Ah, meus caros leitores do Flit Paralisante!
Eis-me aqui novamente, com o teclado iluminado e o copo de Bourbon a meu lado – sim, troquei o whisky pelo whiskey , pois os antigos tocadores do bom e velho Blues dizem que ajuda a ver as coisas como realmente são.
( Aliás, o whiskey americano só presta por ser invenção dos negros! )
E que coisas, meus amigos, que coisas temos visto!
Ontem, ao cair da tarde, encontrava-me eu numa padaria de reputação duvidosa aqui em São Vicente, local que frequento não por gosto, mas para matar a ressaca com umas boas cervejas, entendeis?
Foi lá que ouvi, entre goles e cochichos, uma história que faria até o nosso governador Carioca ficar vermelho de vergonha.
Falava-se, naquele antro de perdição e fofocas, de uma curiosa “parceria” entre os guardiões da lei e os senhores do crime.
Imaginai só: policiais e bandidos, de mãos dadas, numa valsa macabra pelo submundo da Pauliceia Desvairada!
( E da Baixada, do ABC , da RMC , enfim desde as barrancas do Paranapanema ao Rossio de Ilha Comprida. )
Oh, que tempos, que costumes!
Está tudo dominado!
Com efeito, um sujeito de ar esquivo, desses que parecem sempre estar fugindo de algo (provavelmente da própria consciência), contava aos brados como certos membros da nossa valorosa PM haviam encontrado um modo criativo de complementar seus parcos salários.
Escoltando criminosos!
Não para a cadeia, entendei bem, mas para protegê-los de outros malfeitores.
Que ironia!
Os lobos a guardar as ovelhas… ou seriam as ovelhas a guardar os lobos?
Já não sei mais quem é quem nessa comédia dantesca.
Pior: depois ainda mataram o protetor/protegido!
E não para por aí, caros leitores.
Dizem as más línguas (e naquela padaria , garanto-vos, não havia uma só língua boa) que informações preciosas vazam dos batalhões como água de um cesto furado.
( E vazam seletivamente para o crime e para a imprensa , neste caso para bagunçar as investigações e macular a credibilidade de delegados. )
Segredos de estado?
Que nada!
Agora são segredos de esquina, compartilhados entre aqueles que deveriam estar em lados opostos da lei.
Ri-me por dentro, pensando em como Nelson ( o Rodrigues ) ficaria deliciado com tamanha demonstração da natureza humana.
E mesmo o Machado , afinal, não foi ele quem disse que “o homem é uma errata pensante”?
E que errata monumental temos aqui!
Mas não nos apressemos em julgar, meus caros.
Quem de nós, posto diante da tentação de um ganho fácil ( e que ganhos! ) , não titubearia por um momento?
Ah, a fragilidade da moral humana!
Tão frágil quanto o copo que agora se esvazia em minha mesa.
E assim segue nosso Estado, equilibrando-se precariamente entre o cômico e o trágico.
De um lado, temos os defensores da lei, de outro, os fora-da-lei.
E no meio?
No meio, meus amigos, está o povo, sempre o povo, assistindo a esse espetáculo grotesco com uma mistura de horror e fascinação.
Que fazer diante de tal cenário?
Rir para não chorar, talvez.
Ou chorar de tanto rir.
Bem, qualquer coisa é melhor do que morrer como o jovem e sonhador delegado pernambucano , cuja arma na cintura serviu apenas para lhe abreviar os sonhos.
Eu, particularmente, prefiro observar, registrar e, vez ou outra, compartilhar estas observações convosco, fiéis leitores do Flit Paralisante.
E por falar em paralisar, sinto que o álcool começa a fazer efeito.
Será que verei uma rainha de ébano esta noite?
Ou talvez um policial de mãos dadas com um bandido?
A esta altura, já não sei dizer qual visão seria mais surreal.
Despeço-me por ora, deixando-vos com uma reflexão: numa sociedade onde o certo e o errado se confundem como num baile de máscaras, quem somos nós para apontar o dedo?
Melhor seria apontar o copo – ao menos este não nos trai.
Até a próxima, se os deuses da sanidade e da loucura assim permitirem!