
No roteiro em capítulos do coronel cristão, cada novo laudo gera uma nova revelação “tocante”.
Em vez de agir como quem confia na prova ; acessar formalmente os laudos, pela via regular e por meio do advogado requerer exames complementares, apresentando os quesitos que entendesse necessários , o coronel escolheu o atalho das explicações emocionais sobre os laudos que seu advogado tem acesso em tempo real.
Quando a exumação escancarou as marcas no pescoço de Gisele, compatíveis com esganadura, ele não recuou um milímetro da santidade marqueteira; apenas acrescentou uma nova personagem ao enredo: a filha de 7 anos.
Agora, segundo a mais recente catequese televisiva, aquelas lesões no pescoço podem ter sido causadas pela menina, que “sempre pedia colo” e se agarrava à mãe.
De quebra, o tenente‑coronel informa que rói as unhas desde criança, logo não teria como produzir “marcas de unha”.
O problema é que o laudo não foi feito pelo ministério religioso da Record, mas por médico‑legista.
O documento fala em lesões na face e no pescoço, resultantes de pressão digital, com escoriações compatíveis com estigmas ungueais, e aponta para esganadura prévia ao tiro, reforçada pela exumação.
Não se trata de um arranhãozinho aleatório de colo; é padrão de mão adulta comprimindo o pescoço com força suficiente para comprometer a respiração e a consciência.
Em língua de meganha: MATA-LEÃO !
A perícia, feita em datas diferentes, converge sempre para o mesmo cenário: antes do disparo “suicida”, alguém apertou o pescoço de Gisele.
Diante disso, o que faz o coronel?
Tenta terceirizar a autoria para uma criança e transformar higiene pessoal em álibi anatômico.
A menina de 7 anos vira bode expiatório afetivo: seria ela, no parque, no colo, no aperto de saudade, a responsável pelas marcas que o laudo descreve como resultado de violência.
E as unhas roídas são elevadas à condição de dogma: se eu roer as unhas, não posso esganar ninguém ; como se o laudo dependesse de manicure e não de pressão dos dedos.
Qualquer um que já levou “unhada” de alguém que rói as unhas sabe que a pele sente, com ou sem francesinha.
O padrão se repete: primeiro vem o fato duro ; o sangue no box, marcas no pescoço, sinais de esganadura, cena higienizada, apartamento limpo por PMs, banho e troca de roupa; depois, surgem versões cada vez mais rocambolescas, sempre calibradas para responder ao que já saiu na TV e nos portais.
Quando questionam o banho, aparece a desculpa da pressão alta e da necessidade de ir “apresentável” à delegacia.
Quando surge a limpeza da cena, o comandante é promovido a zelador caridoso.
Quando se descobre o desembargador na cena, ele vira apenas “amigo de 30 anos”.
Agora que o pescoço fala, quem entra em cena é a filha pequena e a unha roída.
Do ponto de vista técnico‑jurídico, é até útil: quanto mais ele fala, mais escancara que não tem uma versão estável do que ocorreu, tem uma coleção de desculpas segmentadas, uma para cada crítica.
A fé, aqui, não é em Cristo, é na capacidade de confundir o público: se o jurado se emocionar com a criança que pede colo, talvez esqueça que há um laudo descrevendo esganadura; se se impressionar com a unha roída, talvez ignore que o núcleo da perícia está na força dos dedos, não no comprimento das cutículas.
É o velho truque: encharcar o debate de imagens emotivas para diluir o peso da prova pericial.
Para o Flit, a conta é simples: entre a mãozinha da menina de 7 anos e a mão pesada de quem limpou cena, chamou desembargador, tomou banho pós‑crime e agora distribui culpa em rede nacional, eu fico com a mão que o laudo descreve.
Aquela que não aparece nas entrevistas, mas deixou a assinatura no pescoço de Gisele.
E, até prova em contrário, essa mão não está no colo da criança: está no uniforme engomado do coronel ungido pela Record.