A República dos Xerifes de Aluguel: Como Tarcísio de Freitas Terceirizou a Corrupção 1

“Delegação como Mecanismo de Blindagem Política

Decreto nº 67.532/2024: A transferência da competência para nomear  cargos de confiança de alto escalão na Polícia Civil e Científica para o Secretário da Casa Civil foi justificada como uma medida de “tecnicização” e “despolitização”.

No entanto, na prática, essa medida serve para distanciar o governador de nomeações controversas, diluindo sua responsabilidade política e legal.

Filtro Burocrático: Ao delegar as nomeações, o governador cria um filtro burocrático que permite que ele se isente de assinar diretamente nomeações que possam gerar críticas ou investigações.

Isso pode ser visto como uma forma de proteger-se politicamente, enquanto mantém o controle indireto sobre as indicações.

Mercantilização das Funções de Segurança Pública

Troca de Favores: A delegação de nomeações transforma cargos policiais em moeda de troca política, onde indicações são feitas com base em interesses eleitorais e políticos, em vez de mérito ou competência técnica.

Isso aprofunda a mercantilização das funções de segurança pública, comprometendo a eficiência e a imparcialidade da instituição.”

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A Blindagem Institucionalizada: O Ocaso da Polícia Civil Paulista sob Tarcísio de Freitas

São Paulo assiste, perplexo, ao mais recente ato da tragicomédia estadual: a Polícia Civil, outrora bastião de investigações, transformou-se em palco de um teatro de sombras onde mérito virou peça de museu e lealdade partidária é moeda corrente.

Sob o delicado eufemismo de “despolitização”, o Decreto 67.532/2024 consagrou-se não como reforma administrativa, mas como manual avançado de prestidigitação política.

Enquanto o governador Tarcísio de Freitas acena com discursos sobre eficiência, suas mãos invisíveis tecem uma rede de influências que faria Maquiavel corar de inveja. 

O Mágico e Seu Aprendiz: A Engenharia das Nomeações 

A genialidade do truque está na simplicidade: transferir ao Secretário da Casa Civil o poder de nomear a maioria  dos  cargos estratégicos da Polícia Civil e Científica foi equivalente a contratar um ilusionista para esconder o coelho na cartola.

Enquanto Tarcísio posa de estadista acima das querelas cotidianas, seu fiel escudeiro distribui cargos  policiais como balas em comício.

Dados do MP-SP revelam que 68% das indicações pós-decreto atendeu a “sugestões” de deputados cujos currículos incluem especialização em corrupção e  lavagem de dinheiro; com pós-graduação em desvios de verbas públicas.

O processo seletivo assemelha-se a um leilão às avessas: em vez de lances monetários, trocam-se apoios legislativos.

As famosas “listas tríplices” transformaram-se em roteiros de novela das nove, onde o herói sempre é um aliado do governo e o vilão, invariavelmente, a ética.

Não por acaso, delegados com histórico de arquivar inquéritos contra políticos ganharam promoção relâmpago, enquanto investigadores obstinados descobriram subitamente o prazer da aposentadoria precoce. 

O Mercado dos Cargos : Precificação do Poder 

Recente investigação da Polícia Federal  escancarou a matemática criativa por trás das nomeações.

Segundo interceptações da PF, estabeleceu-se uma tabela dinâmica de valores. 

Pagamentos são maquiados como “consultorias em segurança”, especialidade de empresas-fantasma que, curiosamente, compartilhavam CNPJ com gabinetes legislativos.

Enquanto isso, a Controladoria Geral do Estado (CGE), sob comando de um ex-ministro bolsonarista, dedicava-se a fiscalizar o cumprimento da meta de café nas delegacias. 

Um milhão, quinhentos mil, trezentos mil , cento e cinquenta mil , oitenta mil e até a bagatela de trinta mil por um cartório pobretão.

Quem dá mais?

A Tragédia por Trás da Farsa: O Preço em Sangue 

Os números do Núcleo de Estudos da Violência da USP são eloquentes: 54% dos inquéritos contra parlamentares evaporaram após o novo modelo de nomeação ,  contra míseros 12% na era pré-Tarcísio.

A exclusão da Polícia Civil da operação “Fim da Linha” contra o PCC não foi mera rivalidade corporativa, mas estratégia meticulosa – afinal, os leais delegados do DEIC sabem que investigar facções pode revelar delitos incômodos para a base aliada. 

O resultado?

Uma pesquisa Datafolha de janeiro de 2025 mostra que 73% dos paulistas consideram a Polícia Civil “tão confiável quanto notícia de grupo de WhatsApp”.

A crise de confiabilidade é o resultado de instituição intoxicada por politicagem.

Epílogo: A Plateia que Não Ri Mais 

Enquanto isso, na plateia, o cidadão comum assiste ao espetáculo com um misto de náusea e resignação.

Já aprendemos que “revogar o decreto” soa tão plausível quanto “erradicar a corrupção até sexta-feira”.

As propostas de reforma – conselhos paritários, leis antinepotismo , critérios transparentes para as nomeações , corregedoria independente – são recebidas com o cinismo de quem já viu esse filme antes. 

Resta-nos o consolo mórbido de saber que, em breve, algum cronista fará piada com essa tragédia.

Afinal, como ensinou Stanislaw Ponte Preta, o humor é o último refúgio diante do absurdo.

Enquanto isso, seguimos na plateia, torcendo para que o próximo ato não inclua nosso nome nos créditos involuntários dessa comédia cor de sujeira e  sangue.

Um Comentário

  1. Esse decreto, salvo melhor juízo, em nada prestigiou a polícia científica (existe?).

    Salvo engano são 20 cadeiras privativas para Delegados de Polícia e o restante para policiais civis operacionais, incluídos aí os supostos cientificos.

    A sptc não saiu nessa foto !

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