Em vez de “o petróleo é nosso” : queremos o petróleo nosso de volta…Com juros e correção! 2

03/01/25 – 15h52

Em vez de “o petróleo é nosso” : queremos o petróleo nosso de volta…Com juros e correção! 

Existe um fenômeno meteorológico muito peculiar na geopolítica contemporânea: a “guerra humanitária” tem a curiosa propriedade de evaporar justamente acima dos maiores depósitos de recursos naturais alheios. Que coincidência notável.

Peguemos a Venezuela. Nação que detém aproximadamente 300 bilhões de barris de petróleo comprovado – algo como cinco vezes o arsenal energético dos próprios Estados Unidos.

Um detalhe geográfico e geológico particularmente infeliz, diga-se.

Porque, vejam só, é precisamente nesse território abençoado pelas reservas que floresce, de repente, uma preocupação humanitária tão candente, tão urgente, que demanda  decapitação com aviões de guerra, apreensão de tanqueiros e, claro, a captura de um Presidente da República

Tudo muito moral. Muito democrático.

A fórmula é velha como o império, mas funciona com a precisão de um relógio. Primeiro, você fabrica um inimigo público: o “ditador perverso”, o “narcoterrorista”, o “ameaça à região”. Depois, você constrói uma narrativa que cabe perfeitamente em trinta segundos de noticiário: “estamos aqui para salvar o povo”, “estamos aqui para combater as drogas”, “estamos aqui para restaurar a democracia”.

E, muito discretamente, você menciona também que há petróleo, mas apenas nos relatórios internos, nos memorandos classificados, naqueles documentos que só circulam entre as agências de inteligência.

Trump, porém, perdeu a elegância tradicional. O homem abriu a boca e disse em voz alta: “queremos nosso petróleo de volta”, “vamos ficar com o petróleo”, “a Venezuela tomou nossos direitos de energia”.

Como se o petróleo fosse um relógio de ouro que uma criança travessa tivesse roubado no pátio da escola e agora o professor viesse recuperar, com direito a castigo corporal

Não é criação de um blog opinativo. É registro público. Vídeos. Falas presidenciais. A candura do império , de repente , sem verniz.

A Doutrina Monroe, agora em Versão “Trump Remix”!

Sabe aquela velha máxima de 1823 – “América para os americanos”?

Pois bem, ela não morreu. Apenas entrou em recesso, esperando o momento certo para uma turnê de reencontro.

A Casa Branca já se encarregou de explicitar: trata-se de uma atualização da Doutrina Monroe para o século XXI, um  corolário lógico de Trump .

O confisco , o roubo continuam os mesmos! O que mudou, tecnicamente, é apenas o arsenal. A lógica persiste: o hemisfério ocidental é zona de influência americana, e qualquer governo que não se alinhe, que arrisque parcerias com China, Rússia ou Irã, que ouse pensar em recursos próprios como propriedade própria:  esse governo precisa ser “corrigido”. Para o bem dele, naturalmente.

Dito de outra forma: América Latina é, ainda hoje, o quintal de Washington.

E quintal tem dono.

A Indústria do “Narcoterrorista da Vez” – há um personagem recorrente nessa peça teatral de Estado: o “narcoterrorista”. É um rótulo elástico, confortável, que serve tanto para justificar bloqueios econômicos quanto para autorizar operações militares, confisco de ativos, apreensão de navios e execuções extrajudiciais – desde que televisionadas com a devida solenidade.

O problema é que, enquanto Washington acusa Caracas de narcotráfico, o maior mercado vendedor e consumidor de drogas ilícitas continua em casa.

Milhares de mortes por overdose anualmente. Uma epidemia de opioides que já custou à economia dos EUA cerca de 1,5 trilhão de dólares, conforme reconhecem seus próprios analistas

Ninguém força um americano a se viciar em fentanil, em oxicodona, em nada. São livres escolhas de uma população livre num país livre. Mas curiosamente, quando a questão é Caracas ou Havana, a narrativa muda: de repente, a culpa é do governo, da ditadura que exporta criminosos, da indústria do narcotráfico que conspira contra a liberdade das nações.

A hipocrisia é tão transparente que quase desaparece!

Entre o Autocrata e o Libertador de Porta-Aviões?

Aqui reside a amargura central da coisa toda!

Nicolás Maduro é, aos olhos de organismos internacionais respeitáveis, um dirigente que preside sobre um regime com sérios problemas de autoritarismo, repressão e violações de direitos humanos.

Ninguém por aqui vem cantar hino de louvor ao bolivarianismo em sua forma atual.

Mas Trump – ou qualquer presidente americano que lance bombas em nome da democracia – também não é agente de virtude alguma.

