Criminoso mirim – Farsa de PMs é desmontada perante a Corregedoria da Polícia Militar 64

Em nova versão, colega de 11 anos diz que Italo não estava armado

ROGÉRIO PAGNAN
FOLHA DE SÃO PAULO

07/06/2016 02h00

O menino de 11 anos que presenciou a morte do garoto Italo, 10, durante perseguição policial na região do Morumbi na última quinta (2) apresentou uma nova versão do suposto confronto com PMs.

Agora, ele disse que só os policiais atiraram e que nem ele nem seu colega estavam armados. Afirmou que o revólver calibre 38 atribuído a Italo foi “plantado” pelos PMs para justificar a ação.

Essa nova versão, a terceira dada pelo menino, foi apresentada em depoimento à Corregedoria da PM no último domingo (5). O teor foi confirmado à Folha por integrantes da cúpula da PM e por pessoas ligadas à família do garoto.

Italo foi morto a tiros pela polícia após ter furtado um carro em um condomínio com a ajuda deste colega de 11 anos. Os disparos ocorreram ao final de uma perseguição na qual Italo, que conduzia o carro, também teria atirado duas vezes na direção dos PMs, segundo a versão oficial.

Os policiais dizem que Italo ainda deu um terceiro tiro com o carro parado, quando perdeu o controle e bateu em um ônibus e um caminhão. No primeiro depoimento, o menino de 11 anos havia confirmado a versão dos policiais. Uma gravação foi feita com o garoto falando sobre isso. O governador Geraldo Alckmin (PSDB) disse que o vídeo “parece ser espontâneo”.

No segundo depoimento à Polícia Civil, horas após o primeiro, o garoto contou outra versão. Disse que todos os três disparos haviam sido dados por Italo durante a perseguição –e nenhum mais com o veículo parado após bater. Agora, diz que ele não fez nenhum disparo e que contou a história da arma por orientação dos PMs –e que obedeceu por medo. O depoimento foi acompanhado pela mãe do menino e por uma psicóloga.

“Com essa versão, os indícios de execução sumária cometida pelos PMs ficam mais fortes. Uma criança de 10 anos não teria condições de dirigir um veículo, estando com uma arma na mão e ao mesmo tempo abrindo e fechando o vidro pra fazer disparos”, disse o advogado Ariel de Castro, membro do Condepe (Conselho Estadual de Direitos Humanos).

A Folha não conseguiu falar com os PMs. O que matou Italo disse em depoimento ter tentado atirar no ombro.

MORADORES

Os moradores da região onde o veículo foi furtado (incluindo Morumbi e Vila Andrade) programam para sábado (11) uma manifestação em favor dos PMs em frente ao Palácio dos Bandeirantes.

Eles pedem que os policiais não sejam afastados das ruas. “Eles estavam trabalhando. Não foi uma execução”, disse Regina Azzulini, idealizadora do ato. Os moradores também pretendem ajudar a pagar os advogados dos policiais.

Colaborou o “Agora”

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Eletricista Douglas Cardoso da Cruz, de 22 anos, foi atingido por dois disparos; ela diz que ele era inocente

DE A TRIBUNA ON-LINE
Douglas tinha 22 anos e, segundo a mãe, não tinha
envolvimento com o mundo do crime (Foto: Arquivo Pessoal)

A dona de casa Janice Vieira Cardoso, de 42 anos, garante que o filho dela, Douglas Cardoso da Cruz, de 22 anos, não era criminoso. Ele foi morto por soldados do Batalhão de Ações Especiais (Baep) durante operação da Vila Caíque, em Cubatão.

Ela questiona toda a versão apresentada pelos policiais à Polícia Civil na noite do crime. Segundo o Boletim de Ocorrência, o rapaz, um eletricista demitido após os recentes cortes da Usiminas e que não tem outras passagens, estava armado e com drogas.

“Meu filho só foi levar a namorada à escola, como sempre fazia. Quando ele voltou, havia uma troca de tiros na minha rua. Era muito tiro. Ele correu para casa. Os policiais entraram e o arrastaram para fora. Meu filho foi levado para o mato, próximo ao mangue”, diz.

Janice conta que ela e a família tentaram ir junto, mas os policiais não teriam deixado. Momentos depois, Douglas apareceu baleado e morto. Segundo ela, mesmo assim, a ambulância que foi acionada pelo Baep o levou até o Hospital Municipal de Cubatão.

Não tem jeito, favelado tem que morrer. É assim que eles pensam, é assim que eles fazem. Para nós foi uma grande decepção, pois a gente acreditava na polícia. Meu filho foi morto sem qualquer motivo, porque eles tinham que matar alguém. Meu Deus”.

