Estudantes ganham da PM e Alckmin recua 117

Alckmin: “Nossa decisão é adiar a reorganização e discuti-la escola por escola”

Por Lucas Alves e Osvaldo de Brito – iG São Paulo

Governador decide suspender a política que fecharia 93 unidades após 25 dias de ocupações e queda da popularidade

O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), anunciou nesta sexta-feira (4) o adiamento, por 1 ano, da reorganização do sistema de ensino público que resultará no fechamento de 93 escolas. A decisão foi tomada após 25 dias de protestos que envolveram a ocupação de cerca de 200 unidades por estudantes e movimentos sociais e manifestações de rua reprimidas pela Polícia Militar.

“Vamos dialogar escola por escola. O ano de 2016 será o ano de aprofundarmos o diálogo. Os alunos continuarão nas escolas em que já estudam e nós começaremos a aprofundar esse debate, o diálogo escola por escola, especialmente com estudantes e pais de alunos”, disse Alckmin em entrevista coletiva. Ele não permitiu perguntas.

A decisão foi anunciada no mesmo dia em que o Datafolha apontou que a popularidade do tucano atingiu o nível mais baixo desde que ele assumiu o Palácio dos Bandeirantes pela primeira vez, em 2001. Um terço dos paulistas considera a gestão Alckmin ruim ou péssima.

Alckmin indicou, entretanto, que não pretende abandonar a política de reorganização.

Lucas Alves/iG São Paulo – 04.12.15

“Alunos continuarão nas escolas que já estudam [em 2016]”, anunciou o governador

“Essas escolas de ciclo único, que já são hoje 1.500, têm resultado melhor que o universo [da rede de ensino paulista], geralmente quase 15% acima da média. São mais focadas e não mistura cirança de 6 anos com aluno de 17 anos de idade”, afirmou Alckmin. “Por isso nossa convicção dos benefícios que a reorganização traz para a qualidade da escola pública de São Paulo.”

De acordo com o governo, a reorganização prevê que cada unidade educacional atenda alunos de um único segmento: séries iniciais do ensino fundamental, séries finais e ensino médio, cada qual em prédio separado. Pela proposta, seriam fechadas 94 escolas, por não terem demanda de alunos, segundo a Secretaria Estadual de Educação.

Estudante é detido em protesto contra reorganização escolar em São Paulo
André Lucas Almeida/Futura Press – 03.12.15

Estudante é detido em protesto contra reorganização escolar em São Paulo

O anúncio do plano desencadeou uma onda de ocupação de escolas por parte dos estudantes, que contaram com o apoio da Apeoesp, o sindicato dos professores de São Paulo. O governo a obter na Justiça autorização para a reintegração de posse – com o uso da PM, se necessário – de algumas unidades, mas as decisões foram revogadas pelo Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP).

Nesta semana, protestos que resultaram no fechamento de avenidas foram reprimidos pela Polícia Militar. Houve confrontos e ao menos 4 estudantes foram detidos na terça-feira (2) e outros 5 na quarta-feira (3).

No anúncio da suspensão, Alckmin criticou indiretamente os manifestantes ao citar uma frase do Papa Francisco:

“Sempre que perguntado entre a indiferença egoísta e o protesto violento, há uma solução sempre possível, o diálogo.”, disse o tucano.

Professores da USP e da Unicamp – universidades estaduais – se posicionaram contra a reorganização, por entenderem que a medida visava apenas a conter gastos e despesas do governo. Os críticos argumentam também que o projeto não foi discutido com a comunidade escolar.

Na quinta-feira (3), o Ministério Público de São Paulo (MP-SP) e a Defensoria Pública de São Paulo foram à Justiça contra o projeto de reorganização escolar.

Na ação, os órgãos pedem que o Estado não implemente a reorganização e garanta a permanência, em 2016, dos alunos nas escolas onde já estavam matriculados em 2015. O processo exige ainda que, a partir do ano que vem, grêmios estudantis, conselhos de escolas e conselhos municipais e estaduais de educação sejam chamados a discutir as políticas de educação em São Paulo.