Ao contrário: é agente de uma tradição imperial que tem capotado democratas eleitos, apoiado ditadores úteis, financiado golpes militares, tudo com narrativa de “proteção do mundo livre”.

O drama é que, entre o autocrata bolivariano de um lado e o libertador de porta-aviões do outro, quem sangra é sempre o mesmo personagem: o povo, aquele que não dirige estatal nem comanda quartel, aquele que morre em Caracas tanto nas mãos da polícia política quanto sob o estrondo de uma bomba “cirúrgica”.

E esse povo não aparece em nenhum comunicado oficial. Não é citado quando se fala em “salvação”, não é mencionado quando se listam os “danos colaterais”. É pura abstração moral: a desculpa que torna possível tudo aquilo que, de outra forma, chamarem-se pelo seu verdadeiro nome: invasão, roubo, recolonização.

O que mais incomoda nessa história toda não é nem a maldade – a maldade é explícita, deixou de esconder-se há tempos. O que incomoda é a certeza blindada de que funciona. A convicção de que a população americana – aquela que morre de overdose de opioides num apartamento de Detroit, aquela que perdeu a aposentadoria na Bolsa, aquela que reza para não ficar doente porque a saúde custa um rim – essa população vê uma bomba caindo em Caracas e conclui aspirando uma carreira de cocaína: “bem, pelo menos estamos salvando a democracia lá fora”…Mas e o nosso pó de cada dia?

É a operação de marketing política mais bem-sucedida do século: transformar a raiva interna em agressão externa, converter a frustração doméstica em cruzada moral internacional.

Qualquer cronista que saiba  ver o absurdo quando ninguém mais perceba, dirá algo assim: “Peguei a notícia do telejornal e ri. Depois chorei. Depois ri de novo. Porque rir é a única resposta honesta para quem vê império berrar ‘humanidade’ enquanto conta barris de petróleo nos dedos.”

O povo que não aparece no comunicado oficial  é o personagem principal dessa farsa. E enquanto estiver invisível nas letras miúdas da geopolítica, seguirá sangrando nas duas margens: debaixo da bota do autocrata de casa ou debaixo das asas do libertador importado.

Que coincidência notável, não é mesmo?

É a regra do jogo: por trás da linguagem da moralidade universal (direitos humanos, democracia, luta antidrogas), opera uma lógica férrea de poder e acumulação de riquezas.

A Venezuela, com seu petróleo, tornou-se o palco perfeito para essa encenação, onde a tragédia real de seu povo é o pano de fundo ignorado para um conflito muito mais antigo: a disputa sobre quem tem o direito de possuir e controlar as riquezas do planeta, e a quem é permitido contar sua própria história.

E os americanos não são americanos , são os velhos europeus de sempre falando um inglês inculto.

Um Comentário

  1. Pingback: En lugar de “el petróleo es nuestro”: queremos que nos devuelvan nuestro petróleo… ¡Con intereses y actualización! « Flit Paralisante

  2. Pingback: Instead of “the oil is ours”: we want our oil back… With interest and adjustment! – « Flit Paralisante

ADVERTÊNCIAS SOBRE A LIMITAÇÃO DO CONTEÚDO O conteúdo deste blog , salvo quando expressamente indicada a fonte , não possui valor acadêmico , científico , acusatório/probatório. Trata-se de obra diletante, de caráter exclusivamente informativo e opinativo, desprovido dos conhecimentos técnicos específicos. Apesar do esforço constante na busca da exatidão e do compromisso com a verdade dos fatos, este material está sujeito a equívocos inerentes à limitação de meios, dados públicos e interpretação de fontes s disponíveis. Não há, em nenhuma hipótese, intenção de alimentar ódio específico ou institucional. Busca-se apenas contribuir para o debate público e a necessidade de defesa da sociedade. Incentiva-se a análise crítica, o respeito a todas às pessoas e instituições do Estado de Direito e o acolhimento de eventual retificação/retratação caso se faça necessário. Solicita-se a compreensão de possíveis limitações linguísticas nos textos publicados neste espaço decorrentes de opinião subjetiva e da diversidade de assuntos tratados. Ressalta-se que, em hipótese alguma, se pretende promover generalizações negativas ou atribuir condutas impróprias indiscriminadamente a categorias profissionais ou instituições. Por princípio , em todos os campos da atividade humana – especialmente no funcionalismo público – a maioria das pessoas e titulares de cargos é integra, desempenhando suas funções de forma digna, legal e comprometida com a construção de uma sociedade mais justa. Eventuais críticas ou análises aqui apresentadas são pontuais e opinativas, jamais configurando juízos generalizantes. Recomenda-se, especialmente, a consulta a fontes e oficiais para informação definitiva sobre os fatos. Contato: dipolflitparalisante@gmail.com