municipal de transporte , em 2009 , remetendo e ocultando cerca de R$ 3.000.000,00 ou o equivalente a U$ 1.500 milhão – justamente quando os estrangeiros mais investiam seus dólares do Brasil – cheira muito mau.
O vice Ramuth, obviamente , não pode ser condenado antecipadamente , mas politicamente a questão é sensível e do ponto de vista dos deveres patrióticos , um político – um administrador público – que guarda o seu dinheiro no exterior – ainda que seja honesto e permitido – não merece os nossos votos.
Eis o recado: não confiem no Brasil , pois nós da Administração Pública não somos de confiança! Nem o nosso dinheiro aqui deixamos!
E confirma as lições do nefasto Bolsonaro: soneguem tudo o que puder!
Sempre lembrando que dizem que o nosso nariz é defeituoso …
Mas não é grande como o do Ramuth ( risos ) !
E a Receita, em regra, limita-se a verificar a consistência formal da declaração e se o tributo correspondente foi recolhido; nem sempre exige prova da licitude ou da própria existência física de todos os ativos declarados.
Isso faz com que a DIRPF seja, na prática, usada por alguns agentes públicos como etapa de “branqueamento documental”: ao constar no banco de dados da Receita, o patrimônio ganha aparência de legitimidade, ainda que a origem criminosa permaneça intocada.
Tratando-se, justamente, de modalidade sofisticada de lavagem , usando uma máquina fiscal – que pode ser corrompida – para dar verniz de boa-fé.
Resta à Polícia Federal e ao Ministério Público seguir o caminho do dinheiro – entre Andorra, Panamá e Brasil – enquanto o chefe do Executivo paulista foge de perguntas incomodas sobre o seu vice como se fossem balas perdidas disparadas pela PM.