Janice tem cinco filhos e todos, segundo ela, estudaram, trabalham e mantém a vida longe do crime. Se não bastasse toda a situação, quando foi tentar dar a versão dela na Delegacia Sede de Cubatão, ouviu da delegada que seria “chamada outra hora”.

“O nosso único problema é que nós somos pobres. Entraram, pegaram ele e mataram com um tiro no queixo. Ele também levou uma bala no peito. Ninguém fez perícia, não perguntaram nada, tanto é que ele entrou no hospital como indigente”.

A mãe de Douglas também acusa a polícia de “plantar provas”. No dia seguinte, nesta sexta-feira (3), ela encontrou o casaco que ele usava com um projétil e, ao lado da roupa, o guarda-chuva que ele utilizou para acompanhar a namorada à escola.

“Agora eu só estou esperando o corpo ser liberado. Vamos fazer o velório e enterrá-lo aqui em Cubatão. Mas eu garanto: vamos buscar Justiça e quem o matou vai ter que pagar por isso. Infelizmente meu filho se foi. Acabaram com ele”.

Douglas Cardoso da Cruz tinha uma tatuagem de Nossa Senhora na barriga. Ele completaria mais um ano no próximo mês. O corpo foi levado ao Instituto Médico Legal (IML) de Santos e a polícia afirma que ele trocou tiros com os soldados.

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Do G1 Santos

Vítima ainda tentou se esconder em bar de São Vicente, SP (Foto: G1)
Vítima ainda tentou se esconder em bar de São Vicente, SP (Foto: G1)

A mãe de Dangelo Cléber de Almeida Sabino, executado em São Vicente, no litoral de São Paulo, com pelo menos 15 tiros, não se conforma com a brutalidade do crime e com o fato de ter enterrado o filho com o caixão lacrado. Dois policiais militares são suspeitos de terem praticado o assassinato, e um deles está preso no presídio militar Romão Gomes. Um terceiro agente foi detido para averiguação e prestou depoimento à Corregedoria da PM.

O crime aconteceu na rua Costa Rêgo, no bairro Vila São Jorge, por volta das 17h da última sexta-feira (3). Após receber uma ligação, a vítima foi até um bar. Pouco depois, dois homens em uma moto chegaram ao local e assassinaram Dangelo.

Vera Lúcia Aires de Almeida, mãe da vítima, contou ao G1 que há cerca de um mês seu filho ofendeu PMs em uma rede social, na qual Dangelo tem como amigo o policial militar detido para averiguação.

“O meu filho é torcedor do Santos e, depois do título paulista, ele foi até a praça Independencia comemorar. Ele acabou se envolvendo em uma confusão com policiais militares e foi atingido por balas de borracha. Quando chegou em casa, o Dangelo foi para o Facebook xingar a polícia. Eu ainda tentei avisar, disse que não era certo. Pouco depois, ele apagou, mas o estrago estava feito”, lamenta.

Ainda de acordo com a mãe do rapaz, na última segunda-feira, 30 de maio, policiais militares foram até a residência da avó de Dangelo procurando por ele, que não estava no local. Vera Lúcia não soube informar se eram os policiais suspeitos pela execução.

Homem foi executado com 15 tiros (Foto: Arquivo Pessoal)
Homem foi executado com 15 tiros (Foto: Arquivo
Pessoal)

Na sexta-feira, após receber a notícia da morte do filho, Vera Lúcia também disse ter recebido a notícia de que fotos de Dangelo morto circulavam em grupos de “justiceiros”. “Eu sabia que o meu filho fumava maconha e talvez esse fosse um dos erros dele. Mas nem isso, nem a postagem dele xingando a PM, justificam esses tiros. Meu filho, que não era bandido e tinha um coração maravilhoso, foi estraçalhado”, desabafa.

Suspeitos
Com informações de uma testemunha, um dos policiais suspeitos de participação no crime foi encontrado pela PM e encaminhado ao 1º DP de São Vicente, onde recebeu voz de prisão. Luiz Alonso Peres Damasceno nega o crime.

O outro policial suspeito não foi encontrado e a polícia já pediu a sua prisão preventiva. Um terceiro envolvido foi detido para averiguação, prestou depoimento e foi liberado.

Em nota, a Polícia Militar informou que as armas do agente preso, uma pistola .40 da própria PM e outra particular, de mesmo calibre, foram apreendidas para perícia.

A instituição também reforçou que não compactua com o crime, seja esse cometido por quem for, inclusive seus integrantes, e que a Corregedoria da instituição também foi acionada para acompanhar o caso.

Caso foi encaminhado para o 1º DP de São Vicente (Foto: Rafaella Mendes / G1)
Caso foi encaminhado para o 1º DP de São Vicente (Foto: Rafaella Mendes / G1)