Segundo a PM, jovens foram detidos por resistência e desobediência e levados a uma delegacia da região. Foto: Renato S. Cerqueira/Futura Press - 02.12.15
Policiais levantaram cassetetes em direção ao estudantes durante manifestação. Foto: Renato S. Cerqueira/Futura Press - 02.12.15
Entre hoje e ontem, nove estudantes foram detidos nos protestos. Foto: Renato S. Cerqueira/Futura Press - 02.12.15
Para Alexandre de Moraes, secretario da SSP, estudantes descumprem Constituição ao não desobstruirem a via. Foto: Renato S. Cerqueira/Futura Press - 02.12.15
Estudantes levaram cadeiras ao protesto na Avenida Dr. Arnaldo. Foto: Leonardo Benassatto/Futura Press - 02.12.15
Confusão começou quando policiais militares retiraram cadeiras utilizadas pelos estudantes para fechar o sentido Sumaré da via. Foto: Renato S. Cerqueira/Futura Press - 02.12.15
Alunos ocuparam a Avenida Dr. Arnaldo no protesto desta quarta-feira (2). Foto: Renato S. Cerqueira/Futura Press - 02.12.15
Trânsito na região oeste de São Paulo ficou prejudicado devido a manifestação. Foto: Renato S. Cerqueira/Futura Press - 02.12.15
Protesto contra a reorganização escolar na Avenida Doutor Arnaldo, próximo da Paulista, em São Paulo. Foto: Renato S. Cerqueira/Futura Press - 02.12.15
Aluno é rendido por policiais em protesto em São Paulo. Foto: Renato S. Cerqueira/Futura Press - 02.12.15
Segundo a PM, jovens foram detidos por resistência e desobediência e levados a uma delegacia da região. Foto: Renato S. Cerqueira/Futura Press – 02.12.15

Popularidade de Alckmin despenca com ajuda da truculência policial militar 16

Popularidade de Alckmin atinge pior marca, aponta Datafolha

RICARDO MENDONÇA
EDITOR-ADJUNTO DE “PODER”

A combinação entre a persistente crise da água e o controverso plano de remodelação do sistema público de educação pode ter produzido um marco histórico no Estado de São Paulo: a popularidade do governador Geraldo Alckmin (PSDB) nunca esteve tão baixa.

Pesquisa Datafolha realizada nos dias 25 e 26 de novembro mostra que 28% do eleitorado paulista qualifica o desempenho do tucano como ótimo ou bom, a menor taxa de aprovação na série de 29 pesquisas do instituto ao longo dos quatro mandatos de Alckmin -mais de dez anos de gestão, em períodos alternados, desde 2001.

Há pouco mais de um ano, véspera da eleição que o reelegeu, Alckmin tinha 20 pontos percentuais a mais de aprovação, 48%. No seu melhor momento no comando do Estado, em março de 2006, pouco antes de sair para disputar (e perder) uma eleição presidencial, ostentou 69%.

Na tendência inversa, a reprovação também é recorde: 30% dos paulistas classificam o desempenho do governador como ruim ou péssimo.

Esta é a primeira vez que, numericamente, há mais gente no Estado desaprovando do que aprovando o governo Alckmin (a margem de erro do levantamento é de três pontos percentuais para mais ou para menos).

Outros 40% do eleitorado paulista, o maior contingente, classificam a atual gestão tucana como regular.

EDUCAÇÃO

Alckmin vai pior entre os mais jovens (36% de reprovação no grupo dos que têm entre 16 e 24 anos), entre os mais escolarizados (43% o classificam como ruim ou péssimo no pequeno universo dos que têm ensino superior) e nas cidades grandes.

No conjunto dos municípios da região metropolitana de São Paulo, a reprovação ao governador atinge 38%. Na capital, 39%. Considerando só as cidades com mais de 500 mil habitantes, 40%.

O contraste com municípios mais distantes da capital é grande. No interior, a reprovação ao governador é consideravelmente menor: 23% ante 34% de ótimo ou bom.

Nesta rodada, o Datafolha abordou dois temas diretamente relacionados ao governo estadual que podem ajudar a explicar a queda de popularidade do governador: a crise de abastecimento de água e a decisão de fechamento de escolas públicas, com o consequente remanejamento de alunos.